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2019-07-12

 

SARAH AFFONSO

SARAH AFFONSO - A Arte e o Minho da sua infância e inspiração.

Inaugura-se hoje 2010-07-12 no Museu Gulbenkian até 2019-10-07 a exposição: 

Sarah Affonso e a Arte Popular do Minho 

 (Na imagem Sarah com Almada)

" Esta exposição explora a relação entre a obra de Sarah Affonso e a arte popular do Minho. Muitas vezes recordada como a mulher de Almada Negreiros, pretende-se aqui evocar Sarah Affonso como uma artista modernista reconhecida com um percurso próprio, de notável qualidade.
O Museu Gulbenkian celebra o 120.º aniversário do nascimento de Sarah Affonso, pintora portuguesa modernista cuja obra tem sido muito pouco investigada e exposta. Muitas vezes recordada como a mulher de Almada Negreiros, é uma artista de nome reconhecido e tem um percurso próprio, de assinalável  qualidade, que aqui nos propomos revisitar.            
Esta exposição centra-se na particular relação de Sarah Affonso (1899-1983) com a arte e a cultura popular do Minho, que tão fortemente a marcou desde os anos da sua infância e  adolescência em Viana do Castelo, entre 1904 e 1915.     
Destes anos, a artista guardará na memória o especial caráter da terra minhota, das suas tradições, das feiras, procissões e romarias que ganham protagonismo na sua obra a partir de 1932-1933.
Apesar do retrato ter sido a grande marca autoral da sua obra, a artista abandona este registo, preferindo integrar determinados aspetos do vernáculo minhoto nas suas composições.A exposição apresenta, em paralelo, as obras de Sarah Affonso com os objetos cerâmicos, têxteis, de ourivesaria, que formam parte do léxico visual que a inspirou e onde se incluem empréstimos de museus e colecionadores portugueses. O Museu Calouste Gulbenkian associa-se ao Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, que assinala este aniversário com uma exposição sobre a artista, a inaugurar em setembro deste ano.
Curadoria: Ana Vasconcelos"
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Obras de Sarah Affonso:








                                                                                                            .
             As Meninas

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2019-06-10

 

"Eu acuso LULA É CULPADO"

Roberto Requião, foi senador do Movimento Democrático Brasileiro - MDB e acusa: Lula é culpado. De facto Lula fez coisas que as elites do dinheiro não podem perdoar. É culpado, culpado, culpado.

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2019-05-26

 

IEMEN - A GUERRA ESCONDIDA

O que se segue escrevi-o no Facebook em 2018-09-06 mas para ficar mais à mão e eventual consulta trouxe o escrito para aqui.


