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2014-07-24

 

É O BES? O GES? A FAMÍLIA ESPÍRITO SANTO? NÃO. É O CAPITALISMO "STUPID"!

A notícia:
“Salgado saiu em liberdade depois de mais de seis horas de interrogatório, ficando sujeito ao pagamento de uma caução de três milhões de euros, proibido de sair de Portugal e de contactar "com determinadas pessoas".
A Procuradoria-Geral da República emitiu entretanto um comunicado onde refere que está em causa "a eventual prática de crimes de burla, abuso de confiança, falsificação e branqueamento de capitais"[Expresso online].
O artigo de Pedro Santos Guerreiro:
 
É muito interessante o trabalho de Pedro Santos Guereiro publicado na revista do Expresso com o título «Quem tirou o poder a Ricardo Salgado?» e subtítulo: «Guia onomástico para perceber como uma conjugação de inimigos derrubou o número um da economia.» e que vai no fim deste "post".
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Quero deixar claro, no entanto, que não concordo com a sua avaliação desculpabilizadora do papel do rapaz da Tecnoforma que deu em 1ºM, Passos Coelho ou da ministra Maria Luís Albuquerque ou de Carlos Tavares (CMVM) ou de Carlos Costa, governador do BP por não terem e muito bem tentado salvar o GES.
Convenhamos que eles não são estúpidos. Todas estas pessoas nas suas altas funções não podiam fazer outra coisa sem se comprometerm ignominiosamente como fez Granadeiro que "deu" 890 milhões de euros da PT  à RioForte, isto é aos seus amigos e protetores Ricardo ES e Ciª. O dinheiro não era dele e é dinheiro que, a não voltar, serão os utentes da PT e os accionistas a pagar. Não consta que Granadeiro já tenha sido preso.
Antes ainda deste artigo deixo aqui um organigrama do grupo empresarial e das multiplas holdings que serviam de camuflagem aos interesses inconfessáveis "da Família Espírito Santo" (o leitor por favor não confunda o termo "família" que estou a usar com a acepção calabreza, siciliana ou com aquele do filme "Os Padrinhos - The Godfather" de Copola.
A grande "Família Espírito Santo" segundo as últimas notícias inclui 300 "membros familiares" assalariados nas empresas do grande império pluricontinental que, mercê seguramente do seu enorme mérito e talvez também da graça do "Espírito Santo" conseguiram todas uma gloriosa fortuna, que ainda não se sabe que parte nos cabe pagar, se mais se menos do que estamos a pagar pelo BPN.
A família ES, caída em desgraça mas  ao que se supôe, com fortunas gigantescas devidamente acauteladas, não é uma má família. São, como os grandes banqueiros e os grandes plutocratas pessoas do maior respeito e consideração. Roubam? Roubam. Enganam os clientes? Enganam. Traiem os parceiros de negócio? Traiem. Exploram o mais que podem os seus trabalhadores? Exploram. Condicionam os Governos? Condicionam. Defraudam a democaracia e o voto? Defraudam. Fazem da nossa liberdade uma caricatura de liberdade? Fazem. 
Mas... Mas que pensar então de tudo isto? O género humano... as pessoas são más? Sim. Não. É O CAPITALISMO! É de sua natureza. 
Mas então não há saída? Há, suponho. Tem de haver, se a conseguirmos construir. E o primeiro passo é entender como tudo isto funciona. Os mercados, a informação e o resto.  

 
 (Um clique aumenta a imagem)

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O artigo de Pedro Santos Guerreiro:
 




Os líderes dos ramos da família Espírito Santo em julho de 1990. De fato escuro, José Manuel Espírito Santo, Mário Mosqueira do Amaral, António Ricciardi, Manuel Ricardo Espírito Santo e, na ponta direita, Ricardo Salgado / Luiz Carvalho

