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2020-01-08

 

Luciano Pavarotti e Lucio Dalla cantam "Caruso" o seu glorioso compatriota.



A tradução para Português é do Google que consegue estropiar a a língua a tal ponto que só a deixo aqui a "tradução" para se ter uma ideia do tema maravilhosamente cantado.
Tenho de agradecer à Helena Pato ter trazido estes grandes cantores para o Facebook de onde, via Youtube, trouxe para aqui.
Luciano Pavarotti nasceu em Modena, Itália, em 1935 e faleceu na terra natal em 2007. Lucio Dalla nasceu em Bolonha, Itália, em 1943 e faleceu em 2012 na Suiça.
Enrico Caruso nasceu em Nápoles (Itália) em 1873 e faleceu nesta cidade italiana em 1921. O grande Pavaroti considerava Caruso o maior intérprete da música erudita de todos os tempos.
Ópera... todos italianos !


Caruso
Caruso
Luciano PavarottiLucio Dalla
Luciano PavarottiLucio Dalla
Qui dove il mare luccica
Aqui onde o mar brilha
E tira forte il vento E sopra forte o vento
Su una vecchia terrazza Num antigo terraço
Davanti al golfo di Surriento Em frente ao golfo de Surriento
Un uomo abbraccia una ragazza
Um homem abraça uma garota
Dopo che aveva pianto Depois que ele chorou
Poi si schiarisce la voce Então limpa a garganta
E ricomincia il canto E recomeça a cantar
Te voglio bene assai
Eu te amo muito
Ma tanto tanto bene, sai Mas tanto tanto você sabe
È una cantena ormai É uma cantena agora
Che scioglie il sangue dint'e vene, sai Que derrete o sangue em suas veias, sabe
Vide le luci in mezzo al mare
Ele viu as luzes no meio do mar
Pensò alle notti là in America Ele pensou nas noites lá na América
Ma erano solo le lampare Mas eram apenas as lâmpadas
E la bianca scia di un'elica E o rastro branco de uma hélice
Sentì il dolore nella musica
Ele sentiu dor na música
Si alzò dal pianoforte Ele se levantou do piano
Ma quando vide la luna uscire da una nuvola Mas quando ele viu a lua sair de uma nuvem
Gli sembrò più dolce anche la morte Até a morte parecia mais doce para ele
Guardò negli occhi la ragazza
Olhou nos olhos a garota
Quegli occhi verdi come il mare Aqueles olhos verdes como o mar
Poi all'improvisso uscì una lacrima Então, de repente, uma lágrima saiu
E lui credette d'affogare E pensou que estava se afogando
Te voglio bene assai
Eu te amo muito
Ma tanto tanto bene, sai Mas tanto tanto, você sabe
È una cantena ormai É uma cantena agora
Che sciogliei sangue dint'e vene, sai Que eu derreti sangue nas veias, você sabe
Potenza della lirica
Poder da ópera
Dove ogni dramma è un falso Onde todo drama é falso
Che con un po' di trucco e con la mimica Que com um pouco de maquiagem e imitação
Puoi diventare un altro Você pode se tornar outro
Ma due occhi che ti guardano
Mas dois olhos que olham para você
Così vicini e veri Tão perto e verdadeiro
Ti fan scordare le parole Eles fazem você esquecer as palavras
Confondono i pensieri Eles confundem pensamentos
Così diventa tutto piccolo
Então tudo se torna pequeno
Anche le notti là in America Até as noites lá na América
Ti volti e vedi la tua vita Você se vira e vê sua vida
Come la scia di un'elica Como o slipstream de uma hélice
Ma sì, è la vita che finisce
Mas sim, é a vida que acaba
Ma lui non ci pensò poi tanto Mas ele não pensou muito sobre isso
Anzi si sentiva già felice Na verdade, ele já se sentia feliz
E ricominciò il suo canto E sua música começou de novo
Te voglio bene assai
Eu te amo muito
Ma tanto tanto bene, sai Mas tanto tanto, você sabe
È una cantena ormai É uma cantena agora
Che scioglie il sangue dint'e vene, sai Que derrete o sangue em suas veias, você sabe
Te voglio bene assai
Eu te amo muito
Ma tanto tanto bene sai Mas você sabe muito bem
È una cantena ormai É uma cantena agora
Che scioglie il sangue dint'e vene Que dissolve o sangue nas veias

2020-01-06

 

Trump para evitar a destituição abeira o mundo de uma guerra


Já tínhamos excessivas provas de que Trump era um personagem desqualificado, empanturrado de si mesmo e agora, ao assassinar um dirigente  de um país ao qual não declarou guerra, o general Qasem Soleimani, a segunda figura do Estado iraniano, revelou-se um perigoso terrorista global.  


O regime dos ayatollahs do Irão não merece a menor simpatia dos democratas e dos homens livres mas isso não diminui em nada a gravidade deste aventureiro acto de guerra não declarada. 
O perigo de guerra no Médio Oriente e no mundo torna-se assim dramático.