IEMEN - A GUERRA ESCONDIDA
Raimundo Narciso    6 de Setembro às 17:50 · 

A maior parte da informação que a comunicação social nos oferece não revela as causas nem a natureza da devastadora guerra que assola o Iemen. "Explica" que se trata de uma guerra civil religiosa entre iemenitas sunitas e iemenitas shiitas quando na realidade, sem escamotear contradições e disputas internas entre grupos e partidos políticos, se trata desde 25 de Março de 2015 de uma guerra de agressão da Arábia Saudita pelo controlo político do Iemen com o apoio logístico, peritos, armas e informações dos EUA, Reino Unido, França, Emirados Árabes Unidos...
Um regime republicano no Iemen para mais após os partidos terem chegado a acordo sobre novas eleições e sobre a promoção da igualdade entre homens e mulheres, decisão de ter 30% de mulheres no Governo e outras medidas “escandalosas” de igualdade de género, tudo isto era um afronta e péssimo exemplo a um país propriedade da família Saud para mais com fronteira comum com o escandaloso Iemen. 
A ONU considera a situação no Iemen, o país mais pobre do mundo árabe, como a maior crise humanitária global em curso atualmente. Considera que 22 milhões de pessoas estão em situação de grande vulnerabilidade. 
O número de civis mortos nestes 3 anos pelos bombardeamentos da Arábia Saudita são estimados, conforme diferentes avaliações, entre 10 e 20 mil.
A Arábia Saudita estabeleceu um bloqueio ao país que impede a ajuda humanitária e impede que bens básicos, como comida, gás de cozinha e medicamentos, cheguem a 70% da população iemenita.
Os ataques aéreos sauditas contra alvos civis indiscriminados e infraestruturas essenciais criaram uma situação que a ONU caracteriza como catastrófica. Destruíram o sistema de saúde do país, dificultando o combate a uma grave epidemia de cólera. que atinge mais de um milhão de pessoas e que até Dezembro de 2017 já matara 2.196 pessoas
Mais de 20 milhões de pessoas, incluindo 11 milhões de crianças, precisam de ajuda humanitária imediata. Há 7 milhões de pessoas dependentes de ajuda para comer e 400 mil crianças sofrendo de desnutrição. Cerca de 2 milhões de iemenitas viram suas casas detruídas e cerca de 200 mil conseguiram fugir do país.
Mas há grandes interesses envolvidos que “vivem” precisamente de mortos, feridos, destruições de cidades e outras bagatelas: os vendedores de armas, em primeiro lugar os EUA. Uma pesquisa da ONG War Child UK informa que só as empresas britânicas desde o início desta guerra teriam lucrado com a venda de armas à Arábia Saudita cerca de 7 mil milhões de euros.
Mas que guerra é esta? Quem está envolvido, que objectivos prossegue, como e quando começou?
Eis o que nos dizem - assertivamente - o ex-diplomata do Iemen em Paris, SADEK Al SAAR e o general iemenita YAHYA SALEH na sua passagem por Lisboa, em 22 de Novembro de 2017, entrevistados por José Manuel Rosendo que publicou as entrevistas no seu blogue "Meu Mundo minha Aldeia" aqui:
http://meumundominhaaldeia.blogspot.com/2017/11/
Lisboa, em 22 de Novembro de 2017, entrevistados por José Manuel Rosendo que publicou as entrevistas no seu blogue "Meu Mundo minha Aldeia" aqui:
http://meumundominhaaldeia.blogspot.com/2017/11/
9 comentários  50 partilhas

Odete Pinto Muito obrigada pelas informações que tanto escasseiam na nossa miserável comunicação social.
Victor Moura Partilhei, espero que não haja inconveniente...
Penso que o assunto está dentro do segredo de Estado
José Guerreiro A desinformação sobre esta guerra ,poderá dizer-se mesmo,por este genocídio,é vergonhosa,irei partilhar.
Henrique Moreira Este importante ponto de situação respeitante ao Iemen merece a partilha que vou fazer.
 · Responder · 2 sem · Editado
Catarina Passinhas
Quem nos dera mais Embaixadores que falem defendendo o seu Povo.
Maria Faustina Fonseca As televisões só dizem o que a direita fascista lhes deixam dizer!!!
José Luís S. Curado
José Luís S. Curado Excelente documento.
Amilcar Costa EUA e Seus Vassalos da NATO São Amigos dos Corruptos da Monarquia Sangrenta e Terrorista da Arábia Saudita...

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2019-05-03

 

"La Donna e Mobile" e "Brindisi" - Pelos 3 tenores

Luciano Pavarotti (1935 - 2007) Modena, Itália.
Placido Domingo (1941 -  ) Madrid. A família mudou-se, era ele ainda muito novo, para o México. 
Josep Carreras      (1946 -  ) Barcelona.
Foram durante muito tempo os maiores tenores. Um clique no nome leva-nos à sua história de vida segundo a Wikipédia.
Em  La Donna e Mobile (ópera Rigoleto de Giuseppe Verdi) a música é belíssima mas a letra da canção, que aqui vos deixo, para vossa ilustração, é um exemplo acabado de misoginia. Esqueçam a letra para continuarem a gostar da música. Em seguida é cantada Brindisi da ópera Traviatta de Verdi.




LA DONNA È MOBILE A MULHER É VOLÚVEL
La donna è mobile A mulher é volúvel
qual piuma al vento Qual pena ao vento
muta d'accento Muda de humor
e di pensiero E de pensamento
Sempre un'amabile Sempre um amável
leggiadro viso Rosto gracioso
in pianto e in riso Em lágrimas e risos
è menzognero É mentiroso
La donna è mobil A mulher é volúvel
qual piuma al vento Qual pena ao vento
muta d'accento Muda de humor
e di pensier E de pensamento
e di pensier E de pensamento
e di pensier E de pensamento
È sempre misero É sempre infeliz
chi a lei s'affida Quem a ela se afeiçoa
chi le confida Quem lhe confia
mal cauto il core Incauto o coração
Pur mai non sentesi No entanto, nunca se sente
felice appieno Plenamente feliz
chi su quel seno Quem no seu seio
non liba amore Não bebe o amor
La donna è mobil A mulher é volúvel
qual piuma al vento Qual pena ao vento
muta d'accento Muda de humor 
e di pensier E pensamentos
e di pensier E pensamentos
e di pensier E pensamentos

