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2014-10-25

 

Nicolau Santos no Expresso: "Deviam estar todos presos"
















No Expresso

Até agora considerava-se que, entre todos os bancos portugueses que tiveram problemas, só o BPN era verdadeiramente um caso de polícia. Mas à medida que se conhecem mais pormenores sobre o que se passou nos últimos meses no BES cada vez temos mais a certeza que estamos perante um segundo caso de polícia. Daí a pergunta: porque é que não estão todos presos? 

Se não, vejamos. Depois de ter sido proibido pelo Banco de Portugal de continuar a conceder novos créditos ao Grupo Espírito Santo a partir de Janeiro deste ano, o BES continuou a fazê-lo - e, segundo as indicações, fê-lo no montante de 1,2 mil milhões de euros. E das duas uma: ou fê-lo com conhecimento de toda a administração, que sabia da proibição do Banco de Portugal; ou fê-lo por decisão de apenas duas pessoas - Ricardo Salgado e Amílcar Morais Pires.  

No primeiro caso, todos deviam estar já presos; no segundo, os dois deviam estar detidos. Para além de desobedecerem ao banco central, lesaram gravemente o património do banco, sabendo conscientemente que o estavam a fazer. 

Quanto aos outros membros do conselho de administração, se não foram coniventes, foram pelo menos incompetentes. Tinham responsabilidades em várias áreas de controlo da actividade do banco e ou não deram por nada ou, se deram, não fizeram nada. Por isso, fez muito bem o Banco de Portugal em afastar Joaquim Goes, António Souto e Rui Silveira. 

Mas e a Tranquilidade? A Tranquilidade que também continuou a investir em empresas do GES este ano sabendo do estado em que se encontravam? O presidente executivo Pedro Brito e Cunha, que é primo de Ricardo Salgado, tomou essas decisões com base em quê? Na relação familiar, como é óbvio. Devia estar detido igualmente.  

Lesou gravemente e de forma consciente o património da seguradora. E Rui Leão Martinho, o presidente não executivo da Tranquilidade e ex-presidente do Instituto de Seguros de Portugal, não sabia de nada?  

De novo, das duas uma: ou é incompetente ou foi conivente. Em qualquer caso, já se devia ter demitido ou ter sido demitido. Mas a verdade é que o Instituto de Seguros de Portugal parece estar perdido em combate. O presidente José Almaça não tem nada para dizer? Não tem nada para fazer? 

Já agora, António Souto, que o BdP suspendeu da administração do BES é membro do conselho de administração da Tranquilidade. Vai continuar neste cargo? E Rui Silveira, igualmente afastado da administração do BES, é do conselho fiscal da Tranquilidade. Também se vai manter na seguradora? 

Por tudo isto se vê o polvo em que se tornou o GES, tendo no seu centro o BES. Nem todos têm as mesmas responsabilidades. Mas há vários dos seus dirigentes que já deviam estar detidos e sem direito a caução pelos danos que estão a causar a muitos dos que neles confiaram e ao próprio País.

Então, a pergunta é:

- Porque é que não estão todos presos?

E a resposta, óbvia, só pode ser:

- Porque eles são, de facto, os donos disto tudo. Das leis, da Justiça, dos governos, do parlamento. E, por consequência, de todos nós.
Não ouviram, na passada terça-feira, na Assembleia da República, a propósito destruição da PT devido ao caso BES – e às opções dos seus gurus – Pedro Passos Coelho dizer que não é nada com ele? Mesmo que o país perca milhões com isso, nacionalizar está fora de questão? Só se podem nacionalizar os prejuízos?

2014-10-19

 

PEDRO BAPTISTA - AS MEMÓRIAS QUE FALTAVAM

LANÇAMENTO DO LIVRO

7 DE NOVEMBRO, 18h00
 
ÁTRIO DA CÂMARA MUNICIPAL DO PORTO

RUI MOREIRA, PRESIDENTE DA CÂMARA
 
JOSÉ MANUEL LOPES CORDEIRO, HISTORIADOR
JOSÉ QUEIRÓS, JORNALISTA
 
JOSÉ SOUSA RIBEIRO, EDITOR
 
 
**********
Pedro Baptista foi o fundador e dirigente da Organização Comunista Marxista-Leninista Portuguesa  (OCMLP) e do seu órgão político O Grito do Povo. Organização maoista com origem no Porto, nos anos 70, do século XX.
A PIDE não simpatizava com as suas actividades e procurou-o em 1971. Avesso a conversas com a polícia política do fascismo, Pedro Baptista trocou-lhe as voltas e experienciou a clandestinidade. Movia-o a determinação casmurra não apenas de derrubar a ditadura, o que não seria pouco, mas ainda de promover a revolução que criasse mundos novos. Pedro Baptista não recuava perante os perigos e estes apresentaram-se-lhe inapeláveis, em 1973 “em Chaves, ao princípio da tarde de 16 de abril de 1973”.
Por essa altura eu andava pela região de Lisboa com os mesmos insanos propósitos só que com mais sorte. Clandestinidade sim prisão não.
 