Ricardo Salgado caiu em desgraça mesmo antes de o Grupo Espírito Santo falhar um só pagamento. Assim foi por causa de uma coincidência de inimigos e de adversários de Ricardo Salgado. Uns aliaram-se, outros encorajaram-se, todos conseguiram romper a barreira dos amigos e aliados de Salgado. Vejamos os seus nomes.
Como no caso BCP, a informação veio de dentro. De fora, não havia informação sobre as contas das holdings de topo, que além disso constituíam um organograma incompreensível de relações entre empresas sediadas no Luxemburgo, na Suíça, nas Bahamas ou no Panamá. Na estrutura, havia acesso a contas, de baixo para cima, do BES, da ESFG (ambas cotadas) e da Rioforte (auditada), mas acima disso já não havia visibilidade. A ES International, que aloja uma dívida superior sete mil milhões de euros, incluindo 1,3 mil milhões que não estavam nas contas, era como se não existisse. Não tinha contas, não tinha equipa, tinha 17 administradores e um contabilista. Parecia uma caixa negra. Foi uma caixa de Pandora.
Só alguém de dentro poderia ter tido acesso a tanta informação. Esse alguém foi o hoje inimigo número um de Ricardo Salgado, o empresário Pedro Queiroz Pereira, provavelmente o único que saiu a rir desta história. Venceu Salgado, deixou-lhe o caminho minado, ficou a controlar o seu grupo familiar (ainda que permaneçam conflitos judiciais com a irmã Maude Queiroz Pereira) e livrou-se do Grupo Espírito Santo, de que era acionista de topo.
Na guerra entre ambos, em que esteve em causa o controlo da Semapa, Pedro Queiroz Pereira criou uma equipa de 16 pessoas, que não fizeram outra coisa se não esgravatar as contas que nem aos acionistas eram mostradas, aceder a escrituras, cruzar informações. Assim constituiu um dossiê que revelava todo o "buraco". Esse dossiê foi parar às mãos do Banco de Portugal. Entretanto, outro inimigo, Álvaro Sobrinho, estava já em guerra aberta com Salgado, tendo como principal arma o conhecimento de casos complexos no BES Angola. E assim chegou o terceiro inimigo, José Maria Ricciardi, que quis virar a mesa quando percebeu a dimensão dos estragos.
Além destes três inimigos, outras figuras foram essenciais para a queda. O juiz Carlos Alexandre e o procurador Rosário Teixeira, que nunca largaram a família Espírito Santo nas suas investigações. E Pedro Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque, não pelo que fizeram mas pelo que não fizeram: não ajudaram o banco com empréstimos da Caixa, quando Salgado lhes pediu.
Carlos Tavares interveio decisivamente nos produtos de investimento que estavam a drenar dinheiro dos clientes do BES para o Grupo Espírito Santo, e depois exigiu informação detalhada sobre a real situação no Grupo e no banco. Mas o último inimigo decisivo, o único que Salgado colocará ao mesmo nível de Queiroz Pereira, Ricciardi e Sobrinho, será Carlos Costa. O governador do Banco de Portugal liderou todo o processo que forçou a ES International a escancarar as suas contas. E foi ele que forçou Salgado a fazer o impensável: primeiro, afastou-o da gestão do "seu" banco, depois afastou-o do próprio Conselho Geral. Sem Carlos Costa, e a proteção política que Passos Coelho lhe deu, o desfecho teria sido outro. Incluindo o desfecho na administração, para onde entraram Vítor Bento, João Moreira Rato e José Honório, todos apadrinhados pelo Banco de Portugal.
Muitos outros estarão hoje satisfeitos com a queda de Ricardo Salgado. Não porque fossem seus inimigos, mas porque estavam na galeria dos ódios de estimação. Começando por banqueiros com quem houve afrontamentos, como Jardim Gonçalves e Filipe Pinhal no BCP, Fernando Ulrich que na negociação falhada de uma fusão entre BPI e BES encontrou práticas inconciliáveis, e João Rendeiro, que se vê agora parcialmente redimido, por não ser o único e por ser pequeno. António Horta Osório passou para os "ódios" quando patrocinou a OPA à PT pela Sonae, onde Belmiro Azevedo ou António Lobo Xavier estavam (e ficaram) do lado dos adversários de Salgado. Américo Amorim foi outro que tal: sempre desalinhado com Ricardo Salgado.
Mas depois havia os aliados, começando nos próprios banqueiros, que hoje já não dirão o mesmo. É o caso de José Marie Sander (aliado do Crédit Agricole) e Lázaro Brandão (do Bradesco) ou dos colegas de administração Amílcar Morais Pires ou Joaquim Goes: já não são indefetíveis. António de Sousa era outro aliado histórico, assim como Faria de Oliveira, que fazia a ligação entre bancos e política. E na política, tirando os ódios da esquerda (Francisco Louçã à cabeça), houve uma aliança fortíssima e depois desfeita com José Sócrates, que aliás teve como ministro da Economia Manuel Pinho, um homem BES. As alianças estavam sobretudo na direita. Neste Governo, Passos não visitava a Avenida da Liberdade (Vítor Gaspar então, nem pensar), mas Paulo Portas era muito próximo (assim como António Pires de Lima). Durão Barroso, Marcelo Rebelo de Sousa, Eduardo Catroga, Aníbal Cavaco Silva ou Francisco Pinto Balsemão fazem parte do círculo de amigos ou de aliados. Fora de Portugal, as relações iam do rei Juan Carlos de Espanha ao Presidente de Angola, José Eduardo dos Santos. Mas nenhum outro terá sido mais influente nesta crise do que o seu amigo, aliado e advogado pessoal: Daniel Proença de Carvalho.
Além da política, outro círculo de poder está dentro da rede de empresas, quer aquelas com as quais há relações acionistas, quer aquelas com que há relações de crédito. Henrique Granadeiro é um caso muito claro, até pela amizade e relação antiga de conselheiro. Granadeiro, que agora é acusado de ter contagiado a Portugal Telecom com dívida do Grupo Espírito Santo, já disse que foi aconselhado no seu investimento pelo BES. O banco tem uma força decisiva dentro da PT, incluindo com Zeinal Bava e com o administrador financeiro Pacheco de Melo. E incluindo com a Ongoing de Rafael Mora e Nuno Vasconcellos, que sempre foram vistos como emanações de Salgado e que prosperaram com dívida do BES e do BCP.
Na EDP, a relação é hoje menos forte, nomeadamente com António Mexia, outro homem BES, mas mais próximo de José Maria Ricciardi. Dentro do GES, há inúmeros gestores que sempre apoiaram Salgado, como Isabel Vaz ou Isabel Ferreira.
Nas grandes empresas há grandes aliados, como António Mota, ou Vasco Pereira Coutinho, além do general Helder Dias Vieira (Kopelipa), em Angola. As relações com gente do futebol alargam-se a Joaquim Oliveira, mas também aos negócios particulares de Luís Filipe Vieira e José Guilherme, que segundo o livro "O Último Banqueiro", agora editado, deu um presente de 14 milhões de euros a Salgado. Maude Queiroz Pereira ou João Lagos são outros aliados antigos do Grupo. Vasco de Mello nunca o foi, mas acabou por ser ajudado pelo BES no processo de reestruturação do seu grupo. Do outro lado das empresas estão ainda os sindicalistas, como Carlos Silva (da UGT, um dos únicos que defendeu Salgado publicamente nos últimos meses) e Afonso Diz (do Sindicato dos Bancários).
Toda esta rede de poder foi sendo esboroada nos últimos meses. Ricardo Salgado está cada vez mais só. Até que ficou isolado no círculo primeiro e último do seu poder: o da família. José Manuel Espírito Santo, que nos anos 80 defendeu Salgado no processo de sucessão contra o seu próprio irmão, quis ficar de fora do conselho estratégico do banco, demarcando-se. Outro líder da família, o comandante António Ricciardi, alinhou com o filho José Maria contra Salgado. Dos herdeiros de Mário Mosqueira do Amaral e de Maria do Carmo Moniz Galvão Espírito Santo Silva, e dos seus filhos, não se ouviu ainda palavra.
Mas o sentimento de revolta é generalizado. O verão não vai ser fácil este ano na praia da Comporta. E o inverno será longo para muitos daqueles que sempre viveram com salários, lucros ou créditos do BES.
[Texto publicado na Revista do Expresso, a 19 de julho de 2014 ]