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2019-02-27

 

António Lobo Antunes denuncia a Igreja


Quando morrer, não quero a vossa hipocrisia em torno do meu caixão. Basta-me que a sombra de Cristo ou de um dos seus Anjos se apiede, mesmo de longe, ainda que de muito longe, da minha alma pecadora. Não quero nenhum fariseu junto ao nosso diálogo. 

Não perdoo à Igreja nunca ter pedido perdão aos portugueses pela sua colaboração activa com a Ditadura e as iniquidades decorrentes dela, a sua total indulgência, desde a primeira hora, com a injustiça, a crueldade, a desigualdade, a intolerância, os campos de concentração - (Tarrafal, São Nicolau) - a monstruosa polícia política, a violência da censura, o desprezo pelas mulheres, a guerra colonial, a perseguição aos estudantes, aos operários, aos camponeses, a desavergonhada defesa dos ricos, as missas para as criadas, as homilias em que exortavam à obediência aos patrões, a violência para com os sacerdotes e os bispos que ousaram levantar-se contra o Estado Novo, a forma como abençoaram as centenas de milhares de rapazes mandados para África combater as aspirações dos povos colonizados, mandando capelães abençoar aquele horror, apoiar aquele horror, santificar aquele horror  -  (eu estava lá e vi)  -  em nome da luta contra o comunismo ateu, em nome da defesa dos valores cristãos, em nome nome da tolerância, em nome de Cristo. Porque carga de água não tem sequer a simples dignidade de pedir desculpa? Porque carga de água finge esquecer-se? Porque carga de água este silêncio? Eu sou cristão e aprendi a ser fiel até à morte como está escrito no Livro e pergunto: como tem coragem de tocar na Bíblia, como tem coragem de ser hipócrita para com o Senhor? O capelão do meu batalhão em África era um pobre jesuíta que se queixava das instruções que o obrigavam a fazer a apologia do colonialismo em nome do Deus e não tenho a menor dúvida que Jesus o cuspiu da Sua boca. Porque não pede perdão por ter afastado tanta gente da Virtude com as suas atitudes, as suas homilias, até com a utilização ignóbil das pobres crianças de Fátima a quem Nossa Senhora pediu em português  -  (que outra língua saberiam elas?)  -  para rezarem pela conversão da Rússia comunista, elas que nem sabiam o que comunismo queria dizer, manobradas sem vergonha pela hierarquia eclesiástica. O que terá sofrido o nosso capelão   -   (Tenho de fazer isto, tenho de fazer isto, dizia ele)  -  obrigado a louvar a guerra santa, obrigado a prometer o Paraíso aos nossos mortos
  
Basílica de S. Pedro - Roma

criaturas inocentes condenadas a dois anos e tal de um sofrimento injusto. E a Igreja, passados mais de quarenta, permanece em silêncio, completamente alheada da sua culpa. Isto entende-se? Isto aceita-se? Isto apaga-se? Claro que os filhos das classes altas não iam para a guerra. Conheço filhos dessas classes altas poupados a África com desculpas inacreditáveis. Conheço os seus nomes e conheço as desculpas, desde “incompatibilidade psicológica com o Exército” (posso citar nomes) até “incontinência urinária” (posso citar nomes), até “pé chato” (posso citar nomes), até classificações aldrabadas durante a especialidade (posso citar nomes), e é impossível que a Igreja não soubesse disto. Soube, claro, colaborou. E até hoje nenhuma voz oficial dela se ergueu, nenhuma voz oficial dela protestou, nenhuma voz oficial dela pediu perdão a Portugal, nenhuma voz oficial dela pediu perdão aos portugueses, nunca os sucessivos cardeais roçaram sequer este assunto quanto mais falar nele. Pelo contrário: abençoaram o Estado Novo que perseguiu os sacerdotes que ousaram, ainda que só timidamente, levantar a voz contra isto tudo. Perseguiram-nos, expulsaram-nos fizeram-lhes a vida negra. Nem disso a Igreja a que pertenço tem vergonha? Um bocadinho de vergonha ao menos? Limitou-se a arranjar bispos castrenses que aceitaram, apadrinharam, foram cúmplices desta situação.