Só conheci Pedro Baptista no início dos anos 90 – já a ditadura claudicara havia quase duas décadas - quando nos encontrámos na criação e andanças da Plataforma de Esquerda a cujos órgãos dirigentes pertencemos. Depois, em representação desta associação cívica e política, fomos eleitos, como independentes, nas listas do PS, na sequência de um acordo que se iniciou com Jorge Sampaio e continuou com António Guterres. 
Na Assembleia da República ocupávamos o mesmo gabinete. Uma sala grande que nos abrigava a nós e ainda o saudoso amigo e inesquecível coronel “capitão de Abril” Marques Júnior, a Maria Carrilho, o José Reis e o Eduardo Pereira.
Sexta-feira à tarde ele partia para o Porto: “Até para a semana. Vou para Portugal.”  Eu reprovava-lhe o desaforo e zangava-me com ele. Pelo menos até à 2ª feira seguinte.
Deixo aqui uns breves extractos do livro que, como habitualmente, nos oferece a sua excelente escrita
Página 318:
Coincidentemente com todos os sinais atrás referidos, a PIDE assaltou a casa de meus pais no início de agosto 1971. No entanto, eu já só lá ia de quando em vez.
O assalto foi o sinal definitivo de que tinha de passar do regime de vigilância para o da clandestinidade rigorosa. Assim aconteceu depois de duas semanas num buraco provisório, mas seguro. Uns meses depois, mas já em 1972, o mesmo aconteceu com o Rui Loza.
Ao passarmos à clandestinidade, pudemos concentrar-nos mais no avanço do trabalho organizativo do operariado, que avançava desde o início de 1970, na montagem do jornal e em todo o trabalho de criação da rede clandestina nacional.
O jornal – O Grito do Povo – foi fundado em dezembro de 1971, numa casa em Barroselas, no Alto Minho, por mim, estudante de filosofia nas horas vagas da revolução, pelo Penafort Campos, empregado de balcão, que não esteve presente fisicamente mas com quem tudo foi acordado antes e depois das decisões, pelo Francisco Morais, tipógrafo, e pelo Rui Loza, estudante de arquitetura, sendo estes os constituintes”
…………
Página 351
Fui preso em seguida, em Chaves, ao princípio da tarde de 16 de abril de 1973.
Tinha acabado de entrar no país, de onde saíra duas semanas antes, para uma visita em Paris, onde me reunira com alguns movimentos revolucionários estrangeiros, com a nossa estrutura no exterior e com o Hélder Costa, com cuja organização nos tínhamos acabado de fundir…
Tinha entrado e saído inúmeras vezes por aquele local – o Açude – que conhecia, portanto, bastante bem. Do ponto de vista da passagem da fronteira a salto, a pouco mais de um quilómetro da fronteira oficial, sendo muito conhecida, não era de segurança extrema, mas tinha a vantagem dum carro de apoio se poder movimentar do lado português sem se fazer notar, dado o tráfego da estrada, o mesmo acontecendo do lado galego, onde, além disso, havia acesso fácil a transportes públicos.
Bastante segura era a passagem ao domingo de manhã, com o movimento da missa, na igreja galega. Mas em qualquer dia de canícula, era normal que por ali cirandassem veraneantes que acudiam à represa, a refrescarem-se com um  mergulho, sendo que o ribeiro, geralmente, fora dos degelos, se transpunha com um saltito.”
 





2014-10-12

 

A nossa saúde ou os hiper-lucros da indústria farmacêutica?

Sir Richard John Roberts(Derby, 1943-09-06 ), um bioquímico e biólogo molecular britânico, prémio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1993 deu, já há um tempo, uma entrevista ao Jornal espanhol La Vanguardia que provocou um verdadeiro escândalo. Daí para cá a entrevista correu mundo.
Qual não é o despautério das suas afirmações! Então não nos diz que as multinacionais farmacêuticas empenhadas na investigação de novos medicamentos para atacar as doenças e salvar as nossas vidas não querem saber da nossa saúde para nada. Só lhes interessa o lucro e por conseguinte aprimoram o seu trabalho ao ponto de preferirem orientar a investigação para remédios que não curem mas tornem a doença crónica e controlada com o seu, digamos assim, semi-remédio que passará a ter venda até que o doente se fine de velho.
É lógico, visto que a indústria farmacêutica não é uma instituição de caridade - dirão altaneiros e seguros da sua razão os prosélitos do neoliberalismo que governam o país. E se alguém arrisca dizer que então é necessário pôr o Estado a regular o privado ou em último caso nacionalizar alguma coisa logo os especialistas em tecnoforma ou submarinos gritam que isso é contra a natureza humana e a boa ordem económica liberal dos seus patrões.

Eis a entrevista dada ao La Vanguardia:
"El fármaco que cura del todo no es rentable"

El Premio Nobel de medicina Richard J.Roberts pone de manifiesto en una entrevista en La Vanguardia que muchas de las enfermedades que hoy son crónicas tienen cura, pero para los laboratorios farmacéuticosno es rentable curarlas del todo, los poderes políticos lo saben, pero los laboratorios compran su silencio financiando sus campañas electorales.
- ¿Qué modelo de investigación le parece más eficaz, el estadounidense o el europeo?

- Es obvio que el estadounidense, en el que toma parte activa el capital privado, es mucho más eficiente. Tómese por ejemplo el espectacular avance de la industria informática, donde es el dinero privado el que financia la investigación básica y aplicada, pero respecto a la industria de la salud... Tengo mis reservas.
- Le escucho.
- La investigación en la salud humana no puede depender tan sólo de su rentabilidad económica. Lo que es bueno para los dividendos de las empresas no siempre es bueno para las personas.
- Explíquese.
- La industria farmacéutica quiere servir a los mercados de capital...
- Como cualquier otra industria.
- Es que no es cualquier otra industria: estamos hablando de nuestra salud y nuestras vidas y las de nuestros hijos y millones de seres humanos.
- Pero si son rentables, investigarán mejor.
- Si sólo piensas en los beneficios, dejas de preocuparte por servir a los seres humanos.
- Por ejemplo...
- He comprobado como en algunos casos los investigadores dependientes de fondos privados hubieran descubierto medicinas muy eficaces que hubieran acabado por completo con una enfermedad...
- ¿Y por qué dejan de investigar?
- Porque las farmacéuticas a menudo no están tan interesadas en curarle a usted como en sacarle dinero, así que esa investigación, de repente, es desviada hacia el descubrimiento de medicinas que no curan del todo, sino que cronifican la enfermedad y le hacen experimentar una mejoría que desaparece cuando deja de tomar el medicamento.
- Es una grave acusación.
- Pues es habitual que las farmacéuticas estén interesadas en líneas de investigación no para curar sino sólo para cronificar dolencias con medicamentos cronificadores mucho más rentables que los que curan del todo y de una vez para siempre. Y no tiene más que seguir el análisis financiero de la industria farmacológica y comprobará lo que digo.
- Hay dividendos que matan.
- Por eso le decía que la salud no puede ser un mercado más ni puede entenderse tan sólo como un medio para ganar dinero. Y por eso creo que el modelo europeo mixto de capital público y privado es menos fácil que propicie ese tipo de abusos.
- ¿Un ejemplo de esos abusos?
- Se han dejado de investigar antibióticos porque son demasiado efectivos y curaban del todo. Como no se han desarrollado nuevos antibióticos, los microorganismos infecciosos se han vuelto resistentes y hoy la tuberculosis, que en mi niñez había sido derrotada, está resurgiendo y ha matado este año pasado a un millón de personas.
- ¿No me habla usted del Tercer Mundo?
- Ése es otro triste capítulo: apenas se investigan las enfermedades tercermundistas, porque los medicamentos que las combatirían no serían rentables. Pero yo le estoy hablando de nuestro Primer Mundo: la medicina que cura del todo no es rentable y por eso no investigan en ella.
- ¿Los políticos no intervienen?
- No se haga ilusiones: en nuestro sistema, los políticos son meros empleados de los grandes capitales, que invierten lo necesario para que salgan elegidos sus chicos, y si no salen, compran a los que son elegidos.
- De todo habrá.
- Al capital sólo le interesa multiplicarse. Casi todos los políticos - y sé de lo que hablo- dependen descaradamente de esas multinacionales farmacéuticas que financian sus campañas. Lo demás son palabras...