Trata-se de um acto irreflectido de um inimputável? Não, é uma tentativa para contrariar o processo do "impeachment" e que terá o apoio do "complexo industrial-militar" dos EUA e de todos os que enriquecem com as guerras, com a tragédia e a morte nelas de milhões de seres humanos.
Trump continua rodeado de gente perigosa de proto-fascistas que não desmerecem do sujeito que foi o seu principal mentor, o extremista-racista, apologista da "supremacia do homem branco", um tal Steve Bannon

Como reagiu Jen Stoltenberg, Secretário Geral da NATO, a este perigoso acto belicista de Trump? Como bom vassalo, como representante do conglomerado de países satélites do império norte-americano, Jens Stoltenberg, ex-primeiro-ministro da Noruega, condenou... o Irão !!. "Em declarações à imprensa após uma reunião dos embaixadores dos 29 membros da NATO para discutir a crise entre Estados Unidos e Irão, Jens Stoltenberg explicou que " O Irão deve evitar mais violência e provocações"
E o MNE português que reação teve? Ou não disse nada ou aprovou, seguramente, as declarações do SG da NATO. E se tivesse sido a Rússia ou a China a cometer este acto de guerra? A gritaria que a imprensa satélite de Washington não teria desencadeado para "organizar a cabeça do eleitor" !

 

Brasil - Um governo de extrema direita, terrorista, desqualificado.

“247 - O apresentador Marco Antonio Villa, no Jornal da Manhã... enfureceu a direita nas redes sociais por ter criticado o ministro da Educação, Abraham Weintraub, e defender o filósofo e escritor Paulo Freire, patrono da educação brasileira.
Em um debate com o comentarista político Rodrigo Constantino, Villa disse que Weintraub é um homem “para ser interditado”. “O ministro da Educação comete erros de ortografia no Twitter. Ele não sabe escrever português! Nós temos um ministro da Educação ignorante. Ele falou que o grande escritor tcheco era o ‘kafta' [em vez de Kafka]”, lembrou.
Constantino iniciou a conversa dizendo que há uma “doutrinação esquerdista” na educação brasileira, que tem como patrono o “comunista Paulo Freire, defensor de tiranos”. 
Villa então saiu em defesa de Freire, destacando que o pernambucano é o terceiro educador mais citado no mundo, por conta de sua obra “Pedagogia do Oprimido” (1968), de acordo com levantamento feito pelo Google Schoolar, em 2016. “Ele tem 37 títulos doutor honoris causa. Só no Brasil alguém que não conhece a educação pode fazer uma crítica rasteira sobre alguém que é fundamental na história da educação mundial”, disse. “

 

2019-12-09

 

Clima e transição energética


É um artigo de opinião de António Costa Silva, professor do Instituto Superior,  no Público de 9 de Dezembro de 201 (A imagem não faz parte do artigo).  
___________
A ameaça climática é um dos desafios do nosso tempo. Os resultados de estudos como o dirigido por Richard Muller, da Universidade de Berkeley, um dos mais exaustivos já levado a cabo, são inequívocos. A temperatura da Terra está a aumentar em todos os continentes e o Pólo Norte é o local do planeta que aquece mais. Nos últimos 30 anos perdeu 2 milhões de Km2 de gelo, que é um estabilizador do clima da Terra porque reflecte parte da radiação solar. O seu desaparecimento acelera o aquecimento dos oceanos e global. Como não podemos negociar com a Natureza, é preciso agir. E aí começam os equívocos.
Há uma dissonância entre a retórica política e os factos. As cimeiras sucedem-se, os gritos são muitos, mas na prática faz-se pouco. E quando se faz algo que pode ser decisivo ninguém liga porque toda a gente está mais preocupada em gritar. Os factos são incontornáveis: no ano 2000, já depois das primeiras cimeiras como a do Rio, as emissões de CO2 eram de 25.000 milhões de toneladas (mt) por ano. O planeta aguenta o máximo 18.000 mt. Em 2018, as emissões de CO2 chegaram a 34.000 mt, cresceram 36% só neste século. Mas em 2015 e 2016, depois de 30 anos consecutivos em que as emissões cresceram à média de 1,7% ao ano, elas estagnaram. Era um ponto de viragem se tivéssemos prestado atenção.
Estagnaram porque os EUA começaram a substituir as suas centrais a carvão por centrais a gás e as emissões são 60% inferiores. E a China decidiu congelar o seu programa de aposta no carvão e seguiu o caminho dos EUA. Com os dois maiores poluidores mundiais a reduzirem o uso de carvão, tivemos dois anos que podiam ser de viragem. Mas ninguém teve coragem de sentar o G-4 do carvão à mesa – China, EUA, Rússia e Japão, que consomem 75% do carvão no mundo – e levá-los a um compromisso sólido para diminuírem de forma consistente e prolongada o seu uso. Só a China consome 50% do carvão utilizado no mundo. Mas o carvão não é “sexy” como outras fontes energéticas que são demonizadas e poucos prestam atenção ao elefante na sala. 

