Notas a propósito do debate sobre o Programa do Governo (2)
O comportamento da Direcção do PCP ao longo dos últimos 35 anos de democracia é absolutamente confrangedor pela forma como tem ingloriamente delapidado e desperdiçado o valioso património histórico e revolucionário desse partido.
Um dos sinais inequívocos desta evolução é o enormíssimo número de quadros e militantes, muitos deles com largos anos de clandestinidade, que se afastaram do partido, invocando quase sempre razões de falta de democracia interna, de dogmatismo e de sectarismo. Outro sinal inequívoco é a contínua perda de influência na sociedade traduzida, por exemplo, pela continuada redução dos seus resultados eleitorais, tanto em eleições legislativas como autárquicas. Outro sinal ainda é a indisponibilidade que o PCP sempre tem manifestado para fazer qualquer coligação, aliança, acordo pré ou pós eleitoral com o PS, a nível nacional ou municipal, para derrotar a direita, com excepção do município de Lisboa, no período 1989-2001, com resultados muito positivos.
Para o PCP, o PS é o "inimigo" principal!
Nas últimas eleições legislativas e autárquicas, esta situação manteve-se, com grande vantagem para a direita,mas também com grande prejuízo para o PCP. Basta ver o que se passou com os resultados eleitorais para a Câmara Municipal de Lisboa em que o PCP, contrariamente ao que se verificou no passado, deixou de ser necessário para a esquerda derrotar a direita com maioria absoluta.
"Barack Obama é um comunista muçulmano do Quénia que quer transformar os Estados Unidos na União Soviética". Esta fantasia vendida como facto domina há meses as ondas de rádio e televisão na América como uma visão politizada da Guerra dos Mundos de H.G. Wells." - (Pedro Guerreiro TABU - Sol 2009-11-06)
A extrema direita republicana e a FOX News do magnate dos media, Rupert Murdoch, além de muitos outros meios de comunicação, inundam os EUA de lixo tóxico com o rótulo de notícias e de factos. No centro dos ataques está, como se de obra do diabo se tratasse, o serviço nacional de saúde público e gratuito que Obama quer levar por diante.
A face do ódio racial e social: Roger Ailes ( da Fox), Rush Limbaugh, Glen Beck (8 milhões de ouvintes na rádio) clama: "Obama tem um ódio profundo pelos brancos"
A campanha contra o Presidente dos EUA começou no dia seguinte à sua eleição. A crise e o desemprego filhos directos das políticas neo-liberais extremadas e incensadas pelos neo-cons servem agora como armas de arremeço contra Obama.
O "comunista muçulmano do Quénia " bem quer mas dificilmente pode.
Comparada com isto a nossa querida Moura Guedes tão assanhadinha contra o nosso 1º mais parecia uma pomba.
Notas a propósito do debate sobre o Programa do Governo (1)
Nas últimas eleições legislativas, os eleitores votaram em função da sua avaliação sobre a acção do Governo, do PS e dos partidos da oposição durante a última legislatura, e sobre as propostas dos vários partidos para governar o País durante a legislatura que agora se inicia. Os resultados, como se sabe, conduziram à seguinte distribuição de deputados na AR: PS-97, PSD-81, CDS/PP-21, BE-16 e PCP/PEV-15.
Como resulta destes números, o partido que teve a avaliação mais positiva foi o PS, competindo-lhe, portanto, formar o Governo e governar. É esse o sentido do voto dos eleitores.
O PS, não tendo obtido uma maioria absoluta de deputados na AR, mas procurando assegurar as melhores condições possíveis de estabilidade governativa de que o País tanto carece face aos problemas que tem pela frente, fez o que devia: reuniu separadamente com cada um dos partidos da oposição, propondo-lhes, sem condições prévias, uma discussão conjunta com vista ao estabelecimento de um compromisso para a estabilidade governativa com reflexos no Programa de Governo a apresentar na AR. Como se sabe, esta proposta foi rejeitada por todos os partidos da oposição que optaram por se conduzir, na sua acção política futura, pela defesa dos seus próprios programas eleitorais. Assim, o Programa de Governo apresentado na AR corresponde, na íntegra, ao programa eleitoral do PS, maioritariamente aprovado pelos eleitores.
Não deixa, por isso, de ser paradoxal que os partidos da oposição venham dizer agora que, ao apresentar tal Programa de Governo, o PS deu provas de que não soube entender os resultados eleitorais.
A verdade, no entanto, é que são os partidos da oposição que se recusam a compreender os resultados eleitorais.
Por exemplo, o PCP continua sem compreender porque é que, desde as eleições legislativas de 1979, em que teve 18,8% dos votos, tem vindo a perder influência junto dos eleitores, passando para valores entre 8% e 10% a partir das eleições legislativas de 1991, e para valores abaixo de 8% a partir das eleições legislativas de 2002, tendo mesmo, nas últimas eleições, ficado abaixo do CDS/PP e do BE. Aliás, idêntica perda de influência tem vindo a ser registada nas eleições autárquicas.
O PSD também continua sem compreender porque é que, apesar da crise económica, financeira e social que tem assolado a Europa e o Mundo, em geral, e tanto tem afectado Portugal, penalizando, naturalmente, o Governo, e apesar das “campanhas negras” que têm procurado visar o PM, teve um resultado abaixo dos 30%, o que constitui o quarto pior resultado nas 12 eleições legislativas realizadas desde 1976. Isto sem falar da crise interna permanente em que tem estado envolvido nos últimos anos e que se traduz, entre muitas outras manifestações, pelo facto de, desde 2005, já ter tido 4 líderes, correndo mesmo, de forma acelerada, para o quinto.
