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2018-09-30

 

BOLSONARO E A AUTOVERDADE

O texto é de El País/Brasil e assim... vai em Brasilês :) Link
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A pós-verdade se tornou nos últimos anos um conceito importante para compreender o mundo atual. Mas talvez seja necessário pensar também no que podemos chamar de “autoverdade”. Algo que pode ser entendido como a valorização de uma verdade pessoal e autoproclamada, uma verdade do indivíduo, uma verdade determinada pelo “dizer tudo” da internet. E que é expressa nas redes sociais pela palavra “lacrou”.


O valor dessa verdade não está na sua ligação com os fatos. Nem seu apagamento está na produção de mentiras ou notícias falsas (“fake news”). Essa é uma relação que já não opera no mundo da autoverdade. O valor da autoverdade está em outro lugar e obedece a uma lógica distinta. O valor não está na verdade em si, como não estaria na mentira em si. Não está no que é dito. Ou está muito menos no que é dito.

Assim, a questão da autoverdade também não está na substituição de verdades ancoradas nos fatos por mentiras produzidas para falsificar a realidade. No fenômeno da pós-verdade, as mentiras que falsificam a realidade passam elas mesmas a produzir realidades, como a eleição de Donald Trump ou a aprovação do Brexit. A autoverdade se articula com esse fenômeno, mas segue uma outra lógica.

O valor da autoverdade está muito menos no que é dito e muito mais no ato de dizer

O valor da autoverdade está muito menos no que é dito e muito mais no fato de dizer. “Dizer tudo” é o único fato que importa. Ou, pelo menos, é o fato que mais importa. É esse deslocamento de onde está o valor, do conteúdo do que é dito para o ato de dizer, que também pode nos ajudar a compreender a ressonância de personagens como Jair Bolsonaro e, claro, (sempre), Donald Trump. E como não são eles e outros assemelhados o problema, mas sim o fenômeno que vai muito além deles e do qual são apenas os exemplos mais mal acabados.

Uma pesquisa de junho do Datafolha mostrou, mais uma vez, que a maioria das pessoas que declaram voto em Jair Bolsonaro (PSL) são jovens: seu eleitorado se concentra principalmente na faixa dos 16 aos 34 anos. O capitão do exército também lidera as intenções de voto entre os mais ricos e os mais escolarizados do país. 

O candidato de extrema-direita está em primeiro lugar na disputa presidencial de outubro. Isso num cenário sem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Com Lula, Bolsonaro cai para o segundo lugar. Mas Lula, como sabemos, está preso e impedido de se manifestar num dos mais controversos episódios da história recente do Brasil, um país hoje assinalado pela politização da justiça.

Em pesquisa recém divulgada, a professora Esther Solano entrevistou pessoas na cidade de São Paulo para compreender o crescimento das novas direitas e especialmente da extrema-direita mais antidemocrática, representada por Jair Bolsonaro. Os selecionados cobrem um amplo espectro de posição econômica, de emprego, de idade e de gênero. Solano é professora da Escola Paulista de Política, Economia e Negócios da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e do Mestrado Interuniversitário Internacional de Estudos Contemporâneos de América Latina da Universidad Complutense de Madrid. Ela tem se destacado como uma das principais estudiosas do perfil dos participantes dos protestos no Brasil desde 2013, quando foi uma das poucas a escutar os adeptos da tática black bloc em profundidade.

A pesquisa, financiada pela Fundação Friedrich Ebert, é ótima, importante e deve ser lida na íntegra. Aqui, me limito a reproduzir um trecho que ajuda a iluminar a questão que apresento nessa coluna:
“Ele (Bolsonaro) é um mito porque fala o que pensa e não está nem aí”, diz estudante de 15 anos

“No começo da roda de conversa com os alunos de São Miguel Paulista, assistimos a um vídeo com as frases mais polêmicas de Bolsonaro. No final do vídeo, muitos alunos estavam rindo e aplaudindo. Por quê? Porque ele é legal, porque ele é um mito, porque ele é engraçado, porque ele fala o que pensa e não está nem aí. Com mais de cinco milhões de seguidores no Facebook, o fato é que Bolsonaro representa uma direita que se comunica com os jovens, uma direita que alguns jovens identificam como rebelde, como contraponto ao sistema, como uma proposta diferente e que tem coragem de peitar os caras de Brasília e dizer o que tem de ser dito. Ele é foda.

Na roda de conversa na escola de São Miguel Paulista, na Zona Leste, a mais precarizada de São Paulo, os alunos negam que Bolsonaro faça a difusão de um discurso de ódio. Mas valorizam a sua coragem de dizer coisas fortes. Um garoto de 16 anos resumiu: “Ele não tem discurso de ódio. Tá só expondo a opinião dele, falando a verdade”.
A opinião de Bolsonaro, ou a “verdade” de Bolsonaro, que circula em vídeos de “lacração” do “Bolsomito”, é chamar uma deputada de “vagabunda” e dizer que não a estupraria porque ela não merece por considerá-la “muito feia”; a afirmação de que sua filha, caçula de cinco homens,  é o resultado de uma “fraquejada” a declaração de que seus filhos não namorariam uma negra ou virariam  gays porque foram “muito bem educados”. E, claro, sua performance na votação do impeachment de Dilma Rousseff (PT).

