2020-03-08
A ARA na BA3 em Tancos... há 49 anos.
Era 8 de Março e também domingo há 49 anos.
Domingo, 8 de Março de 1971, ainda estamos aqui neste apartamento no cruzamento da Av de Roma/Av EUA a
rever todos os movimentos, todos os cuidados, a rever toda a matéria. Daqui a
pouco partimos para a Base Aérea 3, em Tancos. Eu levo o Volkswagen
"Carocha" com as 20 cargas explosivas e incendiárias até para lá
da ponte da Chamusca e depois trocamos de carro. Coutinho que tem carta de
condução levará o "Carro do Povo" bem carregado e eu volto com o seu
já veterano Opel Record verde até à estação de Santarém onde os aguardarei. Se
voltarem... Sim, hão-de voltar!
O Ângelo de Sousa era miliciano
a tirar o curso de piloto de helicópteros na BA3 e à Porta de Armas do quartel,
regressando do fim de semana, disse ao sargento de serviço à entrada, "vamos ali ao bar que aqui o nosso alferes (é o Coutinho, jornalista do Século,
fardado de oficial da Força Aérea) deu-me boleia." O António João Eusébio
estucador da construção civil o terceiro operacional desta arrojada aventura, ia vestido de soldado da Força Aérea e não
precisou de dizer nada.
Regressaram atrasadíssimos à estação de Santarém onde eu os esperava -
desesperava com o atraso para além de todo o previsto e atirava para longe a
tormenta de maus pressentimentos.
Eis o que diz José Pedro Castanheira no texto e António Pedro Ferreira mostra na fotografia, no Expresso

""Às
primeiras horas do dia 8 de Março de 1971, uma sequência de mais de 20
explosões destruiu o principal hangar da Base Aérea
n.º 3, em Tancos, no coração do maior polígono militar do país. No interior
estavam 28 aviões e helicópteros da Força Aérea, que ficaram praticamente
destruídos. A espetacular sabotagem – a maior perpetrada em território
nacional contra as guerras coloniais em Angola, Moçambique e Guiné – foi
conduzida por um comando clandestino da ARA, a Acção Revolucionária Armada,
o braço guerrilheiro do PCP."
_______________________
Segue-se
documento "secreto" reproduzido no livro ARA obtido por mim na Torre
do Tombo, nos arquivos da PIDE, quando prepararei o livro

Após a montagem dos explosivos
e cargas incendiárias nos aviões e helicópteros que serviam nomeadamente de
treino para os pilotos que seguiam para a guerra colonial os nosso "aviadores"
voltaram a sair pela porta de armas batendo a pala (continência) ao oficial e
reuniram-se comigo em Santarém. Regressámos a Lisboa e o Ângelo de Sousa, que
assim desertava, refugiou-se no apartamento acima referido na Av Roma/Av EUA,
até ser encaminhado clandestinamente para Paris de onde mais tarde voltou com a
sua namorada Fernanda Castro para a luta clandestina contra o fascismo
salazarista do "Botas".
Com o 25 de Abril casaram e tiveram umas filhas lindas, a Sara, a Raquel e a Rute. Tudo nomes bíblicos explicava-me ele
O Ângelo de Sousa foi a peça chave desta acção. No nosso encontro no Bairro Azul em Lisboa um mês antes da sabotagem disse-me: o quarteleiro empresta a chave do hangar a oficiais e sargentos que vão lá roubar gasolina dos aviões para os seus carros, ao fim de semana. Mas não tens carro! advertia-o eu. Mas eu digo que é para o carro do meu colega Ferreira.
Trouxe a chave num fim de semana fiz um molde em sabão amolecido e fiz um chave que o Ângelo depois testou com êxito.
Enquanto não partiu a salto para Paris frequentava-lhe o partamento levando-lhe as necessárias vitualhas apesar de o local não ser nada adequado para ser frequentado por clandestinos mas foi o que o Vasco, meu ex-colega do IST, me arranjou.
Com o 25 de Abril casaram e tiveram umas filhas lindas, a Sara, a Raquel e a Rute. Tudo nomes bíblicos explicava-me ele
O Ângelo de Sousa foi a peça chave desta acção. No nosso encontro no Bairro Azul em Lisboa um mês antes da sabotagem disse-me: o quarteleiro empresta a chave do hangar a oficiais e sargentos que vão lá roubar gasolina dos aviões para os seus carros, ao fim de semana. Mas não tens carro! advertia-o eu. Mas eu digo que é para o carro do meu colega Ferreira.
Trouxe a chave num fim de semana fiz um molde em sabão amolecido e fiz um chave que o Ângelo depois testou com êxito.
Enquanto não partiu a salto para Paris frequentava-lhe o partamento levando-lhe as necessárias vitualhas apesar de o local não ser nada adequado para ser frequentado por clandestinos mas foi o que o Vasco, meu ex-colega do IST, me arranjou.
A PIDE desesperada e
necessitando apresentar serviço acusou e prendeu um sargento só porque na
investigação descobriu que residia próximo da casa do Ângelo, em Espinho:
Eis como descrevo o caso no livro ARA a páginas 152 e seguintes:
Eis como descrevo o caso no livro ARA a páginas 152 e seguintes:
Sargento inocente
preso e expulso das Forças Armadas
" Depois da sabotagem de Tancos a
PIDE/DGS distribuiu milhares de fotografias do Ângelo de Sousa por todos os
postos da Guarda Fiscal, pelas esquadras da PSP e postos da GNR. Enraivecida e
necessitando de mostrar serviço fez prisões ao acaso. Uma delas foi a do
sargento de Infantaria do quadro permanente Óscar Soares que não conhecia o
Ângelo mas tinha o azar de morar em Espinho próximo da sua residência e além
disso frequentou um curso de explosivos na Escola Prática de Engenharia, em
Tancos, ali bem ao lado da Base Aérea 3.
... O sargento Soares fazia anos, trinta e um anos
exactamente e resolveu pedir cinco dias de licença a que tinha direito.
Meteu-¬se no seu carro a caminho de Tomar onde tinha marcado revisão para ele
na Auto-Tomar, Lda. Foi então ao chegar ao Entroncamento que o dia, em vez de
se revelar comemorativo e feliz se revelou fatídico. Quase teve um acidente ao
atravessar-se-lhe, com uma travagem brusca, na estrada à sua frente a grande
velocidade, um carro donde saíram a correr dois bandidos de pistola em punho
que num ápice lhas apontavam à cabeça. Bandidos, pensou ele. Quando se
identificaram como agentes da PIDE/DGS pensou estar a salvo logo que verificassem
que ele era um sargento do exército e confirmassem o equívoco. Estupefacto viu
que isso nada remediou.