Resultado: em 2019, como a China regista o crescimento económico mais lento desde os anos 90, decidiu recorrer de novo ao carvão, a fonte de energia mais barata, para estimular o crescimento económico e gerar emprego. O programa chinês do carvão foi reactivado e a China vai instalar nos próximos anos cerca de 148 GW de capacidade em centrais a carvão, o que equivale a toda a potência instalada na Europa. É uma péssima notícia para a China e para o planeta.
Neste contexto, as cimeiras e declarações políticas mostram hipocrisia. É fácil gritar. Mais difícil é pensar, trabalhar as soluções, sentar os decisores à mesa e urdir compromissos sérios e consistentes. 57% das emissões globais de CO2 são geradas pelo consumo de combustíveis fósseis: 2/3 provêm do sistema de geração eléctrica e térmica e 1/3 do sistema de transportes. É preciso ter a coragem de sentar à mesa o G-5 das emissões – China, EUA, Índia, Japão e Rússia, responsáveis por 65% das emissões de CO2. Para responder aos objectivos do Acordo de Paris de 2015 é preciso reduzir até 2040 40% do consumo de carvão e 15% de petróleo e aumentar 40% o consumo de energias renováveis. Isto é fazível, mas é preciso coragem para agir e políticas públicas bem desenhadas.

O sistema de geração eléctrica e térmica, apesar do aumento das energias renováveis, ainda gera 420 quilos de carbono por cada Mw de energia produzida. O máximo para a sustentabilidade do planeta deve ser 100 quilos de carbono por cada Mw gerado. Há um longo caminho a percorrer. O drama é que o consumo de energia primária continua a aumentar (+1,9% em 2018) para responder ao crescimento da população e da economia. É preciso mudar o paradigma e comportamentos e produzir energia mais limpa.
As soluções são multidimensionais. Passam pela mudança da matriz energética com mais energias renováveis e menos carvão e menos petróleo. Passam por um compromisso das companhias de petróleo e gás para diversificarem o seu portefólio; investirem mais nos activos de baixa intensidade carbónica; estabelecerem metas verificáveis de queima “zero” do gás e crescimento “net” zero das emissões, num prazo temporal curto; criarem produtos de baixa intensidade em carbono; apostarem nas tecnologias digitais para aumentar a eficiência e baixar as emissões. Passa pelo reforço do “cluster” das energias renováveis, em particular a eólica e solar, que são competitivas e que estão a crescer. Passa por mudanças no sistema de transportes com a electrificação da frota automóvel nas cidades que consomem cerca de 75% da energia do planeta e são responsáveis por 85% das emissões. Passa pela expansão da mobilidade eléctrica e da aposta nos biocombustíveis que não competem com as culturas alimentares. Passa por avanços na armazenagem da electricidade à escala da rede, com a revolução das baterias, que pode levar à electrificação de vastos segmentos da economia mundial. Passa pela digitalização das redes energéticas e a Internet da Energia com o “streamlining” das operações e a redução das emissões e do desperdício.
Passa pela revolução do hidrogénio, cujos custos podem ser competitivos (se for gerado a partir do gás natural), e a sua aplicação nas “fuel cells” que podem ser uma alternativa sólida para a mobilidade, além de que podem capturar o CO2. Passa por soluções que apostam nos sumidouros naturais de CO2 como as florestas, os solos agrícolas bem tratados, o fim da desflorestação. O mau uso da terra é responsável por 20% das emissões de CO2. A captura do carbono, incluindo a captura directa a partir do ar, é outra solução que tem ganho tracção.

Finalmente, a geologia pode salvar o planeta. Há dois locais no mundo, os Montes Apalaches nos EUA e Omã, onde as rochas do manto afloram à superfície da terra. O manto está por baixo da litosfera, a camada superficial da Terra. Quando as rochas do manto, como os peridotitos, afloram à superfície, elas mineralizam o carbono a uma escala e ritmo sem paralelo. É o processo mais barato de todos porque utiliza a energia química das rochas. O futuro não será a repetição do passado mas nesse futuro o papel da geologia pode, como sempre, surpreender.

2019-11-15

 
A OEA e o golpe na Bolívia: eleição foi sem fraude, mas não aceitamos a vitória de Evo 

Por Ana Prestes.   11/11/2019 


 Foto ABI  


A onda de restauração conservadora chegou à Bolívia. Não de forma muito diferente de como se tem manifestado na América Latina desde o Golpe nas Honduras em 2009, mas com uma componente de violência acentuada. Não se trata de um golpe jurídico parlamentar como se deu no Paraguai e no Brasil, tem mais semelhança com a onda de violência e desestabilização que abalou a Nicarágua em 2018 ou com a tentativa de sequestro de Correa, no Equador em 2012 ou ainda com o golpe de 2002 na Venezuela, quando os opositores tomaram meios de comunicação e incendiaram as ruas. 