Ao declarar seu voto pelo afastamento da presidente eleita, Bolsonaro homenageou o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. O herói de Bolsonaro, hoje estampado em camisetas de seus apoiadores, é um dos mais notórios torturadores e assassinos da ditadura civil-militar, um sádico que chegou a levar crianças pequenas para ver as mães torturadas, cobertas de hematomas, urinadas, vomitadas e nuas, como forma de pressioná-las. Sobram ainda declarações racistas de Bolsonaro contra índios e quilombolas.

“Ele (Bolsonaro) não está nem aí com o politicamente correto, diz o que pensa e ponto, mas não é homofóbico. Ele gosta dos gays. É o jeitão dele”, diz uma mulher

Uma das entrevistadas por Esther Solano assim justifica as falas de seu escolhido: “É que ele tem esse jeito tosco, bruto de falar, militar mesmo. Mas ele não quis dizer essas coisas. Às vezes exagera, não pensa porque vai no impulso, porque é muito honesto, muito sincero e não mede as palavras como outros políticos, sempre pensando no politicamente correto, no que a imprensa vai falar. Ele não está nem aí com o politicamente correto, diz o que pensa e ponto, mas não é homofóbico. Ele gosta dos gays. É o jeitão dele”.

Na minha própria escuta de pessoas nas periferias de São Paulo e na região do Xingu, no Pará, em diferentes classes sociais e faixas etárias, escuto seguidamente uma variação destas frases: “Ele é honesto porque ele diz o que pensa” ou “Ele não tem medo de dizer a verdade”. Quando questiono o conteúdo do que Bolsonaro pensa, a “verdade” de Bolsonaro, em geral aparece um sorriso divertido, meio carinhoso, meio cúmplice: “Ele é meio exagerado, mas porque é um sincerão”.

Assim, Bolsonaro não seria homofóbico ou misógino ou mesmo racista para aqueles que aderem a ele, mas um “homem de bem” exercendo a “liberdade de expressão”. Estes são os adjetivos que aparecem com frequência colados ao candidato de extrema-direita por seus eleitores: “sincero”, “verdadeiro”, “autêntico”, “honesto” e “politicamente incorreto” (este último também como um elogio).

Embora o conteúdo do que Bolsonaro diz obviamente influencia no apoio do seu eleitorado, me parece que ele é mais beneficiado pelo fenômeno que aqui estou chamando de autoverdade. O ato de dizer “tudo” e o como diz o que diz parece ser mais importante do que o conteúdo. A estética é descodificada como ética. Ou colocada no mesmo lugar. E este não é um dado qualquer.

Por isso também é possível se desconectar do conteúdo real de suas falas, como fazem tantos de seus eleitores. E por isso é tão difícil que a sua desconstrução, por meio do conteúdo, tenha efeito sobre os seus eleitores. Quando a imprensa mostra que Bolsonaro se revelou um deputado medíocre, que ganhou seu salário e benefícios fazendo quase nada no Congresso, quando mostra que ele nada tem de novo, mas sim é um político tão tradicional como outros ou até mais tradicional do que muitos, quando mostra que falta consistência no seu discurso, assim como projeto que justifique seu pleito à presidência, há pouco ou nenhum efeito sobre os seus eleitores. Porque o conteúdo pouco importa. As agências de checagem são um bom instrumento para combater as notícias e as declarações falsas de candidatos, mas têm pouca eficácia para combater a autoverdade.

A lógica em que a imprensa opera, que é a do conteúdo, não atinge Bolsonaro porque seu eleitorado opera em lógica diversa

Simples assim. Complexo demais. A lógica em que a imprensa opera, quando faz jornalismo sério, que é a do conteúdo, não atinge Bolsonaro porque seu eleitorado opera em lógica diversa. Esse é um dado bastante trágico, na medida em que os instrumentos disponíveis para expor verdades que mereçam esse nome, para iluminar fatos que de fato existem, passam a girar em falso.

Se Bolsonaro participar dos debates ao vivo durante a campanha eleitoral, para uma parcela significativa do eleitorado brasileiro o que vai prevalecer é a estética marcada pelo “dizer tudo” e dizer tudo lacrando. Também por isso Ciro Gomes (PDT), por sua própria personalidade mais agressiva e sua falta de freio na língua, é visto por uma parcela preocupada com a ascensão de Bolsonaro como o mais capaz de enfrentá-lo.

Se esse quadro permanecer, a disputa entre testosteronas infláveis – e inflamáveis – será mais importante do que o conteúdo na eleição brasileira, porque mesmo quem tem conteúdo terá que deixá-lo em segundo plano para ganhar a disputa da dramaturgia. Mais um degrau escada abaixo na apoteótica descida do país rumo à irrelevância.

