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2007-12-04

 

Descompassados (3)

Os exemplos em que um órgão de informação se antecipa ao acontecimento e lança para manchete uma alegada notícia que depois não se confirma, podem contar-se pelos dedos. Evocam a seriedade do director do extinto "Tempo", que foi ao ponto de relatar o conteúdo de reuniões do Conselho da Revolução que não chegaram a efectuar-se. Poderia chamar-se a esse jornalismo antecipatório, que confunde a peta da fonte com a nobreza de uma notícia, jornalismo temporão ou Rochoso, em homenagem ao Tempo e àquele que foi seu director. Contudo, há quem prefira, estribando-se na sinistra conspirata Marcello Rebelo de Sousa/Paulo Portas, chamar-lhe jornalismo à la vichissoise, imortalizando assim, com o apimentado episódio, a ementa de um jantar de aconselhamento presidencial que esteve para vir estampada no Independente, mas que Paulo Portas afirma ter desarmadilhado in extremis.
Em qualquer dos casos, a atitude que preside à decisão de fazer notícias, - ainda para mais, de 1ª página, - a partir de algo de que se não tem a certeza, revela uma relação excessivamente oblíqua com a profissão de jornalista e um entendimento mirabolante da distinção básica entre a informação que tem carácter noticioso e tudo o resto.
Ao confundir resultados de sondagens, à luz de uma leitura apressada, entrelaçada de palpites e preconceitos, com uma vitória, de facto, sólida e confirmada, o Público não apenas errou, como assestou mais um golpe escusado da sua já tão frágil credibilidade.
A 1ª página do PÚBLICO de ontem, inscreve-se nessa tradição de supremo desprezo pelo código deontológico. A escassez das repercussões tem a ver, muito provavelmente, com o consenso ideológico anti-Chavez que, nalguns dos seus afloramentos, considera justificado desprezar a realidade, tendo por certo que, por uma boa causa, até se pode substituir o jornalismo pela bruxaria.
Mas a extrema criatividade da manchete do PÚBLICO de ontem tem a ver, igualmente, com a sistemática atrelagem à agenda da Casa Branca. Foi assim com o Iraque. É assim com as tentativas mais sérias de emancipação na América do Sul.
Compreende-se finalmente o que Belmiro de Azevedo quis dizer quando revelou que os seus CEO(s) podem, caso ele o entenda adequado, circular de um ramo de negócios para outro. Houve na altura quem se mostrasse surpreendido com a indiferença que o patrão da Sonae evidenciava face às particulares exigências, éticas e legais, que devem reger a produção de notícias. Pois não teriam, os produtos mediáticos, de obedecer a umas quantas especificações que não são aplicáveis a outros produtos?

Para o Público, pelo visto, continua a parecer que não.



Comments:
O mais curioso, meu caro Correia, é ver os paladinos da crítica "severa" dos media (JPP do Abrupto, entre outros) assobiarem para o lado, fazendo de conta que o "engano" do PÚBLICO é coisa de somenos. Verifica-se que o anti-Chavismo primário é da mesma ordem do anti-americanismo boçal. Equivalem-se. Gostei do seu post.
 
quando vi o título do público, MC, pensei, justamente, isso... até onde não vai este jornalismo... Agora, como o DL, pensei que ia dar muito mais barulho! Imagine-se o mesmo com actores e países trocados! Bom... ainda bem que disse o que disse, MC, aliás, ainda bem que ficou escrito.
 
Derrotado! E agora, quê?
segunda-feira 3 de dezembro de 2007
Caso passassem as reformas, a Venezuela daria um gigantesco passo na direção da Reforma Agrária, do direito dos informais, das melhorias para os trabalhadores empregados, de uma segurança previdenciária justa, artigos insuportáveis para os donos do capital.
Elaine Tavares

