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2007-08-14

 

Força de expressão (15)

[A mulher e as azeitonas]

Sabem o que fazia o agrário com as muitas azeitonas que não vendia, não comia nem mandava para o lagar? Dava-as aos trabalhadores e vizinhos? Não. Despachava-as para as Misericórdias e hospitais? Tampouco. Então, que lhes fazia ele?

Enterrava-as. Ali, mesmo junto ao olival, ordenava que sulcassem o chão, ao de leve, e cobrissem de terra todos aquelas arrobas de boa, apetitosa e desgraçada azeitona.

Bom. Se querem um exemplo acabado de como as coisas não estão bem na agricultura deste país, aí o têm. O agrário marimbava-se olimpicamente nas carências das gentes que trabalhavam para ele ou viviam nas vizinhanças. Enterrava, inutilizando o que não tinha capacidade de consumir ou escoar.

A mulher da história, não resistiu à tentação. Achou que não era justo. Formou um grupo e foi-se a desenterrar as azeitonas, recuperando-as para um fim bem mais útil.

O agrário, ao saber, fez o que os agrários soíam praticamente todos fazer. Chamou a guarda (GNR).Os companheiros e companheiras da mulher deram em fugir. Ela não. Por um lado, porque estava um tanto pesadota, avantajada de carnes, e perdera a agilidade. Por outro lado, porque era necessário fazer tudo o que fosse possível contra aquela injustiça. A guarda ameaçou-a com uma multa. Seria multada por invasão de propriedade alheia e roubo, descaminho ou profanação do cemitério das azeitonas.

Qual quê?!

Nisto, eclode a revolução de Abril.

Nem multa, nem guarda, nem coisa nenhuma!

A guarda deixou de insistir (ou preocupar com assuntos subitamente tornados inexpressivos); o agrário deixou de oficiar a guarda; e a coisa, nos novos moldes ainda por moldar, passou do contencioso para o esquecimento.

A mulher conta a história. Ouvem-na, em silêncio. À força de ouvi-la, nota-se que alguns já não lhe vão achando tanta graça. Mas, pronto. A mulher dizia para consigo própria e para quem queria ouvi-la: "a revolução de Abril veio dar-me razão; pôr justiça onde só havia o poder do agrário e a lei da guarda."

De outro modo, o agrário manteria as azeitonas enterradas, e a mulher pagaria uma multa (se não fosse parar à cadeia) por querer aproveitar o que iria ser destruído.

Para mim, “Torre Bela” é isso mesmo. O tempo em que chegavam as boas notícias que vinham dar razão às vítimas de incontáveis injustiças. Não se percebia com clareza o que trazia de novo. Os tempos eram confusos, hesitantes, incertos.

Mas, bem vistas as coisas, houve uma espécie de poder que já não regressou.

Vamos lá a ver se não fazemos com “Torre Bela” o que o agrário fazia às azeitonas que não queria.






Comments:
Também fui ver. É um documentário obrigatório para quem não teve a oportunidade (só surge 1 ou 2 vezes em cada século)de viver aqueles tempos arrebatadores.
Bom post. E parabéns pela conclusão: "Vamos lá a ver se não fazemos com “Torre Bela” o que o agrário fazia às azeitonas que não queria."
 
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