«Embora me tivesse identificado fui logo ameaçado com
dois tiros na cabeça pelo chefe de brigada… Disse que tinha ordens do meu
comando para me levar para Lisboa. Fui empurrado para o fundo de um Morris 1300
branco sendo logo despojado do que levava nos bolsos. Ao chegar à sede da DGS, puseram-me nu, sofrendo vexames na minha dignidade pessoal e ameaças de
espancamento começando logo o interrogatório sobre um indivíduo de nome Ângelo
de Sousa que desconheço… Passei assim três dias e três noites sem interrupção,
sem ser consentido qualquer descanso, sempre ameaçado e enxovalhado
nomeadamente pelo inspector Pires.» Foi com estas palavras que o sargento
Soares fez, tempos depois, uma exposição ao general Arnaldo Schultz, então
director do Instituto de Altos Estudos Militares.
O general era conhecido de um dos seus
familiares mas apesar de ser um dos duros do regime pouco lhe pôde valer. É
nessa mesma exposição que o jovem e inocente sargento relata:
«Depois fui transferido
para o Forte de Caxias e de seguida para prisão militar, o Forte da Trafaria.
Ao fim de dois dias entregaram-me de novo à DGS, que afirmou ter ordens do
senhor Chefe de Estado Maior para ser levado à civil tendo entrado de novo
naquele Organismo para novo interrogatório e tortura do sono por mais quatro
dias e noites. Findo este período de tortura fui para o reduto Norte do Forte
de Caxias em regime de rigoroso isolamento durante dois meses.»
Queixa-se na
exposição ao general de não lhe terem deixado nenhum objecto pessoal, de não
lhe autorizarem correspondência, nem visitas da família, nem… oh cândida
ingenuidade «não o terem informado dos seus direitos»!!! e mais um rol de
coisas que justamente o indignavam e surpreendiam mas eram triviais para quem
andava à «chuva», àquela chuva! A que era totalmente alheio.
Já depois de
ter dados suficientes para ilibar o sargento e o deixar em paz a PIDE/DGS deu ordens para
ser expulso do Exército como desertor (Ordem do Exército n.º 14 de 20-05-71).
Mais tarde, depois de muitos empenhos,
o sargento Soares conseguiu ser reintegrado no Exército (OE de 30 de Julho de
1971) mas o seu reingresso no quadro só foi considerado a partir de 5 de Junho.
Ficou dado como desertor três meses, foi transferido de unidade, perdeu
antiguidade, dificultaram-lhe a carreira. Nem o carro lhe devolveram! «Para não
ser parvo e andar a confundir a PIDE/DGS!» Só depois do 25 de Abril
de 1974 começou a ser feita justiça. "
2020-03-07
Bendito Serviço Nacional de Saúde
Artigo de opinião de Paula Alves Silva na revista Visão de 2020-02-27 aqui
" Escrevo este texto cinco meses depois da
minha primeira ida a uma urgência nos Estados Unidos. Três horas dentro das
urgências que resultaram em cerca de oito mil dólares.
Julgo que os relógios dos hospitais são
diferentes dos restantes. Tem, penso, um compasso próprio. Mais pausado. Mais
audível. Torna-se num relógio ainda mais lento quando estamos sentados durante
dez horas numa cadeira da sala de urgências. Deixamos de saber se foi a doença
nos entorpeceu o corpo ou desconforto da cadeira, da qual o corpo não permite
levantar. Escrevo este texto cinco meses depois da minha primeira ida a uma
urgência nos Estados Unidos. Escrevo esta crónica a titulo pessoal lembrando as vezes sem conta em que pensei naquela noite no quão perfeito é o
imperfeito
Sistema Nacional de Saúde (SNS) Português.
Atirem-se as primeiras pedras ao meu
perfeito, que bem sabemos não ser perfeito. Talvez deva explicar. Sabem quanto
custou a entrada nas urgências do hospital onde me sentei na capital americana?
Mais de três mil dólares. A entrada, sublinho. Quando finalmente, após 10 horas
de espera, cheguei à dita sala de urgências olhei em redor. Havia cerca de doze
camas, um médico e três enfermeiras. Não foi difícil entender porque motivo os
doentes entravam a conta-gotas na urgência.
Quantas vezes pensou dentro de uma urgência
quanto custa cada um dos exames que realiza, se terá ou não dinheiro para os
pagar? Nos Estados Unidos seguramente muitas. O que explica por que motivo o
médico tenha de explicar cada um dos procedimentos e a sua razão, permitindo ao
paciente a ultima palavra. A minha conta final foi bastante explícita deste
sintoma: analises ao sangue – 1200$, farmácia (em concreto, soro e um
anti-inflamatório) – próximo de 400$, uma ressonância magnética – quase 4000$
e, por fim, as três horas disponibilizadas pelo médico – cerca de 500$. Três
horas dentro das urgências que resultaram em cerca de oito mil dólares.
Perguntei-me muitas vezes: quanto custaria uma cirurgia?
É para isso que serve o seguro de saúde,
pensarão muitos. Correcto. Mas o Sistema de saúde americano é mais complexo do
que se prevê. Não é apenas o seu valor. Um plano básico de saúde para uma
pessoa individual em início de carreira custa pelo menos 200 dólares por mês
(valor que varia de acordo com o estado em que se encontre). Razão plausível
pela qual cerca de de 28 milhões de pessoas nos Estados Unidos vive sem seguro
de saúde, um número que tem vindo a aumentar nos últimos anos, sobretudo com a
revogação do Affordable Care Act, mais conhecida como Obamacare.
Por outro lado, lembrar que ter um
seguro de saúde não é sinónimo de garantia do pagamento total de uma conta.
Importa, primeiramente, recordar que é necessário criar uma espécie de
plafound. Ou seja, é necessário realizar alguns pagamentos para que a conta de
seguro possua dinheiro para pagar a percentagem indicada para cada
especialidade. Deste modo, alguém que hoje inicia o seu seguro terá uma
cobertura menor ou quase nula comparativamente com alguém que já possui um
seguro há alguns anos.
Além disso, é necessário referir que a
franquia tem aumentado significativamente desde 2006. Nesse ano, apenas 50% das
pessoas com seguro através da empresa de trabalho tinham uma franquia. Em 2018,
o número disparou para 82%. Acrescenta-se a este factor o ainda aumento do
valor da franquia. Se em 2006 o valor era cerca de 600 dólares, em 2018
situava-se nos 1700, visto que as seguradoras perceberam ser mais vantajoso
fazer o paciente pagar uma taxa maior pelas idas ao médico ou ao hospital do
que pagar um valor maior mensalmente.