Não ficaria mal, portanto, a estes partidos, um pouco mais de humildade e contenção e menos arrogância na sua postura.
Esquecendo o que está lá mais para trás tínhamos o gang do BPN, a burla dos submarinos, o caso Portucale. Ajoujados com tanta corrupção, negócios esconsos parecia já termos roubalheira que chegasse para país de tão amenos costumes. O gang da sucata, envolvendo pessoal da área do PS vem equilibrar o grau de envolvimento na corrupção das diferentes áreas do arco do poder.
(Fica já aqui expresso que todos são considerados inocentes até a coisa estar transitada em julgado, etc e tal. E que tudo o que vem nos jornais respeita meticulosamente o segredo de Justiça...)
O ambiente é deprimente e no meio da crise, do desemprego, da precaridade, do endividamento do país, das escandaleiras, da banca à sucata, se a Justiça não funcionar com mais eficácia e maior credibilidade, só poderemos esperar mais descrédito para o regime democrático e piores dias para quem paga as favas.
Para dizer a verdade nada disto constitui grande surpresa e os mais atentos sabem que se maior fosse a transparência nos grandes negócios e na política muito mais casos haveria para nos escandalizarmos.
Não é expectável acabar com a corrupção mas é expectável diminuí-la e muito. Assim se tomem as medidas que se impôem. O momento é apropriado até porque com um governo minoritário não apenas este mas também a oposição na AR têm a oportunidade de mostrar até onde querem ir.
Há muito caminho para andar e também no estado moral e cívico da sociedade que deixa muito a desejar como o provam as folgadas vitórias eleitorais de notórios corruptos, indiciados ou condenados.
Os noticiários da 13h abriram todos com o anúncio de que Paulo Bento vai (finalmente) deixar o Sporting. Dizia um amigo meu, à hora do almoço, que estava à espera de qualquer coisa relacionada com os novos ministros, o modelo de avaliação dos professores ou o dossier Face Oculta. Nada disso. A saída do actual treinador do Sporting Clube de Portugal, que confessou ter ficado "4 meses a mais" naquelas funções, tornou-se o centro e o topo da actualidade no alinhamento das televisões.
Depois, veio a conferência de imprensa (ainda com Paulo Bento), e as televisões foram todas para lá, em directo.
Não há volta a dar.
O melhor é mesmo (re)ler o livro que o jornal i nos oferece hoje . O Banqueiro Anarquista, de Fernando Pessoa.
Quem o (re)ler lançará por certo um olhar mais compreensivo sobre alguns dos nossos actores políticos, financeiros e mediáticos.
Se é verdade que há muito que fazer para tudo ficar na mesma, também é certo que, para tudo piorar, é necessário fazer muitíssimo mais.
A Escola Secundária de Torres Vedras, ainda a vila não se julgava com a importância suficiente para reivindicar o estatuto de cidade, obrigava-se a levar quem a procurava - e lhe pagava uma prestação fora do alcance da maioria dos camponeses da região vinhateira - a adquirir luzes até ao 5º ano do liceu. Com os 4 anos da instrução primária, dos mestres-escola das aldeias, aí estava um top de 9 anos de ciência suficiente para o orgulho de qualquer jovem do Oeste de então e janela de oportunidades para emprego num banco, por exemplo.
Mas quando o meu 5ºano prestou provas e deu notícia, após sucesso nos exames, em Lisboa, da existência de quorum para inaugurar na Secundária o 3º ciclo dos liceus, os nossos professores, o Grilo na Matemática, o major Ângelo Ferrari, na Físico-Química e outros, organizaram-se e elevaram o patamar da docência ao 7º ano do liceu e o prestígio da pacata vila a alturas quase académicas.
Éramos só sete, cinco rapazes e duas raparigas. Dois anos depois seis ingressaram na universidade e um aventurou-se logo nos caminhos da vida profissional. Dois foram a professores universitários, um a professor do ensino secundário, dois a engenheiros e um, com pretensões a reformador da humanidade, interrompeu o curso e meteu-se na política e a clandestino, e agora tenta não perder demasiado tempo a completar este post.
Caro leitor de blogs, esta primeira parte que acabo de lhe oferecer graciosamente tem interesse mas dispensável porque o que interessa mesmo é o seguinte: esses cinco rapazes e duas raparigas de há cinquenta anos que têm opções culturais, políticas e religiosas diferentes, têm, quase todos, filhos e netos, encontram-se regularmente, há quase meio século num restaurante, num passeio ou num café e revelam, sem disso darem fé, que a amizade é algo que existe e é precioso.
Hoje voltámos a encontrar-nos. E ao regressar, encontrei-me, na buliçosa quietude do Metro, a meditar no que nos une e no que nos separa. E se o que nos separa: experiências de vida, preferências culturais, sensibilidades parece ser mais e o que nos une parece ser menos, forçoso é concluir que a diversidade pode ser um factor de aproximação e cimento de amizade.
A única coisa a lamentar é que não têm blog e cinco são mesmo, quase info-excluídos.
______________ Um dia depois reformulacrescentei o final.
Segundo revela o Correio da Manhã, a PJ registou, ao que parece sem qualquer ambiguidade, a voz de Armando Vara, explícita, a pedir 10.000 € ao empresário Manuel Godinho.
Venho retratar-me relativamente aos meus gracejos tolos do poste intitulado "O Todo e as Partes (3)".
Pode ler-se, aliás, na caixa de comentários respectiva, umas quantas chamadas de atenção repreendendo-me pela minha ligeireza analítica.
A todos agradeço.
Aqui fica a correcção.
Afinal não se tratava de uma anedota. Vara pediu mesmo 10.000 € ao empresário.
