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2005-07-29

 

O PCP, o PS e a distribuição de papeis à esquerda



Isto é assim mesmo. Cada um fala do que quer quando melhor lhe aprouver. Mas eis que um outro aspecto das falas e das análises ganha proeminência, - o do sentido de oportunidade de acordo com o calendário político-eleitoral. De acordo com esse calendário, o mais importante é conseguir o maior número de votos possível, pois é com eles que as forças políticas fazem valer a sua influência legítima. Por isso, em véspera de eleições autárquicas com dificuldades acrescidas a ensombrarem as metas do PS, devido, em grande parte, aos sacrifícios pedidos a determinados grupos sociais e profissionais, é significativo que um socialista venha expor publicamente as suas preocupações quanto ao papel que hoje o PCP desempenha. (Refiro-me, é claro, ao poste anterior, assinado pelo meu amigo Raimundo Narciso).

Porque «tende paulatinamente para valores residuais»? Não. Porque aparenta uma influência social que excede visivelmente os seus scores eleitorais.

Não sendo este um dado novo (o PCP elevou a sua influência eleitoral até final dos anos 70 e entrou, depois, num declínio gradual até ao presente) a sua influência político-social sempre excedeu visivelmente os resultados eleitorais obtidos, se comparado com os restantes partidos do arco parlamentar.


Essa característica radica, suponho, na cultura política que tem raízes históricas na luta antifascista, em que muitos portugueses (e eu com eles) conhecendo embora bastante daquilo que considerávamos perversões do socialismo, apostámos no PCP como organização cuja capacidade organizativa e dinâmica revolucionária oferecia especiais garantias na preparação e execução do derrube do fascismo.

De facto, o PCP perdeu muita da sua influência mas permanece um marco, um ponto de referência, na defesa dos direitos dos trabalhadores e na obstinação anticapitalista. Aquilo que, não tendo completamente desaparecido das preocupações do PS, acusa hoje um défice notável.

O PS não pode aspirar a ganhar a simpatia dos grupos sociais afectados pelas políticas que está a implementar. Não está a conseguir convencê-los de que o sacrifício que lhes exige é justo, vale a pena, e garante um futuro melhor. As lutas sociais comprovam isto.

Acusar, agora, os sindicalistas de se deixarem instrumentalizar pelo PCP, ou acusar o PCP de estar a encorajar e a tentar coordenar essas lutas, não adianta nada ao que tem sido repetitivamente propalado nos últimos trinta anos.


Os sindicalistas do PS e os seus domínios de influência não estão muito longe do mesmo sentimento, nem deixam de acompanhar muitas movimentações que têm tido lugar.

Penso que o problema é outro.

O PS está a governar demasiado à direita. Pôde contar com uma maioria absoluta. Não pode contar nem com o entusiasmo nem com o apoio de uma boa parte (talvez a maior) dos que lhe confiaram os seus votos.

E esse é que é o problema.

Também não é novo, mas desta vez reveste uma gravidade particular.

Comments:
Manuel Correia,

Acho que tens meia razão. Explico-me. Tens toda a razão na superfície da realidade para que puxaste a tua análise e onde te sentaste de sofá. Aí, nem uma pinga de contradição me incita a acrescentar ou remendar um ponto.

Mas faltou outra metade. E ela tem a ver sobre o como se actua nas caves da democracia. Ou seja, tudo o que dizes de certíssimo sobre a evidência das tempestades colhidas pelo governo e pela natureza histórica do PCP, não pode obscurecer que o PCP, hoje, não só deitou mão a um esquerdismo social típico de moísta de tempos idos (não longe do radicalismo burguês de fachada socialista), extremado, lta pela luta, como lançou camadas em formas de luta incompatíveis com o seu compromisso profissional. E isto é um fenómeno novo que tem em conta as mudanças na sociedade portuguesa, a questão da maioria absoluta do Governo Sócrates e a emergência de Jerónimo à liderança do PCP. E a frustação da exaustão da classe operária como exército de combate social e político leva a esta paródia de lançar polícias a chamarem aldrabões aos ministros e ameaçarem cortar pontes, funcionários públicos a apelidarem de fascistas os deputados, enfermeiros, médicos, professores e magistrados a suprirem a míngua dos operários da Lisnave e da Siderurgia. Ou a classe operária agora usa toga e veste farda e pendura chanfalho ou o PCP perdeu a sua matriz proletária.

Julgo que estes desajustamentos irão pôr à prova a capacidade do governo em aguentar-se com as brechas de conflitualidade que abriu, a capacidade de controlo do PCP sobre as camadas sociais que lançou na fogueira e, finalmente e mais dramático porque será – julgo – a síntese que nos vai bater à porta, o “resultado de direita” que vai sair desta salganhada.

Acho profundamente injusto e parcial que continues a insistir que o governo PS e a sua maioria absoluta “é o problema”. No mínimo, discordo com esta fixação e unicidade de análise.

Abraço.

João Tunes
 
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João Tunes,

Vou pensar melhor nalgumas das coisas que escreveste. Para já arrepimpo-me com a «meia razão» que me dás, chamando a atenção para o facto de não achar «culpada» a Maioria Absoluta do PS, mas sim algumas das políticas que adoptadas.
Quanto ao julgamento das forças partidárias, cada qual usa a sua bitola e, por aí, a discussão perde interesse. Todavia, no que diz respeito à avaliação das lutas e outras movimentações sociais, em que grupos, sub-grupos, indivíduos, etc, tomam as atitudes mais disparatadas, não me parece liso responsabilizar directamente as forças partidárias (e mesmo os sindicatos) por elas. Quanto à tua bem desarrincada expressão «caves da democracia», digo-te que tal como no «Underground» do Kusturika, muitas e inesperadas gentes lá podemos encontrar, fazendo e desfazendo coisas de espantar.
Um abraço
 
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