Baílica de S. Pedro - Roma

Não temos uma Igreja de Cristo, temos, sob muitos aspectos, uma Igreja hipócrita e complacente. Cristo não foi nunca hipócrita nem complacente: Porque é que a Igreja portuguesa o é? Tenho o maior orgulho no meu País, não tenho o menor orgulho nesta Igreja. Se Cristo aqui estivesse vomitá-la-ia da sua boca por não ser fria nem quente. Meu Deus será que nem arrependimento existe? Será que pensa que a memória dos homens é curta? Será que pensa que os portugueses esquecem? Será que não se importa de ser vendilhão do Templo? Será que acredita que vai ficar impune aos olhos do Senhor? Será que imagina que o Senhor não sabe? Será que toma Deus por parvo? Será que cuida que São Paulo, por exemplo, não a varreria? Onde estão as palavras do Senhor? Os Seus ensinamentos? O Seu exemplo? Ainda que em linguagem aparentemente críptica Cristo foi sempre muito claro. E quem quiser ouvir que oiça. A ditadura acabou em 1974, há quarenta e três anos portanto. E nem uma voz até hoje? Nem um simples pedido de perdão, nem uma confissão fácil   -   Errei   -   não existe nenhuma humildade honesta neste silêncio, não existe o simples assumir de uma culpa, de um erro formidável, de um silêncio indecente. Dói-me na alma que a minha Igreja, o meu Deus sejam amesquinhados e esquecidos pelos que se dizem Seus filhos. Tenho vergonha. Tenho nojo. Tenho pena de vós que pagareis por isto. Será que um simples pedido de desculpa não alivia a alma? Parece que não. Por isso, quando morrer, não quero a vossa hipocrisia em torno do meu caixão. Basta-me que a sombra de Cristo ou de um dos seus Anjos se apiede, mesmo de longe, ainda que de muito longe, da minha alma pecadora. Não quero nenhum fariseu junto ao nosso diálogo. Quereria um Homem Justo. Um Homem Justo bastava-me. Onde, na hierarquia da Igreja, da minha pobre Igreja, ele estará?

(VISÃO, de 8 de junho de 2017)

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2019-02-23

 

ARNALDO MATOS e o MRPP

Arnaldo Matos faleceu e naturalmente muitos são os comentários sobre esta controversa figura pública.
Quando está em marcha uma revolução – no caso a do 25 de Abril de 1974/75 – ser-se ultra revolucionário e assim mobilizar contra ela partidários da mudança menos conhecedores dos mecanismos da política é uma forma de sabotar a revolução e tornar-se um instrumento 
objectivo da contrarrevolução. Foi esse o papel do MRPP e de Arnaldo Matos na revolução portuguesa, para lá do papel positivo que terá tido durante o regime fascista.
Alguns jovens revolucionários com grande qualidade, palmilharam esse sedutor caminho até ao momento em que descobriram que afinal ele conduzia à ravina. Vários são hoje respeitáveis figuras da política e da cultura.

Em  1974-1975 e anos seguintes Arnaldo Matos, o ultra revolucionário dirigente do MRPP, muito apreciado, ainda que apenas nos bastidores da política, pelos líderes da contrarevolução, dizia que a revolução nascente de 1974 era:


 “uma manobra da burguesia promovida por um sector da oficialagem do exército colonial-fascista" e desencadeada “contra a camarilha marcelista”.

em Fevereiro de 1976 dizia que “A Constituinte é um covil de parasitas”, definindo as primeiras eleições legislativas pós-25 de Abril como “uma manobra da burguesia para obter do povo um aval, o cheque em branco de que falava a camarilha marcelista, para, no dia seguinte à abertura do novo Parlamento, impor aos operários e aos camponeses a mais desenfreada das explorações e a mais impiedosa das repressões”. A Constituinte era “um moinho de palavras” que servia para “aplaudir a quatro patas os conluios celebrados, fora da Constituinte, entre as diversas facções da classe dominante”.   (Aqui: Link )

Entretanto Marcelo Rebelo de Sousa comenta no “sítio” da Presidência da República o falecimento de Arnaldo Matos:

       “Personalidade da vida pública portuguesa conhecida pelo desassombro das suas intervenções, Arnaldo Matos ficará na memória de todos como um defensor ardente da liberdade e como um lutador pela causa da justiça social e dos mais desfavorecidos.
Concordando-se ou não com as suas ideias e afirmações, a voz de Arnaldo Matos, pela sua intransigente independência, contribuiu decisivamente para enriquecer o debate democrático e para o pluralismo de opinião no seio da sociedade portuguesa.
Por tudo isso, Portugal ficou mais pobre com o seu desaparecimento. “

Tais considerações do PR só são entendíveis com o presumível regresso mental aos tempos do PREC em que Marcelo, então importante figura da direita nacional, assim entenderia o papel do líder do MRPP.

