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2020-09-26

 

Ana Prestes neta de Luís Carlos Prestes - Entrevista

 A socióloga Ana Prestes, é entrevistada pelo fundador de Opera Mundi, Breno Altman. Ana Prestes é neta de Luís Carlos Prestes ( Link: Luís Carlos Prestes (3 de janeiro de 1898 - 7 de março de 1990) foi um revolucionário e político brasileiro que serviu como Secretário-Geral do Partido Comunista Brasileiro de 1943 a 1980 e senador pelo Distrito Federal de 1946 a 1948. ... Prestes foi considerado por muitos como uma das figuras mais carismáticas, porém trágicas, por sua liderança na revolta tenente de 1924 e seu subsequente trabalho com o movimento comunista brasileiro . A expedição de 1924 deu a Prestes o apelido de O Cavaleiro da Esperança. [1]

Começando em 1924, como um jovem oficial do exército, Prestes foi uma figura importante em uma revolta militar abortada. Após seu fracasso, ele liderou um bando de tropas rebeldes, conhecido como Coluna Prestes , em uma jornada de três anos e 14.000 milhas através do remoto interior brasileiro em uma tentativa inútil de incitar a oposição dos camponeses ao governo. Eventualmente, os rebeldes foram para o exílio na Bolívia . [2] Embora o esforço tenha falhado, ele se tornou um herói romântico."


Origem deste vídeo: https://operamundi.uol.com.br/politica-e-economia/66851/sub40-ana-prestes-ha-pressao-externa-de-golpistas-para-derrotar-a-esquerda-na-bolivia 

2020-08-10

 

2020-07-28

 

Afeganistão o maior produtor de heroína


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Uma reportagem da BBC mostra como uma tecnologia ecológica ajuda a potenciar os lucros de uma droga extremamente mortífera.

Artigo de Luís M Farinha, no Expresso digital (Link)

Os campos de papoilas no Afeganistão estão a usar energia produzida com painéis solares. Uma reportagem da BBC no vale de Helmand - tida como a região mais perigosa do país, mas também aquela que é o centro do cultivo a partir do qual se produz a maior parte da heroína consumida no mundo - fala em 67 mil painéis só nessa região.
Os painéis vieram substituir o diesel anteriormente usado e servem sobretudo para alimentar as bombas elétricas que extraem água do solo. Uma vez irrigadas, porém, as explorações adquirem ganhos de produtividade enormes, permitindo inclusivamente cultivar a papoila em locais onde ela antes não era viável.
Segundo a BBC, a área de cultivo de papoila em Helmand tem crescido exponencialmente, excedendo já os 300 mi hectares. Um ex-soldado britânico, que atualmente dirige uma empresa cuja especialidade é a análise de zonas perigosas do mundo através de imagens de satélite, resume a situação resultante do advento da energia solar para os produtores de papoila: "Toda esta água está a fazer o deserto florescer".
O Afeganistão é o principal produtor mundial de heroína. Essa indústria apenas teve uma interrupção abrupta durante um breve período, nos anos iniciais do presente século, devido a medidas severas tomadas pelos Talibã, então no poder.
Após a invasão americana em 2003, a produção retomou em força, e ocasionais quedas não desmentem uma notória tendência ascensional, tendo a área cultivada mais do que duplicado ao longo da última década.

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2020-07-04

 

As alterações clmáticas e a revolução energética

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2020-05-28

 

Portugal e a escravidão no Brasil

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2020-05-20

 

Banksters - Marc Roche e o BES ...

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Banksters - Banqueiros-gangsters
Ricardo Salgado já foi um "dono disto tudo" mas o Estado e a Justiça (sob a vigilância da "Alta Finança") não lhe retirou boa parte do dinheiro roubado. Apesar de todos os crimes financeiros continua multimilionário em liberdade,
Marc Roche é que não está com paninhos quentes e trata Ricardo Salgado como banqueiro gangster, um dos maiores gangsters da banca. Vejam o que diz aqui neste video!!
Marc Roche é um jornalista belga especialista em assuntos financeiros, colaborador regular do Le Monde, The Independent, The Guardian, e outros jornais. Desde a crise financeira de 2008, publicou três livros sobre o capital financeiro.

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Moscow Nights - Anna Netrebko e Dmitri Hvorostovsky

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2020-05-11

 

Padre Anselmo Borges sobre Fátima


Padre Anselmo Borges: “É evidente que Nossa Senhora não apareceu em Fátima”

Anselmo Borges, padre da Sociedade Missionária Portuguesa, falou ao Expresso a propósito do lançamento do seu novo livro, “Francisco: Desafios à Igreja e ao Mundo”

