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2006-02-08

 

Fundamentalismos

João Alferes Gonçalves no Clube dos Jornalistas: "O Prós & Contras desta semana tinha o aparente objectivo de discutir a liberdade de expressão, mas foi reduzido a um serão demolidor do fanatismo islâmico. A discussão centrou-se nos distúrbios causados pelas multidões enfurecidas nas ruas de várias cidades árabes. Para o caso de as palavras não serem suficientes, Fátima Campos Ferreira salpicou o écrã com imagens apropriadas, num exercício perfeito da liberdade de aspersão.
...
"O facto de Maomé ter sido representado como um bombista e o Islão identificado com o terrorismo foi um catalizador, sem dúvida. Mas a verdadeira razão é o confronto entre grupos de muçulmanos e de dinamarqueses que tem vindo a agudizar-se. Foi nesse contexto e na sequência de distúrbios idênticos aos verificados em França que o diário conservador dinamarquês encomendou as caricaturas de Maomé. Contrariamente ao que se tem dito, as caricaturas não foram uma simples expressão de crítica livre, foram uma acção de guerra psicológica.
A falta de informação de Fátima de Campos Ferreira sobre os antecedentes do conflito das caricaturas era notória, o que subtraiu ao debate elementos essenciais para o enquadramento de todo o processo. No final deste comentário deixo alguns «links» para documentos que poderão dar algumas pistas a quem estiver interessado em aprofundar a questão.
Uma das lacunas informativas diz respeito aos aspectos legais da publicação. Nenhum dos presentes o sabia, mas a lei dinamarquesa proibe actos ou expressões blasfemas e os infractores podem ser julgados por isso.
... "

Comments:
Não vi o "Prós&Contras" mas parece-me claramente que assistimos a um braço de ferro entre determinados dinamarqueses e determinados muçulmanos na Dinamarca. De facto tudo começou aí e depois foi uma escalada de manipulação. Os resultados estão à vista. Num mundo com inúmeras culturas o respeito, o tacto, a diplomacia são fundamentais. Pelo que sei do actual governo dinamarquês e de quem o elegeu, não primam por isso... e também não é dos fundamentalistas que poderemos esperar uma atitude conciliadora. Uma pergunta: o que se obteve com tudo isto? Como ficou a situação, diria mesmo a vida de quem nos países muçulmanos trabalha árdua e diariamente em prol de mais democracia, mais direitos e liberdades?
 
Mas daqui a uns dez anos que ficará para a História de toda esta questão? Ficará uma imagem que é agora reforçada na mente dos cidadãos da Europa de que o Islão é uma religião violenta e intolerante. As imagens de ulemas ululantes atiçando ódios e de fánatico espezinhando bandeiras ardentes ficarão gravadas no inconsciente colectivo. Quem vai pagar é o auxílio que a Europa tem dado aos muçulmanos e a posição de ponte entre o império americano e o mundo muçulmano que mal ou bem os europeus têm cumprido.

Toda esta violência só vai fazer aumentar o xenofobismo e a suspeita frente ao Islão na Europa.

Caricaturas? Sempre as houve e haverá... Proíbi-las na Europa é o mesmo que adoptar a Censura do Irão e da Arábia Saudita em solo europeu.
 
Obrigada pela visita e pelo comentário no meu blog. A Mulher Aranha é uma simples tecnocrata, adivinhou, na Comissão. o S é de Sofia.Até breve :-)
 
Diz o RN: “mas a lei dinamarquesa proibe actos ou expressões blasfemas e os infractores podem ser julgados por isso”.
Mas pelo que li e ouvi (por exemplo na cronologia dos acontecimentos no Expresso-on-line, na BBC e na CNN) às organizações islâmicas dinamarquesas foi, logo desde o início do processo, inviabilizado o recurso institucional. Resumindo: logo após a publicação no Jyllands-Posten, dos 12 cartoons acompanhados de um editorial que reivindicava o direito a «desafiar, blasfemar e humilhar o Islão», o director não atendeu aos protestos, no seguimento de protestos públicos onze embaixadores de países islâmicos pediram uma audiência ao Primeiro-Ministro dinamarquês que a recusou, pelo que as organizações islâmicas dinamarquesas fizeram chegar a queixa à Liga Árabe e à Organização da Conferência Islâmica, em 27 de Outubro. Entretanto em 5 de Janeiro, depois de verem uma queixa indeferida pelo Ministério Público da Dinamarca, essas organizações muçulmanas dinamarquesas anunciaram que iam apresentar queixa contra o «Jyllands Posten» no Tribunal Europeu dos Direitos Humanos. Logo em seguida em 10 de Janeiro, um jornal católico norueguês «on-line», «Magazinet», solidariza-se com o periódico dinamarquês e republica os desenhos e o mesmo faz o «Dagbladet», na edição da Internet. Já com o contencioso em crescendo, em 1 de Fevereiro, os diários francês «France-Soir» e alemão «Die Welt» publicam as caricaturas «em defesa da liberdade de imprensa» e pouco depois jornais italianos, húngaros e espanhóis (pelo menos) fazem o mesmo. Só depois de surgirem ameaças de bomba o director do «Jyllands Postem» pede desculpa «pela ofensa causada a muitos muçulmanos» e só agora o PM dinamarquês reuniu com os onze embaixadores e o MNE dinamarquês anunciou que o assunto ia ser derimido em tribunal ...

Isto é, na hora da ofensa negaram direito de defesa aos ofendidos, agora que as ruas estão inflamadas estão a tentar apagar o fogo...
 
Obrigado a todos pela participação. O assunto merece discussão. Em parte por falta de tempo apenas reproduzi textos que me pareceram ajudar à compreensão do que se passa. Agradeço à Margarida as informações que trouxe e sublinho que as afirmações que me atribui são de facto de João Alferes Gonçalves.
 
A minha visão (daqui de Paris) não é de maneira nenhuma a que é subentendida no comentário de Margarida.
Primeiro há a questão da separação de poderes. Uma das grandes conquistas recentes é a liberdade de expressão, que se aplica também a quem diz coisas com que não estamos de acordo, um político não tem, nem deve ter nenhum poder sobre o que pública um jornal.

Segunda há a questão do respeito (da vida privada, do bom nome, das crenças, etc.). Este é regulado pela lei e só os tribunais são competentes para julgar.

Ontem Philippe Val director de Charlie Hebdo (que hoje publica um numero só com caricaturas) explicou bem o que é aceitável: o local indicado para atacar a publicação das caricaturas é o tribunal.

As instituições representativas dos muçulmanos de França reagiram, do meu ponto de vista, da forma mais correcta: processaram os jornais por difamação ou incitação ao ódio racial, se bem que eu não concorde com a identificação da religião com uma raça.

Já as reacções tipo fascista como em Londres onde se pede a decapitação dos blasfemos e apóstatas são totalmente inaceitáveis.

Outra pequena nota: pode um dogma religioso ser imposto a quem não é crente? Neste caso trata-se da não representação de Mahomet mas no caso do filme de Scorcese (pelo qual um cinema foi incendiado em França) trata-se do dogma de Cristo filho de Deus. A justiça tem sempre dito que não. Do meu ponto de vista o direito de discordar e criticar a religião é tão importante quanto o direito de praticar uma religião.
 
Mas Pedro é ou não verdade que no dia 5 de Janeiro o Ministério Público dinamarquês indeferiu a queixa das organizações muçulmanas dinamarquesas contra o jornal? E é ou não verdade que só passados quatro meses o Primeiro-Ministro dinamarquês recebeu os embaixadores?
 
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