Já no Público Pacheco Pereira diz sobre Arnaldo Matos:

"Outro aspecto muito sui generis do MRPP era o modo bem pouco leninista como se entrava e saía da organização, como foi o exemplo do próprio Arnaldo Matos, que, em luta pela “linha vermelha” contra a “linha negra”, se afastou da organização, sempre com uma pertença ambígua. Dedicou-se durante longos anos à sua profissão de advogado num grande escritório de advogados, para voltar recentemente de novo ao MRPP, envolvido numa luta fratricida e excessiva com Garcia Pereira. Arnaldo Matos escreveu coisas inomináveis, quase obscenas, sobre os seus adversários, usando o pseudónimo de “Espártaco”, e a violência dos textos marcou os seus últimos anos de vida."(Aqui link)   

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2019-02-07

 

A Nova Guerra Fria e a Venezuela


Artigo de Boaventura Sousa Santos, director do Centro de Estudos Sociais, no Público de 2019-02-06  (sem os mapas )

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Não é difícil concluir que não está em causa a defesa da democracia venezuelana. O que está em causa é o petróleo da Venezuela.

O que se está a passar na Venezuela é uma tragédia anunciada, e vai provavelmente causar a morte de muita gente inocente. A Venezuela está à beira de uma intervenção militar estrangeira e o banho de sangue que dela resultará pode assumir proporções dramáticas. Quem o diz é o mais conhecido líder da oposição a Nicolas Maduro, Henrique Capriles, ao afirmar que o Presidente-fantoche Juan Guaidó está a fazer dos venezuelanos "carne para canhão".
Ele sabe do que está a falar. Sabe, por exemplo, que Hugo Chávez levou muito a
sério o destino da experiência socialista democrática de Salvador Allende no Chile. E que, entre outras medidas, armou a população civil, criando as milícias, que obviamente podem ser desarmadas, mas que muito provavelmente tal não ocorrerá sem alguma resistência. Sabe também que, apesar do imenso sofrimento a que o país está a ser submetido pela mistura tóxica de erros políticos internos e pressão externa, nomeadamente por via de um embargo que a ONU considera humanitariamente condenável, continua entranhado no povo venezuelano um sentimento de orgulho nacionalista que rejeita com veemência qualquer intervenção estrangeira.
Perante a dimensão do risco de destruição de vidas inocentes, todos os democratas venezuelanos opositores do governo bolivariano fazem algumas perguntas para as quais só muito penosamente vão tendo alguma resposta.
Porque é que os EUA, acolitados por alguns países europeus, embarcam numa posição agressiva e maximalista que inutiliza à partida qualquer solução negociada? Porque é que se fazem ultimatos típicos dos tempos imperiais dos quais, aliás, Portugal tem uma experiência amarga? Porque foi recusada a proposta de intermediação feita pelo México e o Uruguai, que tem como ponto de partida a recusa da guerra civil? Porque um jovem desconhecido do povo venezuelano até há algumas semanas, membro de um pequeno partido de extrema-direita, Voluntad Popular, directamente envolvido na violência de rua ocorrida em anos anteriores, se autoproclama Presidente da República depois de receber um telefonema do vice-presidente dos EUA, e vários países se dispõem a reconhecê-lo como Presidente legítimo do país?
A legitimidade concedida a um Presidente-fantoche e a uma estratégia que muito provavelmente terminará em banho de sangue faz-me sentir vergonha do meu Governo
As respostas virão com o tempo, mas o que vai sendo conhecido é suficiente para indicar por onde surgirão as respostas. Começa a saber-se que, apesar de pouco conhecido no país, Juan Guaidó e o seu partido de extrema-direita, que tem defendido abertamente uma intervenção militar contra o governo, são há muito os favoritos de Washington para implementar na Venezuela a infame política de regime change. A isto se liga a história das intervenções dos EUA no continente, uma arma de destruição maciça da democracia sempre que esta significou a defesa da soberania nacional e questionou o acesso livre das empresas norte-americanas aos recursos naturais do país. Não é difícil concluir que não está em causa a defesa da democracia venezuelana. O que está em causa é o petróleo da Venezuela.