Se este não é um fenômeno exclusivamente brasileiro, no Brasil há uma particularidade que parece impactar de forma decisiva a autoverdade. Essa particularidade é o crescimento das igrejas evangélicas fundamentalistas e sua narrativa do mundo a partir de uma leitura propositalmente tosca da Bíblia. A retórica do bem contra o mal atravessa fenômenos como a “bolsonarização do país”.

A autoverdade atravessa o discurso religioso fundamentalista como conceito e como estética

Embora os pastores fundamentalistas exaltem a perseguição do “povo de Deus”, a prática mostra exatamente o contrário, ao perseguirem os LGBTQs, as mulheres e, em alguns casos de racismo, os negros. Mas a prática são os fatos, e os fatos não importam. O que importa é a retórica e a forma. A autoverdade atravessa o discurso fundamentalista como conceito e como estética. O milagre da transmutação aqui é justamente fazer com que a estética seja convertida em ética.

Formados nessa narrativa, uma geração de brasileiros é capaz de ler ou assistir a uma reportagem da imprensa mostrando verdades que Bolsonaro gostaria que não subissem à superfície não pelo seu conteúdo, mas pela ótica da perseguição. O conteúdo não importa quando quem questiona o inquestionável é automaticamente um inimigo, capaz de usar qualquer “mentira” para atacar um “homem de bem”.Afinal, as imagens de malas de dinheiro (de dízimo, no caso) foram inauguradas por alguns pastores neopentecostais, muito antes do que pela investigação da Lava Jato, e mesmo assim suas igrejas não pararam de crescer. Bolsonaro torna-se o “perseguido” na luta do bem contra o mal, o que faz todo o sentido para quem é bombardeado por uma visão maniqueísta do mundo.

Produtos de entretenimento como as novelas e os filmes supostamente bíblicos de uma rede de TV como a Record, por exemplo, colaboram para formatar um determinado olhar sobre a dinâmica da vida. Se alguém só vê o mundo de um mesmo modo, não consegue mais ver de outro. Não há mais interpretação, a decodificação passa a ser por reflexo.

Este é o mecanismo que tem se alastrado no Brasil. E que é imensamente beneficiado pela tragédia educacional brasileira. Não é por acaso que a escola pública, já tão desvalorizada e desprestigiada, esteja sofrendo o brutal ataque representado pelo movimento político e ideológico nomeado como “Escola Sem Partido”. O pensamento múltiplo e o debate das ideias são os principais instrumentos para devolver importância aos fatos e ao conteúdo, assim como recolocar a questão da verdade.

Não é um risco que os protagonistas das novas direitas queiram correr. No jogo das aparências, seu truque é sempre o mesmo: fazer um movimento ideológico afirmando que é para combater a ideologia, agir politicamente mas afirmar-se antipolítico, apoiar partidos de direita dizendo-se apartidários. Esse mascaramento só funciona se aquele a quem a mensagem se destina abdicar do pensamento em favor da fé.

A adesão à política pela fé é a grande sacada dos protagonistas da articulação religiosa-militarista que disputa o Brasil deste momento

A retórica supostamente bíblica está educando aqueles que não estão sendo educados. Como produto de entretenimento, as novelas e filmes se articulam com os programas policialescos sensacionalistas da TV, muitas vezes na mesma rede de TV, e os ampliam. Já existe uma geração formada tanto na desumanização dos mais pobres e dos negros, tratados como coisas que podem levar bala nas imagens desse tipo de programa, quanto na adesão à política pela fé, a grande sacada dos atuais protagonistas da articulação religiosa-militarista que figuras como Bolsonaro representam.

A personificação, a valorização do indivíduo, do “Um” que é só ele, jamais um+um, garante que personagens como Bolsonaro e até mesmo Sergio Moro possam encarnar como “O Um”. “O Um” contra o mal, ungido pelas “pessoas de bem”, dispostas a linchar quem estiver no caminho. Afinal, se a luta é do bem contra o mal, tudo não só é permitido como abençoado.

Não testemunhamos apenas a politização da justiça, mas algo possivelmente ainda mais perigoso: a “religiosização” da política

Não há nada mais perigoso numa eleição do que o eleitor que acredita ser “um instrumento de Deus”, absolvido previamente por todos os seus atos, mesmo que eles sejam sórdidos ou até criminosos. Como a lei que vale não é a terrena, laica, mas ditada diretamente do alto e, com frequência, diretamente ao indivíduo, tudo é permitido quando supostamente “Deus estaria agindo”. Não testemunhamos apenas a politização da justiça, mas algo possivelmente ainda mais destruidor: a “religiosização” da política. E ela tem como primeiro efeito a política da antipolítica.