Christiana Martins    CHRISTIANA MARTINS

Decidiu ser padre aos 19 anos porque a morte o inquietava. Ainda pensa na finitude, mas diz que “a única porta de salvação para uma vida eterna” foi 
 Jesus quem lha abriu. Entrou há 50 anos, ao ser ordenado pelo cardeal Cerejeira. Nunca deixou a Igreja mas arrepiou caminho e escolheu a via da crítica ativa. Professor universitário em Coimbra, lança um novo livro — “Francisco: Desafios à Igreja e ao Mundo” —, prefaciado por Artur Santos Silva e, a partir da próxima semana, vai andar pelo país a apresentá-lo, na presença de pessoas tão diferentes como Ramalho Eanes, Frederico Lourenço, Pedro Mexia, Pedro Rangel, Maria de Belém, Carlos Fiolhais ou Isabel Allegro de Magalhães.
No seu livro levanta questões mais comuns ao discurso de não católicos. Ainda se revê na Igreja?
Pertenço por convicção à Igreja Católica e procurei ser leal, mas há duas questões fundamentais. A primeira é que Deus é amor. A outra tentativa de definir Deus surge no Evangelho segundo São João: no princípio era o logos, a razão, e Deus é razão. Para mim, se Deus é razão, devemos estar na Igreja com dimensão crítica. E se a fé não deriva da razão, à maneira das ciências matemáticas, para ser humana, não a pode contradizer.
Foto de António Pedro Ferreira
O livro é um alerta para situações com as quais não concorda?
Exatamente. Há uma crítica para dentro da Igreja, seguindo alertas que vêm do Papa Francisco. Porque este Papa é cristão no sentido mais radical, não é apenas batizado, ele segue Jesus. E quando olhamos para a Igreja, nem sempre vemos um verdadeiro discipulado de Jesus. Assistimos a uma hierarquia que frequentemente vive na ostentação, que não se bate pelos direitos humanos, que têm de ser praticados dentro da Igreja. Depois do Concílio Vaticano II, a primavera da Igreja, veio o inverno, que teve uma expressão dramática na condenação de teólogos.
Francisco trouxe uma nova primavera?
As pessoas gostam dele, ele faz o que Jesus fazia, é amor.
Mas basta? Jesus provocou ruturas. E o Papa Francisco?
Jesus opôs-se à religião estabelecida, foi crucificado por ter sido condenado, em primeiro lugar, pela religião oficial. Foi condenado como blasfemo e subversivo. E o Papa Francisco, se não tivesse operado ruturas, não tinha tanta oposição de alguns cardeais.
A oposição existe em Portugal?
O que mais noto aqui é que o Papa Francisco não está vivo e operante, em primeiro lugar, na hierarquia católica. Diria até que há mais simpatia para com ele fora da Igreja.
No livro diz que a Igreja portuguesa parece paralisada. O que Francisco pode provocar em Fátima?
Fátima é um caso muito especial de religiosidade. A Igreja oficial tenta enquadrar Fátima, mas as pessoas vão lá com uma devoção particular.
A mãe de Jesus surgiu em Fátima?
Posso ser um bom católico e não acreditar em Fátima porque não é um dogma. Não me repugna, contudo, que as crianças, os chamados três pastorinhos, tenham tido uma experiência religiosa, mas à maneira das crianças e dentro dos esquemas religiosos da altura. É preciso também distinguir aparições de visões. É evidente que Nossa Senhora não apareceu em Fátima. Uma aparição é algo objetivo. Uma experiência religiosa interior é outra realidade, é uma visão, o que não significa necessariamente um delírio, mas é subjetivo. É preciso fazer esta distinção. E por isso digo que é necessário evangelizar Fátima, ou seja, trazer uma notícia boa. Porque mesmo para aquelas crianças, aquela não foi uma notícia boa: que mãe mostraria o inferno a uma criança?
Que boa notícia seria essa?
Já não se veem pessoas a arrastarem-se e a sangrarem.
Não foram os portugueses que se modernizaram?
Sim, felizmente.
Porque é que o Papa vem a Fátima?
Em primeiro lugar, porque é profundamente devoto de Maria. Sabe porque há tanta devoção a Maria na Igreja? Porque a presença feminina é muito reduzida. As mulheres têm de gostar de Jesus — mesmo que se deem mal com a Igreja oficial e têm razões para isso — porque ele teve mulheres como discípulas e foi uma figura central da emancipação feminina, embora a Igreja seja completamente masculina — Pai, Filho e Espírito Santo — e uma menina faça a socialização religiosa sempre no masculino.
O que dirá o Papa em Fátima?
Estou convicto de que fará um discurso de dimensão mundial, um grande apelo à paz. Deverá apelar ao diálogo inter-religioso e a que católicos pratiquem o Evangelho.
Ficará triste com o comércio?
Qualquer pessoa fica. São, outra vez, os vendilhões do templo, o pior da religião.
Voltando às mulheres e às ruturas: até onde o Papa poderá ir?
O Papa criou um grupo para estudar a possibilidade de as mulheres serem diaconisas, o que causou um grande abalo. Ele herdou uma Igreja profundamente hierarquizada e tem de pisar o terreno com cuidado, o que tem feito com coragem. É jesuíta e sabe o que significa o poder e a eficácia. Não pode causar um cisma.
O que será mais fácil: ordenar mulheres ou homens casados?
Homens casados porque a Igreja é misógina! É a última instituição, verdadeiramente global, que é machista. É também a última monarquia absoluta. Acredito que ainda veremos o Papa Francisco ordenar homens casados, mas também terá de resolver o problema da participação dos leigos e o problema das mulheres. O celibato é uma questão de bom senso, temos de ser pragmáticos. Não há padres suficientes e há leigos, casados, que, ordenados, exerceriam um excelente papel como coordenadores das comunidades cristãs. No primeiro milénio da Igreja não havia celibato. Aquilo que hoje constitui escândalo não o é, se olharmos a origem.
Qual é a sexualidade dos padres? Podem ser homossexuais?
A Igreja não pode impor como lei aquilo que Jesus entregou à liberdade e, por isso, sou partidário do fim ao celibato obrigatório. À frente das comunidades é possível ter leigos, que podem ficar durante um período limitado. Não se percebe porque um bispo, mesmo que incompetente, fique para sempre. Alguns vão sempre optar pelo celibato, serão os coordenadores dos coordenadores. Mas serão muito poucos. É preciso acabar com as vidas duplas.
E a sexualidade dos padres?
Está estudado, se há na população cerca de 8% de homossexuais, na Igreja deverá ser um pouco mais porque muitos entraram no contexto de repressão da sexualidade, para tentarem resolver um problema, mas não vejo razão para serem excluídos. E se assumiram o compromisso da castidade, devem segui-lo como os outros.
O Papa Francisco trouxe mais transparência?
Já não é possível esconder a realidade e o Papa chama as coisas pelos nomes. O Evangelho diz que a verdade libertar-nos-á.
Já foi chamado à atenção pela hierarquia por defender estas posições?
Já tive problemas, hoje não.
Desistiram de si?
Não gostavam do que eu dizia, mas eu também não gosto do que dizem.
Poderia ter tido uma carreira diferente? Não foi bispo.
Nunca quis, aliás, se quisesse, não podia ser livre, e esse é o problema a que o Papa tanto se opõe, o carreirismo. O único pecado que tenho é o de não ser suficientemente cristão, talvez não dê suficiente atenção às pessoas. O resto, pensar de maneira diferente? Ainda bem. Na Igreja tem de haver liberdade de pensar e interpretar.
O que sentiria se uma mulher lhe desse a eucaristia?
Comunguei das mãos de uma pastora anglicana em Londres. Não me causou inquietação.
Já deu a eucaristia a divorciados?
Mais do que isso. Um homem, uma figura pública que eu não conhecia, convidou-me para jantar e disse que iria casar-se no dia seguinte e queria que eu lhe abençoasse as alianças, porque não podia casar pela Igreja. Fui ao casamento, estive lá com eles.
Qual foi a primeira vez em que foi ao Vaticano?
Em 1967, havia ainda a ebulição do Vaticano II. Sou filho desta primavera.