Mas vejamos como chegámos a esta situação em que hoje, 10 de Novembro, após ter sido vitorioso no pleito eleitoral de 20 de Outubro, Evo Morales, presidente da Bolívia, anuncia que o parlamento boliviano renovará os cargos dos juízes do Tribunal Eleitoral, por ter competência para fazê-lo, e novas eleições gerais serão convocadas, anulando-se assim os resultados de 20 de Outubro. Horas antes do anúncio, a OEA havia-se manifestado não reconhecendo o pleito após realização de auditoria da contagem dos votos. Na prática, a OEA, através de Luís Almagro fez seu papel, tal e qual nos outros países golpeados. 

Em que contexto económico nacional se deu o pleito de 20 de Outubro? 

As eleições na Bolívia correspondem ao apagar das luzes da segunda década do século XXI. Duas décadas marcadas por muitas transformações na América Latina. Um período em que se viveu o chamado ciclo de governos progressistas iniciado com a Eleição de Chávez como presidente da Venezuela em 1998 e seguiu vigoroso até à primeira derrota eleitoral importante, a de Cristina Kirchner na Argentina em 2015. Nesse meio tempo houve vários intentos de golpe e pelo menos dois com sucesso para os conservadores, nas Honduras e no Paraguai. De 2015 para cá a onda de restauração conservadora tomou mais corpo, especialmente como golpe no governo Dilma no Brasil e a eleição de Bolsonaro.

Fanático religioso, histriónico, corrupto: quem é “Macho” Camacho, empresário que encabeça o golpe na Bolívia? 

Evo chegou perto de ser eleito pela primeira vez em 2002, quando ficou em segundo lugar nas eleições de modo surpreendente para um país de sucessivos governos oligárquicos. Nas eleições de 2005 ele venceu com maioria absoluta, tornando-se o primeiro presidente de origem indígena. 

Quando Evo assume a presidência a Bolívia possuía um PIB de 5 biliões de dólares e uma dívida externa de igual valor. Já ao final de 2005 o PIB estava na casa dos 9 biliões e em 2018 de 40,8 biliões de dólares. Os governos dos “terratenientes” que o antecederam se ocupavam de utilizar o Estado para maior seu maior enriquecimento e dos seus familiares. Em 14 anos o governo Evo multiplicou por 8 o PIB do país. Uma das principais chaves da nova economia foi a mudança relativamente aos recursos naturais, em especial nos sectores agropecuário, mineiro, energético e de hidrocarbonetos. Com uma profunda nacionalização através da recuperação de empresas estratégicas, além do investimento misto, junto ao sector privado, na actividade económica das pequenas, médias e grandes empresas. Como consequência, refundaram politicamente o país e alteraram perfil de um Estado colonial para um Estado Plurinacional, com especial atenção ao movimentos indígenas e de mulheres. O resultado foi que um país que tinha 78,2% de pessoas na pobreza extrema, passou a ter menos de 15%, estabilizou num crescimento de 4% ao ano e chegou a um PIB per capita de 4 mil dólares, quando era de 900 dólares. 

Em que contexto político se deu o pleito de 20 de Outubro? 

A Bolívia é um país que enfrentou 193 golpes de Estado no período que vai desde os tempos de Bolívar e Sucre, heróis independentistas, em 1825, até 1982. Estabilidade política não é o comum no país, muito pelo contrário. E mais, instabilidade política sempre acompanhada de muita violência. De 84 governos, 32 foram conduzidos por ditadores. 

O Palácio de Quemados, sede da presidência e do qual observamos nos últimos dias o amotinamento dos guardas palacianos contra Evo, tem esse nome por ter sido incendiado em uma revolta popular em 1860. Com Evo e Linera, portanto, nos últimos 14 anos, a Bolívia viveu um dos mais longevos períodos de estabilidade política desde a independência, se não foi o maior. Durante esse período houve um princípio de guerra civil em 2008, instada pelos mesmos golpistas de hoje, sediados em Santa Cruz, Chuquisaca e Tarija, na época também de El Beni e Pando. 

Qualquer um que olhasse o cenário, de estabilidade política, crescimento económico, extermínio da pobreza e melhora de outros indicadores sócio-económicos, poderia pensar que Evo levaria esta fácil. Com vitória arrebatadora. Ocorre que na política tudo são nuvens e quando você volta a olhar o céu, lá vem uma tempestade imprevista. A combinação da reorganização dos setores oposicionistas, animados com os ventos conservadores que vieram bater no continente (exemplo do Brasil) com a insatisfação de setores indígenas, por considerarem que Evo se aproximou demais do mercado e do agronegócio, os incêndios florestais pré-eleitorais e a não identificação de eleitores jovens (conhecemos esse filme) com o programa do MAS formou um cenário complicado para Evo. 

Por isso a vitória não foi avassaladora e capaz de fechar a fatura no primeiro turno. A estreita margem dos votos, principalmente do campo e meio rural, que garantiram os 10% de diferença entre Evo e Mesa foi o componente de tempestade perfeita que o imperialismo precisava para entrar com a intrometida colher da OEA e abrir as portas para o golpe. 

O impacto das queimadas. 