Resultado? Milhares de processos feitos
por hospitais contra pacientes que não conseguem pagar as suas dívidas. De
notar que os programas de ajuda financeira dos hospitais apoiam apenas pessoas
com salários anuais ate 400% acima do limiar de pobreza, isto é pessoas com
salários anuais que rondem os 50 mil dólares [valores baixos para o custo de
vida nos Estados Unidos].
A complexidade e o custo de um seguro
tornou os Estados Unidos num país onde pessoas que caem na rua e precisam de
assistências hospital recusam uma ambulância, porque o custo do transporte em
ambulância em Washington DC, por exemplo, é 2500 dólares.
Por isso, perdoem-me, mas, sim, bendito
SNS, pensei eu, recordando as idas ao hospital em Portugal, onde não esperei 10
horas (apesar de saber que acontece) e cujo atendimento em nada ficou a dever
ao que recebi num dos hospitais da primeira potência mundial. Bendito Portugal
pequenino que, apesar de não figurar nos tops das economias mundiais, percebe a
importância de um estado social. Bendito SNS que apesar das suas grandes lacunas
e das suas fragilidades não faz com que o paciente se questione se tem dinheiro
antes de chamar uma tão necessária ambulância. Bendito.
Etiquetas: Saúde em Portugal, Saúde nos EUA, Serviço Nacional de Saúde, SNS
2020-03-02
FIDEL CASTRO na ONU em 1992 sobre o MEIO AMBIENTE
2020-02-23
Canção OS BARQUEIROS DO VOLGA
"Os Barqueiros do Volga" é
um clássico russo, muito anterior à revolução comunista de 1917. Na Rússia imperial, na Rússia dos czars, antes da máquina a vapor, as barcas no rio Volga eram rebocadas por homens puxando cordas rio acima.
Os barqueiros eram obrigados a "vestir" uma couraça presa por cordas ao cabo principal e puxavam, rio acima, vencendo a força da corrente do grandioso rio. O trabalho até à exaustão. As cordas feriam os barqueiro mas o
capataz empurrava-os e chicoteava-os impiedosamente.
Deste sofrimento inaudito nasceram muitos cantos de trabalho, dos quais este é o mais famoso. É baseado
no ritmo das imprecações e incitamentos para suportarem a dor e vencerem a corrente... A canção é um profundo apelo de homens escravizados e injustiçados, um
lamento de revolta contra o mundo. (Baseado no texto do blog de Richard Jakubaszko)
L e o n i d K h a r i t o n o v e o C o r o d o E x é r c i t o V e r m e l h o - M o s c o v o, 1965.
__________________________
Os Barqueiros do Volga com I v a n R e b r o f f como s o l i s t a
____________________________
O rio Volga
O rio Volga é o maior rio da Europa. Nasce nos Montes Valdai,a noroeste de Moscovo. Estende-se por 3700 quilómetros, e tem era de 200 afluentes, e a sua bacia hidrográfica tem mais de um milhão e meio de quilómetros quadrados. Cerca de 40 % da população russa vive nas suas proximidades. Existem numerosas barragens e albufeiras ao logo do seu percurso. Um sistema de canais permitem a ligação do Volga ao Mar Branco e ao Báltico, a norte, e aos Mares Negro e de Azov, a sul.
Chamam ao Volga a mãezinha da Rússia. Também lhe chamam a Rua Principal. É que forma uma grande via de comunicação que liga o norte ao sul do país, e contribui decisivamente para o desenvolvimento das regiões que atravessa. É navegável na maior parte do seu curso. Onde existem desníveis têm sido construídas barragens hidroeléctricas. São numerosas as cidades importantes que têm crescido nas suas margens, desde tempos imemoriais. entre outras Tver, Dubna, Rybinsk, Yaroslavl, Nizhny Novgorod e Kazan, Ulyanovsk, Tolyatti, Samara, Saratov e Volgograd.
Desagua no mar Cáspio, abaixo de Astrakhan, 28 m abaixo do nível médio das águas do mar
2020-01-08
Luciano Pavarotti e Lucio Dalla cantam "Caruso" o seu glorioso compatriota.
A tradução para Português é do Google que consegue estropiar a a língua a tal ponto que só a deixo aqui a "tradução" para se ter uma ideia do tema maravilhosamente cantado.
Tenho de agradecer à Helena Pato ter trazido estes grandes cantores para o Facebook de onde, via Youtube, trouxe para aqui.
Luciano Pavarotti nasceu em Modena, Itália, em 1935 e faleceu na terra natal em 2007. Lucio Dalla nasceu em Bolonha, Itália, em 1943 e faleceu em 2012 na Suiça.
Enrico Caruso nasceu em Nápoles (Itália) em 1873 e faleceu nesta cidade italiana em 1921. O grande Pavaroti considerava Caruso o maior intérprete da música erudita de todos os tempos.
Ópera... todos italianos !