A Venezuela é o país com as maiores reservas de petróleo do mundo (20% das reservas mundiais; os EUA têm 2%). O acesso ao petróleo do Médio Oriente determinou o pacto de sangue com o país mais ditatorial da região, a Arábia Saudita, e a destruição do Iraque, da Síria, da Líbia, no Norte de África; a próxima vítima pode bem ser o Irão. Acresce que o petróleo do Médio Oriente está mais próximo da China do que dos EUA. Enquanto o petróleo da Venezuela está à porta de casa.
O modo de aceder aos recursos varia de país para país, mas o objectivo estratégico tem sido sempre o mesmo. No Chile, envolveu uma ditadura sangrenta. Mais recentemente, no Brasil, o acesso aos imensos recursos minerais, à Amazónia e ao pré-sal envolveu a transformação de um outro favorito de Washington, Sergio Moro, de ignorado juiz de primeira instância em notoriedade nacional e internacional, mediante o acesso privilegiado a dados que lhe permitissem ser o justiceiro da esquerda brasileira e abrir caminho para eleição de um confesso apologista da ditadura e da tortura que se dispusesse a vender as riquezas do país ao desbarato e formasse um governo de que o favorito pró-norte-americano do futuro do Brasil fizesse parte.
Mas a perplexidade de muitos democratas venezuelanos diz especialmente respeito à Europa, até porque no passado a Europa esteve activa em negociações entre o governo e as oposições. Sabiam que muitas dessas negociações fracassaram por pressão dos EUA. Daí a pergunta: também tu, Europa? Estão conscientes de que, se a Europa estivesse genuinamente preocupada com a democracia, há muito teria cortado relações diplomáticas com a Arábia Saudita. E que, se a Europa estivesse preocupada com a morte em massa de civis inocentes, há muito que teria deixado de vender à Arábia Saudita as armas com que este país está a levar a cabo o genocídio do Iémen. Mas talvez esperassem que as responsabilidades históricas da Europa perante as suas antigas colónias justificassem alguma contenção. Porquê este alinhamento total com uma política que mede o seu êxito pelo nível de destruição de países e vidas?
LER MAIS
·         Venezuela, para que conste
A pouco e pouco se tornará claro que a razão deste alinhamento reside na nova guerra fria que entretanto estalou entre os EUA e a China, uma guerra fria que tem no continente latino-americano um dos seus centros e que, tal como a anterior, não pode ser travada directamente entre as potências rivais, neste caso, um império declinante e um império ascendente. Tem que ser travada por via de aliados, sejam eles num caso os governos de direita da América Latina e os governos europeus, e, noutro caso, a Rússia. Nenhum império é bom para os países que não têm poder para beneficiar por inteiro da rivalidade. Quando muito, procuram obter vantagens do alinhamento que lhes está mais próximo. E o alinhamento tem de ser total para ser eficaz. Isto é, é preciso sacrificar os anéis para não se irem os dedos. Isto é tão verdade do Canadá como dos países europeus.
Tenho-me reconhecido bem representado pelo Governo do meu país no poder desde 2016. No entanto, a legitimidade concedida a um Presidente-fantoche e a uma estratégia que muito provavelmente terminará em banho de sangue faz-me sentir vergonha do meu Governo. Só espero que a vasta comunidade de portugueses na Venezuela não venha a sofrer com tamanha imprudência diplomática, para não usar um outro termo mais veemente e verdadeiro da política internacional deste Governo neste caso.

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2019-01-24

 

A CGD emprestou contrariando pareceres e perdeu 1.200 milhões de €

A CGD fez empréstimos de cerca de três mil milhões de euros contrariando pareceres que informavam da ausência de garantias de pagamento e perdeu 1.200 milhões de euros.

Mas como foi para ajudar cerca de um milhão de portugueses atingidos pela pobreza ou pelo roubo de salários e pensões impostos pela "troica" ...

 desculpem, equivoquei-me...

os empréstimos foram a grandes empresas de gente multimilionária que depois não esquecem os favores e dão chorudos empregos a quem nos governos ou no Estado lhes fez favores destes com o nosso dinheiro.