O que sentiu?
Era muito jovem e senti um grande esplendor, mas também achei excessivo. Mas o que na Igreja sempre me preocupou mais foi a falta de liberdade para pensar.

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2020-05-09

 

O 1º Ministro sabe quase tudo


O Governo, fiel aos acordos relativos ao Novo Banco, fiel a Bruxelas e à banca internacional, foi ao nosso dinheiro e deu 750 milhões de euros à Lone Star, um fundo privado norte-americano do predador multimilionário John Grayken dono de 75% do Novo Banco. 

O artigo que se segue é de Pedro Santos Guerreiro no Expresso de 2020-05-09 : 

" O primeiro-ministro sabe tudo. Sabe de cor os apoios a sócios-gerentes e a recibos verdes, o número de disciplinas nas escolas e de máscaras nos transportes públicos, o que vai acontecer nas praias e nos festivais de música, o primeiro-ministro nunca é apanhado em falso numa entrevista. Só não sabe uma coisa: que foram transferidos mil milhões para o Novo Banco.
O mesmo primeiro-ministro que não diz gastar um cêntimo na TAP sem controlar não controla cem mil milhões de cêntimos para o Novo Banco.
Está tudo errado. É chocante saber que nem António Costa abriu os olhos para o dinheiro nem o ministro das Finanças pestanejou em transferi-los. É claro que a oposição vai pôr em causa a justiça na repartição de sacrifícios na pandemia. E é previsível que agora se diga e sublinhe e repita que “para os bancos há sempre dinheiro”. Até porque é verdade. Como verdade é o seguinte: já não podia ser de outra forma, porque todo o sistema de apoios ao Novo Banco foi assim montado.
Chamar ‘banco bom’ ao Novo Banco foi como chamar ‘Pai Natal’ a quem dá presentes. Ambos não existem. O ex-BES carregou milhares de milhões em créditos maus que foi vendendo ao preço da uva mijona, pois era mesmo uva que não poderia dar vinho. Fê-lo porque era preciso. E fê-lo porque pôde: havia capital garantido no Fundo de Resolução (outro nome ‘Pai Natal’, aliás, para dizer que o dinheiro financiado pelo Estado não é do Estado) para cobrir os prejuízos daí resultantes. E como eles se têm empilhado nos últimos anos.
O acordo foi feito com Bruxelas e só tinha, em geral, duas alternativas: ou se deixava o banco falir ou se fazia um aumento de capital gigante à cabeça. Optou-se por garantir o capital ao longo de alguns anos, na esperança, aliás, de que ele fosse vendido. Foi, é verdade; a Lone Star ficou com 75% de mil milhões de euros, que hoje o banco não vale. E nós fomos enchendo a vala às pazadas de mil milhões. É quase tudo dinheiro do Estado, tirando as contribuições de outros bancos, contrariados em subsidiar um concorrente que se aniquilou enquanto BES. Acredita que os bancos vão pagar ao Estado o dinheiro agora emprestado durante 30 anos? Eu não, mas espero estar cá para ver.
No acordo desenhado em 2017 com o BCE, o Novo Banco conseguiu o que provavelmente nenhum banco do mundo tem: que injeções futuras de capital, por estarem garantidas pelo Estado, já contem como capital. Foi assim que os rácios em 2019 foram cumpridos, já incluíam a injeção de mil milhões que fantasmagoricamente foi processada esta semana. E se não tivesse sido feita? Bom, então o banco entrava instantaneamente em processo de recuperação. Percebe a armadilha?
O Novo Banco está a ser salvo por uma máquina comercial com grande força nas empresas e com vendas de ativos tóxicos que supostamente não existiam, que causam prejuízos, que forçam aumentos de capital. Em tempos de pandemia, esperar-se-ia que o Governo pelo menos reduzisse a fatura, diluindo-a por mais anos. O ministro das Finanças percebeu que estava de mãos atadas e o primeiro-ministro de olhos vendados. E como não sabe como há de explicar isto aos portugueses que estão a sofrer na pele a crise económica brutal, há de fazer piruetas políticas.
Os bancos são essenciais nesta crise, porque por eles passa o dinheiro para as empresas, eles decidem quais vivem e quais morrem. Que não morram eles, o que começa por reconhecer que este ano vão ter prejuízos, em vez de mascararem as perdas futuras atrás das moratórias de crédito que o Governo aprovou. Porque de pagar prejuízos futuros estamos fartos. E, no caso do Novo Banco, até os prejuízos passados. Para o ano isto acaba, na última transferência. Ponham um lembrete na agenda do primeiro-ministro, por favor."

2020-04-17

 

Jeff Bezos aumentou a sua fortuna em 23,6 mil milhões de dólares com a pandemia covid-19


O homem mais rico do mundo, Jeff Bezos, ganhou até agora, com a pandemia, 23,6 mil milhões de dólares. Pode parecer chocante mas é lógico que seja assim na ordem capitalista, na ordem estabelecida pelos mercados, isto é, pelos poderosos, pelos seus bancos, pelos seus governos, pelos seus juristas, pelos seus juízes. 
Transcrevo do semanário Expresso de 16-04-2020:  
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"Com as populações fechadas em casa pelo mundo fora, a Amazon viu as encomendas crescerem muito. Mas as queixas dos seus trabalhadores também.

"Afortuna de Jeff Bezos cresceu 23,6 mil milhões de dólares (21,79 mil milhões de euros) desde o início da pandemia. Com o encerramento das lojas físicas por todo o mundo e o aumento das compras online, o fundador e presidente executivo da Amazon viu a empresa valorizar-se repentinamente, aumentando a sua fortuna pessoal para 138 mil milhões.

