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2014-12-20

 

José Sócrates, Judite de Sousa e João Araújo

Judite de Sousa (TVI - 2014-12-19 ; 21h)  bem se esforçou para oferecer aos telespectadores a entrevista que os portugueses que têm como jornal de referência o Correio da Manhã esperariam. Mas João Araújo, o advogado de José Sócrates, com inteligência e humor, trocou-lhe as voltas e ofereceu precisamente a esses mesmos telespectadores não seguramente o que eles esperariam mas a que melhor os poderá elucidar.
A essa faixa do público menos exigente, mais intoxicada e a todos os telespectadores, João Araújo ofereceu uma excelente entrevista, desmistificadora de ideias feitas. Das ideias postas a correr pela suposta PPP (Parceria Público-Privado) entre investigação, CM e O Sol.  
De modo que ao contrário do que vejo aí pelas alamedas do Facebook acho que a Judite de Sousa, ainda que involuntariamente, acabou por nos facultar uma boa entrevista.
Judite "apertava com o entrevistado" surpreendendo-se com o facto de João Araújo afirmar nada
 


saber daquilo que ela classificava como o que "toda a gente sabe", mas o que toda a gente sabe são as notícias publicadas no CM e no Sol e que "toda a gente" de bom senso sabe que não oferecem a mais remota garantia de terem fundamento.
O que parece ter real fundamento é que Sócrates está arbitrária e ilegalmente preso.  Termino com uma observação de génio de Carlos Esperança, um amigo do Facebook, que referiu Sócrates, Portas e submarinos sem nomear ninguém. É dizer o máximo gastando o mínimo:
"Em Portugal provam-se mais facilmente as suspeitas do que as evidências."


2014-12-01

 

CITIUS - agora descobriu-se que ninguém sabe onde está o arquivo dos tribunais extintos

O Citius volta a dar que falar. Agora verifica-se, passados mais de 3 meses a tentarem pôr ordem no caos instalado no ministério da Justiça, que processos findos dos tribunais que foram extintos não transitaram para a nova plataforma informática criando situações como a de descontrolo de cumprimento de sentenças.

A ministra da Justiça não só não se demitiu como tentou sem vergonha atirar responsabilidades próprias para  cima de dois subordinados seus. 

A ministra Paula Teixeira da Cruz também não foi demitida por Passos Coelho o que está perfeitamente de acordo com o que se pode esperar de um 1ºM que é nem mais nem menos que o antigo gerente da Tecnoforma.

Nesta empresa Passos Coelho geria projectos de formação de técnicos municipais de aeroportos que não existiam, com subsídios europeus facultados pelo seu amigo e facilitador, Miguel Relvas, então Secretário de Estado da Administração Local do governo de Durão Barroso. 

O carácter e honorabilidade do antigo gerente da Tecnoforma também pode ser aquilatado quando, agora como 1ºM, começou por afirmar, enquanto não urdia uma escapatória, que não se lembrava se ganhava ou não 5000 € por mês, quando deputado em exclusividade de funções,  na qualidade de presidente do Centro Português para a Cooperação. Quer isto dizer que não se lembrava se tinha cometido a fraude, enquanto deputado, de declarar dedicação exclusiva com as respetivas compensações, ao mesmo tempo que trabalhava e ganhava 5000 euros por mês numa atividade aliás indigna, a de sugar apoios europeus para a Tecnoforma que legalmente não os poderia ter, apresentados como se fossem para uma ONG, uma falsa ONG. 

Sobre as sequelas do caos na Justiça, relacionadas com o Citius, da (i)responsabilidade da ministra PTC ver aqui "Ninguém sabe onde está o arquivo dos tribunais extintos" no Jornal de Notícias link que encontrei no blog Câmara Corporativa.

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2014-11-25

 

"Justiça e Vingança" - O caso Sócrates

Independentemente do que Sócrates possa vir a ser acusado e do que possa vir a ser comprovado aquilo a que estamos a assistir é a um circo mediático com vistas a um assassínio político prévio, antes de qualquer julgamento.
A forma como está a ser tratado o ex-primeiro ministro - independente dos factos ou das culpas - têm também consequências diretas e imediatas na agenda político-partidária. Um comentarista na SIC Notícias, esta 2f, entre as 22 e as 23h, Ricardo Jorge Pinto, salvo erro, augurava até, não sei se por desejo ou suspicácia, que nesta situação António Costa poderá mesmo resignar das funções de SG do PS !!  
A raiva paranoica em torno de Sócrates que ganhou largos sectores da política, dos media e da justiça está exemplarmente espelhada na forma como este processo foi montado: televisões no aeroporto à espera do "malvado", tudo o que era suposto ser "segredo de Justiça" noticiado com estrondo pelo Sol (que fez mais uma edição especial, hoje 2ªf ) e pelo Correio da Manhã.
Corrupção e outros crimes que a "porta-voz da justiça", Felícia Cabrita, nos anunciou devem ser combatidos com a máxima firmeza custe a quem custar seja Sócrates, Portas (submarinos), Passos Coelho (Tecnoforma e CPC) ou Cavaco (BPN) mas acrescentar à prestação serena da Justiça o circo mediático a que estamos a assistir, pode satisfazer raivas mas não ajuda a defender os direitos dos cidadãos nem a imagem do país. 
Ofereço-vos aqui as considerações que o ex-bastonário Marinho e Pinto produziu aqui.
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Justiça e vingança
António Marinho e Pinto
 