2014-07-23

 

O deputado do PS Sérgio Sousa Pinto arrasa a direção de Seguro

O problema do PS é político, por mais que o queiram converter numa novela
por SÉRGIO SOUSA PINTO, Deputado do PS. Ontem no DN
    ontem no DN

« Quem entenda que os últimos anos foram marcados por uma oposição mobilizadora, determinada e capaz, protagonizada pelo PS e liderante no Parlamento e no País, é natural que não perceba a razão de ser da candidatura de António Costa à liderança do PS.
Quem não reconhece a necessidade de interromper este ciclo no PS, enquanto é tempo para prevenir uma vitória marginal ou mesmo uma derrota nas próximas legislativas, é natural que seja refratário ao significado político da iniciativa de António Costa e ao movimento subsequente, inteiramente espontâneo, que sacudiu o partido e a sociedade portuguesa, ambos mergulhados numa crise de esperança e de confiança.
Com quem protagonizou em posição de destaque esse ciclo perdido receio que não haja mesmo qualquer esperança de vir a travar um debate no plano político, que é o plano devido. Nesses casos, é manifesta a preferência por reduzir o conflito a um duelo de egos, em que a Costa é reservado o papel de ambicioso e maquiavélico vilão e a Seguro o de mártir inconsolável e carpideiro, que passeia pelo País o seu ressentimento, com um punhal cravado na omoplata direita.
A chorosa novelização do problema político do Partido Socialista não resiste aos factos, duros como punhos, de três anos de oposição medíocre, hesitante e no geral errática e inepta. Esse é o problema. Puramente político..........
« Entrámos, então, no ciclo da abstenção violenta, de que nunca mais saímos. Depois ,veio o acordo de regime patrocinado por Cavaco Silva. O precioso convénio amarraria o PS ao programa austeritário, a troco de eleições antecipadas, que o PS putativamente venceria, prolongando-se o convénio num bloco central capitaneado pelo líder do PS e primeiro--ministro - e ungido pelo Presidente. Mas Mário Soares - sozinho - deitou o sonho ao fundo.
Será ainda preciso recordar outro momento alto do desnorte socialista: o único entendimento que o PS considerou irrecusável com a direita, em três anos, foi o desagravamento da tributação sobre os lucros das empresas.
Este penoso elenco está muito encurtado, mas ajudará a compreender a hemorragia eleitoral do PS, de eleição para eleição, até à evidência de que não estaria à altura de libertar o País da direita mais reacionária e implacável que o Portugal democrático conheceu.
A queda do PS nas indicações de voto não é de ontem. O PS precisa de tempo e de força para poder protagonizar uma verdadeira alternativa, que rompa a gaiola de ferro do neoliberalismo europeu e doméstico. Mas isso supunha que quem está agarrado ao poder no partido aceitasse disputá-lo democraticamente, em nome do País e do interesse geral. Este PS, indiferente à agonia lenta que se autoimpôs, permanece refém de uma cultura implacável de sobrevivência, uma esperteza feita de habilidade e manha, completamente estranha à cultura do partido, mas profusamente enfeitada de princípios e valores. Esperemos que as primárias, nascidas desse caldo, sejam o instrumento da sua destruição.»
 (Artigo completo aqui no DN)

2014-07-20

 

Mário Viera de Carvalho: "Eleições primárias"

Como é habitual, Mário Vieira de Carvalho oferece-nos, hoje, no Público, um excelente artigo. Ajuda-nos a compreender o mundo da alienação que é o nosso. O mundo dos mercados. O mundo dominado pelas plutocracias que têm como principal instrumento de domínio os bancos e o sistema financeiro em geral, articulados com o controlo, através de sofisticadas formas de corrupção, dos governos, dos parlamentos, do poder judicial,  das forças armadas e policiais.
Se não conseguirmos alterar a natureza dos partidos e a forma de intervenção na vida política e social, o nosso voto, em periódicas eleições, não passa de uma cortina que esconde o verdadeiro poder da plutocracia financeira.
Os escravos modernos deixaram de ser apenas os operários ou os “trabalhadores” como no século XIX e na maior parte do séc. XX mas e cada vez mais as classes médias e toda a população para lá dos ” 1% “ a que se reduz, hoje, a nova aristocracia rapace.
O caso do BES e antes dele os casos do BPN, do BPP e do BCP são, em Portugal, à semelhança da Europa ou dos EUA, a ilustração desta nova realidade que domina as nossas vidas.
Mas a realidade pode ser alterada. Todo o mundo é composto de mudança, Tomando sempre novas qualidades….” De objeto da História, teremos que ser – cada um de nós – cada vez mais, o sujeito da História. Somos muitos, somos a esmagadora maioria. A CONSCIÊNCIA DA NOSSA FORÇA SERÁ A NOSSA FORÇA e o segredo do triunfo.  
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2014-07-10

 

Granadeiro "dá" 900 milhões ao Grupo Espírito Santo e afunda a PT

(Para memória futura. Bastaria o link mas com o tempo a notícia desaparece... In Dinheiro Vivo)

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Não é o Estado Somos Nós

O empréstimo da PT à Rioforte (Grupo Espírito Santo) é uma das piores decisões tomadas por uma empresa portuguesa em décadas. Enfiar (emprestar) 900 milhões de euros num grupo em desagregação não foi apenas um ato de gestão temerário e suicida, foi um inacreditável abuso de confiança que só pode custar o lugar a Henrique Granadeiro na PT e na futura CorpCo (que resultará da fusão entre a PT e a Oi), sendo certo que a reputação profissional do gestor é irrecuperável, a não ser que surja qualquer explicação que, para já, parece improvável. 