Caruso
|
Caruso
|
| Qui dove il mare luccica |
Aqui onde o
mar brilha
|
| E tira forte il vento | E sopra forte o vento |
| Su una vecchia terrazza | Num antigo terraço |
| Davanti al golfo di Surriento | Em frente ao golfo de Surriento |
| Un uomo abbraccia una ragazza |
Um homem
abraça uma garota
|
| Dopo che aveva pianto | Depois que ele chorou |
| Poi si schiarisce la voce | Então limpa a garganta |
| E ricomincia il canto | E recomeça a cantar |
| Te voglio bene assai |
Eu te amo
muito
|
| Ma tanto tanto bene, sai | Mas tanto tanto você sabe |
| È una cantena ormai | É uma cantena agora |
| Che scioglie il sangue dint'e vene, sai | Que derrete o sangue em suas veias, sabe |
| Vide le luci in mezzo al mare |
Ele viu as
luzes no meio do mar
|
| Pensò alle notti là in America | Ele pensou nas noites lá na América |
| Ma erano solo le lampare | Mas eram apenas as lâmpadas |
| E la bianca scia di un'elica | E o rastro branco de uma hélice |
| Sentì il dolore nella musica |
Ele sentiu
dor na música
|
| Si alzò dal pianoforte | Ele se levantou do piano |
| Ma quando vide la luna uscire da una nuvola | Mas quando ele viu a lua sair de uma nuvem |
| Gli sembrò più dolce anche la morte | Até a morte parecia mais doce para ele |
| Guardò negli occhi la ragazza |
Olhou nos
olhos a garota
|
| Quegli occhi verdi come il mare | Aqueles olhos verdes como o mar |
| Poi all'improvisso uscì una lacrima | Então, de repente, uma lágrima saiu |
| E lui credette d'affogare | E pensou que estava se afogando |
| Te voglio bene assai |
Eu
te amo muito
|
| Ma tanto tanto bene, sai | Mas tanto tanto, você sabe |
| È una cantena ormai | É uma cantena agora |
| Che sciogliei sangue dint'e vene, sai | Que eu derreti sangue nas veias, você sabe |
| Potenza della lirica |
Poder da ópera
|
| Dove ogni dramma è un falso | Onde todo drama é falso |
| Che con un po' di trucco e con la mimica | Que com um pouco de maquiagem e imitação |
| Puoi diventare un altro | Você pode se tornar outro |
| Ma due occhi che ti guardano |
Mas dois olhos que olham para você
|
| Così vicini e veri | Tão perto e verdadeiro |
| Ti fan scordare le parole | Eles fazem você esquecer as palavras |
| Confondono i pensieri | Eles confundem pensamentos |
| Così diventa tutto piccolo |
Então tudo se torna pequeno
|
| Anche le notti là in America | Até as noites lá na América |
| Ti volti e vedi la tua vita | Você se vira e vê sua vida |
| Come la scia di un'elica | Como o slipstream de uma hélice |
| Ma sì, è la vita che finisce |
Mas sim, é a vida que acaba
|
| Ma lui non ci pensò poi tanto | Mas ele não pensou muito sobre isso |
| Anzi si sentiva già felice | Na verdade, ele já se sentia feliz |
| E ricominciò il suo canto | E sua música começou de novo |
| Te voglio bene assai |
Eu te amo muito
|
| Ma tanto tanto bene, sai | Mas tanto tanto, você sabe |
| È una cantena ormai | É uma cantena agora |
| Che scioglie il sangue dint'e vene, sai | Que derrete o sangue em suas veias, você sabe |
| Te voglio bene assai |
Eu te amo muito
|
| Ma tanto tanto bene sai | Mas você sabe muito bem |
| È una cantena ormai | É uma cantena agora |
| Che scioglie il sangue dint'e vene | Que dissolve o sangue nas veias |
2020-01-06
Trump para evitar a destituição abeira o mundo de uma guerra
Já tínhamos excessivas provas de que Trump era um personagem desqualificado, empanturrado de si mesmo e agora, ao assassinar um dirigente de um país ao qual não declarou guerra, o general Qasem Soleimani, a segunda figura do Estado iraniano, revelou-se um perigoso terrorista global.
O regime dos ayatollahs do Irão não merece a menor simpatia dos democratas e dos homens livres mas isso não diminui em nada a gravidade deste aventureiro acto de guerra não declarada.
O perigo de guerra no Médio Oriente e no mundo torna-se assim dramático.
Trata-se de um acto irreflectido de um inimputável? Não, é uma tentativa para contrariar o processo do "impeachment" e que terá o apoio do "complexo industrial-militar" dos EUA e de todos os que enriquecem com as guerras, com a tragédia e a morte nelas de milhões de seres humanos.
Trump continua rodeado de gente perigosa de proto-fascistas que não desmerecem do sujeito que foi o seu principal mentor, o extremista-racista, apologista da "supremacia do homem branco", um tal Steve Bannon
Como reagiu Jen Stoltenberg, Secretário Geral da NATO, a este perigoso acto belicista de Trump? Como bom vassalo, como representante do conglomerado de países satélites do império norte-americano, Jens Stoltenberg, ex-primeiro-ministro da Noruega, condenou... o Irão !!. "Em declarações à imprensa após uma reunião dos embaixadores dos 29 membros da NATO para discutir a crise entre Estados Unidos e Irão, Jens Stoltenberg explicou que " O Irão deve evitar mais violência e provocações"
Trump continua rodeado de gente perigosa de proto-fascistas que não desmerecem do sujeito que foi o seu principal mentor, o extremista-racista, apologista da "supremacia do homem branco", um tal Steve Bannon
Como reagiu Jen Stoltenberg, Secretário Geral da NATO, a este perigoso acto belicista de Trump? Como bom vassalo, como representante do conglomerado de países satélites do império norte-americano, Jens Stoltenberg, ex-primeiro-ministro da Noruega, condenou... o Irão !!. "Em declarações à imprensa após uma reunião dos embaixadores dos 29 membros da NATO para discutir a crise entre Estados Unidos e Irão, Jens Stoltenberg explicou que " O Irão deve evitar mais violência e provocações"
E o MNE português que reação teve? Ou não disse nada ou aprovou, seguramente, as declarações do SG da NATO. E se tivesse sido a Rússia ou a China a cometer este acto de guerra? A gritaria que a imprensa satélite de Washington não teria desencadeado para "organizar a cabeça do eleitor" !
Brasil - Um governo de extrema direita, terrorista, desqualificado.
“247 - O apresentador Marco Antonio Villa, no Jornal da Manhã... enfureceu a direita nas
redes sociais por ter criticado o ministro da Educação, Abraham Weintraub,
e defender o filósofo e escritor Paulo Freire, patrono da educação
brasileira.
Em um debate com o comentarista político Rodrigo Constantino,
Villa disse que Weintraub é um homem “para ser interditado”. “O ministro da
Educação comete erros de ortografia no Twitter. Ele não sabe escrever
português! Nós temos um ministro da Educação ignorante. Ele falou que o grande
escritor tcheco era o ‘kafta' [em vez de Kafka]”, lembrou.
Constantino iniciou a conversa dizendo que há uma “doutrinação
esquerdista” na educação brasileira, que tem como patrono o “comunista Paulo
Freire, defensor de tiranos”.
Villa então saiu em defesa de Freire, destacando que o
pernambucano é o terceiro educador mais citado no mundo, por conta de sua obra
“Pedagogia do Oprimido” (1968), de acordo com levantamento feito pelo Google
Schoolar, em 2016. “Ele tem 37 títulos doutor honoris causa. Só no Brasil
alguém que não conhece a educação pode fazer uma crítica rasteira sobre alguém
que é fundamental na história da educação mundial”, disse. “
2019-12-09
Clima e transição energética
É um artigo de opinião de António Costa Silva, professor do Instituto Superior, no Público de 9 de Dezembro de 201 (A imagem não faz parte do artigo).
___________
A ameaça
climática é um dos desafios do nosso tempo. Os
resultados de estudos como o dirigido por Richard Muller, da
Universidade de Berkeley, um dos mais exaustivos já levado a cabo, são
inequívocos. A temperatura da Terra está a aumentar em todos os continentes e o
Pólo Norte é o local do planeta que aquece mais. Nos últimos 30 anos perdeu 2
milhões de Km2 de
gelo, que é um estabilizador do clima da Terra porque reflecte parte da
radiação solar. O seu desaparecimento acelera o aquecimento dos oceanos e
global. Como não podemos negociar com a Natureza, é preciso agir. E aí começam
os equívocos.