Há, em Portugal, cidadãos que nunca poderão ser humilhados pela justiça como está a ser José Sócrates: os magistrados. 
A detenção do antigo primeiro-ministro José Sócrates levanta questões de ordem política, de ordem jurídica e de cidadania. Mais do que a politização da justiça, ela alerta-nos para a judicialização da política que está em curso no nosso país.
José Sócrates acabou, enquanto primeiro-ministro, com alguns dos mais chocantes privilégios que havia na sociedade portuguesa, sobretudo na política e na justiça. Isso valeu-lhe ódios de morte. Foi ele quem, por exemplo, impediu o atual Presidente da República de acumular as pensões de reforma com o vencimento de presidente.
A raiva com que alguns dirigentes sindicais dos juízes e dos procuradores se referiam ao primeiro-ministro José Sócrates evidenciava uma coisa: a de que, se um dia, ele caísse nas malhas da justiça iria pagar caro as suas audácias. Por isso, tenho muitas dúvidas de que o antigo primeiro-ministro esteja a ser alvo de um tratamento proporcional e adequado aos fins constitucionais da justiça num estado civilizado.
É mesmo necessário deter um cidadão, fora de flagrante delito e sem haver perigo de fuga, para ser interrogado sobre os indícios dos crimes económicos de que é suspeito? É mesmo necessário que ele, depois de detido, esteja um, dois, três ou mais dias a aguardar a realização desse interrogatório?
Dir-me-ão que é assim que todos os cidadãos são tratados pela justiça. Porém, mesmo que fosse verdade, isso só ampliava o número de vítimas da humilhação. Mas não é verdade. Há, em Portugal, cidadãos que nunca poderão ser humilhados pela justiça como está a ser José Sócrates: os magistrados. Desde logo porque juízes e procuradores nunca podem ser detidos fora de flagrante delito.
Em Portugal, poucos, como eu, têm denunciado a corrupção. Mas, até por isso, pergunto: seria assim tão escandaloso que um antigo primeiro-ministro de Portugal tivesse garantias iguais às de um juiz ou de um procurador? Ou será que estes, sim, pertencem a uma casta de privilegiados acima das leis que implacavelmente aplicam aos outros cidadãos?
A justiça não é vingança e a vingança não é justiça. Acredito que um dia, em Portugal, a justiça penal irá ser administrada sem deixar quaisquer margens para essa terrível suspeita.

2014-11-12

 

Legionella e Passos Coelho. Lemos e não acreditamos!

Lemos e não acreditamos!
Um estudo publicado no início de 2013 pelo Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA) alertava para a necessidade de se reforçar a “vigilância de determinados edifícios ou locais considerados de maior risco” para o desenvolvimento da legionella. Entre as amostras referentes a torres de refrigeração que o INSA recolheu entre 2010 e 2012 quase 15% deram resultado positivo quanto à presença desta perigosa bactéria.
Lemos e não acreditamos!!
Esta situação pouco tranquilizadora acontecia apesar de legislação que tornava obrigatória as auditorias à qualidade do ar interior estabelecida em 2006 (Olá!! Sócrates ???) e que o atual Governo, supostamente ao serviço de Portugal mas efetivamente postergado perante os mercados, revogou no fim de 2013.
Lemos e não acreditamos!!!
"Questionado sobre a alteração legislativa que acabou com as auditorias obrigatórias à qualidade do ar interior, o primeiro-ministro afirmou nesta terça-feira, no Porto, que a alteração visou justamente reforçar a capacidade de inspecção e prevenção destes casos” - Ouviu bem? - o suposto 1º M "afirmou que a alteração visou justamente reforçar a capacidade de inspecção e prevenção destes casos e rejeitou que o surto tenha ocorrido por “negligência do Estado”.
Lemos e não acreditamos!!!!
Dando o benefício da dúvida de que o ex-administrador da Tecnoforma que alçaram a 1ºM não está, nesta dramática situação, "a gozar com o pagode" e que não se encontra em estado de insanidade mental, forçoso é concluir que se encontra afinal, com gosto e convicção, a levar à risca no Governo o que os próceres do neoliberalismo extremado ou seja os "mercados" lhe recomendam: menos Estado, menos Estado. Neste caso concreto as empresas industriais que é suposto não terem por objetivo criar as melhores condições ambientais aos seus trabalhadores e à população vizinha mas aprimorarem-se nos lucros, libertas de legislação que as obrigava a auditorias e inspeções ambientais pouparam nas despesas e revelaram com tanta legionella no que pode dar menos e menos Estado.
Menos Estado estaria bem se fosse diminuição de desperdício na administração pública, eliminação de serviços sobrepostos, melhor organização dos serviços, limpeza da legislação que oferece campo à corrupção legal a favor das grandes empresas, bancos, amigos e afilhados de governantes.
Mas, menos Estado, na boca de quem atualmente nos governa, de S. Bento a Belém, quer dizer MENOS ESTADO SOCIAL. Menos dinheiro para os serviços sociais, para as reformas e subsídio de desemprego, menos dinheiro para as pequenas e médias empresas, menos dinheiro para o serviço de saúde, para o apoio aos mais desprotegidos, menos dinheiro para a Educação, para a Ciência e a Investigação. Menos Estado para este Governo quer dizer um quadro institucional que favoreça a transferência de riqueza do trabalho para o capital, que favoreça a transferência de riqueza dos trabalhadores e classes médias para uma minoria restritíssima de multimilionários como mostra o "Relatório de Ultra Riqueza no Mundo, 2013" do UBS, que revela que em Portugal, em 2012, um ano de grande empobrecimento da população não só cresceu o número de multimilionários, como aumentou o valor global das suas fortunas, de 90 para 100 mil milhões de dólares (mais 11,1%).
Lemos e acreditamos!!!! Acreditamos que é possível isto ser dito quando quem diz se chama Passos Coelho ou Paulo Portas ou Cavaco Silva.