            Talvez um destes dias Henrique Granadeiro aceite dar explicações públicas sobre o assunto -- tem, aliás, esse dever --, mas por enquanto tem-se limitado a defender-se através de comunicados de imprensa que pouco justificam e só demonstram o grande serviço que prestou a Portugal. Não há dia que passe em que a imprensa brasileira não insista num ponto: os acionistas portugueses terão de pagar em ações o rombo provocado por Granadeiro. Perderão peso na fusão, lugares, capacidade de decisão.
Isto é: o que Granadeiro fez, se nada acontecer entretanto, foi dar a machadada final na pretensão de Portugal ter uma multinacional na área das telecomunicações. Os 37% que estavam previstos para os acionistas portugueses podem ficar reduzidos substancialmente, o que será apenas o primeiro passo para que, um dia, esse valor se torne ainda mais pequeno e insignificante.
É tudo demasiado grave para que não seja sublinhado. Granadeiro não podia ter feito o que fez e da forma que fez. Só se entende que permaneça no lugar mais uns dias até ficar clara a solução para o problema -- talvez o prolongamento do prazo de pagamento da totalidade ou de parte dos 900 milhões de euros. Quando, na terça-feira, se confirmar que a Rioforte não consegue pagar (seria extraordinário que pagasse, porque a informação posta a circular vai toda em sentido contrário), Granadeiro só tem uma solução: sair e dar uma conferência de imprensa assumindo o erro capital. É o mínimo dos mínimos.
Para quem conhece Henrique Granadeiro, como eu conheço, não deixa de ser duro escrever isto, mas não há outro caminho. Aliás, mesmo que a Rioforte pague, o método silencioso que ele usou para emprestar os 900 milhões de euros não é digno de confiança, não seria admissível em empresa nenhuma, o que me conduz ao último ponto.
Em Portugal, mas não só, muitas vezes as empresas ficam reféns dos gestores. Deixam de pertencer aos acionistas, ficam na mão dos administradores executivos que não só acabam por encontrar maneira de se fixar remunerações (salários e prémios) sem sentido, como, com o passar do tempo, se julgam realmente donos das empresas.

2014-07-01

 

O soberano e os lacaios

O artigo que abaixo reproduzo é de Mário Vieira de Carvalho e saiu no Público de domingo(2014-06-29). Bastava colocar aqui uma ligação, pois ele está online, mas para evitar eventual remoção a prazo deixo-o aqui porque merece que possa ser lido hoje ou depois de amanhã. (O lacaio de libré - à nossa esquerda - foi convocado aqui por mim.)
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"A avaliar pelas últimas eleições, os partidos do governo têm hoje a legitimidade social e política que lhes é conferida por apenas cerca de dez por cento do universo total dos eleitores recenseados. É muito pouco para quem já passou da voz grossa à grosseria. Mas é o suficiente para quem, cada vez mais, demonstra ter uma noção arcaica do Estado e do exercício do poder político.
Dir-se-ia que as declarações delirantes de uma auto-intitulada “professora de direito” sobre a nomeação de juízes do tribunal constitucional, ou de um ex-empresário sobre a necessidade de calibrar o escrutínio dos mesmos, ou ainda a de um eminente economista sobre a sua deles mentalidade de funcionários públicos radicam na conceção de l’état c’est moi, segundo a qual o chefe do executivo personificaria ou deveria personificar todos os poderes do Estado: o legislativo, o executivo e o judicial. Não responderia apenas por um órgão de soberania, antes seria “o” órgão de soberania. Não se encontraria vinculado a uma Constituição, antes a ditaria. Não seria um mero chefe do executivo. Seria o Soberano.
Se, porém, mudarmos de ponto de vista – para uma observação de segunda ordem –, então percebemos que, neste Portugal do século XXI, por via de uma das mais extraordinárias piruetas da história, o soberano não passa, afinal, de um lacaio. Arroga-se uma autoridade absoluta, mas enverga a libré. “Decreta”, “proclama”, “declara” e “calibra”. Mas sempre de libré. Preside. De libré. Discursa. De libré. Participa nos órgãos da União Europeia. De libré. Representa o país. De libré.
Dá-se ares de soberano, mas a libré assenta-lhe na perfeição. Cai-lhe bem nos gestos, no registo grave da voz, no aprumo lento do passo, que fazem da aparente arrogância a mais refinada escola de subserviência. Cai-lhe bem na elegância com que se verga, arremedando poder de decisão. Na diligência com que sabe estender a passadeira, parecendo caminhar sobre ela. Na persuasão a falar e na determinação a agir – em nome de quem verdadeiramente manda. É a libré de chefe de governo: o último grito do pronto a vestir, na União Europeia.
O modelo até parece ter sido talhado em Lisboa, pois não há chefe de governo em que ela assente tão bem. Outros a usam, é certo, mas fica-lhes curta nas mangas. Talvez porque ainda não compreenderam o pleno sentido da “revolução” neoconservadora em curso: a restauração duma ordem feudal, o retorno ao Ancien Régime – a um regime anterior às noções de “soberania popular”, “constituição”, “separação de poderes”, “democracia” e “direitos humanos”.
Não se trata, evidentemente, de restaurar monarquias, embora as existentes não estorvem. Nem de alterar a estrutura formal da governação. Nem, portanto, de privar os povos de eleições, parlamentos, governos e constituições. Trata-se, sim, apenas, de subordinar tudo isso à vontade do soberano. Eis o que se pretende com as tão badaladas “reformas estruturais” e “austeridade”.
E quem é ele – esse soberano a quem chefes de Estado e de governo devem vergar-se como lacaios? Esse novo senhor absoluto que se apodera do Estado e com ele se confunde? Que legisla, governa, interpreta a seu bel-prazer a constituição e as leis, acaba com a independência dos tribunais, põe e dispõe de todo e qualquer direito, suspende o próprio “Estado de Direito”, e degrada os cidadãos à condição de meros súbditos?
É, obviamente, o capital financeiro. É ele que hoje encarna, mudando apenas de roupagem, o modo de governação do antigo regime: l’état c’est moi.
Professor catedrático jubilado (FCSH-UNL)"


2014-06-14

 

Iraque, Líbia, Síria... não eram "OS NOSSOS" ditadores...!