Sim, porque se o dinheiro fosse dos Srs administradores ou dos governantes que autorizaram os empréstimos, outro galo cantaria.

Aconteceu alguma coisa a esta gentinha que malbaratou o dinheiro do Estado - o nosso dinheiro - que deveria ir para para o Serviço Nacional de Saúde, para o Ensino ou para a Segurança Social?

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2019-01-15

 

RODRIGO TAVARES : Manual de Instruções para Entender o Governo Bolsonaro

Artigo de Rodrigo Tavares* original aqui: link
14 DE JANEIRO DE 2019 - 13:19

O problema do novo governo brasileiro não é a ideologia de extrema-direita mas a falta de uma ideologia.

A embalagem diz que o governo de Jair Bolsonaro é de extrema-direita, antissistema, tecnocrata e formado pelos mais resilientes à corrupção. Porém, as primeiras semanas de administração destapam um cenário diferente, que vai ficando cada vez mais ostensivo à medida que o tempo passa.
Sem experiência executiva e, por isso, sem acesso a uma equipe de trabalho lubrificada e preestabelecida, Bolsonaro não conseguiu compor um governo conexo.
Na verdade existem pelo menos três governos dentro do governo Federal, com vasos comunicantes coagulados entre eles.
O primeiro é o dogmático. É a concessão de Bolsonaro às suas inquietações néscias e às igrejas evangélicas dos subúrbios das grandes cidades. É o regresso ao julgamento de Galileu pela Inquisição. Sem eloquência nem 
ciência,  defende-se o fim do "globalismo" e do "marxismo cultural" (Ministro das Relações Exteriores), creem ter tido visões de Jesus Cristo em cima de uma goiabeira (Ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos) ou acreditam que "Deus está de volta ao Brasil" (Ministro da Educação). É o grupo dos despreparados e dos que gerarão a matéria-prima para o escárnio internacional.
Mas serão úteis também. Servirão para desviar as atenções das medidas impopulares aplicadas por outros grupos, darão conforto emocional aos brasileiros que verdadeiramente acreditam que o criacionismo deve ser ensinado nas escolas e o socialismo abolido dos livros, e ajudarão a cultivar bodes expiatórios. Se alguma coisa der errado, a culpa será dos opositores do regime: os defensores dos direitos humanos, a esquerda que "propaga que um feto humano é um amontoado de células descartável," ou os intelectuais e artistas "que vivem à custa de subsídios públicos."
É um grupo que idolatra Bolsonaro.
O segundo é o jurídico-militar-policial. É quem gosta de dar um murro na mesa e pôr ordem na casa. São os tratores que passam por cima do cereal para cortar caminho. Se for necessário dar ordens ao presidente, darão. Dos 22 ministros, sete são militares. É o grupo responsável pela coordenação estratégica, infraestrutura, segurança e defesa nacional, ciência, e minas e energia. Controlam os temas ligados à soberania nacional. Têm destaque o Vice-Presidente Hamilton Mourão, o Ministro da Justiça Sérgio Moro, o chefe da Secretaria de Governo (ministério que faz a ponte com o Congresso) Carlos Alberto dos Santos Cruz e o chefe do Gabinete de Segurança Institucional (responsável pelos serviços de inteligência), Augusto Heleno. Participam no governo com régua e esquadro. Encaram-no como uma missão de paz no Congo ou no Haiti.
É um grupo que mantém uma relação meramente institucional com Bolsonaro.
O terceiro grupo é o económico. Aqui o interesse é monetário. Liderado pelo Ministro da Economia Paulo Guedes, é composto por pessoas de ideias liberais que fazem uma incursão rápida pelo governo para vitaminar as suas carreiras e garantir o enxugamento da máquina do estado. Conhecem-se todos há muito tempo, partilharam universidades no estrangeiro, palestras em São Paulo e dividendos anuais em fundos de investimento. É por causa deste grupo que a elite brasileira votou em Bolsonaro. Marcarão o governo pelo pragmatismo. Tanto farão alianças com a China quanto com os EUA, cortarão dinheiro para a segurança social, apoios culturais e programas sociais até que o Excel fique no azul. Direitos trabalhistas, interesses indígenas e vontades da população negra não fazem parte do algoritmo. Mudança da Embaixada para Jerusalém? É um cataclismo irrelevante, desde que não afete as contas públicas.