Figuras como Bolsonaro se beneficiam da crise econômica, do crescimento da violência e da produção de medo, sim. Mas sua força vem de uma população treinada para aderir pela fé ao que não diz respeito à fé. Por isso é possível até mesmo fazer política e se dizer apolítico. Se o imperativo é crer, a adesão já está garantida não importa o conteúdo do discurso, desde que a dramaturgia garanta entretenimento, espetáculo. Embora pareçam desacreditar de quase tudo em suas manifestações na internet, ninguém se iluda. Uma parte significativa do eleitorado brasileiro é formada por crentes. E ser crente hoje no Brasil tem um sentido e um alcance muito mais amplo do que em qualquer momento da história do país.

A autoverdade desloca o poder para a verdade do um, destruindo a essência da política como mediadora do desejo de muitos. Se o valor está no ato de dizer e não no conteúdo do que é dito, não há como perceber que não há nenhuma verdade no que é dito. Bolsonaro não está dizendo a verdade quando estimula o ódio aos gays, mas sendo homofóbico. Não está dizendo a verdade quando agride negros, mas sendo racista. Não está dizendo a verdade quando diz que não vai estuprar uma mulher porque ela é feia, mas incitando a violência contra as mulheres e sendo misógino. Há nome na língua para tudo isso e também artigos no Código Penal.

Os jovens da periferia que aplaudem Bolsonaro precisam perceber que o discurso da meritocracia é a sacanagem que os cimenta no lugar do qual gostariam de sair

Muitos daqueles que o aplaudem, especialmente os jovens nas periferias, não percebem que o discurso da meritocracia proclamado pela extrema-direita que Bolsonaro representa é justamente a sacanagem que os mantêm no lugar cimentado do qual gostariam de sair. Não existe meritocracia, ascensão apenas por méritos próprios, sem partir de bases minimamente igualitárias.
Jair Bolsonaro é a encarnação de um fenômeno muito maior do que ele, do qual ele se aproveita. Tanto quanto Donald Trump, em nível global. A tragédia é que eles possivelmente sejam só os primeiros.

O desafio imposto tanto pela pós-verdade como pela autoverdade é como devolver a verdade à verdade

O desafio imposto tanto pela pós-verdade quanto pela autoverdade é como devolver a verdade à verdade. Não faremos isso sem tomar partido por escola de qualidade para todos, apoiando aqueles que lutam por isso de maneira muito mais contundente do que fazemos hoje, assim como pressionando por políticas públicas e investimento, e questionando fortemente os candidatos para além da retórica fácil. Nem faremos isso sem a recuperação do sentido de comunidade, o que implica a reapropriação do espaço público para a convivência entre os diferentes, assim como a retomada da cidade. Temos que voltar a conviver com o corpo presente, compartilhando os espaços mesmo e – principalmente – quando as opiniões divergem. Temos que resgatar o hábito tão humano de conversar. E conversar em todas as oportunidades possíveis.

E isso não amanhã. Ontem. A verdade do momento é que estamos ferrados. Outra verdade é que, ainda assim, precisamos nos mover. Juntos. Não por esperança, um luxo que já não temos. Mas por imperativo ético.
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Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas

Site: desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum/ Facebook: @brumelianebrum

2018-09-29

 

A privatização do Serviço Nacional de Saúde é o grande objetivo da direita




Pedro Coelho dos Santos  Profissional do SNS, membro da Comissão Política do PS - em 2018-09-29 no"Observador"

Para além das polémicas internas no PSD, o que mais se destacou na sua anunciada política fez cair a máscara pois a fórmula é bem conhecida: começa-se no reforço das PPP e acaba-se a privatizar o SNS.
Assiste-se nos últimos tempos a uma verdadeira estratégia da Direita – política, de algumas ordens profissionais e dos media – para descredibilizar o Serviço Nacional de Saúde (SNS). Os exemplos concretos dessa estratégia chegam-nos diariamente e a verdadeira intenção fica agora clara com a recente revelação da estratégia do PSD para a saúde: privatize-se o SNS!
A todos aqueles que há já uns anos largos acompanham a saúde, como é o caso do autor destas linhas, existem vários sinais que não passam despercebidos na espuma dos dias e que são mais do que são meras coincidências. Como por exemplo o discurso desabridamente político das ordens profissionais mais representativas do setor, aparentemente mais interessadas em ter um lugar de destaque no palco político (em alguns casos até pelas aspirações políticas futuras que têm os seus responsáveis) do que atuar verdadeiramente nas suas áreas de intervenção.

Ou ainda pelas ligações – que por si só nada têm de mal, não faço aqui qualquer processo de intenção – existentes entre vários dos habituais críticos e o setor privado na saúde. Outros exemplos poderiam ser dados desta nebulosa que encobre, muitas das vezes, as verdadeiras intenções dos “atores” da e na saúde.
Sejamos claros: a direita política esforça-se por ocultar as suas responsabilidades no retrocesso do SNS no período da troika. Assim, para desviar atenções, nada melhor de que criar ruído constante sobre a saúde (área sempre apetecível do ponto de vista mediático e social) e sobre as responsabilidades do atual governo no estado das coisas.
Da mesma forma que aquele porta-aviões a quem desligaram os motores não parou de imediato, mantendo-se a deslizar sobre as águas por um longo período, também os efeitos da governação da coligação PSD/CDS não cessaram imediatamente após a sua saída do Governo. É relativamente fácil de compreender e confirmar que a estratégia de “ir mais longe do que aquilo que previa o acordo com a troika”, que foi aquilo que de mais marcante ficou do período de governação 2011-2015, ainda hoje faz sentir os seus efeitos na saúde do SNS.