Ao mesmo tempo, sobem as reclamações sobre as condições de trabalho nos centros de distribuição da Amazon nos Estados Unidos. Embora a empresa garanta que instituiu medidas para proteger a saúde dos trabalhadores, nomeadamente verificando-lhes a temperatura, impondo o distanciamento entre eles e fornecendo lenços e outros materiais de limpeza, muitos (Alex Wong/GETTY IMAGES)                                     deles queixam-se de que não é suficiente.
Nas condições em que trabalham, com a enorme pressão para satisfazer encomendas, é impossível manter o distanciamento necessário, dizem, e muitas vezes os materiais de limpeza esgotam-se. Por outro lado, a empresa recusa enviar para casa trabalhadores mais velhos pagando-lhes o salário, embora estes se encontrem numa posição mais vulnerável.
Após ter interrompido temporariamente as entregas de bens não essenciais para poder responder aos pedidos de artigos domésticos e material médico, a Amazon voltou a distribuir todo o tipo de produtos.
Um país onde não o poderá fazer é França, depois de um tribunal ter ordenado que se limitasse aos bens essenciais, considerando os riscos de saúde para os trabalhadores. Em resposta, a empresa fechou os centros de distribuição no país durante cinco dias, até à próxima segunda-feira.
UMA MORTE JÁ CONFIRMADA
Nos EUA, para responder ao acréscimo de encomendas, a Amazon contratou cem mil trabalhadores e anunciou querer contratar mais 75 mil, convidando pessoas que ficaram sem emprego a candidatarem-se e aumentando o pagamento mínimo em dois dólares por hora em abril.
Com casos de coronavírus a aparecer nos armazéns, os protestos têm vindo a subir de tom. Uma primeira morte foi confirmada há dias, mas a empresa despediu três trabalhadores que reclamaram mais segurança, gerando reações por parte de políticos. Entre eles, o senador Bernie Sanders, que escreveu num tweet: "Em lugar de despedir empregados que querem justiça, talvez Jeff Bezos - o homem mais rico do mundo - possa concentrar-se em providenciar aos seus trabalhadores baixas médicas pagas, um ambiente de trabalho seguro e um planeta habitável".
A estas críticas juntam-se outras. Foi notado o facto de Bezos, apesar da dimensão da sua fortuna, ter feito apenas uma doação de cem milhões de dólares a uma organização de bancos alimentares desde o início da pandemia. Embora seja um montante substancial, outros bilionários revelaram-se mais generosos.
Jack Dorsey, presidente executivo do Twitter, vai doar mil milhões de dólares, mais de um quarto da sua fortuna. Bill Gates vem a seguir, com a sua fundação a doar 250 milhões de dólares. Entretanto, segundo a revista "Forbes", Donald Trump doou cem mil dólares ao Departamento da Saúde. São 0,005 por cento da fortuna do atual Presidente dos Estados Unidos. "

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2020-04-12

 

Trump o inimaginável presidente dos EUA

Os Estados Unidos da América têm o que há de melhor no mundo, na ciência, na arte ou em qualquer outra manifestação humana e... e... elege para seu presidente, segundo nos diz este video, "a con man, a crook" (um vigarista, um bandido). É triste mas... compreende-se é o produto extremo do capitalismo, da supremacia e controlo do mundo pelos mercados, que aproveitam a mais sofisticada inovação tecnológica para massivas mensagens via WatsApp, milhões e milhões de enganadoras mensagens de condicionamento político dos eleitores, via TV e outros "media" sem pôr de lado a importantíssimos meios tradicionais de condicionamento da mente dos eleitores através da via sentimental, desde a infância, com as religiões, as quais sempre ou quase sempre se tem colocado ao serviço dos mais poderosos.
Dizia-se metaforicamente que os Espanhóis quando chegaram a Cuba no fim do séc. XV incitaram os naturais a olhar para Deus, para o céu, para cima e estes, depois, quando voltaram a olhar para baixo os Espanhóis já se tinham apoderado de todo o território. :) 

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CUBA ENVIA EQUIPAS MÉDICAS A ANGOLA E MAIS 15 PAÍSES


Cuba tem agora pessoal da “Brigada Henry Reev” na Itália e Principado de Andorra (Europa), Jamaica, Barbados, Venezuela, Nicarágua, Antiqua e Barbuda, Belize, Granada, Rep. Dominicana, Haiti, São Vicente e Granadinas, Santa Lúcia, San Cristóbal y Nieves e Suriname (América) e Angola (África)
Armando Estrela in Jornal de Angola de 11 de Abril de 2020 

