.comment-link {margin-left:.6em;}

2006-02-11

 

Mais Islão.

João Vasconcelos Costa explica quase tudo sobre essa intifada que aí vai com Maomé num site de luxo onde fala de imensas outras coisas.
Para a gente se orientar (ou desorientar?) aconselho o Abrupto. E também Vitorino que ex-comissário da Europa para a Justiça sabe do que fala. Uma amostra:

"Este movimento de contestação à publicação das caricaturas foi organizado a partir de um imã radical, Abu Laban, palestiniano com ligações ao Hamas, residente há 20 anos na Dinamarca. Foi ele (e o seu grupo) que apostou na internacionalização da questão, usando para o efeito a cadeia televisiva Al-Jazeera, mobilizando os diplomatas dos países muçulmanos em Copenhaga e promovendo uma campanha de agitação em vários dos países do Médio Oriente com o beneplácito de muitas das respectivas autoridades nacionais (tanto radicais como as ditas moderadas), alimentando desta forma uma espiral de agressividade que veio a desembocar nos actos de violência que as televisões nos mostraram nos últimos dias."[link]
Mas talvez mais importante é o que ele diz e com razão sobre o laxismo aí por muita Europa que com a errada ideia de não ofender culturas fecharem-se os olhos a crimes como a ablação do clítoris e outras intoleráveis "práticas culturais" violadoras da lei.

Comments:
concordo com Vitorino. a análise que faz é clara e óbvia, de resto.
 
Um tabu previne alguns jornais de publicarem os cartoons que atacam o judaismo. O mesmo tabu deve-se aplicar a imagens feitas deliberadamente para provocar o Islão.

E então a liberdade de expressão? Há dois aspectos que se baralham sempre. O primeiro é o legal. Que restringe o que o governo faz. O segundo aspecto é cultural. É a ideia que é bom haver diversidade de opiniões. Esta ideia influencia particulares, associações e os media. É somente uma presunção, não um direito. Há sempre crenças, opiniões e imagens que estão além dos limites. Há imagens de Jesus, de Álvaro Cunhal, ou de qualquer pessoa que não podem ser mostradas.

A questão levantada pelos cartoons dinamarqueses é se gente razoável deve mostrar cartoons que deliberadamente blasfemam o Islão. De facto, é acerca do estatuto do Islão – quão importante pensamos que é.

Outra questão é a liberdade de religião. Legalmente, é acerca de liberdade do governo. Outra vez há um lado cultural: praticamos a liberdade religiosa quando não atacamos as crenças dos outros.

É isto que estes cartoons fazem. O crente pensa que é um pecado representar Maomé e nós fazêmo-lo e dizemos “Hey! Olhem bem para isto”.

E não é somente a representação. Um desenho dum barbudo com uma bomba no turbante está bem. Podes sugerir que é um muçulmano e está OK. Se disseres que é o profeta, insultas, 1,5 biliões de crentes.

Nada disto implica que é OK fazer tumultos e queimar uma embaixada. Não é, o ocidente disse que não é e até o porta-voz do Hamas pediu às pessoas para não o fazerem.

Nem isto implica que os media se tenham de dobrar a cada pessoa que se sinta ofendida, ou então a discussão acabaria.

Implica que invocar liberdade de expressão não é suficiente. Tem que haver apreciação, juízo. Não censura, que é o que o governo faz, mas apreciação, juízo, que é o lado cultural que acompanha o discurso livre.

Adaptado do texto “Free speech leavened by a thing called judgment“ por Bruce Ramsey, Seattle Times editorial columnist
(http://seattletimes.nwsource.com/html/opinion/2002790869_rams08.html)
 
Raimundo: hoje estou para aqui virado...Apenas li o artigo do Vitorino uma vez e rapidamente. Posso por isso enganar-me na sua interpretação, mas pareceu-me que ele aponta no sentido do cerceamento da liberdade, com base na conhecida e velha formula: devemos tolerar a intolerância? A minha concepção filosófica vai exactamente no sentido oposto.Sim, devemos.Se acreditarmos que somos mais fortes porque somos mais tolerantes.
O problema é que a Europa está velha e conservadora e cada vez reage com mais desconfiança relativamente aos que a ela chegam. Será fácil a partir daqui compreender as consequências, principalmente das segundas gerações de emigrantes, que são os que mais capacidade têm para representar e reagir contra as ofensas interiorizadas por gerações anteriores. Remédio para isto: Primeiro: os europeus têm de ter muitos filhos, pelo menos, muitos mais dos que agora têm; em segundo lugar:assegurar uma muito mais completa separação entre o Estado e as confissões religiosas (todas e não apenas algumas, os exemplos muito recentes de confusão entre o Estado e a religião, além de ridículos, são ambém estúpidos...);em terceiro lugar: garantir uma verdadeira igualdade de oprtunidades e não simples políticas assistencialistas (o que se espera de um magrebino que, numa entrevista telefónica, é afastado de uma proposta de emprego apenas com base no seu sotaque? Que vá defender os "valores ocidentais"?)Aprofunde-se a democracia, uma aprofundamento que a oriente no sentido da velha utopia socialista e vão ver se eles, daqui a alguns anos, vão querer saber do islão ou do profeta. Irrealismo? Irrealismo é pensar que o problema se resolve pondo os imãs na cadeia ou no Irão ou continuando a fazer o que até agora se tem feito. Isso é que é irrealismo. Poderia dizer mais: poderia ainda falar da quase irrelevâcia deste fenómeno em extensíssimas regiões do mundo e tentar averiguar as razões. Mas isso já não é da nossa conta. Da nossa conta é a europa...
 