Degradação de muitos dos indicadores do SNS, desmotivação e fuga de profissionais, brutal corte do financiamento e insensibilidade social foram as marcas da governação PSD/CDS na área da saúde. Por muito que custe aos intervenientes e a todos os que tiveram responsabilidades das mais diversas índoles nessa época, foi esse o legado para o SNS de Paulo Macedo no Ministério da Saúde e de Pedro Passos Coelho em São Bento.
Diz-nos aquele dito popular, que encerra em si uma grande sabedoria, que “é mais fácil destruir que construir”. Assim é também no SNS.
Será por isso infinitamente mais difícil fazer recuperar o SNS do brutal ataque a que esteve sujeito no referido período de 2011-2015. É seguramente tarefa para mais do que uma legislatura e sabendo-se que o país não passou, de um momento para o outro, a ser rico, a recuperação do SNS só será possível com a definição de uma estratégia de médio/longo prazo e que tenham – todos os intervenientes – a serenidade e paciência que se exige para que os resultados apareçam.

E vários indicadores atuais mostram já a inversão do cenário negro que se viveu no SNS com o anterior governo. Muitos outros exemplos poderiam ser dados, mas aqui ficam alguns:
  • A melhoria dos Tempos Máximos de Resposta Garantidos para primeiras consultas ao nível “muito prioritário”;
  • A diminuição do número de utentes a aguardar primeira consulta hospitalar;
  • O aumento do número de profissionais de saúde que trabalham nos serviços;
  • A realização de importantes investimentos nas infraestruturas do SNS (Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro, Centro Hospitalar Universitário de Coimbra, Unidade Local de Saúde de Castelo Branco, Centro Hospitalar Lisboa Ocidental, Centro Hospitalar de Setúbal, Hospital do Espírito Santo – Évora, só para apontar alguns exemplos);
  • A construção de quatro novos Hospitais (Hospital de Lisboa Oriental, Hospital Central do Alentejo, Unidade Hospitalar do Seixal e Unidade Hospitalar de Sintra);
  • A melhoria dos indicadores ao nível da transplantação de órgãos;
  • O número de utentes inscritos que têm um Médico de Família atribuído;
  • A diminuição das médias de tempos de espera para várias patologias (como por exemplo nas neoplasias malignas e nos bypass coronários);
  • A melhoria ao nível da resposta cirúrgica, com o aumento do número de doentes operados.
Sejamos claros: apesar de vários indicadores apresentarem melhorias, muitos são os desafios que o SNS enfrenta ainda. Também aqui a lista é mais extensa do que alguns dos exemplos que se dão:
  • A melhoria da acessibilidade aos cuidados de saúde em várias áreas;
  • A programação, tão atempada quando possível, das necessidades ao nível dos recursos humanos;
  • Os desequilíbrios existentes na disponibilidade e distribuição de médicos de várias especialidades no território continental;
  • A necessidade de aumentar o financiamento via Orçamento do Estado;
  • A falta de autonomia dos gestores hospitalares (conselhos de administração, diretores de serviço, etc.), tornando a tomada de decisão um processo moroso e pouco eficiente;
  • O combate ao desperdício e à ineficiência;
  • A necessidade de antecipar e adequar a capacidade de resposta ao significativo envelhecimento da população num futuro relativamente próximo.
Subsiste também um crónico problema comunicacional, que se arrasta há várias décadas. Os feitos alcançados pelo SNS e pelos seus profissionais muito dificilmente conseguem eco no espaço mediático.
Pelo contrário, os dramas humanos (sempre com muita emotividade à flor da pele), os conflitos (que são o sal do jornalismo) e os factos negativos (se é uma boa notícia não é notícia) são aquilo que chega ao público através da mediação dos órgãos de comunicação social. E depois segue-se a sofrível qualidade do trabalho de muitos dos nossos políticos, que atuam quase exclusivamente em função da agenda mediática, fazendo política com base nas notícias dos jornais, das rádios e das televisões…