2014-09-22

 

Passos Coelho. CENÁRIO INVENTADO de acordo com o que está à vista

Acusaram o Sr. Pedro Passos Coelho, suposto 1º M, de ter tido um emprego, numa ONG pertença da Tecnoforma, de que posteriormente foi gerente (e célebre!), onde ganhou  5 mil euros por mês, durante dois anos e meio, perfazendo uma receita total de 150 mil euros, ao mesmo tempo que, entre 1995 e 1999, exercia funções de deputado, em regime de exclusividade, o que lhe garantia uma remuneração um pouco maior.

Interrogado pelas televisões e outros media disse durante alguns dias que não se lembrava se esteve ou não empregado nesse período, se ganhava ou não ganhava 5 mil euros por mês, se recebeu ou não recebeu 150 mil euros. Lembrava-se lá agora!! Isso já foi há tanto tempo.

Uns dias depois, face à gravidade do caso, perante o insólito da perda de memória, assim tão novo, a comunicação social continuou a interpelá-lo e então PPC modificou um tanto a resposta: que esse assunto devia ser esclarecido na Assembleia da República, lá é que era o local próprio para tratar desse assunto.
Era uma resposta algo estranha porque casos destes costumam ser averiguados ou pela PJ ou pela PGR. Mas PPC tinha as suas razões. É que entre as primeiras respostas e as respostas dadas uns dias depois passou o tempo suficiente para os seus amigos garantirem que lá na AR se poderia dar um jeito, por exemplo fazendo desaparecer o registo de “exclusividade” já que era muito difícil eliminar as provas que o denunciante teria das suas remunerações na ONG da Tecnoforma.  
Se desaparece tanta coisa, até documentação das contrapartidas dos submarinos que pusessem em perigo Durão Barroso e Paulo Portas, porque não poderão desaparecer uns papelitos no meio daquele oceano de papéis da AR?
E pronto. Hoje aí está a notícia salvífica, os serviços da AR, não encontram nenhum papel que refira PPC como deputado em regime de exclusividade. 

Assim PPC poderá até começar a lembra-se de que afinal … “Oh espera! Já me estou a recordar eu não estava em regime de exclusividade e até agora me lembro, sim senhor, que recebia aqueles trocos lá da ONG da Tecnoforma. Vêem, vêem?!  Gente maldosa sempre a querer pôr em causa a impoluta idoneidade da minha pessoa que sempre se dedicou de corpo e alma à causa pública desde os primeiros degraus da Jota do PSD. E não me venham outra vez com as trapalhadas da Tecnoforma e do Miguel Relvas e da formação profissional de pilotos de aeródromos que não existiam, etc. Que culpa tinha eu de não existirem… Ak
___________
Não esqueça, caro leitor,  que se trata de uma leitura inventada ainda que assente que nem uma luva na lógica dos dados públicos.  Aguardemos pelos novos episódios.

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2014-09-18

 

A ESCÓCIA possui 90% das reservas de petróleo do Reino Unido

O meu “feeling”  diz-me que os principais instigadores, através dos grandes meios de comunicação social, da independência da Escócia têm motivações inconfessáveis, tal como na Catalunha. São sectores que cientes de que a sua região é mais rica que a média do país esperam, egoisticamente, tirar benefício da independência não para uma distribuição equitativa dos benefícios pela população, o que não deixaria de ser um posicionamento egoísta relativamente ao resto do país, mas com os olhos postos na apropriação daqueles benefícios através de uma mais avantajada e nova burocracia governamental com os respetivos grandes negócios.

Seria grande esquematismo reduzir  a problemática destes movimentos às motivações apontadas. Há os sentimentos e sensibilidades de carácter histórico e cultural e atendíveis razões daquela parte da população que se move para a independência  mas julgo que no caso da Escócia e da Catalunha entre outros casos  as motivações de quem mexe os cordelinhos tem a ver com a perspetiva de acréscimo de poder e riqueza de pequenos grupos.
Só conheço um caso em que a parte mais pobre da população quis a independência: a Eslováquia na antiga Checoslováquia.  Na parte checa mais rica os poderes do momento e talvez a população em geral aceitou de imediato a separação. Mas talvez que entre os Eslovacos mais entusiastas da separação estivessem os potenciais novos burocratas. Também aqui não se podem escamotear outras e provavelmente plausíveis razões centrífugas.
 
Creio que onde não há “colonialismo” ou opressão nacional as independências vão contra os interesses da “arraia miúda” e do povo em geral. Sem dispensar a análise e as razões de cada caso tendo a preferir a união à divisão.
E com o olho na Escócia estão os independentistas da Catalunha, do País Basco, da Flandres e outros.

