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2005-01-10

 

Tréplica a João Tunes a propósito de dois ou três conceitos-alçapão


João Tunes encosta Manuel Correia à roda dentada


[excerto da réplica de João Tunes. A totalidade pode ser lida no Agua Lisa]


Tão importante como a categoria de Esquerda, estando aí o busílis, não é a capacidade de “governar à esquerda”? E aqui chegado, vêm as minhas “policotomias” assentes numa convicção – o PS tem capacidade de governo e já demonstrou que o consegue fazer com políticas de direita e de esquerda, muitas vezes, numa salganhada tal que não se destrinça o que a casa gasta; enquanto o PCP e o BE (cada um à sua maneira e com estilos diferentes) contestam as “políticas de direita” do PS mas não chegam, sequer, a serem alternativas como suporte ou apoio a uma prática de governo (o PCP porque quer que a história ande 28 anos para trás; o BE porque, com poder, desaparecia por explosão automática do seu poder de atracção de orfandades). Assim, teremos duas chalaças – a do PS dizer-se só de esquerda (quando é, na realidade uma confederação que mete desde convicções de esquerda até gestões de interesses que, provavelmente, é o que mais dá estrutura óssea ao partido); a do PCP e do BE que criticam as “políticas de direita” do PS, a partir de um ponto (que comporta batota) de pureza que não é mais que a sua exclusão (ou auto-exclusão) da governação. E o jogo parece-me tão viciado que, a meu ver, a questão da “maioria” (ser relativa, ou absoluta) se me afigura absolutamente irrelevante (em termos de ser colocado como pedido ao eleitorado, não quanto às consequências). Porque não acredito nem que o PS “absoluto” venha a fazer uma política de esquerda (será uma “salada”, como é costume), nem que haja margem de entendimento entre um PS “relativo” + PCP + BE (a obter no Parlamento).


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Caro João Tunes,

A tua réplica teve, entre outras, a virtude de um convite à explicitação de certos conceitos-alçapão que corremos o risco de utilizar com certo descuido e, por isso mesmo, com menor rigor. É com prazer que prossigo a conversa. Como verás não se trata propriamente de uma tréplica, mas pode, formalmente, ser considerada assim...

Esquerda é o quê?

Como tu sabes, sempre vivemos com uma pluralidade de esquerdas ou expressões de esquerda. Comunistas, socialistas, anarquistas, trotskistas, maoístas, com um denominador comum no passado mítico onde volteavam bandeiras vermelhas e expressões obstinadas. «Ao assalto do céu». A ponte entre as promessas da modernidade (por cumprir) e o combate a todos os tipos de exclusão, veio a ser feita pelas cartas dos direitos humanos. As esquerdas denunciam a incapacidade de garanti-los; as direitas assobiam para o ar e normalmente usam o mercado nas suas versões liberal e neo-liberal, como arma de arremesso: «Quem quer saúde, paga-a, etc.».
As esquerdas, por seu turno, vivem também mal com o lastro das malfeitorias deixado por elas próprias, nuns casos, e noutros, pelos seus predecessores. Há famílias políticas que parece nada terem a ver com os seus aliados de véspera... As desculpas de mau pagador não dão resultado. Por isso o PCP perdeu e perde influência em profundidade, com uma erosão mais sustentada em termos eleitorais porque, hoje como ontem, as contas dos eleitores são muito mais curiosas do que podem parecer à primeira vista...
O PS e o BE apresentam-se mais ou menos como tu dizes e, no conjunto, são as esquerdas que «temos». Sobre a RC não adianto nada, porque não acho que haja, até agora, seja o que for a acrescentar. Apesar das evidentes diferenças internas, e das múltiplas expressões (inclusive de personalidades) é de facto as estas forças e gentes que me refiro quando falo da esquerda ou das esquerdas.
Face à utilização do Estado e das políticas públicas, a esquerda tende a ser «garantista», ao mesmo tempo, «emancipadora» e «libertadora» por, apesar de nem sempre o assumir, se basear no carácter universal das declarações dos direitos humanos e tender a encarar as desigualdades sociais como objecto de medidas a tomar na esfera política; a direita, mesmo a democrática, (mesmo a social democrata) vê no desemprego e noutras formas de exclusão estruturantes, males necessários, reguladores «espontâneos» do número de pobres e/ou emigrantes «necessários».

Não abdicar do sonho.

Respeito o que disseste quanto às expectativas de médio e longo prazo. Torço também por que as coisas melhorem. Acredito, porém, que face à diluição ideológica que as grandes federações de interesses levam a cabo (nos media, nas redes de comunicação, nas instituições) estamos «condenados» a favorecer os sectores da esquerda com os quais mais nos identificamos, de forma crítica, se possível, votando útil ou não, fazendo pressões e (muito) banzé, e (no meu caso) encarando com normalidade entendimentos pontuais ou mais duradouros entre forças de esquerda. Já leste com certeza, inclusive aqui no PUXA-PALAVRA esboços de teorização sobre a Nova Esquerda. Pelo que tenho percebido, não trás nada de novo, ou melhor, sim, exprime o desejo de se poder considerar «velha» a esquerda de onde, afinal, o próprio PS emerge.

Quanto ao sistema político-sindical, as hegemonias actuais são de facto limitadoras. Referes-te à necessidade de agilização das estruturas e maior participação dos sindicalizados? Ou à sobrevivência das célebres «correias de transmissão»?

De qualquer modo, aquela súbita disposição dialogal, entre federações patronais e centrais sindicais, com a promessa de desbloqueamento da contratação colectiva, tem a sua piada. Espero que os eleitos do PS (com qualquer maioria) não se esqueçam do que disseram a propósito do Código do Trabalho.

Um abraço


Comments:
Fica o protesto para com a legenda da imagem de Chaplin (por falta de rigor) e a indicação de que deixei, na Água Lisa, algumas porcas para, se entenderes, juntares a uns tantos parafusos (de Esquerda). Abraço. João Tunes
 
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