Há uma
dissonância entre a retórica política e os factos. As cimeiras sucedem-se, os
gritos são muitos, mas na prática faz-se pouco. E quando se faz algo que pode
ser decisivo ninguém liga porque toda a gente está mais preocupada em gritar.
Os factos são incontornáveis: no ano 2000, já depois das primeiras cimeiras
como a do Rio, as emissões de CO2 eram de 25.000 milhões de toneladas (mt) por ano. O planeta aguenta o
máximo 18.000 mt. Em 2018, as emissões de CO2 chegaram a 34.000 mt, cresceram 36% só neste século. Mas em 2015 e
2016, depois de 30 anos consecutivos em que as emissões cresceram à média de
1,7% ao ano, elas estagnaram. Era um ponto de viragem se tivéssemos prestado
atenção.
Estagnaram
porque os EUA começaram a substituir as suas centrais a carvão por centrais a
gás e as emissões são 60% inferiores. E a China decidiu congelar o seu programa
de aposta no carvão e seguiu o caminho dos EUA. Com os dois maiores poluidores
mundiais a reduzirem o uso de carvão, tivemos dois anos
que podiam ser de viragem. Mas ninguém teve coragem de sentar o G-4 do carvão à
mesa – China, EUA, Rússia e Japão, que consomem 75% do carvão no
mundo – e levá-los a um compromisso sólido para diminuírem de forma
consistente e prolongada o seu uso. Só a China consome 50% do carvão utilizado
no mundo. Mas o carvão não é “sexy” como outras fontes energéticas que
são demonizadas e poucos prestam atenção ao elefante na sala.
Resultado:
em 2019, como a China regista o crescimento económico mais lento desde os anos
90, decidiu recorrer de novo ao carvão, a fonte de energia mais barata, para
estimular o crescimento económico e gerar emprego. O programa chinês do carvão
foi reactivado e a China vai instalar nos próximos anos cerca de 148 GW de
capacidade em centrais a carvão, o que equivale a toda a potência instalada na
Europa. É uma péssima notícia para a China e para o planeta.
Neste
contexto, as cimeiras e declarações políticas mostram hipocrisia.
É fácil gritar. Mais difícil é pensar, trabalhar as soluções, sentar os
decisores à mesa e urdir compromissos sérios e consistentes. 57% das emissões
globais de CO2 são
geradas pelo consumo de combustíveis fósseis: 2/3 provêm do sistema de geração
eléctrica e térmica e 1/3 do sistema de transportes. É preciso ter a coragem de
sentar à mesa o G-5 das emissões – China, EUA, Índia, Japão e Rússia,
responsáveis por 65% das emissões de CO2. Para responder aos objectivos do Acordo de Paris de
2015 é preciso reduzir até 2040 40% do consumo de carvão e 15% de petróleo e
aumentar 40% o consumo de energias renováveis. Isto é fazível, mas é preciso
coragem para agir e políticas públicas bem desenhadas.
O
sistema de geração eléctrica e térmica, apesar do aumento das energias
renováveis, ainda gera 420 quilos de carbono por cada Mw de energia produzida.
O máximo para a sustentabilidade do planeta deve ser 100 quilos de carbono por
cada Mw gerado. Há um longo caminho a percorrer. O drama é que o consumo de
energia primária continua a aumentar (+1,9% em 2018) para responder ao
crescimento da população e da economia. É preciso mudar o paradigma e
comportamentos e produzir energia mais limpa.
As
soluções são multidimensionais. Passam pela mudança da matriz energética com
mais energias renováveis e menos carvão e menos petróleo. Passam por um
compromisso das companhias de petróleo e gás para diversificarem o seu
portefólio; investirem mais nos activos de baixa intensidade carbónica;
estabelecerem metas verificáveis de queima “zero” do gás e crescimento “net” zero das emissões, num prazo
temporal curto; criarem produtos de baixa intensidade em carbono; apostarem nas
tecnologias digitais para aumentar a eficiência e baixar as emissões. Passa
pelo reforço do “cluster”
das energias renováveis, em particular a eólica e solar, que são competitivas e
que estão a crescer. Passa por mudanças no sistema de transportes com a
electrificação da frota automóvel nas cidades que consomem cerca de 75% da
energia do planeta e são responsáveis por 85% das emissões. Passa pela expansão
da mobilidade eléctrica e da aposta nos biocombustíveis que não competem com as
culturas alimentares. Passa por avanços na armazenagem da electricidade à
escala da rede, com a revolução das baterias, que pode levar à electrificação
de vastos segmentos da economia mundial. Passa pela digitalização das redes
energéticas e a Internet da Energia com o “streamlining” das operações e a redução das emissões e
do desperdício.
Passa pela revolução do hidrogénio, cujos custos podem ser
competitivos (se for gerado a partir do gás natural), e a sua aplicação nas “fuel cells” que podem ser uma
alternativa sólida para a mobilidade, além de que podem capturar o CO2. Passa por soluções que apostam nos sumidouros naturais de CO2 como as florestas, os solos agrícolas bem tratados, o fim
da desflorestação. O mau uso da terra é responsável por 20% das emissões de CO2. A captura do carbono, incluindo a captura directa a partir do
ar, é outra solução que tem ganho tracção.
Finalmente,
a geologia pode salvar o planeta. Há dois locais no mundo, os Montes Apalaches
nos EUA e Omã, onde as rochas do manto afloram à superfície da terra. O manto
está por baixo da litosfera, a camada superficial da Terra. Quando as rochas do
manto, como os peridotitos, afloram à superfície, elas mineralizam o carbono a
uma escala e ritmo sem paralelo. É o processo mais barato de todos porque
utiliza a energia química das rochas. O futuro não será a repetição do passado
mas nesse futuro o papel da geologia pode, como sempre, surpreender.
2019-11-15
A OEA e o golpe na Bolívia: eleição foi sem fraude, mas não aceitamos a vitória de Evo
Por Ana Prestes. 11/11/2019
Foto ABI
A onda de restauração conservadora chegou à Bolívia. Não de forma muito diferente de como se tem manifestado na América Latina desde o Golpe nas Honduras em 2009, mas com uma componente de violência acentuada. Não se trata de um golpe jurídico parlamentar como se deu no Paraguai e no Brasil, tem mais semelhança com a onda de violência e desestabilização que abalou a Nicarágua em 2018 ou com a tentativa de sequestro de Correa, no Equador em 2012 ou ainda com o golpe de 2002 na Venezuela, quando os opositores tomaram meios de comunicação e incendiaram as ruas.