2014-09-06

 

Marina Silva candidata contra Dilma Rousseff virou missionária da Igreja Assembleia de Deus e neoliberalíssima

Leonardo Boff, sobre Marina: “Pobres perderam uma aliada e os opulentos ganharam uma legitimadora” - Por Conceição Lemes (Link para a fonte)

Leonardo Boff é um dos mais brilhantes e respeitados intelectuais do Brasil. Teólogo, escritor e professor universitário, expoente da Teologia da Libertação. Ficou conhecido pela sua história de defesa intransigente das causas sociais. Atualmente dedica-se sobretudo às questões ambientais.
Ele conhece Marina Silva, candidata do PSB à Presidência da República, desde os tempos em que ela atuava no Acre e estava muito ligada à Teologia da Libertação. Acompanhou toda a sua trajetória.
Em 2010, chegou a sonhar com uma representante dos povos da floresta, dos caboclos, dos ribeirinhos, dos indígenas, dos peões vivendo em situação análoga à escravidão, chegar a presidente do Brasil. Hoje, não.
“Está ficando cada vez mais claro que Marina tem um projeto pessoal de ser presidente, custe o que custar”, observa Boff em entrevista exclusiva ao Viomundo.

Para Boff, Marina acolheu plenamente o receituário neoliberal.

“Ela o diz com certo orgulho inconsciente, sem dar-se conta do que isso realmente significa: mercado livre, redução dos gastos públicos (menos médicos, menos professores, menos agentes sociais etc), flutuação do dólar e contenção da inflação com a eventual alta de juros”, alerta. “Como consequência, arrocho salarial, desemprego, fome nas famílias pobres, mortes evitáveis. É o pior que nos poderia acontecer. Tudo isso vem sob o nome genérico de ‘austeridade fiscal’ que está afundando as economias da zona do Euro”.

Sobre a autonomia do Banco Central prevista no programa de Marina, Boff detona: “Acho uma falta total de brasilidade. Significa renunciar à soberania monetária do país e entregá-la ao jogo do mercado, dos bancos e do sistema financeiro capitalista nacional e transnacional. A forma como o capital se impõe é manter sob seu controle os Bancos Centrais dos países”.

Veja a íntegra da nossa entrevista. [deixem-me traduzir para Português: "Veja a nossa entrevista na íntegra". RN ] Nela, Leonardo Boff aborda o recuo de Marina em relação à criminalização da homofobia, a sua trajetória religiosa, a influência de Silas Malafaia, Neca Setúbal (Banco Itaú), Guilherme Leal (Natura) e do economista neoliberal Eduardo Gianetti da Fonseca. Também a autonomia formal do Banco Central e o risco de ela sofrer impeachment.

Viomundo — Na última sexta-feira, Marina lançou o seu programa de governo, que previa o reconhecimento da união homoafetiva e a criminalização da homofobia. Bastou o pastor Malafaia tuitar quatro frases para ela voltar atrás. O que achou dessa postura? É cristão não criminalizar a homofobia, que frequentemente provoca assassinatos?

Leonardo Boff — Está ficando cada vez mais claro que Marina tem um projeto pessoal de ser presidente, custe o que custar. Numa ocasião, ela chegou a declarar que um dos objetivos desta eleição é tirar o PT do poder, o que faz supor mágoas não digeridas contra o PT que ajudou a fundar.

O Malafaia, líder da Igreja Assembleia de Deus à qual Marina pertence, é o seu Papa. O Papa falou, ela, fundamentalisticamente obedece, pois vê nisso a vontade de Deus. E, aí, muda de opinião. Creio que não o faz por oportunismo político, mas por obediência à autoridade religiosa, o que acho, no regime democrático, injustificável.

Um presidente deve obediência à Constituição e ao povo que a elegeu e não a uma autoridade exterior à sociedade.

Viomundo — Qual o risco para a democracia brasileira de alguém na presidência estar submissa a visões tão retrógradas em pleno século XXI, ignorando os avanços, as modernidades?

Leonardo Boff — Um fundamentalista é um dos atores políticos menos indicado para exercer o cargo da responsabilidade de um presidente. Este deve tomar decisões dentro dos parâmetros constitucionais, da democracia e de um estado laico e pluralista. Este tolera todas as expressões religiosas, não opta por nenhuma, embora reconheça o valor delas para a qualidade ética e espiritual da vida em sociedade.

Se um presidente obedece mais aos preceitos de sua religião do que aos da Constituição, fere a democracia e entra em conflito permanente com outros até de sua base de sustentação, pois os preceitos de uma religião particular não podem prevalecer sobre a totalidade da sociedade.

A seguir estritamente nesta linha, pode acontecer um impeachment à Marina, por inabilidade de coordenar as tensões políticas e gerenciar conflitos sempre presentes em sociedades abertas.

Viomundo — Lá atrás Marina Silva esteve ligada à Teologia da Libertação. Atualmente, é da Assembleia de Deus. O que o senhor diria dessa trajetória religiosa? O que representa essa guinada para o conservadorismo exacerbado?

Leonardo Boff – Respeito a opção religiosa de Marina bem como de qualquer pessoa. Eu a conheço do Acre e ela participava dos cursos que meu irmão teólogo Frei Clodovis (trabalhava 6 meses na PUC do Rio e 6 meses na igreja do Acre) e eu dávamos sobre Fé e Política e sobre Teologia da Libertação.

Aqui se falava da opção pelos pobres contra a pobreza, a urgência de se pensar e criar um outro tipo de sociedade e de país, cujos principais protagonistas seriam as grandes maiorias pobres junto com seus aliados, vindos de outras classes sociais. Marina era uma liderança reconhecida e amada por toda a Igreja.

Depois, ao deixar o Acre, por razões pessoais, converteu-se à Igreja Assembleia de Deus. Esta se caracteriza por um cristianismo fundamentalista, pietista e afastado das causas da pobreza e da opressão do povo. Sua pregação é a Bíblia, preferentemente o Antigo Testamento, com uma leitura totalmente descontextualizada daquele tempo e do nosso tempo. Como fundamentalista é uma leitura literalista, no estilo dos muçulmanos.