Atente-se todavia que as apostas começaram a estalar nos bastidores: o assunto é para ser esquecido. Está em jogo muito mais do que um punhado de euros (era essa a minha tentativa de ironizar...). De tal modo que, Medina Carreira, com o seu tremendismo proverbial, trouxe a banca das apostas, ontem, para defronte das câmaras de televisão.
- "Querem apostar que daqui a pouco tempo já está tudo esquecido?!" - soltou ele, convencido e chocarreiro.
Sei que é uma maneira de desabafar que não apaga a esperança de um dia, porventura, as coisas poderem mudar e sermos obrigados a confessar que nos enganámos...
Tinha feito 100 anos no ano passado. A sua longevidade levava-nos a gracejar acerca do poder terapêutico do estruturalismo. As ideias e os métodos que ajudou a criar inscreveram-se indelevelmente na cultura (ou nas nossas culturas) e ficaram a pertencer ao grupo das "incontornáveis". Depois de entendida a contribuição de Claude Levi-Strauss, o nosso olhar transformou-se. Passámos a ver no outro um ser da nossa espécie, e a procurar no seu quotidiano uma pista de signos por compreender.
Ajudou-nos a ridicularizar o carácter obsoleto de conceitos como "selvagem" e "primitivo", varrendo do pensamento sobre as relações humanas as teias de aranha que ainda dominaram o III Reich, produziram o Holocausto e o fizeram voar para os Estados Unidos, permanecendo por lá até à libertação da França.
Esse Vara. Esse Vara! 1º no Governo de Guterres com o caso da Fundação para a Prevenção Rodoviária, e logo, fresquinho ainda, na administração da CGD. As oposições rosnaram baixo, enquanto as maiorias assobiavam para o ar. O costume. Que se há de fazer? É o trajecto típico de ministros e secretários de Estado que pertencem ao clã do vou ali e já venho, à volta cá te espero. Depois do governo, uma vida de gestores de topo, nas empresas do Estado, ou equiparadas, onde o Estado tenha golden shares, enfim, mande no Conselho de Administração, dê ordens, apesar de o 1º Ministro vir dizer, de tempos a tempos, que não senhor, que quem manda lá são os accionistas, que sabem muito bem defender os seus interesses.
Pois sabem.
Vai senão quando, estava já Vara assente a aprender a ser banqueiro do povo, dá-se aquela moscambilha no BCP/Milennium, com o Berardo a gritar por um lado, o Jorge Jardim a gemer pelo outro, e os buracos financeiros a rebentar como bombas de carnaval, crédito mal parado perdoado a familiares, financiamento para compra de acções próprias, contabilidades criativas em paraísos fiscais. O Estado tem de intervir, tem de nacionalizar, mas como a crise ainda não se tinha declarado, nacionalisemos sem dar ar disso, pronto, excelente ideia, vai a Administração da CGD, em peso, para o BCP/Millennium, tomem-me lá conta disso, o sistema financeiro não pode aguentar tanta ameaça, os banqueiros não são todos os mesmos, mas há alguns mesmos que são muito parecidos com os outros.
Já no seu descanso do BCP, Vara é assediado por empresários sem escrúpulos, entre eles o milionário da sucata (parece título de telenovela de tão sugestivo!) que trazia a PJ na peugada, desconfiada de que ele se andava a insinuar junto de gentes com influência para conseguir contratos e outros negócios de favor com empresas em que o Estado tem o lote dourado de acções.
Lê-se a imprensa e não se acredita. Dez mil euros? Mas para que quereria Vara dez mil euros? Por se ter esquecido da carteira em casa naquela manhã? Por distracção? Para não desfeitear o sucateiro? Ó pá, dá cá dez mil e não se fala mais nisso?
Putativos membros de um lobby tentacular (as notícias sublinham o "tentacular" para nós pensarmos naquela série italiana do Polvo, quase de certeza), arrastam-se pelas lamas da calúnia, os nomes dos Penedos, dos Barreiras, dos Costas, dos Contradanças...
O país contorce-se, convulsivo. Então a justiça não funciona, e a PJ gasta horas e horas atrás destes contrabandistas de influências, espiando-lhe os opíparos almoços no Mercado do Peixe, escutando-lhe as comunicações telefónicas, espreitando para dentro dos automóveis nas portagens?
Afinal há ou não há justiça? - perguntam-se os desabusados cidadãos, preocupados com este desnorte na administração das empresas públicas e privadas. No fundo, com uma ponta inconfessável de inveja por não pertencerem ao grupo mágico em que, entre o café e o armagnac, um deles se vira para o outro e lhe diz: passa para cá dez mil euros para me compensares de umas chamadas que tenho andado a fazer para tratar de assuntos do teu interesse...
E é aqui que o mortificado cidadão estaca, fica paralisado, com os olhos a rolarem nas órbitas de tantos pensamentos que se entrechocam e amarfanham.
Há aqui qualquer coisa que não bate certo.
Dez mil euros?
Mesmo que o resto batesse certo (favorecimento de negócios, influência política, corrupção activa, traição ética...), esta quantia não pode estar certa. Ou, se estiver, o cenário mais provável é o de Vara estar a preparar o seu regresso à CGD.
Se soubessem quanto o homem ganha por mês, não o punham a reclamar um montante tão exíguo.
Para que quereria Vara dez mil euros?
Os investigadores da PJ, tal como os jornalistas, não terão percebido que se tratava de uma anedota?
Quando Paulo Rangel disse ontem a Judite de Sousa (RTP1) que apoiaria Marcelo Rebelo de Sousa nas directas, acrescentou uma justificação curiosa. Marcelo, em sua opinião, é o melhor que há para fazer oposição, quer esteja o PS no poder, quer esteja o PSD. A franqueza irrefreável de Rangel pode gerar um efeito contraproducente. Assim, Marcelo, que já se havia recusado a ir ao ringue em que os barões transformaram a disputa pela liderança do PSD, fica a saber que estes propiciadores de uma nova vaga de fundo não o querem manter ao leme logo que o PSD regresse ao poder.