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2014-10-25

 

Nicolau Santos no Expresso: "Deviam estar todos presos"
















No Expresso

Até agora considerava-se que, entre todos os bancos portugueses que tiveram problemas, só o BPN era verdadeiramente um caso de polícia. Mas à medida que se conhecem mais pormenores sobre o que se passou nos últimos meses no BES cada vez temos mais a certeza que estamos perante um segundo caso de polícia. Daí a pergunta: porque é que não estão todos presos? 

Se não, vejamos. Depois de ter sido proibido pelo Banco de Portugal de continuar a conceder novos créditos ao Grupo Espírito Santo a partir de Janeiro deste ano, o BES continuou a fazê-lo - e, segundo as indicações, fê-lo no montante de 1,2 mil milhões de euros. E das duas uma: ou fê-lo com conhecimento de toda a administração, que sabia da proibição do Banco de Portugal; ou fê-lo por decisão de apenas duas pessoas - Ricardo Salgado e Amílcar Morais Pires.  

No primeiro caso, todos deviam estar já presos; no segundo, os dois deviam estar detidos. Para além de desobedecerem ao banco central, lesaram gravemente o património do banco, sabendo conscientemente que o estavam a fazer. 

Quanto aos outros membros do conselho de administração, se não foram coniventes, foram pelo menos incompetentes. Tinham responsabilidades em várias áreas de controlo da actividade do banco e ou não deram por nada ou, se deram, não fizeram nada. Por isso, fez muito bem o Banco de Portugal em afastar Joaquim Goes, António Souto e Rui Silveira. 

Mas e a Tranquilidade? A Tranquilidade que também continuou a investir em empresas do GES este ano sabendo do estado em que se encontravam? O presidente executivo Pedro Brito e Cunha, que é primo de Ricardo Salgado, tomou essas decisões com base em quê? Na relação familiar, como é óbvio. Devia estar detido igualmente.  

Lesou gravemente e de forma consciente o património da seguradora. E Rui Leão Martinho, o presidente não executivo da Tranquilidade e ex-presidente do Instituto de Seguros de Portugal, não sabia de nada?  

De novo, das duas uma: ou é incompetente ou foi conivente. Em qualquer caso, já se devia ter demitido ou ter sido demitido. Mas a verdade é que o Instituto de Seguros de Portugal parece estar perdido em combate. O presidente José Almaça não tem nada para dizer? Não tem nada para fazer? 

Já agora, António Souto, que o BdP suspendeu da administração do BES é membro do conselho de administração da Tranquilidade. Vai continuar neste cargo? E Rui Silveira, igualmente afastado da administração do BES, é do conselho fiscal da Tranquilidade. Também se vai manter na seguradora? 

Por tudo isto se vê o polvo em que se tornou o GES, tendo no seu centro o BES. Nem todos têm as mesmas responsabilidades. Mas há vários dos seus dirigentes que já deviam estar detidos e sem direito a caução pelos danos que estão a causar a muitos dos que neles confiaram e ao próprio País.

Então, a pergunta é:

- Porque é que não estão todos presos?

E a resposta, óbvia, só pode ser:

- Porque eles são, de facto, os donos disto tudo. Das leis, da Justiça, dos governos, do parlamento. E, por consequência, de todos nós.
Não ouviram, na passada terça-feira, na Assembleia da República, a propósito destruição da PT devido ao caso BES – e às opções dos seus gurus – Pedro Passos Coelho dizer que não é nada com ele? Mesmo que o país perca milhões com isso, nacionalizar está fora de questão? Só se podem nacionalizar os prejuízos?

2014-10-19

 

PEDRO BAPTISTA - AS MEMÓRIAS QUE FALTAVAM

LANÇAMENTO DO LIVRO

7 DE NOVEMBRO, 18h00
 
ÁTRIO DA CÂMARA MUNICIPAL DO PORTO

RUI MOREIRA, PRESIDENTE DA CÂMARA
 
JOSÉ MANUEL LOPES CORDEIRO, HISTORIADOR
JOSÉ QUEIRÓS, JORNALISTA
 
JOSÉ SOUSA RIBEIRO, EDITOR
 
 
**********
Pedro Baptista foi o fundador e dirigente da Organização Comunista Marxista-Leninista Portuguesa  (OCMLP) e do seu órgão político O Grito do Povo. Organização maoista com origem no Porto, nos anos 70, do século XX.
A PIDE não simpatizava com as suas actividades e procurou-o em 1971. Avesso a conversas com a polícia política do fascismo, Pedro Baptista trocou-lhe as voltas e experienciou a clandestinidade. Movia-o a determinação casmurra não apenas de derrubar a ditadura, o que não seria pouco, mas ainda de promover a revolução que criasse mundos novos. Pedro Baptista não recuava perante os perigos e estes apresentaram-se-lhe inapeláveis, em 1973 “em Chaves, ao princípio da tarde de 16 de abril de 1973”.
Por essa altura eu andava pela região de Lisboa com os mesmos insanos propósitos só que com mais sorte. Clandestinidade sim prisão não.
 