Politicamente tem consequências graves: Marina pôs o foco no pietismo e no fundamentalismo, na vida espiritual descolada da história presente e quase não fala mais da opção pelos pobres e da libertação. Pelo menos não é este o foco de seu discurso.

A libertação para ela é espiritual, do pecado e das perversões do mundo. Com esse pensamento é fácil ser capturada pelo sistema vigente de mercado, da macroeconomia neoliberal e especulativa.

Isso é inegável, pois seus assessores são desse campo: a herdeira do Banco Itaú Maria Alice (Neca), Guilherme Leal da Natura e o economista neoliberal Eduardo Gianetti da Fonseca. Os pobres perderam uma aliada e os opulentos ganharam uma legitimadora.

E eu que em 2010 sonhava com uma representante dos povos da floresta, dos caboclos, dos ribeirinhos, dos indígenas, dos peões vivendo em situação análoga à escravidão, dos operários explorados das grandes fábricas, dos invisíveis, alguém que viria dos fundos da maior floresta úmida do mundo, a Amazônia, chegar a ser presidente de um dos maiores países do mundo, o Brasil?! Esse sonho foi uma ilusão que faz doer até os dias de hoje. Pelo menos vale como um sonho que nunca morre!

Viomundo — O programa de Marina prevê autonomia ao Banco Central. O que acha dessa medida?

Leonardo Boff — Eu me pergunto, autonomia de quem e para quem?

Acho uma falta total de brasilidade. Significa renunciar à soberania monetária do país e entregá-la ao jogo do mercado, dos bancos e do sistema financeiro capitalista nacional e transnacional. Um presidente/a é eleito para governar seu povo e um dos instrumentos principais é o controle monetário que assim lhe é subtraído. Isso é absolutamente antidemocrático e comporta submissão à tirania das finanças que são cada vez mais vorazes, pondo países inteiros à falência como é o caso da Grécia, da Espanha, da Itália, de Portugal e outros.

Viomundo — Essa medida expressa a influência de Neca Setúbal, herdeira do Itaú, no seu futuro governo?

Leonardo Boff — Quem controla a economia controla o país, ainda mais que vivemos numa sociedade de “Grande Transformação” denunciada pelo economista húngaro-americano Karl Polaniy ainda em 1944 quando, como diz, passamos de uma sociedade com mercado para uma sociedade só de mercado. Então tudo vira mercadoria, inclusive as coisas mais sagradas como água, alimentos, órgãos humanos.

A forma como o capital se impõe é manter sob seu controle os Bancos Centrais dos países. A partir desse controle, estabelecem os níveis dos juros, a meta da inflação, a flutuação do dólar e a porcentagem do superávit primário (aquela quantia tirada dos impostos e reservada para pagar os rentistas, aqueles que emprestaram dinheiro ao governo).

Os bancos jogam um papel decisivo, pois é através deles que se fazem os repasses dos empréstimos ao governo e se cobram juros pelos serviços. Quanto maior for o superávit primário a alíquota Selic mais lucram. Pode ser que a citada Neca Setúbal tenha tido influência para que a candidata Marina acreditasse neste receituário, velho, antipopular, danoso para as grandes maiorias, mas altamente benéfico para o sistema macroeconômico vigente.

Viomundo — As avaliações feitas até agora mostram que o programa econômico de Marina é o mesmo de Aécio Neves, candidato do PSDB à Presidência. São neoliberais. O que representaria para o Brasil o retorno a esse modelo? O senhor acha que, se eleita, o governo Marina teria conotações neoliberais?


Leonardo BoffMarina acolheu plenamente o receituário neoliberal. Ela o diz com certo orgulho inconsciente, sem dar-se conta do que isso realmente significa: mercado livre, redução dos gastos públicos (menos médicos, menos professores, menos agentes sociais etc), flutuação do dólar e contenção da inflação com a eventual alta de juros.

Como consequência, arrocho salarial, desemprego, fome nas famílias pobres, mortes evitáveis. É o pior que nos poderia acontecer. Tudo isso vem sob o nome genérico de “austeridade fiscal” ,que está afundando as economias da zona do Euro e não deram certo em lugar nenhum do mundo, se olharmos a política econômica a partir da maioria da população. Dão certo para os ricos que ficam cada vez mas ricos, como é o caso dos EUA onde 1% da população ganha o equivalente ao que ganham 99% das pessoas. Hoje os EUA são um dos países mais desiguais do mundo.

Viomundo – Foi amplamente divulgado que Marina consulta a Bíblia antes de tomar decisões complexas. Esta visão criacionista do mundo é compatível com um mundo laico?

Leonardo Boff — O que Marina pratica é o fundamentalismo. Este é uma patologia de muitas religiões, inclusive de grupos católicos. O fundamentalismo não é uma doutrina. É uma maneira de entender a doutrina: a minha é a única verdadeira e as demais estão erradas e como tais não têm direito nenhum.

Graças a Deus que isso fica apenas no plano das ideias. Mas facilmente pode passar para o plano da prática. E, aí, se vê evangélicos fundamentalistas invadirem centros de umbanda ou do candomblé e destruírem tudo ou fazerem exorcismos e espalharem sal para todo canto. E no Oriente Médio fazem-se guerras entre fundamentalistas de tendências diferentes com grande eliminação de vidas humanas como o faz atualmente o recém-criado Estado Islâmico. Este pratica limpeza étnica e mata todo mundo de outras etnias ou crenças diferentes das dele.

Marina não chega a tanto. Mas possui essa mentalidade teologicamente errônea e maléfica. No fundo, possui um conceito fúnebre de Deus. Não é um Deus vivo que fala pela história e pelos seres humanos, mas falou outrora, no passado, deixou um livro, como se ele nos dispensasse de pensar, de buscar caminhos bons para todos.

O primeiro livro que Deus escreveu são a criação e a natureza. Elas estão cheias de lições. Criou a inteligência humana para captarmos as mensagens da natureza e inventarmos soluções para nossos problemas.