Um ponto importante do cenário e contexto pré-eleitoral foi o das queimadas florestais que alarmaram a Bolívia, em especial na Chiquitania, no mesmo período em que aqui no Brasil enfrentamos as queimadas na região da Amazónia. Enquanto aqui no Brasil o governo Bolsonaro fazia vista grossa para as queimadas, batia boca com Macron e rasgava dinheiro europeu, Evo foi pessoalmente para as áreas de queimadas, montou comitê de crise em barraca de campanha, pediu ajuda ao mundo inteiro, revelou tecnologias que poucos conhecíamos ao receber aviões tanque e outros tipos de apoio. 

Seria impossível no entanto que as queimadas não chamuscassem também a candidatura de Evo e dessem de bandeja argumentos para a oposição alvejar o líder indígena. Foram cinco as mortes decorridas do enfrentamento ao fogo, 4 bombeiros e um camponês, quatro milhões de hectares consumidos pelo fogo, sendo 12 áreas protegidas com grande biodiversidade de fauna e flora. Tudo isso justamente em Santa Cruz, sede do golpismo anti-Evo. 

As eleições. 

No dia 20 de outubro, mais de 7 milhões de eleitores estavam aptos a votar, tanto no país como no exterior (341 mil puderam votar fora do país). O pleito escolheria 1 presidente e seu vice-presidente, 130 deputados e 36 senadores para o mandato de 2020 a 2025. Para vencer e levar a presidência na Bolívia um dos candidatos deve fazer mais de 50% dos votos ou no mínimo 40% com uma diferença de 10 pontos percentuais a frente do segundo mais votado. Caso contrário, há segunda volta. Os principais adversários de Evo (47,08%) foram Carlos Mesa (Comunidad Ciudadana) com 36,51%, Chi Hyun Chung (Partido Democrata Cristão), com 8,83% e Óscar Ortíz (Bolivia dice No), de Santa Cruz, preferido dos EUA, com apenas 4,26%. 

Quatro dias antes da eleição, Evo recebeu uma delegação da OEA na Casa Grande do Povo e logo manifestou via twitter: “damos as boas vindas à delegação de observadores da OEA que acompanham as eleições na Bolívia para verificar a transparência e legalidade do processo eleitoral”. A OEA enviou 92 observadores para as eleições bolivianas, sendo que parte desses se deslocou para acompanhar as votações em São Paulo, Buenos Aires e Washington. Apesar da receptividade com a OEA, que sabemos bem a serviço de quem anda “observando” os governos latino-americanos, a bandeira branca de Evo não funcionou muito e a violência se instalou já nos dias prévios às eleições. O encerramento da campanha do MAS em Santa Cruz foi um exemplo do que estava por vir. 

Passado o domingo 20, enquanto ainda se fechava o escrutínio das cédulas foram queimados os escritórios do Tribunal Eleitoral Departamental de Potosí e juízes eleitorais foram agredidos em Tarija, Chuquisaca, Oruro e La Paz. Foi derrubada uma estátua de Hugo Chávez em Riberalta e outros atos de vandalismo se instalaram pelo país. Os atos violentos tinham um conteúdo racista bastante particular da Bolívia, além de profundamente antidemocráticos. 

Enquanto isso sabe-se que funcionários o Departamento de Estado dos EUA que estão na Bolívia, Mariane Scott e Rolf Olson, mantiveram reuniões com diplomatas do Brasil, Argentina, Paraguai, Colômbia, Espanha, Equador, Reino Unido e Chile para coordenar um não reconhecimento dos resultados eleitorais. 
A OEA impôs uma auditoria e concluiu que “embora sem fraudes, o processo foi impreciso”, tradução = não reconhecemos a vitória de Evo. 

Dali em diante todos já conhecíamos o filme. O cenário do golpe estava montado: violência nas ruas, não reconhecimento do processo eleitoral por parte dos países da região, raposa instalada dentro do galinheiro: OEA. Só faltavam alguns elementos essenciais para a efetivação do golpe: forças de segurança e meios de comunicação. E foi justamente o que vimos nos últimos dias, amotinamento de forças policiais e tomada de rádios e tvs a força pelos golpistas. A que se dizer que o papel dos militares foi dúbio, mas a informações de que o próprio Evo decidiu não colocar o Exército nas ruas para não incrementar a violência e dar mais argumentos aos golpistas. 

O golpe. 

No dia de hoje Evo fez um pronunciamento que para uns soou como coragem e para outros como rendição. A ver o que a vida mostrará nas próximas horas. Anunciou aceitar o resultado da auditoria da OEA e a convocação de novas eleições. Além de sua anuência para que o parlamento troque os juízes do Tribunal Superior Eleitoral. Resta saber se as novas eleições terão entre os concorrentes Evo Morales, o presidente que tirou a Bolívia da situação de eterna colónia e deu a seu povo dignidade e oportunidade de desenvolvimento, nunca vistos naquele país. Enquanto escrevo já são noticiadas as novas chantagens golpistas e entre elas está o pedido de renúncia de Evo para que o país se pacifique. Evo apostou na paz, resta saber se isso basta para interromper a guerra. De todo modo, ele marcha suportado pela solidariedade de todo um continente que sabe o gigante que ele é. Fuerza Evo. 