Só conheci Pedro Baptista no início dos anos 90 – já a ditadura claudicara havia quase duas décadas - quando nos encontrámos na criação e andanças da Plataforma de Esquerda a cujos órgãos dirigentes pertencemos. Depois, em representação desta associação cívica e política, fomos eleitos, como independentes, nas listas do PS, na sequência de um acordo que se iniciou com Jorge Sampaio e continuou com António Guterres. 
Na Assembleia da República ocupávamos o mesmo gabinete. Uma sala grande que nos abrigava a nós e ainda o saudoso amigo e inesquecível coronel “capitão de Abril” Marques Júnior, a Maria Carrilho, o José Reis e o Eduardo Pereira.
Sexta-feira à tarde ele partia para o Porto: “Até para a semana. Vou para Portugal.”  Eu reprovava-lhe o desaforo e zangava-me com ele. Pelo menos até à 2ª feira seguinte.
Deixo aqui uns breves extractos do livro que, como habitualmente, nos oferece a sua excelente escrita
Página 318:
Coincidentemente com todos os sinais atrás referidos, a PIDE assaltou a casa de meus pais no início de agosto 1971. No entanto, eu já só lá ia de quando em vez.
O assalto foi o sinal definitivo de que tinha de passar do regime de vigilância para o da clandestinidade rigorosa. Assim aconteceu depois de duas semanas num buraco provisório, mas seguro. Uns meses depois, mas já em 1972, o mesmo aconteceu com o Rui Loza.
Ao passarmos à clandestinidade, pudemos concentrar-nos mais no avanço do trabalho organizativo do operariado, que avançava desde o início de 1970, na montagem do jornal e em todo o trabalho de criação da rede clandestina nacional.
O jornal – O Grito do Povo – foi fundado em dezembro de 1971, numa casa em Barroselas, no Alto Minho, por mim, estudante de filosofia nas horas vagas da revolução, pelo Penafort Campos, empregado de balcão, que não esteve presente fisicamente mas com quem tudo foi acordado antes e depois das decisões, pelo Francisco Morais, tipógrafo, e pelo Rui Loza, estudante de arquitetura, sendo estes os constituintes”
…………
Página 351
Fui preso em seguida, em Chaves, ao princípio da tarde de 16 de abril de 1973.
Tinha acabado de entrar no país, de onde saíra duas semanas antes, para uma visita em Paris, onde me reunira com alguns movimentos revolucionários estrangeiros, com a nossa estrutura no exterior e com o Hélder Costa, com cuja organização nos tínhamos acabado de fundir…
Tinha entrado e saído inúmeras vezes por aquele local – o Açude – que conhecia, portanto, bastante bem. Do ponto de vista da passagem da fronteira a salto, a pouco mais de um quilómetro da fronteira oficial, sendo muito conhecida, não era de segurança extrema, mas tinha a vantagem dum carro de apoio se poder movimentar do lado português sem se fazer notar, dado o tráfego da estrada, o mesmo acontecendo do lado galego, onde, além disso, havia acesso fácil a transportes públicos.
Bastante segura era a passagem ao domingo de manhã, com o movimento da missa, na igreja galega. Mas em qualquer dia de canícula, era normal que por ali cirandassem veraneantes que acudiam à represa, a refrescarem-se com um  mergulho, sendo que o ribeiro, geralmente, fora dos degelos, se transpunha com um saltito.”
 





2014-10-12

 

A nossa saúde ou os hiper-lucros da indústria farmacêutica?

Sir Richard John Roberts(Derby, 1943-09-06 ), um bioquímico e biólogo molecular britânico, prémio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1993 deu, já há um tempo, uma entrevista ao Jornal espanhol La Vanguardia que provocou um verdadeiro escândalo. Daí para cá a entrevista correu mundo.
Qual não é o despautério das suas afirmações! Então não nos diz que as multinacionais farmacêuticas empenhadas na investigação de novos medicamentos para atacar as doenças e salvar as nossas vidas não querem saber da nossa saúde para nada. Só lhes interessa o lucro e por conseguinte aprimoram o seu trabalho ao ponto de preferirem orientar a investigação para remédios que não curem mas tornem a doença crónica e controlada com o seu, digamos assim, semi-remédio que passará a ter venda até que o doente se fine de velho.
É lógico, visto que a indústria farmacêutica não é uma instituição de caridade - dirão altaneiros e seguros da sua razão os prosélitos do neoliberalismo que governam o país. E se alguém arrisca dizer que então é necessário pôr o Estado a regular o privado ou em último caso nacionalizar alguma coisa logo os especialistas em tecnoforma ou submarinos gritam que isso é contra a natureza humana e a boa ordem económica liberal dos seus patrões.

Eis a entrevista dada ao La Vanguardia:
"El fármaco que cura del todo no es rentable"

El Premio Nobel de medicina Richard J.Roberts pone de manifiesto en una entrevista en La Vanguardia que muchas de las enfermedades que hoy son crónicas tienen cura, pero para los laboratorios farmacéuticosno es rentable curarlas del todo, los poderes políticos lo saben, pero los laboratorios compran su silencio financiando sus campañas electorales.
- ¿Qué modelo de investigación le parece más eficaz, el estadounidense o el europeo?