Enfim aconteceu. Depois de mais de dez anos e dezenas de eleições, finalmente, Hugo Chávez foi derrotado. O louco, o ditador, o intempestivo, o “negro”, o insuportável populista. Desde Atlanta, o braço armado da comunicação capitalista, foram disparados todos os torpedos midiáticos possíveis e não foi pouco o dinheiro derramado para financiar a campanha do não às reformas constitucionais. Junte-se a isso toda a mesma velha e já conhecida conspiração envolvendo a tão velha e conhecida CIA (Central de Inteligência dos Estados Unidos). Assim, com praticamente o mundo todo fazendo torcida contra (inclusive a Rede Globo, fiel representante da classe dominante brasileira) e com alguns erros estratégicos, Chávez perdeu pela primeira vez. 50,7% a 49,29. Uma diferença apertada que bem mostra a dureza da luta de classe na Venezuela. No início da noite, tão logo saíram os resultados, o presidente foi à televisão, reconheceu a derrota e disse que a Venezuela vai seguir seu caminho respeitando a decisão das urnas. E agora, o que mais vão dizer de Chávez?
O “ditador” reconhece o resultado, diz que a vida segue? Mas como? Ele não é um louco, um anti-democrático? Que se vai fazer agora? Que mensagem será distribuída pelos canais da CNN, pelas agências estadunidenses, pelos porta-vozes do poder? Certamente vão se acirrar as notícias de que o povo da Venezuela voltou a recuperar o juízo, que “os bons” venceram, que a queda de Chávez está próxima e toda a sorte de maledicências. Não é preciso ir muito longe no tempo histórico e vamos ver como foi que os Estados Unidos fez para ocupar o Panamá, Granada, Chile, Afeganistão, Iraque, Haiti, enfim, qualquer lugar que se arvore querer caminhar com os próprios pés.
Durante a semana do referendo, várias foram as denúncias sobre as ações da CIA na Venezuela, financiando estudantes das universidades privadas, buscando apoio de alguns grupos de esquerda e sindicalistas que estão contra Chávez. Esse processo foi desvelado como “Operation Pincer” e mostra que a proposta dos Estados Unidos é criar um ponto fixo de oposição a Chávez envolvendo inclusive, os militares dissidentes. A idéia é iniciar um foco insurrecional com o já roto bordão de “busca da democracia”. Claro que a democracia de que falam é a mesma que estão impondo ao Afeganistão e ao Iraque.
Outro ponto de grande oposição foi a da golpista FEDECAMARAS, de atuação conhecida no episódio do paro petroleiro e no golpe de 2002. Como uma das propostas de mudança constitucional instituía a jornada de seis horas para os trabalhadores, os comerciantes e o empresariado estavam em pânico. Redução de jornada significaria redução de lucros e isso ninguém poderia admitir. Com isso, a mídia (que nunca sofreu censura por parte do governo bolivariano) foi pródiga nas campanhas e na divulgação de mentiras.
Chávez, por sua vez não é um santo, e nem poderia sê-lo. É apenas um político humano, demasiado humano, com toda a sua carga de erros e desacertos. Ele acredita piamente que pela via democrática, com a cada vez maior participação popular, é possível ir mudando os rumos da Venezuela. Ele acredita no seu povo, crê no processo protagônico dos pobres, dos desvalidos. E foi por acreditar que a população poderia reconhecer a importância das mudanças que estão acontecendo no país que ele cometeu alguns erros. Um deles foi não ter feito a consulta ponto por ponto como bem analisa o teórico Heinz Dieterich. Havia muita gente que não estava concordando com alguns dos artigos e isso pode ter levado a grande abstenção que se registrou. Afinal, mais de 44% da população decidiu não votar. Pode ter pesado esse aspecto. As pessoas não queriam votar em bloco, sem poder deliberar artigo por artigo.
Para grande parte dos trabalhadores e dos camponeses a derrota do sim significa um grande travo nas conquistas populares. Como bem lembra o analista estadunidense James Petras, um dos artigos da mudança constitucional acelerava ainda mais o processo de reforma agrária tornando mais ágil a expropriação das terras. Segundo Petras, Chávez já assentou mais de 150 mil trabalhadores sem-terra sobre 2 milhões de acres [809,4 mil hectares). E tudo isso num país que até pouco tempo importava tudo o que consumia. Além disso, uma outra emenda garantia a cobertura universal de segurança social a todos os trabalhadores do sector informal (vendedores de rua, trabalhadores domésticos, auto-empregados) que representa hoje 40% da força de trabalho na Venezuela.
Não bastasse isso, entre as mudanças havia a que garantia admissão aberta e universal à educação superior, abrindo as universidades para os mais pobres e outras que aumentavam o poder o orçamento dos conselhos de moradores para que pudessem actuar e investir directamente nas suas comunidades. Tudo isso eram mudanças insuportáveis para a classe que sempre esteve no comando e que ainda detém o poder econômico na Venezuela. Não foi à toa que a luta se deu de forma renhida.
Grande parte dos analistas é unânime em dizer que o ponto que mais pesou para a abstenção foi o que garantia ao então presidente a possibilidade de se apresentar de forma ininterrupta para as eleições. Essa possibilidade de a Venezuela ter Chávez como presidente por anos a fio foi a gota de água que fez com que o capital usasse de todas as suas armas para derrotar o venezuelano. Modestamente colocada na minha condição de mera “olheira” dos fatos, me permito discordar. Esse foi talvez o ponto mais discutido, o que garantia aos poderosos do mundo disseminar o preconceito através da palavra “ditador”. Mas, uma olhada no conteúdo das mudanças, e a gente já pode ver que a questão foi bem outra. Caso passassem as reformas, a Venezuela daria um gigantesco passo na direcção da Reforma Agrária, do direito dos informais, das melhorias para os trabalhadores empregados, de uma segurança previdenciária justa e muito mais. Esses artigos, independentemente de quem estivesse no governo, seriam por si só, insuportáveis para os donos do capital. Então, Chávez estar ou não na presidência não teria importância alguma. Os direitos estariam garantidos e seriam defendidos pelos conselhos populares, também fortalecidos pelas mudanças.
Assim, o que estava em jogo na Venezuela era sim o poder popular. A garantia dos direitos dos trabalhadores, dos empobrecidos, das gentes organizadas. É nesse sentido que o erro de Chávez assume uma dimensão desalentadora. Porque, ao tentar garantir uma possibilidade de reeleição, votando em bloco todas as mudanças, acabou perdida - nesse momento - a possibilidade de um avanço concreto nas conquistas do povo. Então, talvez seja hora de o governo venezuelano perceber que as elites não estão mortas, que o poder econômico é forte, que a classe média é assustadiça e escorregadia e que muita mais gente do que se pode imaginar tem medo de ver o povo no poder. Às vezes, gente do próprio povo que não consegue se libertar de sua condição de escravo. Os servos voluntários, sempre prontos a tremular a bandeira de seus opressores.
Mas, passado o momento de perplexidade das gentes em luta, sempre é tempo de retomar o caminho. As conquistas podem ser recuperadas pontualmente, uma a uma. Não é hora de esmorecer. Muito pelo contrário. O resultado das eleições só prova que a luta de classes segue acirrada e que ainda há muito por fazer. Não é fácil, nunca foi, lutar contra o império. A história mostra que, nestes embates, os mais fracos sempre acabam acossados, esmagados, dizimados. Na Venezuela, nos próximos meses, saberemos, enfim, quem são os fracos. Não deu agora. O tempo dará as respostas...
http://www.ciranda.net/spip/article1911.html
 
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