Os Jihadistas do Estado Islâmico do Iraque e do Levante ( ISIS) uma versão mais abrangente da Al Quaeda já ameaça Bagdad. Cerca de 300 mil pessoas abandonaram há dias a cidade de Mossul e fogem do terror, na província de Anbar são agora 500 mil os refugiados. O caos agrava-se todos os dias no Iraque.
Grosso modo é uma guerra dos extremistas sunitas contra os fundamentalistas xiitas que foram postos no governo pela intervenção americana e contam com o apoio do Irão dos Ayatollahs . Enfim uma aliança EUA-Irão para os assuntos do Iraque. A população sunita constituía a parte mais moderna, mais laica e preparada do país.
 Sadan era um ditador horrível, igual aos dos países vizinhos, mas no Iraque que ele governava as mulheres podiam sair à rua sem véu na cabeça, sem a companhia obrigatória de um homem, guiar automóveis (na Arábia saudita não!) podiam ir à escola, frequentavam as universidades, podiam ter emprego e usar calças ou saias que mostrassem… horror dos horrores, o tornozelo ou o joelho ou o que quisessem.  Quase como por aqui.
O Iraque era na região, tal como a Síria, o país mais livre quanto aos costumes, um Estado laico e o mais moderno. Mas, em contrapartida, o governo do Iraque, um dos maiores produtores de petróleo do mundo, revelava, pela mão de Sadan, no plano político e económico  comportamentos absolutamente intoleráveis  à boa ordem do Tio Sam, o primeiro das quais era julgar que o petróleo do Iraque era dos iraquianos e em consequência querer mandar nele. E, despautério dos despautérios, decidir que ia vender o petróleo do Iraque sem ser obrigatoriamente em dólares, como os EUA impunham no seu comércio mundial. Impunham… onde chegasse o seu braço armado, é claro.
Na base norte-americana das Lages, nos Açores português, em Março de 2003, com o testemunho do trabalhista britânico Blair, do conservador espanhol  Aznar e do português do PSD (ex- MRPP, ex- stalinista “viva Stalin!”, “Viva Stalin!!”) Durão Barroso,  o protofascista, republicano, evangélico/renascido, W. Bush “provou” que o horrível Sadan tinha armas nucleares capazes de arrasar o mundo e invadiu o Iraque para, com a máscara da defesa da Paz, dos direitos humanos, da liberdade, da democracia e tal deitar a mão ao petróleo.
Enforcou-se o homem e impôs-se a ordem ou seja o controlo norte-americano do petróleo do Iraque. 
Morreram e ficaram feridos milhões de homens? Arrasadas cidades inteiras ? Milhões de deslocados? Terrorismo e o caos todo estes anos e que aumenta hoje? Pois, isso é lamentável, mas não se pode ter tudo! O petróleo e ao mesmo tempo a paz, a ordem e o agradecimento das vítimas do terror e do caos. Paciência.
Foi assim no Iraque, foi assim na Líbia, foi assim ou quase assim na Síria. Que tinham afinal de comum estes países para lá de serem os mais ocidentalizados, os mais livres, os mais laicos, sem a escravatura  das mulheres, o que tinham de comum era…  era terem ao comando dos seus países ditadores. Mas se todos os países da região tinham ou têm ditadores! Se alguns são muito mais execráveis e têm a simpatia e apoio dos EUA!! Bem, o que tinham em comum é que não eram “OS NOSSOS” ditadores  visto o mundo do alto da Casa Branca, do Capitólio e do Pentágono.

2014-06-09

 

Salário Mínimo

Num estudo sobre salário mínimo por tido o mundo apresentado no Corrier Internacional de Junho de 2014 dizia-se, relativamente a Portugal, que o congelamento em 2011 do valor de 485 € (14 vezes por ano quando o governo não rouba os subsídios) já perdeu com a inflação o valor de 15 euros ficando o seu valor real em 470€. Diz também que levando em conta a inflação o salário mínimo está hoje em Portugal inferior ao valor  de quando foi criado em 1974 e que era muito baixo, como se sabe, mas apesar tudo um importante avanço. Para ter o poder de compra de 1974 deveria estar em 550 €. Se tivermos em conta o progresso e o acréscimo de riqueza do país, em 40 anos, vemos como o salário mínimo e a remuneração do trabalho em geral se atrasa permanentemente para não falar da brutal espoliação dos últimos anos.
A mesma fonte relata lutas pelo aumento ou pelo estabelecimento de um salário mínimo por quase todo o mundo. Dos EUA ao Japão ou à Indonésia, em África e na América Latina.

No Cambodja, no setor têxtil e nas fábricas que abastecem a Europa de produtos da Nike, das Adidas, Puma, Primark, C&A, H&M os trabalhadores ganham 72 euros/mês. Numa manif recente em que reivindicavam um salário mínimo de 132€ a polícia fez 4 mortos e 140 feridos.
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Os valores sobre o salário mínimo apresentados no quadro têm origem no Corrier Internacional de Junho de 2014 e como só alguns países têm subsídios de férias e Natal para se estabelecer uma comparação real dos valores mensais estes foram obtidos dividindo o valor anual por 12. O sal mínimo na Alemanha tem início em 2015-01-01. Vários países como a Itália ou os países escandinavos não têm um salário mínimo fixado por lei.

