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2022-04-27

 

Condecorações e medalhas





2022-04-17

 

A GUERRA DA UCRÂNIA E O PERIGO DE 3ª GM e HOLOCAUSTO NUCLEAR

 A guerra, stricto sensu, é entre a Rússia e a Ucrânia, a guerra lato sensu é entre os EUA e a Rússia, por interposta vítima, o povo da Ucrânia, conduzido pelo incompetente Zelensky incentivado por Biden que, apesar de avisado, insistiu em colocar às portas da Rússia bases militares dos EUA, entrando para a NATO. Seria o 81º país com bases militares norte-americanas e um dos últimos países que cercam a Rússia a tê-las, tudo para "defesa da paz" entendendo-se esta por:  - engorda das multinacionais Yankees e domínio universal pela Casa Branca.

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Ucrânia: antigo assessor militar de Ângela Merkel acredita que o fornecimento de armas abre caminho para a III Guerra Mundial

Por Francisco Laranjeira       

As armas pesadas não estão a ajudar a Ucrânia, segundo garantiu o antigo assessor político e militar da ex-chanceler alemã, Angela Merkel, frisando que é preciso pensar no final da guerra na Ucrânia e não desumanizar Putin. O brigadeiro-general Erich Vad frisou que a entrega das armas são potencialmente “um caminho para a III Guerra Mundial”, em declarações aos media germânicos.

Na opinião do conselheiro militar, só é possível usar e operar com sistemas de armas complexos, como tanques de batalha Leopard ou veículos de combate de infantaria Marder após anos de treino, que devem ser inúteis para os ucranianos militarmente no momento e num futuro próximo.

“Estamos a fazer muita retórica de guerra no momento, por uma boa intenção moral”, frisou Vad. “Mas, como se sabe, o caminho para o inferno é sempre pavimentado com boas intenções. Temos de pensar no fim da guerra em curso entre a Rússia e a Ucrânia. Se não queremos uma III Guerra Mundial, mais cedo ou mais tarde teremos de sair dessa lógica de escalada militar e iniciar negociações.”

O brigadeiro-general Erich Vad alertou ainda contra negar a humanidade do presidente Vladimir Putin e classificá-lo como um déspota patológico com quem não se pode conversar. Por mais terrível que a guerra da Ucrânia seja uma violação do direito internacional, ela faz parte de uma cadeia recente de guerras comparáveis. “Iraque, Síria, Líbia, Afeganistão… nada disto é novo”, explicou Vad.

“Na guerra, são mortas pessoas inocentes. Infelizmente é inerente ao sistema”, frisou o brigadeiro-general, que relembrou a guerra no Iraque em 2003, na qual centenas de milhares de civis foram mortos. “Comparado, Putin não é fora do comum. Até agora, os chamados danos colaterais na Ucrânia foram muito menores do que no Iraque e Afeganistão.”

“As negociações de paz não são realmente más. Ambos os lados podem sair a salvar a face. Os ucranianos provaram que defenderam efetivamente a sua capital Kiev e, além disso, estão a travar uma batalha defensiva bem-sucedida contra um oponente superior. Os russos, por sua vez, fizeram alguns ganhos de terra no leste e na costa do Mar Negro. Estas não são as piores condições para o armistício e são melhores para ambos os lados do que ser arrastado ainda mais para o atoleiro de uma longa guerra com um resultado incerto”, finalizou.


2022-03-16

 

John J. Mearsheimer explica as origens da Guerra da UCRÂNIA

John J. Mearsheimer é um professor de ciência política e teórico das relações internacionais norte-americano ligado à Universidade de Chicago



2022-03-15

 

Guerra não evitada, escalada evitável


Artigo de Carlos Branco, Major-general e Investigador do IPRI-NOVA no Diário Económico de 11/03/2022:

Guerra não evitada, escalada evitável

Tudo o que está agora a acontecer lembra as recentes palavras de John Matlock, o último embaixador dos EUA na URSS: estas lideranças parecem não estar à altura daquelas que resolveram a Crise dos Mísseis de Cuba.