O décimo sexto contingente cubano pelo mundo, por força da extraordinária expansão do novo coronavírus (SARS CoV-2) por quase todos os países, chegou a Angola, com 240 especialistas e profissionais de saúde dos 256 previstos, todos integrantes da “Brigada Henry Reeve”, cuja missão é fazerem parte do grupo de especialistas que, nos respectivos países, lutam contra as pandemias, como já ocorreu com o ébola.
Ao lado de profissionais angolanos, já envolvidos no combate à doença provocada pelo novo coronavírus, os médicos da maior ilha das Antilhas do Caribe unem-se aos esforços empreendidos pelo Governo, para enfrentar e conter, com a devida rapidez, a disseminação do vírus pelas comunidades do país.
Angola e Cuba desenvolvem relações de cooperação em sectores chave, como Saúde e Educação, com extensão aos da construção, Ciência e Tecnologia, Agricultura, Defesa, Energia e Recursos Hídricos . Em Angola encontram-se já mais de 800 trabalhadores cubanos de saúde e mil assistentes educacionais, enquanto em território cubano acima de dois mil jovens angolanos estudantes e cerca de sete mil profissionais são formados.
Declarado pandemia pela Organização Mundial da Saúde (OMS), a 11 de Março, o novo coronavírus, surgido na China, em Dezembro, rapidamente se espalhou pelos diversos continentes, infectando mais de 1,6 milhões de pessoas, das quais perto de cem mil perdeu a vida.
Nessa luta, vários países viram-se forçados a pedir ajuda internacional e, nessa emergência, Cuba destaca-se, com 16 brigadas, a última das quais escalou Barbados, a 5 de Abril, com uma equipa chefiada por uma médica e integrada por 95 mulheres e cinco homens técnicos de enfermagem.
Esse 15 º contingente “Henry Reev”, que está na batalha contra o novo coronavírus em diferentes países, é a primeira colaboração médica cubana que entra em Barbados.
Cuba tem agora pessoal da “Brigada Henry Reev” na Itália e Principado de Andorra (Europa), Jamaica, Barbados, Venezuela, Nicarágua, Antiqua e Barbuda, Belize, Granada, Dominicana, Haiti, São Vicente e Granadinas, Santa Lúcia, San Cristóbal y Nieves e S u r i n a m e ( A m é r i c a ) e Angola (África). No total, são 593 colaboradores, sendo 179 médicos, 399 enfermeiros e 15 técnicos de saúde.
O Prenvengho-Vir
Para combate interno da pandemia do novo coronavírus, Cuba vai aplicar à população um medicamento homeopático preventivo, o Prenvengho-Vir, como medida profilática para impedir a disseminação do novo coronavírus, causador da Covid-19, segundo o Ministério da Saúde Pública (MINSAP) cubano. Segundo o director nacional de Higiene e Epidemiologia do Minsap, Francisco Durán, o produto ajuda a prevenir diferentes condições, como gripe, dengue e infecções virais emergentes, como é precisamente o novo coronavírus.
Trata-se de gotas postas na língua de pessoas sem sintomas nem possíveis causas epidemiológicas de contágio. Cuba está a tratar dos infectados, administrando o “Interferon Alfa 2B”, aplicado pela via nasal. Aos suspeitos e que apresentem sintoma, aos cuidados são adicionados a monitorização activa e obtenção de sinais vitais, agregada a aplicação de Azitromicina, Oseltamivir e Interferon Alfa 2B por via intravenosa.

2020-03-25

 

ANNA NETREBKO


Anna Netrebko é uma das mais famosas soprano da actualidade. Nasceu em Krasnodar, Rússia, em 1971.
Enquanto estudava no Conservatório de São Petersburgo, trabalhou como empregada de limpeza no Teatro Mariinsky, onde assistia gratuitamente aos ensaios de ópera. Mais tarde fez uma audição no teatro, onde o maestro Valery Gergiev a viu e tornou-se seu mentor vocal.



Anna estreou-se no Teatro Mariinsky aos 22 anos, interpretando o papel principal de Susanna em As Noites de Fígaro de Mozart. Um ano depois, assumiu o papel de Rainha da Noite na Flauta Mágica, sob o maestro David Milnes.
Estreou-se nos Estados Unidos alguns anos mais tarde, em 1995, quando Gergiev a elegeu como protagonista de uma produção da Ópera de São Francisco de Russlan e Lyudmila de Glinka. Continuou a cantar regularmente com a Ópera de São Francisco, principalmente em papéis russos e italianos.
Anna tem agora dupla cidadania russa e austríaca e tem casas em Viena, Áustria e Nova Iorque.
É uma soprano premiada.
Descrita como 'Audrey Hepburn com uma voz', o som bonito, escuro e distinto de Anna Netrebko, aliado à sua elegante e sedutora presença em palco, conquistou a aclamação popular e crítica em todo o mundo.
Em 2003, Anna foi nomeada A Cantora Feminina do Ano de Opernwelt. Um ano depois, foi-lhe atribuído o Prémio estatal da Federação Russa.
A revista Musical América a chamou de "uma verdadeira superestrela para o século XXI", nomeando-a o seu Músico do Ano, em 2008.
Em 2017, o governo austríaco nomeou-a Kammersängerin ('cantora de câmara'), um título honorário reservado aos maiores cantores clássicos e operáticos.

2020-03-16

 

CORONAVÍRUS visto por JORGE BUESCU

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JORGE BUESCU  (físico/matemático português) :
“Evitei até hoje pronunciar-me sobre este assunto; mas chegados à situação actual, acho que é uma questão de serviço cívico enquanto matemático.

O gráfico, que consta de um site de Johns Hopkins que acompanha a situação do coronavirus em tempo real [ LINK ]e que recomendo a todos que descarreguem para o telemóvel, compara o número de infecções por coronavírus na China (laranja) e resto do Mundo (amarelo) com os casos de recuperação. À data de hoje (1/3/2020) há 42.600 recuperados, de um total de 87.000 casos identificados. Devemos ficar preocupados? Não, pelo contrário. Devemos ficar muito tranquilizados. Note-se que a curva dos recuperados acompanha perfeitamente a das infecções, com um tempo de latência de 3-4 semanas. O número de recuperados hoje, 1/3/2020, é igual ao total de infectados em todo o Mundo em 10/2/2020. A taxa de recuperação para os casos de infecção registados em Fevereiro é superior a 99%.

Para ganhar sensibilidade para a evolução da doença, transcrevo os números em bruto. I é o número de infectados, R de recuperados.
                                             22 Jan:             I = 547             R=28
                                             29 Jan:             I = 7.700          R=133
                                               5 Fev:            I= 20.000         R= 1.100
                                             12 Fev :           I=50.200          R= 5.200
                                             19 Fev:            I=75.700          R= 16.100
                                             26 Fev:            I=81.000          R= 30.400
                                               1 Mar (hoje): I=87.000          R=42.600
Ou seja, em Janeiro quase não havia recuperados; hoje mais de metade do total de infectados já recuperou. Num mês, o número de recuperados cresceu por um factor de 300. Curiosamente, nunca vi estes números referidos na imprensa, mais preocupada com visões do apocalipse.
 


Universidade Johns Hopkins - Baltimore EUA

Estamos pois a braços de uma virose essencialmente inócua (mais pormenores abaixo), com um período de recuperação de 3-4 semanas, após o qual, de acordo com os melhores números actuais, 99,3% dos infectados recuperam sem complicações.