Correcção de gralha:
"Muito mais do que os que agora têm..." sorry
 
RN: o Vitorino escreveu “as caricaturas foram apenas um pretexto para um movimento de afrontamento preparado e organizado (…) a partir de um imã radical, Abu Laban, palestiniano com ligações ao Hamas”. Quão politicamente correcto, quão conveniente do Vitorino vir-nos agora dizer isto! Mas contudo que agora o Vitorino diga isto não me espanta.

Ou já nos esquecemos que foi ele o Ministro da Defesa que teve por missão "vender-nos" como era patriótico mandar soldados portugueses para a Bósnia, para pôr fim à alegada barbárie que lá reinava? E nos arrastou assim, vinte anos depois do 25 de Abril para novas aventuras coloniais e imperiais? Claro que uma vez o precedente criado e as tropas despachadas, lá arranjou o pretextozinho duma denúncia para sair se pôr a salvo para outros voos, mas isso é outra história.

Fixemo-nos pois neste triste episódio das guerras da ex-Jugoslávia: à Alemanha (e aos USA), interessava a desintegração do bloco eslavo a sul, já que os do norte e do leste tinham implodido. Daí que (juntamente com o Vaticano, primeiro, e com o RU e a França depois) tenham apressadamente reconhecido a independência da Croácia, criando assim precedentes para ulteriores intervenções no que restava. Separada a Croácia e a Eslovénia, urgia separar a Bósnia-Herzegovina e o Kosovo.

Claro que para este plano ser aceitável pelas opiniões públicas europeias, tinha que haver o “inimigo” que justificasse a guerra e as separações. Diabolizaram então a parte mais determinada em manter a Jugoslávia: os sérvios e os seus dirigentes. Hitler, novo Hitler, foi como chamaram ao seu dirigente; bárbaros, agressivos, nacionalistas, ultra-nacionalistas, foi como chamaram a todos os sérvios. O que até então funcionou como um todo, os “jugoslavos”, foram tratados como partes: os croatas, os sérvios, os bósnios (e nunca houvera sequer uma nação bósbia ou bosníaca!), os eslovenos, os kosovares e até os montegrinos! Antes, deram apoios e luz verde aos líderes muçumanos da Bósnia para chamarem os seus amigos cruzados – e assim para a Bósnia, com a cumplicidade dos líderes da Internacional Socialista no poder (nos USA e na Europa) – emigraram os mujaedins que no Afeganistão se tinham destacado contra os soviéticos, Bin Laden & friends da Arábia Saudita e do Yemen e do Sudão, os fundamentalistas argelinos e marroquinos. Foram estes que espalharam o horror nos campos da Bósnia, que cometeram atrocidades nas cidades (e apressadamente imputadas aos sérvios), que expulsaram das suas casas e campos centenas de milhares de famílias. E para estabilizar a situação de facto criada e despachar os cruzados mujaedim, enviaram então para lá, soldados europeus dos países da Nato.

No Afeganistão, a pretexto dos talibans (que foram criação sua, mas onde a criatura se virou contra o criador), também para lá agora estão a despachar soldados da Nato. Para o Iraque, como aqui franceses e ingleses não embarcaram, despacharam soldados de países amigos dos americanos. Mas como já põem os olhos no Irão e na Síria, já estão a arranjar pretextos para os diabolizarem: já temos o novo Hitler, agora reincarnado no presidente iraniano, e aí estão “movimentos de afrontamento” (diabólicos, presumo!) denunciados pelo inefável Vitorino, aliás em perfeita sintonia com a Condoleeza Rice! Será que nunca mais aprendemos a conectar todos os dots?
 
CONCORDO COM O QUE SE DIZ A PROPÓSITO DA JUGOSLÁVIA. O QUE SE FEZ REPRESENTA,POR PARTE DE QUEM O FEZ, ALÉM DO MAIS, UM GRANDE DESCONHECIMENTO DA HISTÓRIA EUROPEIA. O QUE É LAMENTÁVEL É QUE A FRAQUEZA DA RÚSSIA TENHA PERMITIDO O QUE ACONTECEU. MAS NO JUGOSLÁVIA COMEÇOU TAMBÉM A FAZER-SE O ENTERRO DO MULTILATERALISMO. A INTERVENÇÃO ILEGAL DA NATO NA SÉRVIA ABRIU UM PRECEDENTE QUE O BUSH UNS ANOS DEPOIS APROVEITOU PARA INTERVIR NO IRAQUE. E SABEM QUAL É A EXPLICAÇÃO, MELHOR, A JUSTIFICAÇÃO PRIVADA DOS NOSSOS GOVERNANTES (SAMPAIO E GUTERRES)? TIMOR!
 
Correia Pinto: a explicação do Sampaio nem sequer foi privada, foi pública, num debate na TV, para o segundo mandato das presidenciais. Eu fiquei tão enojada (desculpe o termo, mas foi o que senti), que até concordei quando o António Abreu manteve a candidatura e foi a votos. E até aí tinha reservas...mas era-me impossível votar num candidato que teve a indignidade de dar essa desculpa para apoiar os bombardeamentos da Jugoslávia!
 
Publicar um comentário



<< Home

This page is powered by Blogger. Isn't yours?