A dimensão bélica do conflito russo-ucraniano persiste e a possibilidade de vir a extravasar o quadro regional aumenta cada dia que passa. Nesta marcha para o abismo, dir-se-ia que as lideranças políticas europeias parecem não estar a perceber o que está realmente em causa. Em vez de lançarem água para o incêndio e de investirem no estabelecimento de pontes de diálogo parecem incrementar a confrontação como se fossem atores imunes às consequências daquela guerra (veja-se a iniciativa de enviar MIG-29 para o teatro de operações ucraniano).

A análise tornou-se a segunda vítima da guerra

É necessário analisar os acontecimentos de um modo objetivo. Como ensina a Teoria dos Jogos, e toda a doutrina disponível, existe uma responsabilidade partilhada e uma interdependência estratégica entre os atores envolvidos numa contenda de interesses. A linguagem engajada e desproporcionada que tem prevalecido na comunicação social a nível internacional não ajuda a compreender o que está em causa nem o desenrolar dos acontecimentos.

Nessa deriva, aliás, ela própria torna-se um obstáculo: induz uma atmosfera pública intolerante, cria visão de túnel, inibe o debate genuíno, e incita a um massivo efeito de rebanho que, por sua vez, exerce tóxicas pressões na decisão política. Sabemos onde isso levou da última vez que houve um sobressalto securitário nos países ocidentais após o 11 de Setembro.

Os riscos de escalada estão em crescendo, assim como a retórica das várias lideranças. Em vez de contribuírem para diminuir a tensão, temos testemunhado exatamente o contrário, desatentos à alteração da natureza dos riscos: a guerra na Ucrânia tem sério potencial para provocar uma confrontação generalizada à escala global, ultrapassando o patamar convencional.

Antes de prosseguir convém clarificar que o objetivo declarado da Rússia é obter garantias de que a Ucrânia não fará parte da NATO, nem albergará unidades e equipamento militar de potências estrangeiras no seu território. As preocupações, os alertas e os protestos russos continuam a não ser ouvidos, aumentando simultaneamente o nível de ameaça percebido por este ator.

Alguns aspetos da insensatez que nos levou a esta situação merecem ser salientados. Desde 2014 que a situação se tem vindo a deteriorar. A Ucrânia tornou-se uma ponta de lança das políticas norte-americanas anti Rússia. A intervenção sistemática e continuada dos EUA nos assuntos internos da Ucrânia não passou despercebida à Rússia, em particular o fornecimento massivo, durante estes anos, de armamento a Kiev.

A Ucrânia tornou-se a partir de 2014 no ponto de dor (pain point) securitário para a Rússia. Ainda em 2014, a Rússia invade a Ucrânia e ocupa a Crimeia. E, tal como previsto num diálogo de Boris Ieltsin com Bill Clinton em 1995, a presente liderança russa considerou que tinha chegado a hora de ser ouvida com estrondo.

Putin parece ter considerado que poderia, através de uma manobra em que conjugaria a ação diplomática com uma demonstração de força, resolver o impasse de 20 anos causado pelo alargamento da NATO a Leste, a qual não parou com a sua política de porta aberta, e dos oito anos de ouvidos de mercador relativamente à implementação dos acordos de Minsk.

Durante estes anos, a situação militar agravou-se no Donbass, onde o dispositivo militar ucraniano era cada vez maior, em desrespeito frontal pelos acordos de Minsk, diariamente violados. O número de mortos civis durante os oito anos que nos separam do golpe de estado Euromaidan e as cedências de Zelenski às forças mais extremistas, ilustram a frustração cada vez maior de Moscovo.

Dominó de eventos

O ano de 2021 é crucial para se compreender a situação em que presentemente nos encontramos. Só nesse ano, os EUA forneceram cerca de 1,3 mil milhões de dólares de ajuda militar à Ucrânia. Em março de 2021, a Ucrânia publicou a sua estratégia militar, um documento orientado para a confrontação com a Rússia.
Durante os meses de junho, julho e setembro de 2021 tiveram lugar exercícios da NATO em território ucraniano, que envolveram cerca de 23 mil soldados. O espaço aéreo ucraniano foi aberto aos voos dos aviões de reconhecimento estratégico americano, assim como a drones que permitiam monitorizar o território da Rússia.