Das PPP à privatização: um pequeno passo

Cavalgando aquilo que do SNS nos chega através dos media, apoiado na atuação descaradamente política de ordens profissionais, veio recentemente o PSD apresentar o documento “Uma política de saúde para Portugal”. Merece bem a pena uma leitura, nem que seja para se detetarem várias contradições.
O Partido que se envergonha de usar o cravo ao peito (ok, concedo, alguns dos seus militantes fazem-no, honra lhes seja feita) é o mesmo que diz que “o SNS é uma das maiores realizações, no campo social, da sociedade portuguesa pós 25 de Abril”. O mesmo Partido que fez ao SNS aquilo que se sabe é o mesmo que diz que garantir a toda a população o acesso a cuidados de saúde “é um dos fatores decisivos na sociedade portuguesa que importa preservar e defender”.
Mas o corolário deste conjunto de dissimulações fica às tantas perfeitamente claro. “O que importa é que o sistema de saúde sirva a população e o país e não se é público ou privado”, pode ler-se.
Esta “nova visão do SNS, desprovida de tabus ideológicos”, diz o PSD, “não se compadece com visões ideológicas da oposição entre público e privado”. Fica assim claro ao que vêm.
O que esta nova visão do SNS ignora é que apenas uma gestão pública (com verdadeira autonomia) assegurará a não descriminação entre utentes em função da sua capacidade económica. Não é e não será nunca aceitável um SNS apenas para os pobrezinhos, em que quem tem capacidade para ter um seguro de saúde terá mais facilidade e rapidez no acesso a cuidados de saúde.
Não é e não será nunca aceitável um SNS em que os privados fujam a sete pés dos casos de saúde mais complexos e por isso mais dispendiosos do ponto de vista financeiro, deixando os utentes “mais complicados” sem o devido tratamento. Não é e não será nunca aceitável um SNS movido pelo lucro, pois é esse o principal objetivo dos prestadores privados, que viveriam do diferencial entre aquilo que recebessem na contratualização com o Estado e aquilo que efetivamente gastassem, algo que é absolutamente perverso e instigador de uma lógica de prestação de cuidados de saúde numa lógica de serviços mínimos.
Para além das polémicas internas no seio do próprio PSD, o que mais se destacou nesta anunciada política para o SNS é um reforço das Parcerias Público-Privadas (PPP) na saúde. Caiu a máscara.
Ao menos fica agora verdadeiramente claro o verdadeiro anseio da da Direita política para o futuro do SNS. A fórmula é por demais conhecida: começa-se no reforço das PPP e acaba-se na privatização do SNS.
Algo que qualquer cidadão, com verdadeira consciência social e que compreenda aquilo que é o SNS, com todas as qualidades e os seus defeitos, não poderá aceitar. Por isso mesmo, o combate a esta visão da Direita política e a esta nova “visão” do PSD é algo que deve mobilizar os portugueses e é algo que deve ser tido em conta aquando das opções que os cidadãos terão de tomar nas eleições legislativas que se realizam no próximo ano.

Profissional do SNS, membro da Comissão Política do PS

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2018-09-26

 

SARA TAVARES - GINGA

Sara Tavares - Ginga está aqui https://youtu.be/_Y9vqzOWG8E




Sara Tavares - Ginga está aqui https://youtu.be/_Y9vqzOWG8E

2018-09-11

 

ANSELMO BORGES E O PAPA FRANCISCO

ENTREVISTA A ANSELMO BORGES


Padre da Sociedade Missionária Portuguesa, licenciado em Teologia, é defensor do fim do celibato obrigatório. É professor na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e na de Coimbra e acredita que são necessárias mais mulheres na Igreja.

·         Revista Sábado    6 Sep 2018   Por  Vanda Marques (texto) e Ricardo Meireles (fotos)

Fátima foi apenas uma experiência religiosa de crianças, defende Anselmo Borges
O padre e teólogo fala sobre o que classifica de “ataques vis” ao Papa Francisco e sobre os escândalos sexuais na Igreja

Só na Pensilvânia foram mais de mil crianças vítimas de abusos por parte de padres da Igreja Católica. Uma situação que foi encoberta durante anos. Na Irlanda, o escândalo tem uma dimensão maior: fala-se em mais de 14.500 vítimas de abuso sexual, desde 2002. E com um ponto em comum: os actos foram encobertos e não denunciados. O Papa Francisco deslocou-se à Irlanda para pedir perdão às vítimas e na mesma altura surgiram alegações – de dentro da Igreja Católica – de que ele próprio os teria escondido. Abriu-se uma guerra civil com os ultraconservadores. Será que Francisco vai resistir a tantos ataques?
Anselmo Borges, padre e professor universitário, defende que este Papa é o mais próximo de Jesus e acredita que estes “ataques vis” não o vão derrubar. Mas falta reformar a Igreja e criar um novo modelo de padre. Homens casados a celebrar a eucaristia, mais mulheres em lugares cimeiros e o celibato como opcional são algumas das medidas que acredita serem importantes. Autor de vários livros – como Francisco. Desafios à Igreja e ao Mundo – e colunista do Diário de Notícias, defende a liberdade de opinião, mesmo que isso incomode.

Como vê esta tempestade sobre o Vaticano?

O próprio Papa Francisco já disse que tem inimigos, portanto, ao operar uma transformação na Igreja, e também no mundo, surgem estes ataques vis, como é o caso do ex-embaixador Viganò.

Como vê a alegação, feita pelo ex-núncio dos Estados Unidos, Carlo Maria Viganò, de que o Papa teria encoberto os abusos sexuais cometidos pelo cardeal norte-americano, Theodore McCarrick?