Outros dados sobre a Europa do Euro:
 


2014-06-08

 

O BCE? Deixa ver se percebo

- Ó seu Zé, eu isso não percebo nada. Chame ali o Sô Antunes que ele é que sabe lá das políticas.- Oh Sr Antunes explique lá isso do Banco Central Europeu, aqui à rapaziada.- Vá lá mas só mais esta vez que eu não estou para andar sempre a falar p' ó boneco. O BCE é o banco central dos Estados da UE que pertencem à zona euro, como é o caso de Portugal.
- E donde veio o dinheiro do BCE?
- O dinheiro do BCE é dinheiro de nós todos, europeus da zona euro, na proporção da riqueza de cada país. Os seus accionistas são bancos centrais de cada país do euro.
- Então se é o banco destes Estados pode emprestar dinheiro a Portugal, não? como qualquer banco pode emprestar dinheiro a um ou outro dos seus accionistas.
- Não, não pode.
- Porquê? Porque... porque, bem... já lá vamos (não interessa falar muito alto, isto é assunto para entendidos, não é para se ouvir aí pela rua)
- Então a quem pode o BCE emprestar dinheiro?
- A outros bancos, já se vê, a bancos alemães, bancos franceses ou portugueses.
- Ah percebo, então Portugal, ou a Alemanha, quando precisa de dinheiro emprestado não vai ao BCE, vai aos outros bancos que por sua vez vão ao BCE e tal.
- Pois.
- Mas para quê complicar? Não era melhor ir directamente ao BCE?
- Não. Sim. Quer dizer... em certo sentido... mas assim os bancos não ganhavam nada nesse negócio.
- ??!!..
- Sim os bancos precisam de ganhar alguma coisinha. O BCE, por exemplo, empresta 40 mil milhões de euros (mais ou menos o que Portugal precisa de pedir emprestado este ano) ao banco XPTO, a 1% e o banco XPTO (ou um conjunto de bancos XPTO) empresta a Portugal a 7%. E ganha o seu.
- Mas porr gaita então por ir de avião a Bruxelas e vir para cá com a massa precisam de ganhar tanto dinheiro?
- É só 6%, que neste caso representa apenas 2 mil e 400 milhões de euros. E não tem de se deslocar a Bruxelas, nem precisam de levantar o cu o rabo da cadeira, isso é tudo feito informaticamente, pela web, - vocês não percebem mas é nada disto. E qual Bruxelas qual carapuça. A sede é na Alemanha, em Frankfurt, onde é que havia de ser?
- Mas, assim, são uma cambada de ladrões... com esse dinheiro escusava-se até de cortar nas pensões, no subsídio de desemprego ou de nos tirarem o 13º mês que já dizem que vão tirar...
- Mas, oh seu Zé, você agora tá armado em comunista ou quê?
- Mas quem é que manda no BCE e permite um roubo, um escândalo destes?
- Mandam os governos dos países da zona euro. A Alemanha em primeiro lugar que é o país mais rico, a França, Portugal e os outros países.
- Deixa ver se percebo. Então os Governos dão o nosso dinheiro ao BCE para eles emprestarem aos bancos a 1% para depois estes nos emprestarem a 7 a nós que somos os donos do dinheiro?
- Não é bem assim. Nós, nós, qual nós? O país, Portugal ou a Alemanha, é composto por gentinha vulgar e por pessoas importantes que dão emprego e tal. Você quer comparar um borrabotas qualquer que ganha 600 euros por mês com um grande accionista que recebe 5 ou 10 milhões de dividendos por ano, ou um administrador duma grande empresa ou de  um banco que ganha, com os prémios a que tem direito, uns 80, 100 ou 150 mil euros por mês ou, como o antigo presidente do BCP, que segundo os jornais, tem uma justa reforma de 175 mil euros por mês? Não se pode comparar.
- Mas e os nossos Governos aceitam uma coisa dessas?
- Os nossos Governos, os nossos Governos... mas o que é que os governos podem fazer? Por um lado são na maior parte amigos dos banqueiros ou estão à espera dos seus favores ou de um empregozito razoável quando lhes faltarem os votos. Em resumo, não podem fazer nada, senão quem é que os apoiava?
- Mas oh que porra de gaita então eles não estão lá eleitos por nós?
- Em certo sentido sim, é claro, mas depois... quem tem a massa é que manda. Não viu isto da maior crise mundial de há quase um século para cá? Essa coisa a que chamam sistema financeiro que transformou o mundo da finança num casino mundial como os casinos nunca tinham visto e que ia levando os EUA e a Europa à beira da ruina? É claro, passaram-se com a massa e deixaram a canalha que tinha metido o dinheiro nos bancos e nos fundos a ver navios. Os governos, nos EUA e cá na Europa tiveram que repor o dinheiro.
- E onde o foram buscar?
- Onde havia de ser aos impostos, aos ordenados, às pensões. Donde é que havia de vir o dinhero do Estado.
- Mas meteram os responsáveis na cadeia.
- Na cadeia? Que disparate. Então se eles é que fizeram a coisa só eles é que têm o remédio, só eles é que podem arrumar a casa. É claro que alguns mais comprometidos como Raymond McDaniel, que era o presidente da Moody's foram passados à reforma. Com a indemnização a que tinha direito.
- Oh sô Antunes, então como é? Comemos e calamos?
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Este post foi escrito já há uns anos mas ao introduzir-lhe, hoje ,a foto da nova sede do BCE, o blog assumiu a data de hoje 2014-06-08.

2014-06-06

 

Juiz António Martins comenta acórdão do Tribunal Constitucional

Entrevista a António Martins
Entrevista a António Martins na ANTENA 1-2014-06-04  
"O juiz desembargador António Martins comenta os assuntos relacionados com o acórdão do Tribunal Constitucional que chumbou três das normas do Orçamento do Estado para 2014. Nesta entrevista conduzida pelo jornalista Nuno Rodrigues, o antigo presidente da Associação Sindical dos Juízes Portugueses e autor do livro “A Jurisprudência Constitucional sobre as Leis do Orçamento de Estado” refere-se por exemplo às consequências do acórdão quanto aos subsídios de férias e aos retroativos."
Foto: João Relvas/Lusa
                      Link: Antena 1 - Entrevista a António Martins

2014-06-03

 

António Costa ou António José Seguro?

Há, desde o dia 25 de Maio, um facto novo e incontornável, à maior e estrondosa derrota da coligação neoliberal no poder, o maior partido da oposição, o PS, que em circunstâncias idênticas no passado, conseguiu uma grande vitória, teve agora uma "vitória de Pirro".