A mensagem é clara.
Sabemos que em política todas as soluções têm prazo de validade, mas, deste modo, com tanta advertência, pode dizer-se que a diferença entre subir ao ringue ou receber um presente envenenado, é quase nenhuma.
O PSD enfrenta um daqueles momentos paradoxais que sucedem na história das instituições: quem pode não quer (ainda); quem quer, (ainda) não tem poder.
Caim anda por aí. E com ele Saramago. Só por si Caim teria suscitado as reacções habituais em casos destes. Mas Saramago deu entrevistas e ao classificar a Bíblia Sagrada de «manual de maus costumes» e apregoar que «Deus não é de fiar» fez o que muitos especialistas de marketing ainda têm de aprender com ele. O Nobel animou não apenas os que estão no ramo da orientação das almas e não aceitam ver o seu múnus tratado de forma lhana e sem a transcendência da parábola mística, como também quem tem currículo em matéria bíblica ou se interessa pelo assunto, sem excluir gentios como eu.
Sobre o livro de Saramago e o contexto paroquiano em que se levantou a polémica falou no Público de 28 João Freitas Branco [link]. Concordo com a defesa que fez de Saramago. No mesmo dia, o Público apresentou no seu site a opinião de Richard Zimler sobre o caso [link]. Zimler, norte-americano de origem, nosso compatriota de adopção é um escritor famoso e um especialista em religiões, especialmente destas que afectam há uns milénios o Ocidente: judaismo e cristianismo nas suas variantes católica e protestante luterana e calvinista e mais uma miríade de igrejas algumas multinacionais outras apenas um negócio de família de âmbito local, principalmente nos EUA.
Zimler, que faz considerações muito interessantes sobre a Bíblia e o seu significado acaba a considerar Saramago um "ignorante" que toma a Bíblia à letra e não entende nada dos livros do antigo testamento do Deuteronómio ao Segundo Livro de Samuel. Conclui que não passa de um pobre ingénuo.
Ora Caim não é um ensaio sobre a Bíblia, uma incursão exegética sobre o Livro Sagrado. É uma história, um romance. Bom ou mau isso já é outro assunto - eu acho-o bastante interessante.
Zimler considerou Saramago um "ingénuo". Tal conclusão só me poderia levar a considerar Zimler um ingénuo. Mas considerar eu Zimler ingénuo por achar ele Saramago ingénuo levaria o leitor arguto a dizer, ali em baixo na caixa de comentários: o autor do post é um ingénuo. Ora assim isto poderia abrir uma série infinita de acusações de ingenuidade sem... fundamento. Antevendo o perigo concluo prosaicamente que Zimler apenas de faz de ingénuo ao considerar ingénuo o Nobel Saramago. E porque se faz Richard Zimler de ingénuo? - marketing, tento eu descortinar - é que de outro modo falaríamos menos de Richard Zimler, escritor famoso mas mais lá fora.
Vasco Pulido Valente diz tão mal de Caim como do Saramago. Toda a gente tem fundamentadíííííssima opinião sobre o livro. Mesmo sem o ter lido. Arre gaita. É demais. Do Bispo ao pároco da minha aldeia, do Sr. Doutor até à ti Maria. Além do Sr. De Sousa Lara, Deus Pinheiro e Cavaco Silva - certamente - desde o Evangelho Segundo Jesus Cristo... Decidi comprar o livro. Depois... se me apetecer direi qualquer coisa. Muito profuuuuuunda.
Quem tenha lido a Bíblia, por alto ou por baixo, recordar-se-á que a personificação de Deus se vai alterando, ao ponto de, mesmo nas exegeses de muitos católicos, se distinguir Jeová, cruel, despótico e sanguinário chefe tribal, do Antigo Testamento, do Deus muito mais místico, (Pai na Trindade), retórico, ambíguo, aliado do Jesus que veio à terra para nos salvar e de cuja saga dão testemunho os Evangelhos do Novo Testamento, aos quais esperamos que seja apenso, logo que possível, o recentemente revelado Evangelho de Judas, cuja versão dos acontecimentos que rodearam a prisão e execução de Cristo, lança uma nova luz, benevolente e desculpadora, sobre a traição, os trinta dinheiros e a dissidência interesseira.
Quando o visado fala, a perspectiva, geralmente, altera-se.
Julgo ser por isto que muitas gentes se escusam de entrar nesta discussão pública suscitada pelas larachas bombásticas de José Saramago. A evidência do que afirma torna a discussão desinteressante; o julgamento que faz é o seu próprio e, quanto a isso, vá a jogo quem quiser ir e que ganhe o melhor.
Mas há um pequeno pormenor em que talvez valha a pena reflectir um pouco mais.
Os discursos sobre conjuntos heterogéneos convencionalmente unificados (os livros da bíblia, uma carreira política, um regime, a obra de um autor) tendem, de acordo com as respectivas estratégias, a orientar-se por um número limitado de opções: ou defendem o satus quo que beneficia com a invenção daquele conjunto que pode perfeitamente ser tomado em separado, acusando os detractores das partes más de estarem a tomar tudo demasiado à letra, ou se refugiam nas trincheiras do sagrado, desqualificando quem quer que se ponha a duvidar da interpretação oficial.
Resta aos discursos críticos uma de duas vias: ou se deitam a fazer a análise das partes, numa tarefa ciclópica e ingrata, desafiando a capacidade de compreensão e a paciência dos seus públicos, ou arriscam sínteses, muito mais eficazes e estimulantes, apesar de parciais.