Do ponto de vista da saúde pública
, a questão colocada pelo COVID-19 é apenas a sua elevadíssima taxa de contágio. A OMS estima um valor de R_0, grandeza que nos modelos matemáticos SIR (Susceptíveis-Infectados-Recuperados) determina a taxa de propagação exponencial, de 2,3. Para comparação, a gripe sazonal tem R_0=1.3, propagando-se de forma muito mais lenta. Para saber mais sobre o que isto quer dizer e sobre os modelos matemáticos de epidemiologia veja-se por exemplo (2) ou (3)

Por outro lado, os números mostram que se trata de uma virose essencialmente inócua: o período de recuperação é de 3-4 semanas, após o qual 99,3% dos infectados estão recuperados. A estimativa actual da OMS para a taxa de mortalidade para casos surgidos depois de 1 de Fevereiro, portanto depois do surto inicial, é actualmente de 0,7% (4) Esta é mais baixa do que a da gripe sazonal, que é de 1%. Como termo de comparação, o vírus Ébola tem uma taxa de mortalidade próxima dos 50%.

A virose em si não é complicada; um dos maiores virologistas espanhóis e Presidente da Sociedade Espanhola de Virologia, José Antonio Lopez Guerrero, descreve-o como “mais do que um catarro, menos do que uma gripe” (5). 80% dos casos são assintomáticos ou têm sintomas muito leves. Apenas em 5% dos casos existem complicações graves, na sua grande maioria em grupos de risco: por exemplo, pessoas com bronquites crónicas, DPOC ou sistema imunitário estruturalmente enfraquecido como doentes oncológicos. São essas pessoas que podem estar em perigo – tal como estariam, com o mesmo nível de risco, se contraíssem uma gripe comum.

O coronavírus já está em Portugal, isso é uma inevitabilidade cósmica. Isso é preocupante? Não particularmente, a menos que se pertença ou se esteja em contacto próximo com um grupo de risco. Como descrevi acima, ele é menos perigoso do que uma gripe. Mas, tal como alguém com uma gripe toma precauções para não a passar, também aqui essas precauções devem ser tomadas, de forma mais drástica divido à altíssima taxa de contágio.

Se o coronavírus servir para implantar socialmente comportamentos como lavar mãos frequentemente ou não espirrar para o ar, tanto melhor. Podemos ter de cancelar algumas viagens de avião, como aconteceu comigo, mas vamos viver a vida normalmente. De resto, não há qualquer motivo para pânico ou sentimentos de apocalipse, apesar da desinformação constante e do alarmismo mediático a que assistimos diariamente – esse sim, o mais perigoso vírus de toda esta história.

(1) https://gisanddata.maps.arcgis.com/.../opsd.../index.html...
(2) http://maddmaths.simai.eu/.../focus/epidemie-matematica/...
(3) https://triplebyte.com/blog/modeling-infectious-diseases.
(4) https://www.who.int/.../who-china-joint-mission-on-covid...
(5) https://elcultural.com/covid-19-mas-que-un-catarro-menos... "


 

Escravatura em Portugal no xec XXI

Como é possível tudo isto? Em Portugal! No século XXI !

"São mãe e filha, portuguesas. Foram escravas 11 anos. Aqui, ao nosso lado [região de Bragança]. Depois de quase uma década à espera de justiçaviram os criminosos condenados. A liberdade começa agora"
[A notícia é do Expresso de 14/03/2020 - pág. 18 e 19]

Mãe, porque é que fomos escravas?
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Maria, a mãe, e Joana, a filha, tentam recuperar o vínculo familiar que os traficantes cortaram
TEXTO ANA SOFIA FONSECA FOTO RUI DUARTE SILVA
Joana não despe o casaco de ganga. Está frio no Tribunal de Bragança e a ansiedade congela-lhe as mãos. A leitura do acórdão está marcada para a tarde de 27 de fevereiro. Falta meia hora. Será que é hoje? A dúvida consome. Anda há nove anos à espera de justiça e não seria a primeira vez que a sentença acabava adiada. Ainda há um par de meses moeu o passado três madrugadas inteiras.
Pediu ao patrão o dia de folga e mentalizou-se para ouvir o veredicto. Agora, outra vez a mesma saga. “E se não forem condenados?”, pergunta a si mesma. Sentada ao seu lado, a mãe ajeita os óculos como quem afasta fantasmas. Têm medo de encontrar os arguidos. Como é que se olha nos olhos de quem agiu como se fosse “nosso dono”? Durante quase 12 anos foram propriedade de uma família. Vítimas de tráfico de seres humanos e escravidão. Em pleno século XXI, o tráfico de pessoas é um negócio comparável ao tráfico de droga e de armas, desconhece fronteiras e movimenta mais de €130 mil milhões. Está quase na hora de pisarem a sala de audiências, os nervos maiores do que mãe e filha. Como é que se encara quem nos negou o direito de ser pessoa? Eu cresci escrava”, suspira Joana. Em cativeiro dos dois aos 14 anos: “Roubaram-me a infância.”

Meses antes, dezembro de 2019. A árvore de Natal pronta e a mesma certeza: há estações que não voltam. Joana tem 22 anos, o olhar tão forte quanto frágil: “Se não me tivessem tirado a infância, podia ser uma adulta diferente.” Sonha ser educadora, encher crianças de sorrisos. Enquanto esteve sob domínio dos traficantes, estudou até à 4.ª classe. Tinha a lição bem estudada: nunca falar da mãe, jamais contar o que vivia. Antes de sair para a escola, fazia as camas. À noite, lavava as casas de banho. Quando a família teve mais uma criança, foi retirada do ensino: “Passei a cuidar do bebé o dia inteiro.