Nos últimos meses de 2021, com o pretexto de exercícios, a Rússia estacionou e exibiu um forte dispositivo militar no seu território e na Bielorrússia, nas proximidades da fronteira com a Ucrânia.

Já em plena crise, em novembro de 2021, os EUA e a Ucrânia reafirmaram a importância das suas relações de parceria estratégica e declararam a determinação em aprofundar essa parceria através da cooperação em vários domínios, nomeadamente no da defesa, com o objetivo de contrariar a agressão russa. A ocasião foi aproveitada para os EUA proclamarem o “direito da Ucrânia a decidir sobre o futuro da sua política externa livre de interferências externas, incluindo o respeito pelas aspirações da Ucrânia aderir à NATO.”

Em dezembro de 2021, relembre-se, o ministro russo dos Negócios Estrangeiros tornou público dois projetos de acordos com os EUA e com a NATO, onde pontificavam as garantias de segurança que a Rússia pretendia ver salvaguardas. Entre outras, a não adesão da Ucrânia à NATO. Os pedidos de garantia foram rejeitados, pelos EUA e pela NATO, não havendo lugar a qualquer convergência ou princípio de entendimento.

Com o aumento da tensão, entram na liça diplomática o Presidente Macron e o Chanceler Sholtz na primeira quinzena de fevereiro de 2022. O máximo que se conseguiu obter desta “shuttle diplomacy” entre Moscovo e Kiev foi uma declaração do Presidente Zelenski em que se comprometia a apresentar no parlamento um projeto de decreto-lei sobre o assunto, que não chegou a apresentar e que nunca iria ser aprovado.

Nos oito anos precedentes, a Ucrânia tinha demonstrado uma manifesta falta de interesse em honrar os acordos de Minsk, e em acomodar uma fórmula que respeitasse os interesses da sua minoria russófona, entretanto perseguida e proibida de falar a sua língua.

O rastilho chega ao paiol

Há que reapreciar os catalisadores específicos da crise. No dia 19 de fevereiro de 2022, na Conferência de Segurança de Munique, o Presidente Zelenski manifestou a intenção de renunciar ao protocolo de Budapeste abdicando da sua neutralidade (na verdade já o tinha feito quando inscreveu na sua Constituição a ambição de aderir à NATO), abrindo a possibilidade de a Ucrânia se rearmar nuclearmente. Esta intervenção é aplaudida de pé pela audiência. Moscovo já tinha denunciado por diversas vezes a pretensão da Ucrânia em possuir armamento nuclear. Tem a tecnologia desenvolvida pela URSS e os meios de lançamento. Desconhece-se se terá recebido ajuda externa para tal.

Em represália pelo discurso de Zelenski em Munique, agravado pela ausência de respostas sobre as pretensões ucranianas de aderir à NATO, e aparentemente assumindo um ponto de não retorno, Putin anuncia no dia 21 de fevereiro, que vai reconhecer a independência das repúblicas de Donetsk e Lugansk, argumentando que “tem todo o direito de tomar medidas de retaliação para assegurar a nossa segurança [da Rússia]. É exatamente isso que faremos.”

Ao contrário do que aconteceu após o confronto com a Geórgia, em que Moscovo reconheceu de imediato a independência das repúblicas da Abecásia e da Ossétia do Sul (agosto de 2008), no caso da Ucrânia a opção foi outra. Putin optou por abraçar uma solução autonómica para as repúblicas separatistas no quadro da Ucrânia.

E depois da última gota?

Com a situação ao rubro, a sinalização pública e aclamada do patamar nuclear por Zelenski e o abandono dos protocolos de Budapeste pode ser lida como um evento saliente. O que até aí era visto por alguns especialistas (nos quais me incluo) como estando para além dos limites do provável, isto é, uma invasão generalizada da Ucrânia, tornou-se um facto novo. Após este conspícuo momento (pouco enfatizado nos media “ocidentais”) percebeu-se claramente que a situação se tinha alterado, e que os esforços diplomáticos de última hora tinham falhado.