A Bíblia não é um receituário de soluções ou um feixe de verdades fixadas, mas uma fonte de inspiração para decidirmos pelos melhores caminhos. Ela não foi feita para encobrir a realidade, mas para iluminá-la. Se um fundamentalista seguisse ao pé da letra o que está escrito no livro Levítico 20,13 cometeria um crime e iria para a cadeia, pois aí se diz textualmente: “Se um homem dormir com outro, como se fosse com mulher, ambos cometem grave perversidade e serão punidos com a morte: são réus de morte”.

Viomundo — Marina fala em governar com os melhores. É possível promover inclusão social, manter políticas que favorecem os mais pobres com uma política econômica neoliberal?

Leonardo Boff — Marina parece que não conhece a realidade social na qual há conflitos de interesses, diversidade de opções políticas e ideológicas, algumas que se opõem completamente às outras.

Lendo o programa de governo do PSB de Marina parece que fazemos um passeio ao jardim do Éden. Tudo é harmonioso, sem conflitos, tudo se ordena para o bem do povo. Se entre os melhores estiver um político, para aceitar seu convite, deverá abandonar seu partido e com isso, segundo a atual legislação, perderia o mandato.

Ela necessariamente, se quiser governar, deverá fazer alianças, pois temos um presidencialismo de coalizão. Se fizer aliança com o PMDB deverá engolir o Sarney, o Renan Calheiros e outros exorcizados por Marina. Collor tentou governar com base parlamentar exígua e sofreu um impeachment.

Viomundo — Marina é preparada para presidir um país tão complexo como o Brasil?

Leonardo Boff — Eu pessoalmente estimo sua inteireza pessoal, sua visão espiritualista (abstraindo o fundamentalismo), sua busca de ética em tudo o que faz. Estimo a pessoa, mas questiono o ator político. Acho que não tem a inteligência política para fazer as alianças certas. O presidente deve ser uma pessoa de síntese, capaz de equilibrar os interesses e resolver conflitos para que não sejam danosos e chegar a soluções de ganha-ganha. Para isso precisa-se de habilidade, coisa que em Lula sobrava. Marina, por causa de seu fundamentalismo, não é uma pessoa de síntese, mas antes de divisão.

Viomundo — A preservação efetiva do meio ambiente é compatível com o capitalismo selvagem dos neoliberais?

Leonardo Boff — Entre capitalismo e ecologia há uma contradição direta e fundamental. O capitalismo quer acumular o mais que pode sem qualquer consideração dos bens e serviços limitados da Terra e da exploração das pessoas. Onde ele chega, cria duas injustiças: a social, gerando muita pobreza de um lado e grande riqueza do outro; e uma injustiça ecológica ao devastar ecossistemas e inteiras florestas úmidas.

Marina fala de sustentabilidade, o que é correto. Mas deve ficar claro que a sustentabilidade só é possível a partir de outro paradigma que inclui a sustentabilidade ambiental, político-social, mental e integral (envolvendo nossa relação com as energias de todo o universo).

Portanto, estamos diante de uma nova relação para com a natureza e a Terra, onde as medidas econômicas preconizadas por Marina contradizem esta visão. Temos que produzir, sim, para atender demandas humanas, mas produzir respeitando os limites de cada ecossistema, as leis da natureza e repondo aquilo que temos demasiadamente retirado dela.

Marina quer a produção sustentável, mas mantém a dominação do ser humano sobre a natureza. Este está dentro da natureza, é parte dela e responsável por sua conservação e reprodução, seja como valor em si mesmo, seja como matriz que atende nossas necessidades e das futuras gerações.

Ocorre que atualmente o sistema está destruindo as bases físico-químicas que sustentam a vida. Por isso, ele é perigoso e pode nos levar a uma grande catástrofe. E com certeza os que mais sofrerão, serão aqueles que sempre foram mais explorados e excluídos do sistema. Esta injustiça histórica nós não podemos aceitar e repetir.

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2014-09-03

 

A política aventureira da União Europeia na Ucrânia

Vamos brincar às guerras junto ao paiol nuclear da Rússia? Vamos!
 

Em 24 de Agosto os ucranianos de Donetsk que não reconhecem o governo de Kiev e combatem o exército ucraniano e grupos militarizados enviados para os submeter do “Sector Direita” (que se autointitula nazi), venceram uma batalha local e fizeram prisioneiros 80 combatentes  que de mãos atadas foram mostrados à multidão da cidade.

Foi um acto reprovável, muito noticiado nos nossos media para revelar a barbaridade dos ucranianos de origem russa e pró-federação da Ucrânia. Mas ignoram outros factos como este: em 2 de Maio, na cidade de Odessa, na sequência de um jogo de futebol, grupos armados do “Sector Direita” vindos de Kiev, cercaram um grupo de manifestantes contra o governo que fugiram para o edifício da central sindical, ali próximo.  Os “patriotas” do Sector Direita que têm a simpatia e apoio da EU e dos EUA, rodearam o edifício fecharam-no e incendiaram-no com granadas incendiárias e um gás asfixiante.  Morreram 46 pessoas ficaram feridas 200. As pessoas que se atiravam para a rua de janelas do 2º, 3º e 4º andar e que não morriam com a queda eram mortas a tiro ou à paulada. Viram a notícia nos nossos media? Apareceu camuflada, assim: “a situação se agravou na semana passada, quando os ativistas pró-Rússia começaram a se rebelar em Odessa, cidade no sul ucraniano, onde 40 pessoas morreram em um incêndio em um prédio tomado por manifestantes na última sexta.” 

A política dos EUA e da UE para a Ucrânia é uma política aventureira e repleta de perigos. Incitaram e ajudaram a derrubar um presidente e governo eleito havia pouco mais de um ano com arruaças e grupos terroristas em Kiev. Um dos principais grupos terroristas era o “Sector Direita” que após o seu derrube ocupou um grande edifício oficial, no centro de Kiev e para que não houvesse dúvidas pintou a cruz suástica a toda a altura da fachada do prédio. Tiveram direito a vários ministros.