Depois do XX Congresso de Partico Comunista da União Soviética, passou-se algo de semelhante com a avaliação dos dirigentes e balanço do estalinismo. Enquanto a ortodoxia sustentava que Staline fizera "algumas" coisas más, mas também fizera umas quantas boas, outros estimavam que as alegadamente boas não chegavam para as más, e execravam o conjunto.
Descido aos infernos, entre a cataquese servida aos miudos de pés descalços na sua infância e a glorificação do estalinismo, José Saramago leu mais do que uma Bíblia.
Atentemos no dever cristão de ouvir um homem atormentado que fala das suas razões.
Debaixo do Sol, nem tudo é vaidade e tempo perdido.
Marcas da Moderna (e muitíssiiiiimooooo moderada) Esquerda (2)
As mulheres socialistas bem se esfalfaram chamando a atenção da direcção do PS para a rara oportunidade que teria, ao constituir o novo governo, de mostrar como interpreta e executa a promessa ideológica da paridade. Apesar de legalmente a Lei não se lhe aplicar por inteiro, José Sócrates poderia fazer a demonstração de que, considerando esta discriminação positiva uma "marca de esquerda", não lhe seria difícil encontrar 50% de mulheres ministeriáveis.
O PS ficou pelos 29%.
Prevendo o azucrinamento de dentro e de fora, o argumento justificativo aponta que, "apesar de tudo", é o governo com maior número de mulheres na sua composição.
Marcas da Moderna (e muitíssiiiiimooooo moderada) Esquerda (1)
A direita separa a economia da sociedade. Diz que põe as empresas antes das pessoas, porque são as empresas que produzem bens e serviços, e geram emprego, enquanto as pessoas (os trabalhadores por conta de outrem em larga maioria) são "apenas" indivíduos, isolados e incompletos, cujas existências só ganham algum sentido no mercado.
Ora como as empresas são entidades abstractas que apenas ganham sentido quando as relações dos que lá trabalham lhes dão vida e algum sentido, a direita isola os empresários dessa teia de relações, protege-os e considera-os os seus interlocutores privilegiados.
Atentando na passagem de Vieira da Silva do Ministério do Trabalho para o da Economia, o que poderemos nós inferir, enquanto o programa do governo é cozinhado?
Que Vieira da Silva espera ser bem recebido pelo novo público alvo, em virtude do seu desempenho à frente do Ministério transacto?
Sim. Não só esperaria, como já recebeu, nas últimas horas, uma série de manifestações de apreço por parte de alguns dirigentes da direita e grandes empresários.
Com sinais de "esquerda" deste tipo, o PSD pode fazer descansadamente o tratamento termal de que anda tão precisado.
Mário Lino deixa o Governo na 2ª f próxima e espero que volte ao Puxapalavra. Não lhe faltarão temas. Por exemplo expor os argumentos que contrariem Campos e Cunha, o arrependido ministro das Finanças de Sócrates, que garante não haver dinheiro para o Novo Aeroporto de Lisboa e para a Alta Velocidade e que tais empreendimentos só contribuirão para o atraso do país.
Aproveito para saudar o Professor António Mendonça que sucederá a Mário Lino.
Com Mendonça são já 4 ministros, Joaquim Pina Moura , Mário Lino, Isabel Pires de Lima e António Mendonça, e quatro Secretários de Estado: Osvaldo de Castro, Victor Neto, José Magalhães, Mário Vieira de Carvalho vindos todos da grande dissidência do PCP do fim dos anos 80 início dos anos 90.
Isto revela a boa escola de quadros políticos que foi o PCP e dá uma ideia (apenas uma pálida ideia) da formidável hemorragia de intelectuais e outros recursos humanos muito capacitados, por ele sofrida . E lendo a Rita Rato fica-se na dúvida se por este caminho o PCP conseguirá colmatar as brechas.
Só hoje vi o programa dos Gatos Fedorentos com Bernardino Soares. O líder do grupo parlamentar do PCP esteve bem. Jovem e boa figura deixou uma boa imagem do seu partido. Longe vão os tempos da gafe "coreana".
Interrogado pelo Gato explicou a provocação que fez ao ministro da Economia Manuel Pinho e o levou à insensata e fatídica cena dos simbólicos cornos.
Bernardino conseguiu duma penada despachar o ministro. Mas Pinho teve uma vitória póstuma: roubou Aljustrel a Bernardino.
Foi há uns anos, quando alguns católicos tentaram explicar a Herman José que os dez mandamentos não deviam ser parodiados com uma tábua de engomar numa lavandaria, nem Moisés tinha incluído nas palavras que o Senhor lhe ditara, "Não pirilamparás a mulher alheia". Alguém escreveu, então, que a Igreja (Católica) estava zangada, mas, como sempre, houve católicos que não se importaram nada com as graçolas de Herman e até confessaram em público acharem-lhe montes de piada. Há sempre católicos que se escandalizam, muito compreensivelmente, quando alguns objectos, associados à sua fé, se podem confundir com ela. Nada de novo.
Uns sim, outros não.
O humor, a crítica, a análise, suscitam sempre reacções de desconforto por parte de quem vive colado aos seus ritos, confundindo-se com eles, sem tempo, vontade ou disposição para se pôr a questioná-los.