Se era possível vislumbrar algo na neblina, antes do início do conflito, era a certeza de que o Ocidente ajudaria a Ucrânia, mas que não iria assumir com sangue as ansiedades ucranianas. Os EUA instigaram a confrontação ucraniana com a Rússia, sabendo que não estariam disponíveis para combater a seu lado. O mesmo aconteceu com a UE, que andou estes anos todos a encorajar os ucranianos, sabendo que na hora da decisão não se iria apresentar ao lado de Kiev. Os atos heroicos no campo de batalha seriam deixados para os ucranianos.

Os apelos sistemáticos à intervenção militar do Ocidente na Ucrânia, cada vez mais pungentes, são a prova disso. Zelenski queixa-se diariamente da falta de apoio do Ocidente, da insuficiência do seu compromisso, continuando a insistir numa zona de exclusão aérea, ideia de que apesar de rechaçada pela NATO continua presente na agenda mediática. A Zelenski foi dado o papel de peão num transcendente xadrez geoestratégico de “Great Power Politics”, que lhe escapa, não passando de um mandatário de agendas que ultrapassam largamente os interesses securitários do Estado ucraniano, submetendo a sua população a um risco securitário extremo. Podia ter tomado os acontecimentos ocorridos na Geórgia no ano de 2008 como um dado adquirido e empreendido uma “Estratégia de Nash”, i.e., dada a estratégia dos outros, qual a sua melhor resposta?

O próprio Ocidente, que mostrou não estar disposto para se sacrificar operacionalmente pela Ucrânia por saber os custos que iria acarretar, parece insistir na aposta anterior. Com a tensão existente e os nervos à flor da pele, não se entende, numa lógica de atenuar tensões, a necessidade de se retomar, neste momento, o debate sobre a adesão da Finlândia e da Suécia à NATO. A altura para o fazer não podia ser mais inoportuna. A fórmula adotada pela Finlândia e Suécia (membros da UE mas com neutralidade estratégica), a qual inclui a participação ativa destes dois países na Parceria para a Paz da NATO, tem funcionado ao longo de décadas.

A disponibilização de MIG-29 romenos e polacos anunciada pelo Secretário de Estado norte-americano Antony Blinken, de custo-benefício duvidoso, só serve para aumentar a tensão com Moscovo, que já anunciou considerar isso um ato de guerra. Recentemente um senador norte-americano, o republicano Lindley Graham, que é conhecido pelas suas posições intervencionistas agressivas, veio sugerir o assassínio de Putin. Todos estes desenvolvimentos empurram a Rússia para um jogo de soma negativa. Neste cenário, Moscovo pode até jogar para perder, desde que o oponente do outro lado do tabuleiro perca também.

Kiev não é Kabul


Parece insólito acreditar que a Ucrânia sozinha poderá vencer militarmente a Rússia, independentemente do armamento que lhe for proporcionado. Essa ajuda tornará certamente mais oneroso o esforço de ocupação russa, mas devido à sua massa a Rússia muito provavelmente ganhará militarmente. Por mil e uma razões, a Rússia não se pode dar ao luxo de uma derrota no território da Ucrânia, como aconteceu com os americanos no Afeganistão. Não parece estar em causa a vitória russa sobre os ucranianos, mas o custo que essa vitória poderá comportar (com os concomitantes efeitos destrutivos no terreno).

Não sei o que será preciso mais acontecer para se perceber que a Rússia lutará até à exaustão das suas forças para impedir a entrada da Ucrânia e da Geórgia na NATO. Esse limite poderá não ter limite.