2019-11-11

 

Golpe militar na Bolívia

"A queda de Evo Morales mostra que o império e seus aliados não descansam, mantendo-se sempre à espreita para agir contra aquelas lideranças que representam os interesses do povo", diz o colunista Paulo Moreira Leite



No dominó sul-americano, a Bolívia era a única peça que permanecia de pé, inabalável, após o vendaval imperialista que em pouco mais de  cinco anos modificou a paisagem política da região.  
Pela ordem cronológica. Em 2013, com a morte de Hugo Chávez, teve início a fase mais dura do bloqueio à revolução bolivariana, um garrote cada vez mais apertado no pescoço da Venezuela, que resiste, apesar de tudo, apoiada por um Exército que sustenta o governo Nicolas Maduro com uma fidelidade única na região. 
Em 2015, grandes escândalos midiáticos ajudaram derrotar o peronismo na Argentina, abrindo caminho para a  vitória de Maurício Macri. Em 2016, o projeto Lula-Dilma foi derrubado através de um golpe parlamentar, consolidado pela prisão de Lula em 2018. Em 2017, numa sórdida trama palaciana, Lenin Moreno desfez as conquistas de Rafael Correa para reconectar o Equador ao comando de Washinton. 
O golpe que forçou a renúncia de Evo Morales, presidente desde 2006, reeleito pela quarta vez, mostra que a selvageria política continua liberada na América do Sul.
Apoiado pelo Exército e pelas forças policiais encarregadas da segurança interna, o ataque final a um presidente que jamais foi derrotado nas urnas é um aviso aos navegantes da democracia e da soberania de povos e países dessa parte do mundo. A América do Sul segue como alvo de cobiça do império e seus ajudantes, capazes de empregar métodos implacáveis para conservá-la sob  seus domínios.
Não vamos nos iludir. O que está em jogo, no Chile de Pinochet-Pinera, no Brasil de Temer-Bolsonaro. na Argentina de Macri, não é o bem-estar do povo, nem o reforço das garantias democráticas, nem qualquer conceito mais evoluído sobre a condição humana. Apenas a submissão de uma região inteira, rica em minérios estratégicos e em recursos naturais, aos interesses e domínios de Washington. 
O golpe que derrubou Evo é a versão bem sucedida da operação liderada por Aécio Neves para impedir a posse de Dilma em 2015. Paralisada inicialmente, a manobra seria bem sucedida um ano e quatro meses depois. 
Tanto a vitória de Augusto Fernandez-Cristina Kirschner na Argentina, como a rebelião popular contra Pinera, no Chile e a libertação de Lula, no Brasil, mostram que a região não evolui de uma mesma maneira, nem numa única direção. Há uma imensa vontade de mudanças a favor dos explorados e excluídos, que tem feito girar a roda de mudanças numa direção favorável.   
A luta por uma Assembléia Constituinte ganha força e consistência no Chile. A liberdade de Lula é o ponto de partida para dar nova musculatura à oposição a Bolsonaro, até hoje desarticulada e sem uma voz capaz de falar pelas grandes camadas do povo brasileiro.
Mas a queda de Evo Morales mostra que o império e seus aliados não descansam, mantendo-se sempre à espreita para agir contra aquelas lideranças que representam os interesses do povo.
Alguma dúvida? 
Ligação para o 247 com notícias da América latina  >>>   NÍVEA CARPES
Diante de toda a destruição, onde a oposição não tem uma estratégia para o que enfrenta, o povo está anestesiado e as instituições foram destruídas, 

2019-10-25

 

Chomsky:10 estratégias de manipulação de massas


O texto foi retirado daqui: A Mente é Maravilhosa
Noam Chomsky é um dos intelectuais mais respeitados do mundo. Este pensador americano foi considerado o mais importante da era contemporânea pelo The New York Times. Uma de suas principais contribuições é ter proposto e analisado as estratégias de manipulação de massa que existem no mundo hoje.
Noam Chomsky ficou conhecido como lingüista, mas também é filósofo e cientista político. Ao mesmo tempo, ele se tornou um dos principais ativistas das causas libertárias. Seus escritos circularam pelo mundo e não param de surpreender os leitores.
Chomsky elaborou um texto didático no qual ele sintetiza as estratégias de manipulação maciça. Suas reflexões sobre isso são profundas e complexas. No entanto, para fins didáticos, ele resumiu tudo em princípios simples e acessíveis a todos.
1. A distração das estratégias de manipulação maciça
Segundo Chomsky, a mais recorrente das estratégias de manipulação massiva é a distração. Consiste basicamente em direcionar a atenção do público para tópicos irrelevantes ou banais. Desta forma, eles mantêm as mentes das pessoas ocupadas.
Para distrair as pessoas, abarrotam-lhes de informações. Muita importância é dada, por exemplo, a eventos esportivos. Também ao show, às curiosidades, etc. Isso faz com que as pessoas percam de vista quais são seus reais problemas.
2. Problema-reação-solução
Às vezes o poder, deliberadamente, deixa de assistir ou assiste de forma deficiente certas realidades. Eles fazem dessa visão dos cidadãos um problema que exige uma solução externa. E propõem a solução eles mesmos.
Essa é uma das estratégias de manipulação em massa para tomar decisões que são impopulares. Por exemplo, quando eles querem privatizar uma empresa pública, intencionalmente diminuem sua produtividade. No final, isso justifica a venda.
3. Gradualidade