Desta vez, porém, com o seu "Caim", José Saramago fez o pleno. Atirou-se ao "Livro" - a Bíblia - que é o elemento identitário reclamado por Cristãos das várias igrejas, Judeus e Muçulmanos. E se é verdade que o gesto da criação (literária e artística) não deve conhecer fronteiras, também é sabido que cada um se indigna com o que entende, e o autor de "Levantado do Chão" já tem uma fila enorme de gentes despeitadas, ofendidas e agravadas, não tanto com o livro, que ainda não tiveram tempo ou vontade de ler (apesar de ser pequeno e de fácil leitura), mas com as detracções que Saramago fez ao ler a Bíblia com olhos de ateu, ao comentá-la sem respeitar a hermenêutica vaticana, e, finalmente, ao tirar conclusões de carácter popular, discutíveis, manhosas e brejeiras tal como convém ao registo popular.
Resultados:
1) o Cardeal Patriarca correu a falar com o 1º Ministro. Há quem pense que é por causa da formação do novo governo. Eu suponho que foi por causa das declarações de Saramago. Quem irá sobraçar a pasta da Cultura?
2) o deputado europeu Mário David afirmou que gostaria de ver Saramago desnacionalizado, explorando as "ameaças" que o nosso Prémio Nobel da Literatura fez ao tomar conhecimento de que o Sec. de Estado da Cultura, Sousa Lara, (de um governo do PSD chefiado por Cavaco Silva) tinha vetado o "O Evangelho segundo Jesus Cristo" expulsando-o da lista de obras concorrentes ao Prémio Literário Europeu. Desde aí, o PSD nunca mais foi o mesmo e, Mário David, também membro do PSD, vem confirmá-lo.
3) Cavaco Silva declina convite dos Gato Fedorento Esmiuça os Sufrágios. Supõem muitos que se trata de uma precaução contra o ridículo. Disparate. Cavaco sabe que seria confrontado com a polémica que a esta hora divide o mundo bíblico. Necessita do apoio de todos para as próximas presidenciais. Deste modo, não beneficiará Caim... nem Abel. Além disso, não terá de explicar-se sobre a lucidês de Sousa Lara e o facto de ele ser seu subordinado na altura do desconchavo.
4) Salman Rushdie ficou cheio de inveja. Palpita-lhe que "Caim" vai ser mais lido do que "Os versículos Satânicos". As taxas de alfabetização, os pluralismos democráticos e os mercados livreiros fazem alguma diferença entre o Irão e a União Europeia.
5) Maitê Proença já encomendou um exemplar de Caim. Depois do que os media portugueses lhe fizeram, não quer que nada do que é português lhe escape.
6) O Papa Bento XVI, ciente das procelas que se avizinham, convidou os Anglicanos a regressarem ao seio Católico. Quinhentos anos, na divina presciência não devem valer mais do que 2 ou 3 segundos dos nossos relógios. O lugar deles na Igreja Católica nem sequer arefeceu ainda. Falta apenas saber se a Coroa Inglesa estará agora pelos ajustes.
Maria Manuela Augusto, Presidente do Departamento das Mulheres Socialistas, veio dizer ao DN (ver notícia intitulada Mulheres do PS querem um governo mais feminino ) que a composição do próximo governo ganharia com a inclusão de um significativo número de mulheres. A aspiração é justificada, tanto mais que vem de um partido que se bateu denodamente pela Lei da Paridade, apontando-a, até, como uma das marcas de "esquerda" da governação socialista. Porém, ao olhar para trás, Maria Manuela Augusto afirma ter feito um "balanço muito positivo" da acção das mulheres nos governos de José Sócrates.
O que quis ela dizer com isto?
Que Ana Jorge, Ana Paula Vitorino e Maria Manuel Leitão Marques estiveram à altura.
A presidente do Departamento Nacional das Mulheres Socialistas, além de esquecer outras mulheres que passaram pelos governos de José Sócrates, refere-se à "própria ministra de Educação, que fez um trabalho excelente - e a quem a história fará justiça."
Ao tratar Maria de Lurdes Rodrigues como um caso à parte, Maria Manuela confirma o carácter especial (problemático? polémico?) que o consulado da Educação revestiu. Porém, ao exprimir o voto de que a história lhe venha a fazer justiça, a presidente das Mulheres Socialistas parece estar a sustentar a tese de que a história ainda não lhe fez justiça.
Já agora, convém não deitar pela borda fora a história que foi feita até hoje. Nela cabem, quer se queira ou não, as grandes manifestações dos professores e a obstinação da ministra, acompanhada de uma fraquíssima capacidade de diálogo.
Pois se tiver de ser apenas a história a fazer-lhe justiça, que o faça também de um modo justo, sem "esquecer" nenhum dos episódios lamentáveis que muitas gentes vão querer esquecer muito depressa.
Quando se evoca a história, tal como noutras questões sociais, convém ser inclusivo. Que lhe seja então feita justiça por inteiro!
A Crónica de Joaquim Vieira - Provedor dos leitores do Público - que sai aos Domingos também está aqui no seu blog
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"A notícia culminou com o autêntico haraquiri político em directo que foi a comunicação do Presidente"
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"Quanto à revelação pelo DN, em 18 de Setembro, do email dos jornalistas do PÚBLICO, perguntava-se também na emissão televisiva [em Os Prós e os Contras] se era legítima (dado violar correspondência privada), se não deveria ser acompanhada da revelação de como o email chegou ao jornal e se não haveria grave falta deontológica por se identificar a fonte confidencial de um jornalista.
"Mais uma vez, segundo o entendimento do provedor, o critério básico que deve prevalecer – atendendo aos princípios editoriais do DN, não muito distintos dos do PÚBLICO – é o do interesse público da notícia. E haveremos de convir que a manchete do DN – alvo de tentativas iniciais de desmentido, mas com uma incoerência que só serviria de comprovativo à sua autenticidade – causou considerável abalo no mundo político, então em plena campanha eleitoral para as legislativas, com reacções de todos os sectores, ajustamentos da agenda e do discurso políticos, eventuais efeitos no resultado das eleições e até a necessidade sentida pelo Presidente de vir a público explicar-se. Como é que não havia ali matéria de notícia? Havia – e muita."