A memória é má companhia, sempre as mãos congeladas de ansiedade. Pudesse ela esquecer e já o teria feito, mas não há como apagar de onde se vem. Foi traficada em Portugal, por uma família portuguesa. Sempre que desagradava aos traficantes, era arrastada para um quarto ou despida no quintal: “Batiam-me a sério e no inverno davam-me banho com uma mangueira de água gelada.” As lágrimas ardem no rosto: “Não podia brincar, não podia fazer nada.” Mas o pior, o pior de tudo, era ver a mãe ser “espancada”. Ouvir os gritos e não poder acudir.
Em cada quatro vítimas, uma é criança. Em 2018, o Observatório de Tráfico de Ser Humanos deu conta de 29 vítimas menores
Maria escuta a filha, os óculos embaciados de dor. O sorriso nervoso que nunca a abandona. Sabe bem o que é apanhar com um chicote marinho, ver o rosto esmurrado, a barriga negra de pancada. Mas nada dói mais do que saber uma filha maltratada e ter de baixar os olhos. Partir um prato e adivinhar a criança castigada no seu lugar: “Só para me magoarem.” Para controlarem. Mas quando se é “menos que um animal”, o abismo nunca tem fundo. O mais atroz começou na primeira noite: Tiraram a minha filha de perto de mim e disseram que ela nunca mais me podia chamar mãe. Puseram-na a dormir com outra mulher, que estava ali como eu.” Atira o olhar para o chão: “Eu não pude ser mãe e a minha filha estava ali.” Assim foi. Durante quase 12 anos, mãe e filha a poucos metros de distância, sem quase trocar verbo. Lado a lado e impedidas de ser mais do que estranhas. Joana remói a maldade que lhe calhou: “Não sei porque é que nos fizeram isto, porque é que não queriam que eu tivesse afeto pela minha mãe.” Desde as primeiras frases, a miúda ensinada a tratar os traficantes por avós e tios. O tratamento familiar afastava suspeitas e a desvinculação reduzia ainda mais as vítimas.
Tudo começou naquela tarde de 2000, em que uma carrinha apareceu na aldeia de Maria a oferecer trabalho na agricultura, boa remuneração, casa e comida. Sem eira nem beira, a mulher fez fé na promessa de melhores dias: “Disse-lhes que tinha uma filha pequena, mas eles disseram que fosse buscar a menina e trouxesse os documentos.” Foi por uma semana, ficou praticamente 12 anos. A trabalhar de sol a sol, sem uma única folga, sem receber um cêntimo. Num vaivém entre Portugal e Espanha, ao ritmo dos trabalhos agrícolas — vindimas, poda, apanha de fruta e de azeitona. À noite e de madrugada a lida da casa dos traficantes. “Comíamos as sobras deles ou conservas.”
Tiraram-lhe os documentos, o telemóvel. Da única vez que pediu para ir a casa, jurou a si mesma nunca mais abrir a boca: “Deram-me uma tareia tão grande... E ameaçaram que se tentasse fugir nunca mais via a minha filha.” Não se sabia escrava, tão-pouco vítima: “Eu só soube o que isso era depois de a polícia nos tirar de lá.” O retrato de Maria é o da maioria das vítimas, mais de 40 milhões, contabiliza a Organização Internacional do Trabalho (OIT). Os traficantes preferem pessoas vulneráveis, com famílias desestruturadas, baixa escolaridade, graves situações financeiras e sociais, problemas de dependência ou cognitivos. Homens e mulheres fáceis de enganar e coagir. Em cada quatro vítimas, uma é criança. Por cá, em 2018, o Observatório de Tráfico de Seres Humanos (OTSH) deu conta de 29 vítimas menores sinalizadas.
UM URSO AZUL, A PRIMEIRA PRENDA DE NATAL
Em casa, Joana já tem as luzes da árvore de Natal acesas. O gosto das filhós e o prazer de um presente são ganhos da liberdade. Guarda até hoje o peluche azul que recebeu, no primeiro Natal, na casa-abrigo. Em rigor, até então nunca desembrulhara sequer um carinho. Por essas e por outras, mãe e filha não saem da ideia de Sebastião Sousa, inspetor-chefe da Polícia Judiciária do Norte, responsável pela equipa que investiga crimes de tráfico de seres humanos: “Temos tido muitos casos e estas vítimas estão sempre no fundo da cadeia humana, mas este é diferente... Havia uma desumanização total.” Lembra-se como se fosse hoje da manhã de novembro de 2011, em que entrou porta adentro da casa dos agressores. As vítimas trancadas à chave, “desde as seis e meia a limparem a casa, enquanto os traficantes descansavam”. Maria e outras duas vítimas dormiam no chão de um anexo, a miúda aos pés dos traficantes. No primeiro interrogatório, deu-se conta de que “a menina não sabia chamar mãe à mãe”, de que a mãe “nunca tinha tido na mão uma nota de euro, moeda que entrara em circulação há já nove anos”.
Sebastião Sousa, inspetor da PJ, não tem dúvidas: “A violação é um método de controlo que destitui a vítima de autodeterminação”
O passado é passaporte para o presente. Casos de portugueses traficados para exploração laboral, quase sempre por famílias que atuam como redes organizadas, continuam a chegar à Polícia Judiciária, órgão de polícia criminal que, a par do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, investiga o crime de tráfico de pessoas. 
O Global Slavery Index estima 26 mil vítimas em Portugal. O inspetor traz o crime estudado: “É altamente rentável, a mão de obra não só é gratuita como dá lucro. Por outro lado, é mais difícil de provar. No tráfico de droga, se encontrar um quilo, a prova está feita; no de seres humanos, a pessoa está na posse do traficante mas tem medo de o denunciar e o criminoso costuma alegar que está apenas a ajudar, que dá casa e comida.” O OTSH faz contas às vítimas sinalizadas. Em 2018, 45% das vítimas foram homens, 24% mulheres e 14% menores. A maioria para exploração laboral. Uma realidade que aparenta ser diferente do resto do mundo. A OIT afiança que 71% das vítimas são mulheres (dados de 2017), a grande maioria para fins sexuais. Mas os números estão longe de contar a história toda. Por cá, a investigação parece mais voltada para a exploração laboral, onde numa só operação tendem a ser sinalizadas mais vítimas do que na exploração sexual.
Mãe e filha pouco sabem destas cifras, mas conhecem tudo sobre as vidas que espelham. Maria tem o cabelo curto, Joana até ao peito. Caminham lado a lado na tarde chuvosa. Há enfeites de Natal no céu da cidade, gente no corrupio das compras. São mãe e filha, mas até há pouco esse era laço difícil de sentir. Marta Pereira, coordenadora do Centro de Acolhimento e Proteção da Associação para o Planeamento da Família (APF), não esquece o dia em que as recebeu na casa-abrigo. Vinham sujas, aterrorizadas, “sem perceber o que estava a acontecer”. Durante mais de um ano, pesadelos de madrugada e o desejo de serem realmente família a ocupar os dias: “Foi preciso resgatar o vínculo entre mãe e filha. A Joana já tinha 14 anos e não conhecia outra vida, foi difícil deixar de chamar avó e aprender a dizer mãe. Com o tempo, tornaram-se muito cúmplices, mas foi um processo dilacerante.”
VÍTIMAS À VISTA DE TODOS
A história continua a impressionar a responsável pela casa-abrigo: “Como é que foram exploradas durante tanto tempo e à vista de todos? Não estavam numa jaula, houve muita gente que viu e não quis ver.” Viviam num bairro social, Joana frequentou a escola. “Nenhum professor achou estranho? Nenhuma assistente social, nenhum vizinho... ninguém viu o sofrimento destas pessoas?” Joana recebia abono de família e Maria tinha contas no banco em seu nome. Mas todo o dinheiro tinha caminho certo — a bolsa dos traficantes. Maria deixa escapar um suspiro. Demorou até que alguém olhasse para ela e para a filha, mas um dia um médico e uma enfermeira incomodaram-se com o medo cravado no seu olhar.
“Não podia brincar, não podia fazer nada.” Mas o pior, o pior de tudo, era
 ver a mãe ser “espancada”. Ouvir os gritos e não poder acudir
Esse dia é ferida aberta na memória de Maria: “Levaram-me ao hospital para abortar.” Tinha o corpo amassado de pancada, a boca tapada de medo. “Fui violada e engravidei.” Violada pelo marido de uma das traficantes. No hospital de Bragança, a mulher e a sogra do violador não a perdem de vista. Respondem por ela às perguntas da enfermeira, recusam deixá-la a sós com o médico. Maria não tem coragem para pedir socorro — a filha estava em casa com o restante clã. Desde que engravidara, o calvário tornara-se ainda pior. Aos maus-tratos habituais somava-se a raiva das mulheres da casa que a culpabilizavam pela violação. Acabaram por arrastá-la para Espanha, onde foi obrigada a abortar. Estava grávida de 24 semanas. Enquanto recupera, a filha é levada para o campo, a jorna inteira a trabalhar como gente grande. Sebastião Sousa, o inspetor da Polícia Judiciária, não tem dúvidas: “A violação é um método de controlo que destitui a vítima de autodeterminação, retirando-lhe até o poder sobre o seu corpo.”
Anos antes, outubro de 2013. Estamos num quarto, Maria caminha insegura. Mais silêncios do que palavras. Acabou de sair da casa-abrigo, pela primeira vez tem uma casa e uma filha para cuidar. Está a acostumar-se à liberdade, mas tantos anos de clausura vincaram ainda mais as suas vulnerabilidades. Violação é crime que só conseguirá pronunciar anos mais tarde. O pé nervoso na alcatifa: “Obrigaram-me a uma aventura.” Também na audição para memória futura pouco contara. Quando não se conhece outra vida e se tem medo de regressar para os agressores, o silêncio parece o menos perigoso.
Final de fevereiro de 2019, Tribunal de Bragança. A leitura da sentença está a começar. Joana fecha-se no casaco de ganga. Os nervos e a raiva tomam-lhe os gestos. Entram na sala de audiências. Os arguidos já lá estão, voltam-se na sua direção. Joana aperta a mão da mãe com força. Reconhece-lhes o olhar, há dores que a memória não apaga. Hoje, olha-os de frente pela primeira vez: “Não podia mostrar medo, para a minha mãe não ficar ainda pior.” Passos trémulos no tribunal. Este é o momento por que esperou a vida inteira. Para estar aqui teve de se despedir. O patrão recusou dar-lhe folga, tal como não permitia as férias estipuladas no contrato. Este é o momento da libertação plena: “Nunca mais vou abdicar dos meus direitos e não vou deixar que façam a minha mãe abdicar.”
Os principais arguidos foram condenados, com penas entre oito e oito anos e meio de prisão. Mãe e filha renascem em lágrimas