- Es obvio que el estadounidense, en el que toma parte activa el capital privado, es mucho más eficiente. Tómese por ejemplo el espectacular avance de la industria informática, donde es el dinero privado el que financia la investigación básica y aplicada, pero respecto a la industria de la salud... Tengo mis reservas.
- Le escucho.
- La investigación en la salud humana no puede depender tan sólo de su rentabilidad económica. Lo que es bueno para los dividendos de las empresas no siempre es bueno para las personas.
- Explíquese.
- La industria farmacéutica quiere servir a los mercados de capital...
- Como cualquier otra industria.
- Es que no es cualquier otra industria: estamos hablando de nuestra salud y nuestras vidas y las de nuestros hijos y millones de seres humanos.
- Pero si son rentables, investigarán mejor.
- Si sólo piensas en los beneficios, dejas de preocuparte por servir a los seres humanos.
- Por ejemplo...
- He comprobado como en algunos casos los investigadores dependientes de fondos privados hubieran descubierto medicinas muy eficaces que hubieran acabado por completo con una enfermedad...
- ¿Y por qué dejan de investigar?
- Porque las farmacéuticas a menudo no están tan interesadas en curarle a usted como en sacarle dinero, así que esa investigación, de repente, es desviada hacia el descubrimiento de medicinas que no curan del todo, sino que cronifican la enfermedad y le hacen experimentar una mejoría que desaparece cuando deja de tomar el medicamento.
- Es una grave acusación.
- Pues es habitual que las farmacéuticas estén interesadas en líneas de investigación no para curar sino sólo para cronificar dolencias con medicamentos cronificadores mucho más rentables que los que curan del todo y de una vez para siempre. Y no tiene más que seguir el análisis financiero de la industria farmacológica y comprobará lo que digo.
- Hay dividendos que matan.
- Por eso le decía que la salud no puede ser un mercado más ni puede entenderse tan sólo como un medio para ganar dinero. Y por eso creo que el modelo europeo mixto de capital público y privado es menos fácil que propicie ese tipo de abusos.
- ¿Un ejemplo de esos abusos?
- Se han dejado de investigar antibióticos porque son demasiado efectivos y curaban del todo. Como no se han desarrollado nuevos antibióticos, los microorganismos infecciosos se han vuelto resistentes y hoy la tuberculosis, que en mi niñez había sido derrotada, está resurgiendo y ha matado este año pasado a un millón de personas.
- ¿No me habla usted del Tercer Mundo?
- Ése es otro triste capítulo: apenas se investigan las enfermedades tercermundistas, porque los medicamentos que las combatirían no serían rentables. Pero yo le estoy hablando de nuestro Primer Mundo: la medicina que cura del todo no es rentable y por eso no investigan en ella.
- ¿Los políticos no intervienen?
- No se haga ilusiones: en nuestro sistema, los políticos son meros empleados de los grandes capitales, que invierten lo necesario para que salgan elegidos sus chicos, y si no salen, compran a los que son elegidos.
- De todo habrá.
- Al capital sólo le interesa multiplicarse. Casi todos los políticos - y sé de lo que hablo- dependen descaradamente de esas multinacionales farmacéuticas que financian sus campañas. Lo demás son palabras...

2014-09-22

 

Passos Coelho. CENÁRIO INVENTADO de acordo com o que está à vista

Acusaram o Sr. Pedro Passos Coelho, suposto 1º M, de ter tido um emprego, numa ONG pertença da Tecnoforma, de que posteriormente foi gerente (e célebre!), onde ganhou  5 mil euros por mês, durante dois anos e meio, perfazendo uma receita total de 150 mil euros, ao mesmo tempo que, entre 1995 e 1999, exercia funções de deputado, em regime de exclusividade, o que lhe garantia uma remuneração um pouco maior.

Interrogado pelas televisões e outros media disse durante alguns dias que não se lembrava se esteve ou não empregado nesse período, se ganhava ou não ganhava 5 mil euros por mês, se recebeu ou não recebeu 150 mil euros. Lembrava-se lá agora!! Isso já foi há tanto tempo.

Uns dias depois, face à gravidade do caso, perante o insólito da perda de memória, assim tão novo, a comunicação social continuou a interpelá-lo e então PPC modificou um tanto a resposta: que esse assunto devia ser esclarecido na Assembleia da República, lá é que era o local próprio para tratar desse assunto.
Era uma resposta algo estranha porque casos destes costumam ser averiguados ou pela PJ ou pela PGR. Mas PPC tinha as suas razões. É que entre as primeiras respostas e as respostas dadas uns dias depois passou o tempo suficiente para os seus amigos garantirem que lá na AR se poderia dar um jeito, por exemplo fazendo desaparecer o registo de “exclusividade” já que era muito difícil eliminar as provas que o denunciante teria das suas remunerações na ONG da Tecnoforma.  
Se desaparece tanta coisa, até documentação das contrapartidas dos submarinos que pusessem em perigo Durão Barroso e Paulo Portas, porque não poderão desaparecer uns papelitos no meio daquele oceano de papéis da AR?
E pronto. Hoje aí está a notícia salvífica, os serviços da AR, não encontram nenhum papel que refira PPC como deputado em regime de exclusividade. 

Assim PPC poderá até começar a lembra-se de que afinal … “Oh espera! Já me estou a recordar eu não estava em regime de exclusividade e até agora me lembro, sim senhor, que recebia aqueles trocos lá da ONG da Tecnoforma. Vêem, vêem?!  Gente maldosa sempre a querer pôr em causa a impoluta idoneidade da minha pessoa que sempre se dedicou de corpo e alma à causa pública desde os primeiros degraus da Jota do PSD. E não me venham outra vez com as trapalhadas da Tecnoforma e do Miguel Relvas e da formação profissional de pilotos de aeródromos que não existiam, etc. Que culpa tinha eu de não existirem… Ak
___________
Não esqueça, caro leitor,  que se trata de uma leitura inventada ainda que assente que nem uma luva na lógica dos dados públicos.  Aguardemos pelos novos episódios.

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2014-09-18

 

A ESCÓCIA possui 90% das reservas de petróleo do Reino Unido

O meu “feeling”  diz-me que os principais instigadores, através dos grandes meios de comunicação social, da independência da Escócia têm motivações inconfessáveis, tal como na Catalunha. São sectores que cientes de que a sua região é mais rica que a média do país esperam, egoisticamente, tirar benefício da independência não para uma distribuição equitativa dos benefícios pela população, o que não deixaria de ser um posicionamento egoísta relativamente ao resto do país, mas com os olhos postos na apropriação daqueles benefícios através de uma mais avantajada e nova burocracia governamental com os respetivos grandes negócios.