Tudo isto lembra as recentes palavras de John Matlock, o último embaixador dos EUA na URSS: estas lideranças parecem não estar à altura daquelas que resolveram a Crise dos Mísseis de Cuba. Em momentos diferentes George Keenan, Henry Kissinger, William Perry e John Mearsheimer, e no plano nacional, entre outros, Jaime Nogueira Pinto explicaram com um realismo mais eloquente do que o meu o que está verdadeiramente em causa. Mas é ainda tempo de relembrar aos decisores norte-americanos e ucranianos em que consiste o dilema de segurança e os seus efeitos.

Não restam hoje quaisquer dúvidas de que Washington sabia que se não fosse satisfeita a principal reivindicação russa – a não adesão da Ucrânia à NATO e o seu estatuto de neutralidade estratégica – algo de muito definitivo iria ocorrer. Optou por não fazer nada para o evitar.

Infelizmente, e de um modo sonâmbulo, sem se atentar ao risco que estamos a correr, continua a prevalecer a retórica da confrontação. O prolongamento da atual situação será insustentável. Esperamos ansiosamente que se arrepie caminho e prevaleça o desanuviamento da tensão.


 

O HUMANISMO OCIDENTAL É DECENTE?

É um esclarecedor artigo do jornalista PEDRO TADEU, no Diário de Notícias, em 2022/03/09 sobre a desinformação, sobre a campanha de mentiras relativamente à guerra na Ucrânia. Na realidade uma guerra entre as superpotências EUA e Rússia que tem como vítima no imediato a Ucrânia invadida pela Rússia e todos os povos da Europa, no plano económico e social, em seguida, considerando que não se chegue ao apocalipse da guerra nuclear. 
                                                   Eis o texto de Pedro Tadeu:

"Por ser um bom cidadão do mundo ocidental condeno a invasão russa da Ucrânia, participo em manifestações contra Putin, choro os mortos de Kiev, comovo-me com o drama dos refugiados ucranianos, sou solidário com as vítimas da brutalidade russa e recuso comprar produtos russos. E faço-o com convicção.

Mas isto não chega, isto é humanismo genérico, serve para qualquer um em qualquer parte do mundo - o humanismo ocidental é especial, o humanismo ocidental é único, o humanismo ocidental é original, o humanismo ocidental exige mais de mim...


O humanismo ocidental é seletivo: ignorou os 12 mil haitianos enviados pelos Estados Unidos para a prisão de Guantánamo e a invasão do país em 1994; ignorou a instigação e a participação da NATO nas guerras da Jugoslávia e os seus 150 mil mortos; ignorou as duas Guerras do Golfo, a mentira que desculpou uma delas e os 100 mil mortos diretos que os combates provocaram; ignorou mais 100 mil mortos que o Iraque "protegido" pela coligação internacional lá instalada provocou; ignorou a presença norte-americana durante 20 anos no Afeganistão e os 65 mil mortes que ali ocorreram; ignorou os envolvimentos, desde 2001, diretos ou indiretos, de forças ocidentais na Síria (estimam-se 400 mil mortes); ignora o que se passa na Somália e no Iémen; ignora a ocupação da Palestina por Israel e, nos últimos anos, os 21 500 mortos desse conflito.

O humanismo ocidental tem coração mole para um lado e coração de pedra para o outro. As guerras espalhadas pelo mundo com envolvimento do Ocidente somam, em 30 anos, quase um milhão de mortos, a grande maioria civis, mas o bom cidadão ocidental não chora por eles.

O humanismo ocidental é dúbio. Condena vigorosamente a prisão do opositor de Putin, Alexei Navalny, mas deixa apodrecer na cadeia o denunciador das brutalidades das tropas americanas e da NATO, Julian Assange.

O humanismo ocidental é criterioso. Manifesta-se quando críticos de Putin são envenenados no estrangeiro mas arquiva no esquecimento o cientista inglês David Kelly que, misteriosamente, suicidou-se dois dias depois de depor no parlamento sobre a falsificação de provas da existência de armas de destruição maciça no Iraque. E o jornalista que deu essa notícia em primeira mão foi despedido.