Há uma campanha de mentiras e de intoxicação da comunicação social na Europa e nos EUA que procura ocultar o que se passa na Ucrânia e procura arregimentar os eleitores para uma politica belicista muito perigosa.
Há exceções, é claro. Como esta, por exemplo, no Público de ontem:


No dia 11 de Agosto, o correspondente em Moscovo do jornal britânico The Telegraph, Tom Parfitt, falou com alguns dos homens do Batalhão de Azov, que estavam nessa altura estacionados na pequena cidade de Urzuf, cerca de 40 quilómetros a Oeste de Mariupol.

«Tal como dezenas de outros destes grupos de voluntários, o Batalhão de Azov serve para colmatar as lacunas do Exército da Ucrânia – muitos deles estiveram na Praça da Independência em Kiev, durante os protestos contra o antigo Presidente ucraniano Viktor Ianukovich e foram depois lutar contra os separatistas pró-russos para manterem a unidade do território da Ucrânia.

«O Batalhão de Azov é conhecido por ser um dos mais ferozes. O seu fundador e comandante é Andri Biletski, também líder da formação ultranacionalista Assembleia Nacional Social. A sua ideologia ficou patente num comentário citado pelo jornal britânico: "A missão histórica da nossa nação neste momento crucial é liderar as raças brancas do mundo numa cruzada final pela sua sobrevivência. Uma cruzada contra os sub-humanos liderados por semitas."

«Por enquanto, o músculo do Batalhão de Azov satisfaz os seus ideais neonazis e a luta pela integridade territorial da Ucrânia, mas o discurso dos seus líderes aponta para uma coexistência nada pacífica com a União Europeia depois do fim do conflito no Leste do país.

«Num texto publicado no site da Assembleia Nacional Social (liderada pelo comandante do Batalhão de Azov), e citado pela AFP, fala-se em "erradicar perigosos vírus", numa referência que se pode ajustar a muitos dos líderes ocidentais que apoiam actualmente o Governo de Kiev: "Infelizmente, entre o povo ucraniano de hoje há muitos 'russos' (pela sua mentalidade, não pelo seu sangue), 'judeus', 'americanos', 'europeus' (da União Europeia liberal-democrata), 'árabes', 'chineses' e por aí em diante, mas não há muitos especificamente ucranianos.» 
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Aos EUA não serviu de nada a lição da Al-Qaeda grupo que, juntamente com os seus aliados talibãs, foram pagos, armados e instruídos por uma coligação “virtuosa”:  EUA/(instrutores) /Arábia Saudita (dinheiro) e Paquistão (bases militares). Mas agora a confrontação é com a Rússia e há armas nucleares. E a UE que só tem a perder com a aventura vai, alegremente, a reboque da política aventureira do Pentágono.

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2014-08-30

 

Imagina que Portugal era a Palestina



Este mapa ilustra bem o que Suad Amiry, na foto, em baixo, explica aqui no blog MEMÓRIAS , com rara clareza: a essência da eterna guerra em terras da Palestina.


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2014-08-25

 

Mais de 96 ex-governantes deram em banqueiros!


São 96 os nomes apurados, num total maior, que deixou de fora os seis bancos encerrados entretanto, de ex- governantes que, após cessarem funções governativas , durante o regime democrático, “viraram” banqueiros.
Terão andado nos governos a aprender a ser banqueiros em vez de bem governar o país, como era suposto?
Estou a lembrar-me do caso recente do ex-ministro da Defesa e depois dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, que, terminada a sua missão patriótica no governo logo arranjou emprego no BANIF, como presidente do conselho de administração. É função melhor remunerada do que ministro. É, se se incluir prémios e extras, acima de 100 mil euros por mês. Também recentemente,  em Março deste ano, o seu amigo Jaime Gama arranjou emprego como presidente do CA do… BES Açores.
Mas a maioria de ex-ministros ou secretários de Estado que deram em banqueiros são do PSD, 53 dos 96, mais uns quantos “ independentes” em governos do PSD ou PSD/CDS;  30 são do PS e 5 do CDS. Só os governos de Cavaco Silva deram 30 banqueiros!
“O campeão é Rui Machete, actual ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, que ocupou cargos em seis bancos diferentes ao longo da sua carreira, também muito preenchida politicamente (foi ministro em dois Governos Constitucionais e um Governo Provisório). Depois surgem vários governantes com posições em três bancos diferentes: Alexandre Vaz Pinto, Almerindo Marques, António Nogueira Leite, Carlos Tavares, Luís Alves Monteiro e Luís Mira Amaral."
Também o Expresso, a 17 de Julho, noticiou que 25 ex- governantes, tinham ligações a empresas do GES (Grupo Espírito Santo)
Os bancos, a alta finança, dominam a política, os governos e as nossas vidas sem precisarem de ir a votos.  
Mas não devemos  generalizar. Político não é sinónimo de corrupto, vendido ou agente dos multimilionários donos dos bancos.  Ainda que alguns se esforcem por dar má fama à função. Os políticos são pessoas como nós. Umas são corruptas outras não, umas tem coragem de virar costas aos seus cargos quando percebem que não conseguem alterar os “esquemas” outras resignam-se.  E há muitos políticos que são pessoas íntegras. Estou convencido que constituem a grande maioria. Nem é necessário ser-se um Mugica, presidente do Uruguai ou um Manuel de Arriaga, primeiro presidente da República de Portugal que comprou com o seu dinheiro o carro para as funções de presidente da República e decidiu pagar uma renda quando se mudou para uma parte pequenina das instalações do palácio de Belém.  Eanes, por ex., renunciou a muito dinheiro ao não aceitar os retroativos a que tinha direito na sua carreira militar.  
Não devemos cair na esparrela de considerar que político é sinónimo de corrupto ou pessoa sem princípios porque esse é o caminho que, em geral, nos aponta quem nos desejaria  impingir um ditador disfarçado de “não político”.


 

2014-08-05

 

Serviço público: o artigo de José Victor Malheiro

Victor Malheiros, hoje, no seu artigo de opinião, no Público, denuncia as mentiras e a denegação de informação ao país relativamente ao caso mafioso do BES/GES. Questiona, e bem, Carlos Costa, o governador do Banco de Portugal. Eis o seu artigo:
 
Por José Vítor Malheiros

05/08/2014 - 00:39

Teríamos gostado de ver o Banco de Portugal garantir que nunca mais algo semelhante se voltaria a passar nas suas barbas. Mas não vemos

O governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, lá acabou por admitir que nos tem andado a enganar. Não o disse por estas palavras nem com esta clareza, claro, mas lá o disse, no cuidado fraseado que a banca e as "entidades reguladoras" usam, recheado de jargão técnico e de eufemismos elegantes.