Seria grande esquematismo reduzir  a problemática destes movimentos às motivações apontadas. Há os sentimentos e sensibilidades de carácter histórico e cultural e atendíveis razões daquela parte da população que se move para a independência  mas julgo que no caso da Escócia e da Catalunha entre outros casos  as motivações de quem mexe os cordelinhos tem a ver com a perspetiva de acréscimo de poder e riqueza de pequenos grupos.
Só conheço um caso em que a parte mais pobre da população quis a independência: a Eslováquia na antiga Checoslováquia.  Na parte checa mais rica os poderes do momento e talvez a população em geral aceitou de imediato a separação. Mas talvez que entre os Eslovacos mais entusiastas da separação estivessem os potenciais novos burocratas. Também aqui não se podem escamotear outras e provavelmente plausíveis razões centrífugas.
 
Creio que onde não há “colonialismo” ou opressão nacional as independências vão contra os interesses da “arraia miúda” e do povo em geral. Sem dispensar a análise e as razões de cada caso tendo a preferir a união à divisão.
E com o olho na Escócia estão os independentistas da Catalunha, do País Basco, da Flandres e outros.

2014-09-06

 

Marina Silva candidata contra Dilma Rousseff virou missionária da Igreja Assembleia de Deus e neoliberalíssima

Leonardo Boff, sobre Marina: “Pobres perderam uma aliada e os opulentos ganharam uma legitimadora” - Por Conceição Lemes (Link para a fonte)

Leonardo Boff é um dos mais brilhantes e respeitados intelectuais do Brasil. Teólogo, escritor e professor universitário, expoente da Teologia da Libertação. Ficou conhecido pela sua história de defesa intransigente das causas sociais. Atualmente dedica-se sobretudo às questões ambientais.
Ele conhece Marina Silva, candidata do PSB à Presidência da República, desde os tempos em que ela atuava no Acre e estava muito ligada à Teologia da Libertação. Acompanhou toda a sua trajetória.
Em 2010, chegou a sonhar com uma representante dos povos da floresta, dos caboclos, dos ribeirinhos, dos indígenas, dos peões vivendo em situação análoga à escravidão, chegar a presidente do Brasil. Hoje, não.
“Está ficando cada vez mais claro que Marina tem um projeto pessoal de ser presidente, custe o que custar”, observa Boff em entrevista exclusiva ao Viomundo.

Para Boff, Marina acolheu plenamente o receituário neoliberal.

“Ela o diz com certo orgulho inconsciente, sem dar-se conta do que isso realmente significa: mercado livre, redução dos gastos públicos (menos médicos, menos professores, menos agentes sociais etc), flutuação do dólar e contenção da inflação com a eventual alta de juros”, alerta. “Como consequência, arrocho salarial, desemprego, fome nas famílias pobres, mortes evitáveis. É o pior que nos poderia acontecer. Tudo isso vem sob o nome genérico de ‘austeridade fiscal’ que está afundando as economias da zona do Euro”.

Sobre a autonomia do Banco Central prevista no programa de Marina, Boff detona: “Acho uma falta total de brasilidade. Significa renunciar à soberania monetária do país e entregá-la ao jogo do mercado, dos bancos e do sistema financeiro capitalista nacional e transnacional. A forma como o capital se impõe é manter sob seu controle os Bancos Centrais dos países”.

Veja a íntegra da nossa entrevista. [deixem-me traduzir para Português: "Veja a nossa entrevista na íntegra". RN ] Nela, Leonardo Boff aborda o recuo de Marina em relação à criminalização da homofobia, a sua trajetória religiosa, a influência de Silas Malafaia, Neca Setúbal (Banco Itaú), Guilherme Leal (Natura) e do economista neoliberal Eduardo Gianetti da Fonseca. Também a autonomia formal do Banco Central e o risco de ela sofrer impeachment.

Viomundo — Na última sexta-feira, Marina lançou o seu programa de governo, que previa o reconhecimento da união homoafetiva e a criminalização da homofobia. Bastou o pastor Malafaia tuitar quatro frases para ela voltar atrás. O que achou dessa postura? É cristão não criminalizar a homofobia, que frequentemente provoca assassinatos?

Leonardo Boff — Está ficando cada vez mais claro que Marina tem um projeto pessoal de ser presidente, custe o que custar. Numa ocasião, ela chegou a declarar que um dos objetivos desta eleição é tirar o PT do poder, o que faz supor mágoas não digeridas contra o PT que ajudou a fundar.

O Malafaia, líder da Igreja Assembleia de Deus à qual Marina pertence, é o seu Papa. O Papa falou, ela, fundamentalisticamente obedece, pois vê nisso a vontade de Deus. E, aí, muda de opinião. Creio que não o faz por oportunismo político, mas por obediência à autoridade religiosa, o que acho, no regime democrático, injustificável.

Um presidente deve obediência à Constituição e ao povo que a elegeu e não a uma autoridade exterior à sociedade.

Viomundo — Qual o risco para a democracia brasileira de alguém na presidência estar submissa a visões tão retrógradas em pleno século XXI, ignorando os avanços, as modernidades?

Leonardo Boff — Um fundamentalista é um dos atores políticos menos indicado para exercer o cargo da responsabilidade de um presidente. Este deve tomar decisões dentro dos parâmetros constitucionais, da democracia e de um estado laico e pluralista. Este tolera todas as expressões religiosas, não opta por nenhuma, embora reconheça o valor delas para a qualidade ética e espiritual da vida em sociedade.

Se um presidente obedece mais aos preceitos de sua religião do que aos da Constituição, fere a democracia e entra em conflito permanente com outros até de sua base de sustentação, pois os preceitos de uma religião particular não podem prevalecer sobre a totalidade da sociedade.