Este facto novo leva qualquer cidadão interessado na substituição deste governo às ordens da troica e do sistema financeiro internacional, inimigo da maioria dos portugueses, a ter as mais fundadas dúvidas na capacidade do PS triunfar em 2015 com o atual líder.
Portanto o óbvio é os militantes do PS, porque só eles têm esse poder, serem chamados de imediato, mas de imediato! a decidir se querem continuar com o atual líder que teve um “enorme vitória” mas de "Pirro" ou se preferem outro líder que lhes pareça dar mais garantias de vitória e de vitória para outra política, pressupõe-se.
As hostes governamentais estão assustadas com a eventual troca de líder no PS. A gentinha do pior governo que Portugal já teve, no atual regime democrático, prefere Seguro a Costa. Não porque simpatize mais com este dirigente do PS do que com aquele mas porque, tal como o simples eleitor, crê que com António José Seguro há uma oportunidade de voltarem a ganhar as eleições legislativas.  Com a ajuda de uma boa tática eleitoral, demagogia em doses cavalares, mil promessas e a distribuição de algumas aparas do bolo que governam em nome dos mercados e da troica, talvez...
Nos corredores do poder, os seus homens estudam respostas à eventual e “muito inconveniente” mudança de líder do PS. Por exemplo, cenários à Marcelo Rebelo de Sousa. Eleições antecipadas já, o mais depressa possível, apanhando o PS em contramão.
Seria, no entanto, necessário um véu para tal golpe de mestre. Por que não uma dramatização levada ao rubro em torno das decisões do Tribunal Constitucional? Nisso contam com o apoio do mercenário que têm na Comissão Europeia, contarão com o locatário de Belém e contam com toda a tralha da UE que se posterga perante a constituição alemã como perante o boi Ápis mas que tem a lata de considerar oficialmente a Constituição de Portugal algo desprezível  e que só atrapalha.
 
Fulanizar o caso da liderança do PS é iludir o problema. Entregar isto à disputa entre os amigos de Seguro e os amigos de Costa seria um desastre anunciado.  Os portugueses sabem que a possível alternativa ao desgoverno do país pelos Passos/Portas tem de contar com o PS e não querem saber dos interesses pessoais deste ou daquele seu líder por mais compreensíveis e estimáveis que sejam no plano pessoal.  Exigem do maior partido da oposição uma política alternativa e a escolha de um líder ganhador.
Para lá da "tragédia" pessoal de um corte brusco de expectativas está o futuro de milhões de portugueses. A política é isto. O que está em causa é o futuro dos Portugueses. Por isso me parece que ou o PS faz um congresso extraordinário já, onde se fale de política, para uma escolha rápida de políticas alternativas e de líder que as garanta ou terá um dramático divórcio do país.

Argumentarão alguns: mas  António Costa garantirá melhor que António José Seguro o êxito, isto é uma vitória do PS para a banda dos 40%, nas legislativas? Que garantia há? Não há nenhuma garantia. Na política não há certezas sobre o futuro. Mas as eleições para o PE ofereceram uma informação incontornável. A uma derrota estrondosa, como nunca se vira, desta coligação Passos/Portas, correspondeu, com António José Seguro há três anos à frente do PS, uma… uma vitória-derrota.  Pode-se tentar "tapar o Sol com a peneira" mas... les faits sont têtus (os factos são teimosos) como dizem os franceses.

2014-05-25

 

Crise bancária passou a soberana. Assim o Zé conforma-se e paga


O sol aqueceu a esplanada, o cafezinho arrebitou a conversa e o Sô Zé aventurou-se a interpelar o vizinho.

- Oh Senhor Antunes explique lá isso da crise aqui ao pessoal da rua. Dizem que a crise era dos bancos e afinal nós é que pagamos?

- Bem, a crise é soberana. Realmente a crise era bancária, começou em 2008 nos Estados Unidos e alargou-se logo à Europa.

- Mas os bancos anunciavam todos os anos milhões e milhões de lucros como puderam assim, de repente, entrar em crise?
- O negócio dos bancos é receber juros do dinheiro que emprestam. Quanto mais emprestam mais juros ganham, mais enriquecem os seus acionistas através dos dividendos que cada ano o banco distribui no valor de muitos milhões e maiores ordenados ganham os seus administradores, sempre acima e muito acima, de 1 milhão por ano.

- Parece-me bem.

- O problema é que com a desregulação dos bancos, com a criação da banca paralela, fundos de investimento, com a revolução dos últimos 15 anos nos sistemas financeiros, na criação de “produtos complexos” e negócios à velocidade da luz à escala mundial o sistema financeiro, a banca, faz o que quer. Para ampliar muito os lucros os bancos enveredarem por uma conduta aventureira de ganhos imediatos fabulosos com o aumento de empréstimos para compra de casa, “compre casa, compre! Compre!! Compre!!! que o banco empresta o dinheiro”, empréstimo para tudo e mais alguma coisa a privados e às famílias com os cartões de crédito. Emprestar e emprestar, para ganhar juros e mais juros e comissões para isto e para aquilo, sem querer saber se a recuperação do crédito estaria adequadamente garantida.

- Como assim? Sem garantias de pagamento o negócio de emprestar dinheiro pode ser ruinoso. Então os bancos não têm lá especialistas para avaliar o risco?

- Mas não estão muito preocupados com isso porque influenciando os governos, tendo os seus homens nos governos e nos parlamentos, têm a certeza que os governos obrigarão o povo a pagar os prejuízos dos banqueiros com os impostos ou com cortes de salários, de subsídios, de reformas, cortes no orçamento do Serviço Nacional de Saúde, na Educação.

- Então e as fortunas dos banqueiros ficam a salvo?

- É para isso que eles têm os seus homens junto do governo e do poder político em geral de tal modo que eles é que são, de facto, o verdadeiro poder.

Mas não foi só nesses empréstimos duvidosos que muitos bancos foram à ruina . Os bancos transformaram-se em super-casinos, inventaram "produtos financeiros" por vezes tão complexos que só os emissores entendiam o que aquilo era, CDS's, Swaps, etc que vendiam e compravam nas bolsas de todo o mundo. Isso fez fortunas do dia para a noite a muitos "especialistas financeiros" e deu lucros fabulosos aos bancos. Mas eram lucros fabulosos imediatos e com risco de brutais falências. O lado casino do sistema financeiro internacional é bem retratado pelo número de operações financeiras em todo o mundo das quais só uma percentagem ínfima diz respeito à economia real.