Mas vejamos como chegámos a esta situação em que hoje, 10 de Novembro, após ter sido vitorioso no pleito eleitoral de 20 de Outubro, Evo Morales, presidente da Bolívia, anuncia que o parlamento boliviano renovará os cargos dos juízes do Tribunal Eleitoral, por ter competência para fazê-lo, e novas eleições gerais serão convocadas, anulando-se assim os resultados de 20 de Outubro. Horas antes do anúncio, a OEA havia-se manifestado não reconhecendo o pleito após realização de auditoria da contagem dos votos. Na prática, a OEA, através de Luís Almagro fez seu papel, tal e qual nos outros países golpeados.
As eleições na Bolívia correspondem ao apagar das luzes da segunda década do século XXI. Duas décadas marcadas por muitas transformações na América Latina. Um período em que se viveu o chamado ciclo de governos progressistas iniciado com a Eleição de Chávez como presidente da Venezuela em 1998 e seguiu vigoroso até à primeira derrota eleitoral importante, a de Cristina Kirchner na Argentina em 2015. Nesse meio tempo houve vários intentos de golpe e pelo menos dois com sucesso para os conservadores, nas Honduras e no Paraguai. De 2015 para cá a onda de restauração conservadora tomou mais corpo, especialmente como golpe no governo Dilma no Brasil e a eleição de Bolsonaro.
Evo chegou perto de ser eleito pela primeira vez em 2002, quando ficou em segundo lugar nas eleições de modo surpreendente para um país de sucessivos governos oligárquicos. Nas eleições de 2005 ele venceu com maioria absoluta, tornando-se o primeiro presidente de origem indígena.
Quando Evo assume a presidência a Bolívia possuía um PIB de 5 biliões de dólares e uma dívida externa de igual valor. Já ao final de 2005 o PIB estava na casa dos 9 biliões e em 2018 de 40,8 biliões de dólares. Os governos dos “terratenientes” que o antecederam se ocupavam de utilizar o Estado para maior seu maior enriquecimento e dos seus familiares. Em 14 anos o governo Evo multiplicou por 8 o PIB do país.
Uma das principais chaves da nova economia foi a mudança relativamente aos recursos naturais, em especial nos sectores agropecuário, mineiro, energético e de hidrocarbonetos. Com uma profunda nacionalização através da recuperação de empresas estratégicas, além do investimento misto, junto ao sector privado, na actividade económica das pequenas, médias e grandes empresas. Como consequência, refundaram politicamente o país e alteraram perfil de um Estado colonial para um Estado Plurinacional, com especial atenção ao movimentos indígenas e de mulheres.
O resultado foi que um país que tinha 78,2% de pessoas na pobreza extrema, passou a ter menos de 15%, estabilizou num crescimento de 4% ao ano e chegou a um PIB per capita de 4 mil dólares, quando era de 900 dólares.
A Bolívia é um país que enfrentou 193 golpes de Estado no período que vai desde os tempos de Bolívar e Sucre, heróis independentistas, em 1825, até 1982. Estabilidade política não é o comum no país, muito pelo contrário. E mais, instabilidade política sempre acompanhada de muita violência. De 84 governos, 32 foram conduzidos por ditadores.
O Palácio de Quemados, sede da presidência e do qual observamos nos últimos dias o amotinamento dos guardas palacianos contra Evo, tem esse nome por ter sido incendiado em uma revolta popular em 1860. Com Evo e Linera, portanto, nos últimos 14 anos, a Bolívia viveu um dos mais longevos períodos de estabilidade política desde a independência, se não foi o maior. Durante esse período houve um princípio de guerra civil em 2008, instada pelos mesmos golpistas de hoje, sediados em Santa Cruz, Chuquisaca e Tarija, na época também de El Beni e Pando.
Qualquer um que olhasse o cenário, de estabilidade política, crescimento económico, extermínio da pobreza e melhora de outros indicadores sócio-económicos, poderia pensar que Evo levaria esta fácil. Com vitória arrebatadora. Ocorre que na política tudo são nuvens e quando você volta a olhar o céu, lá vem uma tempestade imprevista. A combinação da reorganização dos setores oposicionistas, animados com os ventos conservadores que vieram bater no continente (exemplo do Brasil) com a insatisfação de setores indígenas, por considerarem que Evo se aproximou demais do mercado e do agronegócio, os incêndios florestais pré-eleitorais e a não identificação de eleitores jovens (conhecemos esse filme) com o programa do MAS formou um cenário complicado para Evo.
Por isso a vitória não foi avassaladora e capaz de fechar a fatura no primeiro turno. A estreita margem dos votos, principalmente do campo e meio rural, que garantiram os 10% de diferença entre Evo e Mesa foi o componente de tempestade perfeita que o imperialismo precisava para entrar com a intrometida colher da OEA e abrir as portas para o golpe.
Um ponto importante do cenário e contexto pré-eleitoral foi o das queimadas florestais que alarmaram a Bolívia, em especial na Chiquitania, no mesmo período em que aqui no Brasil enfrentamos as queimadas na região da Amazónia. Enquanto aqui no Brasil o governo Bolsonaro fazia vista grossa para as queimadas, batia boca com Macron e rasgava dinheiro europeu, Evo foi pessoalmente para as áreas de queimadas, montou comitê de crise em barraca de campanha, pediu ajuda ao mundo inteiro, revelou tecnologias que poucos conhecíamos ao receber aviões tanque e outros tipos de apoio.
Seria impossível no entanto que as queimadas não chamuscassem também a candidatura de Evo e dessem de bandeja argumentos para a oposição alvejar o líder indígena. Foram cinco as mortes decorridas do enfrentamento ao fogo, 4 bombeiros e um camponês, quatro milhões de hectares consumidos pelo fogo, sendo 12 áreas protegidas com grande biodiversidade de fauna e flora. Tudo isso justamente em Santa Cruz, sede do golpismo anti-Evo.
No dia 20 de outubro, mais de 7 milhões de eleitores estavam aptos a votar, tanto no país como no exterior (341 mil puderam votar fora do país). O pleito escolheria 1 presidente e seu vice-presidente, 130 deputados e 36 senadores para o mandato de 2020 a 2025. Para vencer e levar a presidência na Bolívia um dos candidatos deve fazer mais de 50% dos votos ou no mínimo 40% com uma diferença de 10 pontos percentuais a frente do segundo mais votado. Caso contrário, há segunda volta. Os principais adversários de Evo (47,08%) foram Carlos Mesa (Comunidad Ciudadana) com 36,51%, Chi Hyun Chung (Partido Democrata Cristão), com 8,83% e Óscar Ortíz (Bolivia dice No), de Santa Cruz, preferido dos EUA, com apenas 4,26%.