Já antes do Relatório Ryan de Maio de 2009, vária literatura, livros, reportagens e testemunhos, tinham dado conta da "traição do Estado da catolicíssima Irlanda em conluio com a Igreja" que reduziu, em colégios religiosos apoiados pelo Estado, milhares de crianças, as mais desprotegidas e abandonadas, ao trabalho escravo, aos abusos sexuais e toda a casta de maus tratos, em especial às que não tinham família ou às que não recebiam visitas e a quem faziam crer que a não tinham.
O horror em "escolas" onde as crianças eram mantidas no analfabetismo e eram espancadas e aterrorizadas se não cumpriam as metas de trabalho estabelecidas. Eram escondidas do mundo exterior do qual tudo ignoravam. Hoje na grande reportagem do DN aqui e aqui ou guardado aqui e aqui.
Mais que a táctica eleitoral a Grande Crise pôs em cheque o PSD
Hoje no Público Vasco Pulido Valente vaticinou a continuação da desgraça no PSD por muito tempo: até que a Grande Crise se dissipe e seja esquecida. Porque, considera ele e bem, a tónica da estratégica do PSD e da direita em geral ficou marcada por menos Estado, privatizações e mais privatizações incluinda a da CGD, menos impostos ou seja menos Saúde, menos Educação, menos Segurança Social. Ora contra isso estão não apenas os trabalhadores e classes médias mas a maioria do tecido empresarial portugês que tem sobrevivido à sombra do Estado desde que há memória.
Uma derrota eleitoral não deve obrigar, por princípio, a pôr em causa a liderança do derrotado. Isso depende da dimensão da derrota e de ela ser razoavelmente atribuível ao seu mau desempenho ou à estratégia política adoptada. No caso do PSD é evidente que a direcção de MFLcontribuiu para a derrota com um manifesto mau desempenho. A táctica geral da campanha incluindo a da "asfixia democrática" que tem sido atribuída principalmente a Pacheco Pereira mas teve o apoio e um protagonista de peso que acabou, aliás, desmascarado: o PR, com "as escutas", foi desastrada.
Isto é razão mais que suficiente para que MFL seja afastada a curto prazo e portanto antes do fim do seu mandadto em Maio. Mas acresce que ela própria diz que não se recandidatará e então deixa o PSD em "getão corrente".
Ângelo Correia patrono de PPassos Coelho já disse o óbvio na SicNotícias, que o PSD necessita de ter uma liderença, com urgência, que não seja apenas virtual. Machete pronunciou-se também pela insustentabilidade de um interregno de 7 meses.
O professor Marcelo e os outros potenciais candidatos à liderança opôem-se ou calam-se gerindo o "timing" de acordo com o que julgam ser o seu interesse pessoal na corrida ao topo borrifando-se para o que possa ser entendido por um abstrato "interesse do PSD" que julgam, e talvez com razão, que também está totalmente ausente em Ângelo's ou Machete's.
O Partido Socialista ganhou as eleições legislativas. Tem condições políticas para governar. Porém, ainda não sabe com quem. É uma organização que se reclama da esquerda (quando o rei faz anos) mas hesita à brava sempre que tem de fazer a demonstração de que o rei foi corrido pela República.
Segue-se, agora, aquela cena nauseabunda, em que os dirigentes do PS rasgam as vestes e apontam para o BE e para o PCP bradando que, com estes partidos, não é possível governar (à direita), enquanto o PCP e o BE denunciam a intenção do PS em continuar a mesma política do Governo anterior, mas à procura de uma bengala parlamentar.
Apesar de já sabermos o que se vai passar, preparamo-nos para seguir atentamente os rituais do costume.
As reacções na imprensa dos mais conhecidos analistas à atribuição do Nobel a Obama são, como era inevitável, bastante contraditórias e... bastante previsíveis. A última que li foi a de Pacheco Pereira no Público (2009-10-09) e o político que tão entusiasticamente apoiou invasão do Iraque e a Administração W Bush que conduziu a América ao mais elevado patamar de repulsa em todo o mundo, não está satisfeito com a decisão do comité do Nobel.
O argumento mais comum dos incomodados com o Nobel da Paz de 2009 para desvalorisar os fundamentos da decisão é o de que atribuição só se pode sustentar pelo que Obama promete ou prometeu e não pelo que tenha feito que seria ainda nada. E que não passa de uma forma de o condicionar a lutar pela Paz desviando assim a América do justo desígnio que acham dever ser o seu, o belicismo imperialista. ______
Nota: isto foi escrito no dia 10 quando saiu o artigo de opinião referido. Ficou para ali a aboberar, como rascunho, com a ideia de o acrescentar. Agora, já obsoleto, quando o sentenciava à guilhotina do delete fraquejei e atirei-o para aqui. Peço a vossa indulgência.
Sem saber como explicar porque deram os eleitores mais votos ao PS do que ao PCP em Beja, Aljustel ou Marinha Grande onde o seu partido governava, a Jerónimo de Sousa não ocorreu melhor do que dizer às televisões "que o PS era o principal instrumento da direita para atacar o PCP." Melhor seria tentar explicar com causas mais plausíveis decorrentes da gestão autárquica. Porque assim lá terá de explicar a conquista de Alpiarça ao PS com um argumento equivalente e igualmente falso, do género: o PS é o melhor instrumento da direita para ajudar o PCP.
O país vai com o passo trocado. E não há maneira de o acertar pelo de Jerónimo de Sousa.
António Costa foi certeiro ao dizer que os que quiseram unir-se ganharam e os que se recusaram perderam.