O Ministro do Meio Ambiente, que em entrevista exclusiva à TSF , deixou claro que a sua prioridade é garantir a eficiência da máquina pública, diminuir o assistencialismo do estado às ONGs ambientalistas e cimentar uma aliança entre a sustentabilidade e o desenvolvimento económico, também faz parte deste grupo.
Quando a faca bater no osso, os integrantes deverão começar a sair do governo e a reocupar cargos no mercado financeiro. É um grupo que abomina os seus colegas dogmáticos, inquieta-se com o peso que o grupo militar possa vir a ter e que não nutre um particular respeito por Bolsonaro. Se conseguirem concluir o trabalho no primeiro mandato, vão torcer para que o presidente não se recandidate. Preferirão apoiar um republicano em sentido americano e alguém menos constrangedor. Um Sebastián Piñera brasileiro.
É por isso que o governo Bolsonaro, contrariamente ao que indica o anúncio, está longe de ser um governo ideologicamente homogéneo e mais longe ainda de ser um governo de extrema-direita. A maioria dos seus membros é simplesmente uma massa utilitarista e pragmática - seguem o poder. Também está longe de ser um governo antissistema. A maioria passou por governos anteriores, pelo Congresso Nacional ou por Assembleias Estaduais e quase todos são filiados a partidos políticos. O novo presidente do banco estatal de desenvolvimento BNDES, a joia da coroa da economia brasileira, foi ministro das Finanças da petista Dilma Rousseff.
Também não é um governo tecnocrata, que conseguiu atrair as melhores cabeças. 

Com meia dúzia de exceções, a qualidade técnica das pessoas é baixa. O Ministério da Educação, por exemplo, foi ocupado por educadores que se destacaram nas redes sociais e em blogues pelas suas teses radicais e autodidatas. O novo responsável pelo ENEM, a prova que dá acesso ao ensino superior, já defendeu publicamente que os professores no Brasil "pregam o aborto, incesto e pedofilia."
Finalmente, está muito longe de ser um governo dos puros. Alguns ministros e pessoas próximas a Bolsonaro, incluindo a própria família, ocuparam as manchetes dos jornais nas últimas semanas com suspeitas de corrupção e casos de improbidade administrativa e de fraude. E em nenhuma destas situações Bolsonaro tomou uma posição de força, de líder, ao afastá-las enquanto estivessem a ser investigadas.
E Agora?
Nos primeiros meses o Governo deverá anunciar medidas significativas, algumas delas durante o Fórum Económico Mundial, em Davos, na Suíça, ligadas à reforma da segurança social e do sistema tributário, à manutenção (ou não) do subsídio ao óleo diesel para os camionistas ou à privatização de empresas e infraestruturas públicas. Gerarão alguma empolgação.
Mas estes anúncios não deverão conseguir mascarar os riscos inerentes a este governo.
A comunicação entre os três grupos é gaguejante, como se viu logo na primeira semana quando Bolsonaro anunciou um conjunto de novas medidas económicos e foi humilhado por um secretário de estado que, a pedido do Ministro da Economia, desmentiu-as todas em público no mesmo dia. É como António Costa apresentar, de manhã, o novo aeroporto do Montijo e o Secretário de Estado das Infraestruturas dizer, à tarde, que afinal vai ser na Ota.
Por isso, os maiores riscos deste governo não advêm do tamanho de criança do vocabulário de Bolsonaro nem da sua feição intolerante. O presidente é apenas um ser "ignorante, abanando com a cabeça que sim" (como Eça de Queiroz descreveu a Assembleia da República). Alguém que preza o escapismo e a desconversa para disfarçar as suas ignorâncias. A maior ameaça é a possibilidade do governo começar a esfarelar-se por dentro - conflitos internos, duplicação de funções, falta de comunicação, adoção de medidas inoperantes, casos de corrupção.
Se a sua 8.ª maior economia tornar-se ingovernável, o mundo será afetado. E Portugal necessariamente também.
* Rodrigo Tavares é fundador e presidente do Granito Group. A sua trajetória académica inclui as universidades de Harvard, Columbia, Gotemburgo e California-Berkeley. Foi nomeado Young Global Leader pelo Fórum Económico Mundial.

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