Quatro dias antes da eleição, Evo recebeu uma delegação da OEA na Casa Grande do Povo e logo manifestou via twitter: “damos as boas vindas à delegação de observadores da OEA que acompanham as eleições na Bolívia para verificar a transparência e legalidade do processo eleitoral”. A OEA enviou 92 observadores para as eleições bolivianas, sendo que parte desses se deslocou para acompanhar as votações em São Paulo, Buenos Aires e Washington. Apesar da receptividade com a OEA, que sabemos bem a serviço de quem anda “observando” os governos latino-americanos, a bandeira branca de Evo não funcionou muito e a violência se instalou já nos dias prévios às eleições. O encerramento da campanha do MAS em Santa Cruz foi um exemplo do que estava por vir.
Passado o domingo 20, enquanto ainda se fechava o escrutínio das cédulas foram queimados os escritórios do Tribunal Eleitoral Departamental de Potosí e juízes eleitorais foram agredidos em Tarija, Chuquisaca, Oruro e La Paz. Foi derrubada uma estátua de Hugo Chávez em Riberalta e outros atos de vandalismo se instalaram pelo país. Os atos violentos tinham um conteúdo racista bastante particular da Bolívia, além de profundamente antidemocráticos.
Enquanto isso sabe-se que funcionários o Departamento de Estado dos EUA que estão na Bolívia, Mariane Scott e Rolf Olson, mantiveram reuniões com diplomatas do Brasil, Argentina, Paraguai, Colômbia, Espanha, Equador, Reino Unido e Chile para coordenar um não reconhecimento dos resultados eleitorais.
A OEA impôs uma auditoria e concluiu que “embora sem fraudes, o processo foi impreciso”, tradução = não reconhecemos a vitória de Evo.
Dali em diante todos já conhecíamos o filme. O cenário do golpe estava montado: violência nas ruas, não reconhecimento do processo eleitoral por parte dos países da região, raposa instalada dentro do galinheiro: OEA. Só faltavam alguns elementos essenciais para a efetivação do golpe: forças de segurança e meios de comunicação. E foi justamente o que vimos nos últimos dias, amotinamento de forças policiais e tomada de rádios e tvs a força pelos golpistas. A que se dizer que o papel dos militares foi dúbio, mas a informações de que o próprio Evo decidiu não colocar o Exército nas ruas para não incrementar a violência e dar mais argumentos aos golpistas.
No dia de hoje Evo fez um pronunciamento que para uns soou como coragem e para outros como rendição. A ver o que a vida mostrará nas próximas horas. Anunciou aceitar o resultado da auditoria da OEA e a convocação de novas eleições. Além de sua anuência para que o parlamento troque os juízes do Tribunal Superior Eleitoral. Resta saber se as novas eleições terão entre os concorrentes Evo Morales, o presidente que tirou a Bolívia da situação de eterna colónia e deu a seu povo dignidade e oportunidade de desenvolvimento, nunca vistos naquele país. Enquanto escrevo já são noticiadas as novas chantagens golpistas e entre elas está o pedido de renúncia de Evo para que o país se pacifique. Evo apostou na paz, resta saber se isso basta para interromper a guerra. De todo modo, ele marcha suportado pela solidariedade de todo um continente que sabe o gigante que ele é. Fuerza Evo.
2019-11-11
Golpe militar na Bolívia
"A queda de Evo Morales mostra que o império e
seus aliados não descansam, mantendo-se sempre à espreita para agir contra
aquelas lideranças que representam os interesses do povo", diz o colunista
Paulo Moreira Leite
No dominó sul-americano, a Bolívia era a única peça
que permanecia de pé, inabalável, após o vendaval imperialista que em pouco
mais de cinco anos modificou a paisagem política da região.
Pela ordem cronológica. Em 2013, com a morte de Hugo
Chávez, teve início a fase mais dura do bloqueio à revolução bolivariana, um
garrote cada vez mais apertado no pescoço da Venezuela, que resiste, apesar de
tudo, apoiada por um Exército que sustenta o governo Nicolas Maduro com uma
fidelidade única na região.
Em 2015, grandes escândalos midiáticos ajudaram
derrotar o peronismo na Argentina, abrindo caminho para a vitória de
Maurício Macri. Em 2016, o projeto Lula-Dilma foi derrubado através de um golpe
parlamentar, consolidado pela prisão de Lula em 2018. Em 2017, numa sórdida
trama palaciana, Lenin Moreno desfez as conquistas de Rafael Correa para
reconectar o Equador ao comando de Washinton.
O golpe que forçou a renúncia de Evo Morales,
presidente desde 2006, reeleito pela quarta vez, mostra que a selvageria
política continua liberada na América do Sul.
Apoiado pelo Exército e pelas forças policiais
encarregadas da segurança interna, o ataque final a um presidente que jamais
foi derrotado nas urnas é um aviso aos navegantes da democracia e da soberania
de povos e países dessa parte do mundo. A América do Sul segue como alvo de
cobiça do império e seus ajudantes, capazes de empregar métodos implacáveis
para conservá-la sob seus domínios.
Não vamos nos iludir. O que está em jogo, no Chile de
Pinochet-Pinera, no Brasil de Temer-Bolsonaro. na Argentina de Macri, não é o
bem-estar do povo, nem o reforço das garantias democráticas, nem qualquer
conceito mais evoluído sobre a condição humana. Apenas a submissão de uma
região inteira, rica em minérios estratégicos e em recursos naturais, aos
interesses e domínios de Washington.
O golpe que derrubou Evo é a versão bem sucedida da
operação liderada por Aécio Neves para impedir a posse de Dilma em 2015.
Paralisada inicialmente, a manobra seria bem sucedida um ano e quatro meses depois.
Tanto a vitória de Augusto Fernandez-Cristina
Kirschner na Argentina, como a rebelião popular contra Pinera, no Chile e a
libertação de Lula, no Brasil, mostram que a região não evolui de uma mesma
maneira, nem numa única direção. Há uma imensa vontade de mudanças a favor dos
explorados e excluídos, que tem feito girar a roda de mudanças numa direção
favorável.
A luta por uma Assembléia Constituinte ganha força e
consistência no Chile. A liberdade de Lula é o ponto de partida para dar nova
musculatura à oposição a Bolsonaro, até hoje desarticulada e sem uma voz capaz
de falar pelas grandes camadas do povo brasileiro.