Sentam-se nos bancos do tribunal. O processo vem de longe, até para pedir justiça é preciso condições. Sem alguém que as defendesse, deixaram os prazos passar. Não foram constituídas assistentes nem pediram a tempo a indemnização prevista para as vítimas. “Quando pegámos no caso, já não era possível. Além disso, as audiências acontecem em Bragança, é bastante dispendioso estarmos sempre presentes”, conta Manuela Nunes, advogada pro bono de Maria. E continua: “Espero que o Ministério Público ou o juiz decrete uma indemnização.” O desejo não se concretizou. “Foi um processo anormalmente moroso”, considera o inspetor da Polícia Judiciária. Não foi possível contactar a defesa dos arguidos, até à hora de fecho desta edição .
O frio parece ter desaparecido do tribunal. Joana passa o processo a pente fino. O que mais gostava era de ter tido voz no julgamento: “Só ouviram a declaração para memória futura que dei quando fui libertada. Eu era uma miúda e não conhecia outra realidade. Não tinha noção de tudo o que me tinham feito.” A leitura do acórdão é o virar da página. Mãe e filha apertam as mãos com a força de duas décadas presas ao caso, a vida à flor da pele. Cruzam os dedos para “puxar a sorte”. A condenação. “E a sorte veio.” Os principais arguidos foram condenados, com penas entre oito e oito anos e meio de prisão. Mãe e filha renascem em lágrimas. Abraçam-se. “Foi bom, tão bom...”, diz Joana. Pela primeira vez, choram de alegria. Esta noite,
Joana esquece a pergunta que há muito a atormenta: “Mãe, porque é que fomos escravas?” A resposta é o futuro.
Por razões de segurança e ética, os nomes das vítimas foram alterados.

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