Afinal era mentira que os problemas do Grupo Espírito Santo fossem totalmente independentes do BES, era mentira que tudo estivesse bem no BES, era mentira que o BES tivesse uma almofada financeira suficiente para colmatar os buracos do crédito malparado e das imparidades, era mentira que houvesse algumas coisas que andavam mal no GES mas que não punham em causa a credibilidade da banca portuguesa e do sistema financeiro (vide evolução das taxas de juro), era mentira que o Estado não precisaria de resgatar o BES, era mentira que os testes de stress tivessem provado a solidez do BES, era mentira que não houvesse razão para afastar rapidamente Ricardo Salgado da gestão corrente do banco e mesmo do seu conselho estratégico, etc.

Note-se que não há a mínima razão para pensar que Carlos Costa terá mentido intencionalmente e, se por acaso o fez com intenção, não há a mínima razão para pensar que a sua intenção não fosse boa. Mas aconteceu que as suas declarações descreveram ao longo dos últimos meses (anos?) uma realidade diversa da realidade real, muito mais optimista do que aquilo que nos parece hoje ajustado e onde não havia quaisquer razões para suspeitar de actividades ilícitas. Acontece. Mais: se houve um optimismo exagerado e aqui e ali alguma informação sonegada ao público, é provável que Carlos Costa tenha considerado que fazia o seu dever, já que a confiança é o principal capital do sistema financeiro. Pode pensar-se que Carlos Costa e todos os funcionários do Banco de Portugal que lidaram com a questão BES foram enganados pelo banco e pelos seus dirigentes (o que não diria muito bem das suas capacidades de fiscalização e regulação, já para não falar da sua competência, argúcia ou bom senso) ou que perceberam num ápice o que se passava mas não quiseram tornar pública a verdadeira dimensão do problema para não causar maiores estragos. É possível. O que seria bom que o Banco de Portugal e Carlos Costa percebessem é que esta estratégia possui custos elevados ao nível da credibilidade da instituição e das pessoas que a integram. Ou seja: se tudo tivesse acabado em bem, o Banco de Portugal teria podido manter a sua ficção até ao fim. Mas, como não acabou, a ficção acabou por se revelar uma fraude. Seja porque o Banco de Portugal não percebeu o que se passava no BES, seja porque percebeu e não quis agir de forma determinada para não "alarmar os mercados", esperando que o Espírito Santo (o da Santíssima Trindade) resolvesse as coisas, a credibilidade da instituição, do seu governador e dos seus funcionários, justa ou injustamente, saiu ferida de morte.

O que quer isto dizer? Que não existe nenhuma razão hoje (se é que existiu alguma vez no passado) para acreditar no que diz o Banco de Portugal sobre o BES, o GES, o Novo Banco, o Tóxico Banco, ou Qualquer Outro Banco. A atitude do Banco de Portugal no passado parece ter sido pautada pela defesa da imagem e do poder de Ricardo Salgado — até que essa defesa se tornou impossível. É possível que isso se tenha devido a uma preocupação de defesa do BES, que além de ser o banco do regime possuía uma dimensão que o tornava, aos olhos do BdP, too big to fail e, por consequência, que tornava Ricardo Salgado too big to jail. Mas não há absolutamente nada que nos garanta que o Banco de Portugal, perante um caso em tudo semelhante (ou pior) que venha a suceder, não adopte exactamente as mesmas atitudes e não tome as mesmas medidas, sempre com a preocupação de não alarmar os mercados e de não desestabilizar o sistema financeiro.

Perante um caso como o do BES, teríamos gostado de ver o Banco de Portugal, hoje, reconhecer responsabilidades, fazer uma investigação aprofundada do que correu mal, admitir culpas, corrigir procedimentos, garantir que nunca mais algo semelhante se poderia voltar a passar nas suas barbas. Admitir, em suma, que se vai preocupar mais com a honestidade do que com a amizade dos banqueiros. Mas não vemos nada disso e esse facto é mais preocupante que o caso BES, porque nos diz que, depois deste BES, haverá outro, e outro, e outro. Casos em que os clientes de um banco serão aliciados (ou pressionados) a comprar acções desse banco ou do banco de um primo para depois verem o seu dinheiro ser engolido por um buraco que, no fundo, tem um funil que acaba no bolso de uma das famílias donas de Portugal ou no bolso de um dos caciques do "arco do poder". Casos em que uma parte considerável do dinheiro movimentado escapará a todo o controlo legal e a todos os deveres fiscais graças ao uso de offshores e a um carrossel de transferências. Casos em que um contabilista distraído se vai esquecer de incluir uns milhões de dívidas nas contas e terá como sanção umas férias no Brasil. Casos em que todos os esquecimentos fiscais dos poderosos e as gorgetas de milhões não declaradas continuarão a ser perdoados com bonomia.

Para descansar os contribuintes, o BdP garante que o Velho Banco não vai receber um tostão e que deverão ser os seus accionistas a arcar com o prejuízo e que o Novo Banco não vai recorrer a dinheiro dos contribuintes. Mas o que são os 4400 milhões "da troika" senão dinheiro dos contribuintes, sobre o qual temos andado a pagar juros? Será que o Novo Banco nos vai ressarcir de todos os custos que tivemos com este dinheiro, que pedimos emprestado (especialmente para o BES?), somando-lhe um belo juro? E o que é o buraco nas empresas do GES e do Velho Banco senão dinheiro roubado aos portugueses, que desapareceu das poupanças, do investimento, da economia e da receita fiscal?

Será que o BdP nos garante que nada de semelhante vai voltar a acontecer, como já nos disse quando do caso BPN? Talvez garanta. Mas não há razões para acreditar.


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