A seguir estritamente nesta linha, pode acontecer um impeachment à Marina, por inabilidade de coordenar as tensões políticas e gerenciar conflitos sempre presentes em sociedades abertas.

Viomundo — Lá atrás Marina Silva esteve ligada à Teologia da Libertação. Atualmente, é da Assembleia de Deus. O que o senhor diria dessa trajetória religiosa? O que representa essa guinada para o conservadorismo exacerbado?

Leonardo Boff – Respeito a opção religiosa de Marina bem como de qualquer pessoa. Eu a conheço do Acre e ela participava dos cursos que meu irmão teólogo Frei Clodovis (trabalhava 6 meses na PUC do Rio e 6 meses na igreja do Acre) e eu dávamos sobre Fé e Política e sobre Teologia da Libertação.

Aqui se falava da opção pelos pobres contra a pobreza, a urgência de se pensar e criar um outro tipo de sociedade e de país, cujos principais protagonistas seriam as grandes maiorias pobres junto com seus aliados, vindos de outras classes sociais. Marina era uma liderança reconhecida e amada por toda a Igreja.

Depois, ao deixar o Acre, por razões pessoais, converteu-se à Igreja Assembleia de Deus. Esta se caracteriza por um cristianismo fundamentalista, pietista e afastado das causas da pobreza e da opressão do povo. Sua pregação é a Bíblia, preferentemente o Antigo Testamento, com uma leitura totalmente descontextualizada daquele tempo e do nosso tempo. Como fundamentalista é uma leitura literalista, no estilo dos muçulmanos.

Politicamente tem consequências graves: Marina pôs o foco no pietismo e no fundamentalismo, na vida espiritual descolada da história presente e quase não fala mais da opção pelos pobres e da libertação. Pelo menos não é este o foco de seu discurso.

A libertação para ela é espiritual, do pecado e das perversões do mundo. Com esse pensamento é fácil ser capturada pelo sistema vigente de mercado, da macroeconomia neoliberal e especulativa.

Isso é inegável, pois seus assessores são desse campo: a herdeira do Banco Itaú Maria Alice (Neca), Guilherme Leal da Natura e o economista neoliberal Eduardo Gianetti da Fonseca. Os pobres perderam uma aliada e os opulentos ganharam uma legitimadora.

E eu que em 2010 sonhava com uma representante dos povos da floresta, dos caboclos, dos ribeirinhos, dos indígenas, dos peões vivendo em situação análoga à escravidão, dos operários explorados das grandes fábricas, dos invisíveis, alguém que viria dos fundos da maior floresta úmida do mundo, a Amazônia, chegar a ser presidente de um dos maiores países do mundo, o Brasil?! Esse sonho foi uma ilusão que faz doer até os dias de hoje. Pelo menos vale como um sonho que nunca morre!

Viomundo — O programa de Marina prevê autonomia ao Banco Central. O que acha dessa medida?

Leonardo Boff — Eu me pergunto, autonomia de quem e para quem?

Acho uma falta total de brasilidade. Significa renunciar à soberania monetária do país e entregá-la ao jogo do mercado, dos bancos e do sistema financeiro capitalista nacional e transnacional. Um presidente/a é eleito para governar seu povo e um dos instrumentos principais é o controle monetário que assim lhe é subtraído. Isso é absolutamente antidemocrático e comporta submissão à tirania das finanças que são cada vez mais vorazes, pondo países inteiros à falência como é o caso da Grécia, da Espanha, da Itália, de Portugal e outros.

Viomundo — Essa medida expressa a influência de Neca Setúbal, herdeira do Itaú, no seu futuro governo?

Leonardo Boff — Quem controla a economia controla o país, ainda mais que vivemos numa sociedade de “Grande Transformação” denunciada pelo economista húngaro-americano Karl Polaniy ainda em 1944 quando, como diz, passamos de uma sociedade com mercado para uma sociedade só de mercado. Então tudo vira mercadoria, inclusive as coisas mais sagradas como água, alimentos, órgãos humanos.

A forma como o capital se impõe é manter sob seu controle os Bancos Centrais dos países. A partir desse controle, estabelecem os níveis dos juros, a meta da inflação, a flutuação do dólar e a porcentagem do superávit primário (aquela quantia tirada dos impostos e reservada para pagar os rentistas, aqueles que emprestaram dinheiro ao governo).

Os bancos jogam um papel decisivo, pois é através deles que se fazem os repasses dos empréstimos ao governo e se cobram juros pelos serviços. Quanto maior for o superávit primário a alíquota Selic mais lucram. Pode ser que a citada Neca Setúbal tenha tido influência para que a candidata Marina acreditasse neste receituário, velho, antipopular, danoso para as grandes maiorias, mas altamente benéfico para o sistema macroeconômico vigente.

Viomundo — As avaliações feitas até agora mostram que o programa econômico de Marina é o mesmo de Aécio Neves, candidato do PSDB à Presidência. São neoliberais. O que representaria para o Brasil o retorno a esse modelo? O senhor acha que, se eleita, o governo Marina teria conotações neoliberais?


Leonardo BoffMarina acolheu plenamente o receituário neoliberal. Ela o diz com certo orgulho inconsciente, sem dar-se conta do que isso realmente significa: mercado livre, redução dos gastos públicos (menos médicos, menos professores, menos agentes sociais etc), flutuação do dólar e contenção da inflação com a eventual alta de juros.

Como consequência, arrocho salarial, desemprego, fome nas famílias pobres, mortes evitáveis. É o pior que nos poderia acontecer. Tudo isso vem sob o nome genérico de “austeridade fiscal” ,que está afundando as economias da zona do Euro e não deram certo em lugar nenhum do mundo, se olharmos a política econômica a partir da maioria da população. Dão certo para os ricos que ficam cada vez mas ricos, como é o caso dos EUA onde 1% da população ganha o equivalente ao que ganham 99% das pessoas. Hoje os EUA são um dos países mais desiguais do mundo.