Mas a queda de Evo Morales mostra que o império e seus
aliados não descansam, mantendo-se sempre à espreita para agir contra aquelas
lideranças que representam os interesses do povo.
Alguma dúvida?
Diante de toda a destruição, onde a oposição não tem
uma estratégia para o que enfrenta, o povo está anestesiado e as instituições
foram destruídas,
2019-10-25
Chomsky:10 estratégias de manipulação de massas
O texto foi retirado daqui: A Mente é Maravilhosa
Noam Chomsky é um dos intelectuais mais
respeitados do mundo. Este pensador americano foi considerado o mais importante
da era contemporânea pelo The New York Times. Uma de suas principais
contribuições é ter proposto e analisado as estratégias de manipulação de massa
que existem no mundo hoje.
Noam Chomsky ficou conhecido como
lingüista, mas também é filósofo e cientista político. Ao mesmo tempo, ele se
tornou um dos principais ativistas das causas libertárias. Seus escritos
circularam pelo mundo e não param de surpreender os leitores.
Chomsky elaborou um texto didático no
qual ele sintetiza as estratégias de manipulação maciça. Suas reflexões sobre
isso são profundas e complexas. No entanto, para fins didáticos, ele resumiu
tudo em princípios simples e acessíveis a todos.
1. A distração das estratégias de
manipulação maciça
Segundo Chomsky, a mais recorrente das
estratégias de manipulação massiva é a distração. Consiste basicamente em
direcionar a atenção do público para tópicos irrelevantes ou banais. Desta
forma, eles mantêm as mentes das pessoas ocupadas.
Para distrair as pessoas, abarrotam-lhes
de informações. Muita importância é dada, por exemplo, a eventos esportivos.
Também ao show, às curiosidades, etc. Isso faz com que as pessoas percam de
vista quais são seus reais problemas.
2. Problema-reação-solução
Às vezes o poder, deliberadamente, deixa
de assistir ou assiste de forma deficiente certas realidades. Eles fazem dessa
visão dos cidadãos um problema que exige uma solução externa. E propõem a
solução eles mesmos.
Essa é uma das estratégias de
manipulação em massa para tomar decisões que são impopulares. Por exemplo,
quando eles querem privatizar uma empresa pública, intencionalmente diminuem
sua produtividade. No final, isso justifica a venda.
3. Gradualidade
Esta é outra das estratégias de
manipulação maciça para introduzir medidas que normalmente as pessoas não
aceitariam. Consiste em aplicá-las pouco a pouco, de forma que sejam
praticamente imperceptíveis.
Foi o que aconteceu, por exemplo, com a
redução dos direitos trabalhistas. Em diferentes sociedades têm implementado
medidas, ou formas de trabalho, que acabam fazendo com que o trabalhador não
tenha garantia de segurança social normal.
4. Adiar
Esta estratégia consiste em fazer com
que os cidadãos pensem que estão tomando uma medida que temporariamente é
prejudicial, mas que no futuro pode trazer grandes benefícios para toda a
sociedade e, claro, para os indivíduos.
O objetivo é que as pessoas se acostumem
com a medida e não a rejeitem, pensando no suposto bem que trará amanhã. No
momento, o efeito da “normalização” já operou e as pessoas não protestam porque
os benefícios prometidos não chegam.
5. Infantilizar o público
Muitas das mensagens televisivas,
especialmente publicidade, tendem a falar ao público como se fossem crianças.
Eles usam gestos, palavras e atitudes que são conciliadoras e impregnadas com
uma certa aura de ingenuidade.
O objetivo é superar as resistências das
pessoas. É uma das estratégias de manipulação massiva que busca neutralizar o
senso crítico das pessoas. Os políticos também empregam essas táticas, às vezes
se mostrando como figuras paternas.
6. Apelar para as emoções
As mensagens que são projetadas a partir
do poder não têm como objetivo a mente reflexiva das pessoas. O que eles
procuram principalmente é gerar emoções e atingir o inconsciente dos
indivíduos. Por isso, muitas dessas mensagens são cheias de emoção.
O objetivo disso é criar uma espécie de
“curto-circuito” com a área mais racional das pessoas. Com emoções, o conteúdo
geral da mensagem é capturado, não seus elementos específicos. Desta forma, a
capacidade crítica é neutralizada.
7. Criar públicos ignorantes
Manter as pessoas na ignorância é um dos
propósitos do poder. Ignorância significa não dar às pessoas as ferramentas
para que possam analisar a realidade por si mesmas. Diga-lhe os dados
anedóticos, mas não deixe que ele conheça as estruturas internas dos fatos.
Manter-se na ignorância também não dar
ênfase à educação. Promover uma ampla lacuna entre a qualidade da educação
privada e a educação pública. Adormecer a curiosidade de conhecimento e dá
pouco valor aos produtos de inteligência.
8. Promover públicos complacentes
A maioria das modas e tendências não são
criadas espontaneamente. Quase sempre são induzidas e promovidas de um centro
de poder que exerce sua influência para criar ondas massivas de gostos,
interesses ou opiniões.
A mídia geralmente promove certas modas
e tendências, a maioria delas em torno de estilos de vida tolos, supérfluos ou
mesmo ridículos. Eles convencem as pessoas de que se comportar assim é “o que
está na moda”.
9. Reforço da auto-censura
Outra estratégia de manipulação em massa
é fazer as pessoas acreditarem que elas, e somente elas, são as culpadas de
seus problemas. Qualquer coisa negativa que aconteça a eles, depende apenas
delas mesmas. Desta forma, fazem-lhes acreditar que o ambiente é perfeito
e que, se ocorrer uma falha, é responsabilidade do indivíduo.
Portanto, as pessoas acabam tentando se
encaixar em seu ambiente e se sentindo culpadas por não conseguir. Elas
deslocam a indignação que o sistema poderia causar, para uma culpa permanente
por si mesmos.
10. Conhecimento profundo do ser humano
Durante as últimas décadas, a ciência
conseguiu coletar uma quantidade impressionante de conhecimento sobre a
biologia e a psicologia dos seres humanos. No entanto, todo esse patrimônio não
está disponível para a maioria das pessoas.
Apenas uma quantidade mínima de
informações está disponível ao público. Enquanto isso, as elites têm todo esse
conhecimento e usam-no conforme sua conveniência. Mais uma vez, fica claro que
a ignorância facilita a ação do poder sobre a sociedade.
Todas essas estratégias de manipulação
em massa visam manter o mundo como ele é mais poderoso. Bloqueie a capacidade
crítica e a autonomia da maioria das pessoas. No entanto, depende também de nos
deixarmos ser passivamente manipulados, ou oferecer resistência tanto quanto
possível.