- Esses negócios financeiros de alto risco incluindo a atividade de "casino" acabou por dar para o torto, não é isso?
- Exatamente.

- Então não deviam ser os banqueiros e esses especialistas financeiros a arcar com os prejuízos? Quando o negócio deu lucro o lucro era deles quando levou à ruina pagamos nós que não estávamos no negócio?

- É isso mesmo. Vamos ver uns exemplos. Imaginemos uma empresa pequena que faliu e ficou a dever meio milhão de euros aos bancos ou outros credores.

- Quem é que vai ter de pagar?

- Os donos da empresa os seus 3 sócios, quem os manda fazer maus negócios!
- Ah... é Lógico
- Vejamos o caso de uma empresa média com dez sócios que faliu e ficou a dever 5 milhões de euros.

- Não me diga que é o Estado que vai pagar o prejuízo?

- De modo nenhum. 5 milhões, não é gente assim tão importante. Pagam os seus 10 sócios, quem havia de ser? O contribuinte, não?!

E agora imaginemos o caso de uma grande empresa, um banco português, por exemplo, que em virtude da sua atividade de casino e de empréstimos de risco apresenta um "buraco" de 5, 10 ou 20 mil milhões de euros como sucedeu nos EUA e pela Europa. Estou a falar de bancos "sérios" como o BES ou o Goldman Sachs e não de associações de pequenos mafiosos, amigos do Presidente, como os do BPN.

- Isso já é muito dinheiro.
- Muito dinheiro. Gente de respeito. O governo não pode deixar o banco ir à falência. Isso constituiria uma catástrofe, um perigo sistémico!!
- Perigo sistémico? Sistémico? Isso deve ser perigoso não? Mas que é isso exatamente?
- Eu explico. Os donos, os grandes accionistas do banco, chamados de “referência”.

- De referência!? Hum…isso há-de ser gente muito importante ?…

- É um conjunto de multimilionários portugueses mas também alemães e franceses e ainda angolanos e norte-americanos grandes acionistas de bancos que emprestaram dinheiro ao banco português. Não podemos arruinar essas pessoas que são grandes empreendedores e fazem imensa falta à sociedade. Seria um desprestígio para o país. Uma vergonha. Mais, a própria sociedade ficaria em grande perigo.
-Grande perigo? Mas porquê?- Ora porquê... que pergunta!... Bem… o melhor é mesmo perguntar-lhes a eles, aos multimilionários. Eles lá sabem.
- Então que fazer?
- Ora o BCE, o FMI e a UE, com o apoio e aplauso do governo que elegemos, Passos Coelho e Paulo Portas com o apoio e proteção do nosso presidente Cavaco Silva, dizem que é obrigatório que o prejuízo seja pago pelos contribuintes, pela população em geral. Senão é uma catástrofe "sistémica"!!
- Mas essa gente ganhou fortunas. Os bancos todos os anos anunciavam lucros fabulosos e então nisso não se toca? Então quando o banco dá lucro o lucro é deles se dá prejuízo o prejuízo é nosso?


- Ora aí está, o meu amigo começa a perceber o que é um “perigo sistémico” coisa horrível, catastrófica. Para os lucros deles, é claro.

É gente importante que pode oferecer empregos dourados e redourados a governantes, a deputados, a magistrados, onde ganharão 10, 20 ou 30 vezes mais do que ganhavam no governo, no parlamento ou nos tribunais. São pessoas de respeito que Durão Barroso da Comissão Europeia, que Christine Lagarde do FMI ou. Mário Draghi. do Banco Central Europeu cumprimentam com uma importante vénia. É gente de muito respeito.

- Mas não estou a perceber. Isso é a crise bancária e seria uma enorme injustiça e uma desavergonhada desfaçatez sermos nós a pagar as dívidas dos bancos mas parece que temos de pagar é apenas a dívida soberana ou dos países ou lá o que é? Essa é que parece que nos cabe a nós todos ter de pagar pois se ela é a dívida do país...


- Ora aí é que está o busílis, Sô Zé. Obrigado a pagar a dívida dos bancos o povo podia revoltar-se e pôr a Ordem em perigo. Uma coisa horrível. Por isso muito habilmente, a conselho prudente dos bancos, os governos transformaram a crise bancária em crise soberana. O Estado salvou os bancos, nacionalizou a dívida e paga-a com o nosso dinheiro. Crise soberana o Zé Povinho protesta mas não tanto.
 
- Mas não havia uma dívida excessiva dos Estados?
- Sim havia, em Portugal e muitos outros países da UE como a Grécia ou a Espanha ou a Alemanha mas sem a crise bancária e com uma política que não fosse a que a Alemanha impôs aos países do Sul da Europa a crise não teria tido a gravidade que teve e que condena a maioria dos portugueses ao empobrecimento, a economia e as conquistas sociais a regredirem muitos e muitos anos.
No início da crise a dívida soberana de Portugal, cerca de 68% do PIB, era equivalente à da Alemanha mas o governo conservador de Merkel impôs como solução a política de austeridade a todo o custo, que agravou a economia, o desemprego, a emigração, aumentou a pobreza e aumentou e muito a dívida do Estado português. A intervenção da Troica em Portugal, convocada e aplaudida pelo governo de Passos/Portas levou a que a dívida do Estado passasse, em três anos, de 90 para 130% do PIB mas teve o condão de permitir que, com o empréstimo de 78 mil milhões de euros, de que pagaremos 34,4 mil milhões em juros, salvássemos os bancos alemães e franceses que fizeram empréstimos arriscados em Portugal. A Alemanha que agora dá ordens à UE impôs regras que convêm aos bancos e grandes grupos económicos alemães mas prejudicam os países do Sul da Europa. Por isso, pensando nos bancos alemães, não admira que o governo conservador alemão diga que a intervenção da troica foi um sucesso em Portugal agora que o governo português e o PR digam o mesmo é que é uma afrontosa e cínica mentira.

- Hum... tou a perceber.

 

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