Viomundo – Foi amplamente divulgado que Marina consulta a Bíblia antes de tomar decisões complexas. Esta visão criacionista do mundo é compatível com um mundo laico?

Leonardo Boff — O que Marina pratica é o fundamentalismo. Este é uma patologia de muitas religiões, inclusive de grupos católicos. O fundamentalismo não é uma doutrina. É uma maneira de entender a doutrina: a minha é a única verdadeira e as demais estão erradas e como tais não têm direito nenhum.

Graças a Deus que isso fica apenas no plano das ideias. Mas facilmente pode passar para o plano da prática. E, aí, se vê evangélicos fundamentalistas invadirem centros de umbanda ou do candomblé e destruírem tudo ou fazerem exorcismos e espalharem sal para todo canto. E no Oriente Médio fazem-se guerras entre fundamentalistas de tendências diferentes com grande eliminação de vidas humanas como o faz atualmente o recém-criado Estado Islâmico. Este pratica limpeza étnica e mata todo mundo de outras etnias ou crenças diferentes das dele.

Marina não chega a tanto. Mas possui essa mentalidade teologicamente errônea e maléfica. No fundo, possui um conceito fúnebre de Deus. Não é um Deus vivo que fala pela história e pelos seres humanos, mas falou outrora, no passado, deixou um livro, como se ele nos dispensasse de pensar, de buscar caminhos bons para todos.

O primeiro livro que Deus escreveu são a criação e a natureza. Elas estão cheias de lições. Criou a inteligência humana para captarmos as mensagens da natureza e inventarmos soluções para nossos problemas.

A Bíblia não é um receituário de soluções ou um feixe de verdades fixadas, mas uma fonte de inspiração para decidirmos pelos melhores caminhos. Ela não foi feita para encobrir a realidade, mas para iluminá-la. Se um fundamentalista seguisse ao pé da letra o que está escrito no livro Levítico 20,13 cometeria um crime e iria para a cadeia, pois aí se diz textualmente: “Se um homem dormir com outro, como se fosse com mulher, ambos cometem grave perversidade e serão punidos com a morte: são réus de morte”.

Viomundo — Marina fala em governar com os melhores. É possível promover inclusão social, manter políticas que favorecem os mais pobres com uma política econômica neoliberal?

Leonardo Boff — Marina parece que não conhece a realidade social na qual há conflitos de interesses, diversidade de opções políticas e ideológicas, algumas que se opõem completamente às outras.

Lendo o programa de governo do PSB de Marina parece que fazemos um passeio ao jardim do Éden. Tudo é harmonioso, sem conflitos, tudo se ordena para o bem do povo. Se entre os melhores estiver um político, para aceitar seu convite, deverá abandonar seu partido e com isso, segundo a atual legislação, perderia o mandato.

Ela necessariamente, se quiser governar, deverá fazer alianças, pois temos um presidencialismo de coalizão. Se fizer aliança com o PMDB deverá engolir o Sarney, o Renan Calheiros e outros exorcizados por Marina. Collor tentou governar com base parlamentar exígua e sofreu um impeachment.

Viomundo — Marina é preparada para presidir um país tão complexo como o Brasil?

Leonardo Boff — Eu pessoalmente estimo sua inteireza pessoal, sua visão espiritualista (abstraindo o fundamentalismo), sua busca de ética em tudo o que faz. Estimo a pessoa, mas questiono o ator político. Acho que não tem a inteligência política para fazer as alianças certas. O presidente deve ser uma pessoa de síntese, capaz de equilibrar os interesses e resolver conflitos para que não sejam danosos e chegar a soluções de ganha-ganha. Para isso precisa-se de habilidade, coisa que em Lula sobrava. Marina, por causa de seu fundamentalismo, não é uma pessoa de síntese, mas antes de divisão.

Viomundo — A preservação efetiva do meio ambiente é compatível com o capitalismo selvagem dos neoliberais?

Leonardo Boff — Entre capitalismo e ecologia há uma contradição direta e fundamental. O capitalismo quer acumular o mais que pode sem qualquer consideração dos bens e serviços limitados da Terra e da exploração das pessoas. Onde ele chega, cria duas injustiças: a social, gerando muita pobreza de um lado e grande riqueza do outro; e uma injustiça ecológica ao devastar ecossistemas e inteiras florestas úmidas.

Marina fala de sustentabilidade, o que é correto. Mas deve ficar claro que a sustentabilidade só é possível a partir de outro paradigma que inclui a sustentabilidade ambiental, político-social, mental e integral (envolvendo nossa relação com as energias de todo o universo).

Portanto, estamos diante de uma nova relação para com a natureza e a Terra, onde as medidas econômicas preconizadas por Marina contradizem esta visão. Temos que produzir, sim, para atender demandas humanas, mas produzir respeitando os limites de cada ecossistema, as leis da natureza e repondo aquilo que temos demasiadamente retirado dela.

Marina quer a produção sustentável, mas mantém a dominação do ser humano sobre a natureza. Este está dentro da natureza, é parte dela e responsável por sua conservação e reprodução, seja como valor em si mesmo, seja como matriz que atende nossas necessidades e das futuras gerações.

Ocorre que atualmente o sistema está destruindo as bases físico-químicas que sustentam a vida. Por isso, ele é perigoso e pode nos levar a uma grande catástrofe. E com certeza os que mais sofrerão, serão aqueles que sempre foram mais explorados e excluídos do sistema. Esta injustiça histórica nós não podemos aceitar e repetir.

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