O que é que o Papa fez, perante este ataque vil? Foi dizer aos jornalistas que cumprissem o seu dever. O jornalismo internacional veio constatar que se tratava de um ataque vil, sem provas. Repare que Viganò em 2012 elogiou publicamente McCarrick. Isto não passa de uma maneira de dividir a Igreja, para tentar ferir o Papa, que se tornou um líder político-moral global. O Papa já colocou mulheres dentro de instâncias cimeiras no Vaticano, fez muitas mudanças e quer uma verdadeira reforma da Cúria e muitos sentem-se abalados nos seus privilégios.

Que transformação é esta?

Concretamente, o Papa chegou e apercebeu-se do que está em jogo e disse logo que o clericalismo é a peste da Igreja e também foi frontal com a Cúria Romana, ao dizer que a corte é a lepra do papado. O Papa quer que a Igreja se volte para o Evangelho – que é uma notícia boa e de felicitar para toda a humanidade. Ele não só atacou o clericalismo e a corte, como veio dizer que a Igreja não pode ter a sua moral centrada na obsessão do sexo. É preciso uma nova abertura, concretamente aos homossexuais, aos católicos recasados, para que possam ter acesso à comunhão. Além disso, gostava de
acrescentar que este lobby vem também da política.

Porquê?

Porque o Papa há muito tempo que vem sublinhando várias coisas. Por exemplo: chamar à atenção para o capitalismo desregrado e que é incompatível amar a Deus e fazer do dinheiro um deus; apelar à preservação e defesa da natureza, o que abala muitos interesses. Outro tema polémico: o Mediterrâneo não pode ser um cemitério, ele tem apelado, dentro da prudência, para o abrir de portas aos refugiados. Vai contra alguns interesses políticos e sobretudo económicos.

Pensa que o Papa Francisco se irá aguentar no cargo?

Esses senhores que se desiludam, o Papa nem se demite, nem se deprime. Até porque ele já disse, expressamente contra esses senhores, que não sai a pontapé.

Existem em Portugal estes ultraconservadores que se manifestam contra o Papa?

Ainda há dias vi um membro da Fraternidade Pio X a dizer que o Papa se devia demitir porque é herético. Esta gente esquece que Jesus foi crucificado pela religião oficial, pelos que dominaram o aparelho. Não creio que tenham expressão. Temos uma Igreja um pouco resignada, mas não vejo uma expressão significativa contra o Papa. Aliás, a conferência episcopal portuguesa acaba de manifestar todo o apoio ao Papa.

Esta mensagem por parte do Papa de condenação dos abusos pode ajudar a mudar a situação e pôr fim a estes escândalos?

Isso há muito que devia estar em vigor. Veja o caso do Bispo do Funchal, que afastou um padre por suspeita de pedofilia. Bento XVI já dizia: tolerância zero a esses abusos. O Evangelho é claro: “Deixai vir a mim as criancinhas, pois dos que são como elas é o Reino de Deus.” E também tem uma palavra verdadeiramente terrível: “Ai de quem escandalizar uma criança. Mais valia atar-lhe uma mó de moinho ao pescoço e deitá-lo ao mar.” Jesus é muito duro quanto a isto. É preciso salvaguardar as crianças. Mas atenção, há que perceber que os padres pedófilos são uma percentagem muito pequena no mundo dos pedófilos. É bom dizer que nem os padres nem a Igreja têm monopólio da pedofilia. Dito isto, o caso da Igreja, do clero, é terrivelmente dramático. Que os padres representam uma minoria no mundo dos pedófilos não me dá consolação. As pessoas confiavam na Igreja e nestes casos houve uma traição. E aconteceu o pior: para tentar salvar os privilégios da instituição, pretendeu-se encobrir e ir contra as vítimas. Isto é contra o Evangelho. Os bispos encostaram-se para salvaguardar o prestígio da instituição. Mas a Igreja só existe para servir o Evangelho. Acreditamos em Deus, não acreditamos nos bispos, nos cardeais, muito menos na Cúria Romana. Pode parecer brutal o que digo.

Como foi possível um encobrimento deste tipo de comportamentos?

Para tentar salvaguardar a instituição continuaram os menores oprimidos, e isso é intolerável. O Papa tirou o cardinalato a este McCarrick. Mas têm de ser reforçadas as medidas canónicas contra o encobrimento e é preciso colaborar com a justiça civil. O Papa está sempre a dizer que temos de caminhar em conjunto, a carta aos católicos fala da co-responsabilização de todos.

Durante a visita do Papa à Irlanda, para pedir perdão por outros escândalos de pedofilia, uma das vítimas disse que “a história vai julgá-lo pelas acções e não pelas intenções”. Concorda que o mais importante agora é tomar medidas?

