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2006-02-09

 

Os bonecos de Maomé

O Sr. Kaare Bluitgen escreveu um livro que apresentava Maomé como um pedófilo e opinava que se devia pichar o Corão com sangue menstrual. Depois um seu admirador, director do jornal Jyllands-Posten e paladino da liberdade de expressão que tinha recusado publicar uns cartoons sobre Cristo, porque justamente poderiam ofender os seus leitores, encomendou, em Setembro passado, uns sobre Maomé e, para que não houvesse dúvidas de que o seu intuito era provocar os muçulmanos escreveu que era para aprenderem que a liberdade de expressão implica "blasfemar e humilhar" (o Islão, é claro).
A “ofensa” foi andando em fogo lento nos meios islâmicos locais. O Tribunal não aceitou a queixa, o director do Jornal achou que não havia lugar para desculpas, o primeiro ministro não quis receber os imãs queixosos. Afinal para depois da borrasca porem o rabo entre as pernas e darem o dito por não dito.
Entretanto a “indignação” encaixava bem na agenda política dos Governos da Síria, do Irão e de outros. Para dar no que deu, em meios onde persistem as sombras da Idade Média e o repúdio do Ocidente que os coloniza desde o século XVIII, os movimentos teocráticos e terroristas não necessitaram de assoprar muito para conseguirem as labaredas a que temos assistido.

O que me agrada menos é que, para provar o apoio ao direito à liberdade de expressão, que tem atrás de si, no Ocidente, uns centos de anos de lutas de uma parte dos europeus (uma parte!) tenha de me juntar àquele Sr. do “sangue menstrual no Corão” e àquele jornal xenófobo. Ou que para provar que condeno o terrorismo dos fundamentalistas islâmicos tenha de andar de braço dado com os cautos defensores do terrorismo do Estado de Israel e dos invasores do Iraque.

E ainda me agrada menos ter de desenhar bonecos de Maomé que nem sei se sairiam fidedignos e pôr-me para aí a dar urros de desafio a Alá só para mostrar que não tenho medo nem cedo a chantagens da Jihad Islâmica, do Hamas, da Al Kaehda, das brigadas dos Mártires de Al-Aqsa ou do Sr Mahmoud Ahmadinejad do Irão .

E depois aborrece-me a coragem de alguns que estão sempre, mesmo sem razão, interesseiramente do lado do mais forte.


Comments:
Excelente post. Muito bem!

Luís Lavoura
 
Concordo, excelente post.

Sofia.
 
O Islão é uma religião muito estranha... Fruto de influência diversas, mas oriundas quase todas do judaísmo e do cristianismo, o Islão pela simplicidade do seu ritual apela a leituras literais e simplistas o que explica a sua populariedade nas camadas menos instruídas do mundo árabe, especialmente nas suas versões mais radicais.

Sendo a "religião dos simples", convoca naturalmente a uma interpretação mais simplista e dualista da Realidade do que qualquer outra religião e daí estas manifestações exageradas a que agora assistimos... E no fundo, existe uma corrente de poderoso nacionalismo árabe, protesto contra a Globalização/Ocidentalização e manobras políticas...

Tudo junto, só pode dar o que deu: Fogo...
 
O melhor post que li sobre a matéria. Concordo em absoluto.
 
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Uma Grande Chapelada para o teu poste. Do melhor. Parabéns!
 
Tenho lido as análises mais desencontradas. Já tenho aderido a algumas delas, até opostas. Mas com esta concordo sem nenhuma dúvida.
F.Justino
 
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