Esta é outra das estratégias de manipulação maciça para introduzir medidas que normalmente as pessoas não aceitariam. Consiste em aplicá-las pouco a pouco, de forma que sejam praticamente imperceptíveis.
Foi o que aconteceu, por exemplo, com a redução dos direitos trabalhistas. Em diferentes sociedades têm implementado medidas, ou formas de trabalho, que acabam fazendo com que o trabalhador não tenha garantia de segurança social normal.
4. Adiar
Esta estratégia consiste em fazer com que os cidadãos pensem que estão tomando uma medida que temporariamente é prejudicial, mas que no futuro pode trazer grandes benefícios para toda a sociedade e, claro, para os indivíduos.
O objetivo é que as pessoas se acostumem com a medida e não a rejeitem, pensando no suposto bem que trará amanhã. No momento, o efeito da “normalização” já operou e as pessoas não protestam porque os benefícios prometidos não chegam.
5. Infantilizar o público
Muitas das mensagens televisivas, especialmente publicidade, tendem a falar ao público como se fossem crianças. Eles usam gestos, palavras e atitudes que são conciliadoras e impregnadas com uma certa aura de ingenuidade.
O objetivo é superar as resistências das pessoas. É uma das estratégias de manipulação massiva que busca neutralizar o senso crítico das pessoas. Os políticos também empregam essas táticas, às vezes se mostrando como figuras paternas.
6. Apelar para as emoções
As mensagens que são projetadas a partir do poder não têm como objetivo a mente reflexiva das pessoas. O que eles procuram principalmente é gerar emoções e atingir o inconsciente dos indivíduos. Por isso, muitas dessas mensagens são cheias de emoção.
O objetivo disso é criar uma espécie de “curto-circuito” com a área mais racional das pessoas. Com emoções, o conteúdo geral da mensagem é capturado, não seus elementos específicos. Desta forma, a capacidade crítica é neutralizada.
7. Criar públicos ignorantes
Manter as pessoas na ignorância é um dos propósitos do poder. Ignorância significa não dar às pessoas as ferramentas para que possam analisar a realidade por si mesmas. Diga-lhe os dados anedóticos, mas não deixe que ele conheça as estruturas internas dos fatos.
Manter-se na ignorância também não dar ênfase à educação. Promover uma ampla lacuna entre a qualidade da educação privada e a educação pública. Adormecer a curiosidade de conhecimento e dá pouco valor aos produtos de inteligência.
8. Promover públicos complacentes
A maioria das modas e tendências não são criadas espontaneamente. Quase sempre são induzidas e promovidas de um centro de poder que exerce sua influência para criar ondas massivas de gostos, interesses ou opiniões.
A mídia geralmente promove certas modas e tendências, a maioria delas em torno de estilos de vida tolos, supérfluos ou mesmo ridículos. Eles convencem as pessoas de que se comportar assim é “o que está na moda”.
9. Reforço da auto-censura
Outra estratégia de manipulação em massa é fazer as pessoas acreditarem que elas, e somente elas, são as culpadas de seus problemas. Qualquer coisa negativa que aconteça a eles, depende apenas delas mesmas. Desta forma,  fazem-lhes acreditar que o ambiente é perfeito e que, se ocorrer uma falha, é responsabilidade do indivíduo.
Portanto, as pessoas acabam tentando se encaixar em seu ambiente e se sentindo culpadas por não conseguir. Elas deslocam a indignação que o sistema poderia causar, para uma culpa permanente por si mesmos.
10. Conhecimento profundo do ser humano
Durante as últimas décadas, a ciência conseguiu coletar uma quantidade impressionante de conhecimento sobre a biologia e a psicologia dos seres humanos. No entanto, todo esse patrimônio não está disponível para a maioria das pessoas.
Apenas uma quantidade mínima de informações está disponível ao público. Enquanto isso, as elites têm todo esse conhecimento e usam-no conforme sua conveniência. Mais uma vez, fica claro que a ignorância facilita a ação do poder sobre a sociedade.
Todas essas estratégias de manipulação em massa visam manter o mundo como ele é mais poderoso. Bloqueie a capacidade crítica e a autonomia da maioria das pessoas. No entanto, depende também de nos deixarmos ser passivamente manipulados, ou oferecer resistência tanto quanto possível.