O eleitorado do BE, e algum do PCP, mandou às malvas os interesses sectários das direcções dos seus Partidos e foram calmamente votar António Costa e impedir que Santana Lopes lançasse a capital no desgoverno.
Uma lição de maturidade política e exemplo de cegueira de directórios partidários.
Já aqui escrevera que o PSD iria ter o maior número de Presidentes de Câmara e que isso lhe dava a qualidade de partido ganhador.
Mas o PS surpreendeu, apesar da nódoa que foi a perda de Faro. Parece que o Algarve e a Madeira não se andam a entender com o PS, pois todo este ciclo eleitoral foi terrível nesse "desentendimento".
Mas, sem dúvida, a grande vitória, apesar de muito sofrida, foi averbada em Lisboa, não só pelo simbolismo, mas porque é a capital e ainda porque as forças em presença estavam aparentemente em desequilíbrio (a direita unida contra as esquerdas separadas).
Sobre esta vitória, há muita reflexão a fazer, nomeadamente no campo das esquerdas, pois o percurso poderia ter sido bem outro.
# posted by Joao Abel de Freitas @ 11:04 3 comments
2009-10-09
A questão das Autárquicas
O resultado das autárquicas estava/está claro, é "conhecido". Haverá certamente umas quantas transições de Autarquias como sempre houve em todos estes actos eleitorais.
O PSD terá o maior número de Câmaras.
Até aqui nada de novo.
A grande questão é Lisboa. A grande derrota do PSD, ou melhor dizendo ,da actual "gestão" deste partido é, como tudo indica, perder Lisboa.
E porquê?
Tudo simples. Somente Lisboa foi uma escolha claramente política de Ferreira Leite.
Porto, Coimbra, Sintra, etc, eram dados adquiridos: Rui Rio era o candidato natural, assim como Carlos Encarnação ou Fernando Seara. Com isto apenas digo que não houve qualquer decisão de Ferreira Leite. Eram eles os decisores de avançarem ou não.
A derrota em Lisboa a dar-se e, assim, o espero é uma derrota para toda a direita. que vai a eleições coligada. Não consigo, pois, descortinar razões para que algumas esquerdas andem tão preocupadas com tal possibilidade.
# posted by Joao Abel de Freitas @ 14:59 5 comments
Barack Obama - Prémio Nobel da Paz
Ouvi vários comentadores de política muito admirados com a atribuição deste prémio Nobel.
Surpresa, de facto, acho que houve. Mas olhando para trás, muitos "Nobel da Paz " foram atribuídos a pessoas ou entidades de menos mérito. Porque não a OBAMA que, a seu modo, anda num esforço meritório de Paz para o mundo, com a defesa dos EUA sempre em primeiro lugar, é claro?
Podemos não concordar com ele em vários aspectos.
Pessoalmente, tenho sérias dúvidas sobre a direcção traçada para o Afeganistão. Mas reconheço-lhe esforço e mérito e, como tal este, Prémio talvez lhe dê mais força. Leia ainda "o valor das ideias" Barack Obama, Nobel da Paz - E agora, Obama?
# posted by Joao Abel de Freitas @ 14:43 0 comments
2009-10-07
Felizmente, ainda há gente que pensa!
Carvalho da Silva é um exemplo. Excelente a sua atitude e decisão tornada pública.
Ao vir hoje declarar o apoio a António Costa para a Presidência da Câmara de Lisboa demonstra que sabe distinguir que algo de fundamental está em jogo na Câmara de Lisboa
E de facto está. Neste momento é de extremo interesse nacional barrar o caminho de Santana Lopes ao Município da Capital. Carvalho da Silva percebeu bem e não hesitou em publicamente assumir esse seu pensamento.
Sabemos que a distância política entre António Costa e Carvalho da Silva é muito grande. Mas o problema agora não é esse. O problema imediato é o da direita na governação de Lisboa.
Há que impedi-lo e impedir significa pôr lá António Costa e, de seguida, exigir-lhe a factura e a toda a equipa: uma boa governação da Capital.
# posted by Joao Abel de Freitas @ 14:03 5 comments
2009-10-06
Sobrescritos mal fechados
Alves Dias, Prof. da Universidade Nova - ontem, na Fundação Mário Soares, na apresentação do livro A Maçonaria e a Implantação da República - informava que vários conspiradores na preparação da revolução republicana de 1910, comunicavam as suas mensagens secretas displicentemente através dos Correios e… pior ainda, em sobrescritos mal colados. O que, é claro, deu origem a uns puxões de orelhas de “irmãos” mais avisados.
Conclusão minha. É pecha nacional. A prova é a trapalhada dos emails mal fechados do Público para a Madeira, caídos (em desgraça) no Diário de Notícias. Pouco versados em História, Cavaco Silva e José Manuel Fernandes, pensaram logo em “escutas” e no SIS quando afinal tudo não passou , certamente, de sobrescritos mal fechados.
# posted by Joao Abel de Freitas @ 14:14 0 comments
Mercedes Sosa
Já lá vão uns bons anitos. O 25 de Abril ainda não tinha cantado.
Estive em Madrid em tempos difíceis por razões que não interessam para este escrito.
A repressão de então era forte tanto em Espanha como em Portugal. Mas o acesso aos cânticos de resistência eram ali mais fáceis do que em Lisboa.
Uns amigos de Madrid levaram-me às compras de música revolucionária. E lá trouxe uns tantos discos que ainda hoje conservo de Mercedes Sosa e de outros latino americanos e até de cantores portugueses exilados em Paris.
Mercedes Sosa acaba de nos deixar. Os discos ficarão comigo, pois foram sempre uma boa companhia.
# posted by Joao Abel de Freitas @ 13:55 0 comments