Penso que é preciso tomar medidas, a nível mundial, e reformar a Cúria de cima a baixo. A Cúria Romana é responsável por mais ateus do que Karl Marx, Nietzsche e Freud juntos. É preciso colocar mulheres na Cúria. Como é que os homens se arrogaram de que só eles é que têm poder na Igreja? Se mais mulheres estivessem no poder da Igreja, esta tragédia não teria a extensão que teve. Além disso, é preciso abrir os arquivos, onde está muita coisa escondida, e de uma vez por todas saber o que se passou. É preciso proximidade das vítimas. Veja só, em indemnizações para as vítimas, na Austrália e nos Estados Unidos, são 5 mil milhões de euros. É preciso fazê-lo, mas os católicos não dão dinheiro para isto.

No seu livro Deus, religiões e infelicidade fala de uma obsessão de o clero controlar a vida sexual dos seus fiéis. Porquê?

É preciso a Igreja acabar com a obsessão do sexo, há muitos anos que prego isso. Voltamos ao clericalismo, os membros do clero arrogaram-se de serem os melhores, os mais próximos de Deus, que administravam o sagrado. E ainda com o celibato, achavam-se os mais sagrados e puros e por isso determinavam toda a moral sexual.

Acha que o celibato está relacionado com estes abusos? Isto tem de mudar?

Por princípio, Jesus não obrigou ao celibato. Começou-se no séc. XI com o Papa Gregório VII e foi imposto a toda a Igreja no Concílio de Trento, no séc. XVI. Há estudos que mostram que não haverá uma relação de causa-efeito entre celibato e pedofilia, mas… O celibato obrigatório e a formação tradicional nos seminários pode levar a sexualidades distorcidas. Sou a favor do celibato opcional. Também defendo que é preciso uma avaliação psicológica dos que querem ser padres. Outra mudança importante será a ordenação dos homens casados, que acontecerá ainda com este Papa. E a ordenação de mulheres, pois nada impede que presidam à eucaristia. Isso não será para breve.

A única mulher de destaque na Igreja é a Nossa Senhora. Mas já disse que Nossa Senhora não apareceu em Fátima. Porquê?

A Nossa Senhora não apareceu em Fátima e qualquer pessoa que não tenha metido a massa encefálica no frigorífico sabe isso. É que a realidade visível aparece a todos. Se [Nossa Senhora] aparecesse, toda a gente via. Não acredito nas aparições, mas aceito que as crianças tiveram uma experiência religiosa, mas de crianças e à maneira de crianças. Também enquadram ali o que ouviam, os pregadores que falavam do inferno, da Primeira Guerra Mundial. Depois houve ali arranjos e rearranjos. De tal maneira que se condena o comunismo e não o nazismo. Já viu?

Então o que é hoje Fátima?

Hoje Fátima é um milagre que fez milhões de pessoas em aflição irem lá e algumas convertem-se. Tenho muito respeito pelo sofrimento humano, mas temos de evangelizar Fátima. Quanto ao sacrifício: sacrifício pelo sacrifício não vale nada. Um Deus que precise de mim a andar de rastos – que passe bem sem mim. Compete aos padres mostrar às pessoas que Deus é pai e mãe e não precisa que andem de rastos.

Continua a rever-se na Igreja Católica, instituição que já descreveu como “machista e misógina” e a “última monarquia absolutista do Ocidente”?

Seja como for, não há perfeição. Mas terá de ser uma instituição mais democratizada. Foi através desta Igreja que ouvi falar de Jesus, portanto não é fugindo da Igreja que procedo bem. Estou interessado no Evangelho e em Jesus e na reforma da Igreja. Nunca abdiquei do que penso.

Sempre disse o que pensa, isso prejudicou-o?

O clericalismo está unido ao carreirismo, para fazer carreira na Igreja é preciso ser um bocadinho hipócrita, mentir, não ter pensamento próprio. A que é que isso leva? Não há liberdade de opinião dentro da Igreja. O clericalismo fez com que não houvesse liberdade de expressão. Eu não fiz carreira. Eu não tinha jeito para isso.

Porque quis ser padre?

Fiz-me padre porque procurava a salvação eterna. Desde muito jovem, 19 anos, que procurava o sentido último da vida. Pensava: isto tem de ter um sentido. Morre-se e acaba tudo? Qual é o sentido da minha vida e da história? Em Jesus encontrei a promessa da vida eterna.

Mas foi repreendido?

Sim. Um bispo foi dizer ao director do ISET (Instituto Superior de Estudos Teológicos) que eu dizia heresias. O director disse-lhe que escrevesse que heresias eram. E pronto. Terá havido outros episódios, alguns de que o director nem tenha tido conhecimento.

Revê-se mais neste Papa ou em Bento XVI?

Conheci Ratzinger, um grande teólogo, uma pessoa tímida, reservada, muito afável. Foi com ele que começou esta tolerância zero para a pedofilia. Mas há uma coisa que me magoa muito que foi a condenação de tantos teólogos [mais de 140]. Francisco é um cristão, um pouco à imagem do que foi Jesus. Não tem medo da morte e está com todos. Até com aqueles com quem ninguém está: como os pobres ou as mulheres – foi visitar uma casa de recuperação de prostitutas. É uma figura verdadeiramente histórica dentro da Igreja e para a humanidade. E com ele nunca mais houve condenações de teólogos.
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