2019-09-30

 

Sócrates explica Tancos no Expresso

Desta vez o nome é Tancos
EXPRESSO 29.09.2019 às 18h36


«Neste artigo para o Expresso, José Sócrates ataca o Ministério Público pelos casos que rebentam em cima de campanhas eleitorais e acha que há motivações políticas para o conhecimento da acusação de Tancos. O ex-líder socialista critica quem se justifica com "isso é lá da justiça", mas também defende António Costa contra Rui Rio: "O ataque ao primeiro-ministro pode ser político, mas é baseado no julgamento prévio do antigo ministro da Defesa", escreve.

Para ir direto ao assunto, considero que a apresentação da acusação judicial de Tancos tem uma evidente e ilegítima motivação política. Não só pelo momento escolhido – No meio da campanha eleitoral –, mas, principalmente, pela forma como o Ministério Público orientou a sua divulgação pública. O truque, desta vez, consistiu basicamente em apresentar nas televisões a prova – uma mensagem do antigo ministro para um deputado na qual afirma que “já sabia” . Todos os jornalistas foram atrás : “já sabia” – eis a smoking gun. Todavia, lida toda a mensagem, rapidamente nos apercebemos DE que o ministro diz que já sabia da recuperação das armas e não que sabia da forma ilegal como elas foram recuperadas. A mensagem nada prova. Não obstante, isolar aquelas duas palavrinhas permitiu o formidável passe de mágica que contaminou toda a conversa posterior. A operação chama-se “spinning” e constitui hoje uma especialidade da nossa política penal.
2.
A partir daqui, nem direito de defesa, nem presunção de inocência, nem tribunais. Eis ao que chegou esse poder oculto, subterrâneo e quase absoluto que resulta dessa extraordinária aliança entre procuradores (alguns) e jornalistas. A primeira vítima é o visado, é certo. Mas, se tentarmos ver um pouco mais longe, as próximas vítimas serão os juízes. O seu papel na justiça penal caminhará para a irrelevância. Afinal, já não precisamos deles: o ministério público investiga, o ministério público acusa, o ministério público julga – tudo isto nos jornais e nas televisões, seu terreno de eleição.
3.
O momento da divulgação não é inocente, não. Vejo para aí o álibi de que haveria um prazo de prisão preventiva que se esgotava. Fraco argumento. Ainda que mal pergunte, não é princípio geral que, em regra, o cidadão tenha o direito de aguardar o seu julgamento em liberdade? Já nos esquecemos de que a prisão preventiva é uma medida extraordinária? Já nos esquecemos que passar um ano em prisão preventiva sem acusação é uma violência que a maior parte dos países desenvolvidos não aceita? Já nos esquecemos que essa medida deveria ser reservada apenas a matérias de especial complexidade? A infeliz resposta é que todos estes princípios jurídicos parecem longínquos e ultrapassados. Os tempos que vivemos são de normalização do abuso institucional. Acresce que, com tanto tempo para investigar e acusar, é difícil encontrar razões para o não terem feito antes da campanha. O que resta, pelas regras da experiência comum que tanto gostam de invocar, é que queriam que a acusação tivesse exatamente o efeito político que teve.
4.
Finalmente, os dois líderes políticos em campanha. Um deles produziu o momento mais singular de toda a campanha afirmando com coragem que a democracia não convive com julgamentos de tabacaria. Um novo acorde que teve o impacto de tudo aquilo que se ouve pela primeira vez . O outro, com esmeradíssima prudência, tratou o caso como assunto de intendência – isso é lá com a justiça. Como se do outro lado de toda esta conversa não houvesse pessoas reais. Como se não estivesse a falar de direitos individuais, de garantias, de Constituição. Como se o direito democrático não fosse, no que é essencial, a imposição de limites ao poder estatal .
5.
Uma semana depois a situação inverte-se : o primeiro decide atacar o primeiro-ministro dizendo que, se não sabia é grave e, se sabia, mais grave é ainda. Esta afirmação só se percebe se o próprio partir do principio de que o ministro da defesa sabia, isto é, que ele é culpado. O ataque ao primeiro ministro pode ser político, mas é baseado no julgamento prévio do antigo ministro da Defesa. Em boa verdade, o que fez foi condenar sem ouvir a defesa e sem esperar pelo veredicto de um juiz. Por sua vez, o primeiro ministro, indignado, declara o óbvio – a declaração encerra uma vergonhosa condenação pública antes de qualquer julgamento.
6.
Eis no que nos tornámos : em 2005, foi o Freeport; em 2009, as escutas de Belém; em 2014, a operação marquês, agora foi Tancos que se seguiu à espetacular operação de buscas e apreensões a propósito de um concurso de golas para uso em incêndios e que juntou duzentos polícias, vários procuradores e o juiz do costume. Tudo isto, evidentemente, devidamente coberto pelas televisões, avisadas com antecedência. A violação do segredo de justiça é um crime que o Estado reserva para si próprio. É isto, e julgo que não é preciso fazer um desenho.
Ericeira, 28 de Setembro de 2019
José Sócrates

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2019-09-28

 

PEDRO GUERREIRO como os bancos destruíram 40 milhões

Pedro Guerreiro

2:59 para explicar o mundo como os bancos destruíram €40 mil milhões


 

Como meio mundo anda a roubar o outro meio






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