O humanismo ocidental é esclarecido. Classifica a imprensa estatal russa de instrumento de propaganda "tóxica" mas glorifica o World Service da BBC, pago pelo Ministério dos Estrangeiros britânico e onde muitos jornalistas portugueses que lá trabalharam foram obrigados, durante décadas, a pedir autorização superior para fazer qualquer tipo de entrevista... e essa autorização só vinha depois de lida a lista de perguntinhas a fazer!


O humanismo ocidental é dinâmico. Indigna-se aos gritos com a censura de Putin ao jornalismo independente, mas refila baixinho quando proíbem a Russia Today de emitir no Ocidente ou quando os potentados das redes sociais, que ninguém controla, filtram o que o povo pode ou não pode dizer.


O humanismo ocidental enerva-se com a brutalidade policial contra manifestações políticas em países longínquos e contra as prisões indiscriminadas de gente comum, mas cala-se, conformado, quando isso é feito nos seus países contra os que recusam vacinar-se, contra os que exigem direitos para os negros, contra os sindicalistas, contra os imigrantes pobres e de pele escura. O humanismo ocidental já nem se lembra de George Floyd.

O humanismo ocidental é espertalhão. Explica todas as intervenções militares do Ocidente no resto do mundo com a necessidade de defender a democracia, o contexto histórico e sociológico das regiões, as tensões estruturais das economias locais, as rivalidades das religiões, as divisões tribais, as fronteiras mal definidas, a selvajaria dos ditadores locais. Mas para comentar a guerra ucraniana só aceita começar a análise por um facto: Putin invadiu no dia 24 de fevereiro o país de Zelensky. Falar do que está para trás, dos 13 mil mortos do Donbass, do crescimento da NATO para leste, por exemplo, é trair a Ucrânia, é trair o Ocidente, é trair a humanidade - e se o fazes, és mesmo má pessoa!


O humanismo ocidental é ingrato. Garante que a Rússia não é do Ocidente, exige que ignoremos 2 mil anos de cristandade partilhada, as leituras de Dostoiévski, Tolstoi, Tchekhov, Gorki; as músicas de Tchaikovsky, Stravinsky, Shostakovich, Prokofiev; os filmes de Eisenstein, Tarkovsky; os pensamentos de Bakunine, Lenine ou Trotsky. O humanismo ocidental acredita que nada deve do que é à Rússia. 

Eu adoro os valores teóricos do humanismo ocidental, são um exemplo para o mundo, a sério, mas não aguento a constante prática violenta do humanismo ocidental, uma vergonha neste mundo, a sério."


2022-02-27

 

A Evitável Guerra na Ucrânia

 
"Essa Rússia é mesmo malvada! Então não é que tem andado a espalhar todo o seu território à volta das bases da NATO!"
Tento perceber as causas da guerra na Ucrânia apesar de quase tudo o que a comunicação social portuguesa, em obediência ao Sr Biden, nos oferece.   
Ao império norte-americano falta só ter a Bielorrússia e  a Ucrânia na NATO para ter a Rússia totalmente cercada a Oeste. 
Em 1991 o presidente dos EUA, W. Bush, acordou com Gorbatchov não     alargar a NATO para o Leste da Europa
mas de 1997 para cá os EUA alargaram a NATO, criada em 1949, a 14 países da Europa em torno da Rússia. 
Bases militares dos EUA  A Ucrânia podia ter evitado a guerra? Sim desde que se mantivesse, como por exemplo a Finlândia ou a Suécia, como país neutral relativamente à NATO e à Rússia. Bastaria que não se tornasse, como sucede desde 2014, em Estado hostil à Rússia. Bastava que tivesse neutralizado os repetidos ataques dos seus grupos armados, autoproclamados nazis, nas zonas russófonas do Leste da Ucrânia, como o batalhão Azov, integrado aliás nas forças armadas ucranianas e aceitado o compromisso de não aderir à NATO.
Mas... a Ucrânia não é um país independente? Não gozava do direito de aderir à NATO? Gozava, mas arriscava-se a uma guerra, como foi avisada, porque a concretização desse direito representava, como bem se percebe, um acréscimo da ameaça potencial à Rússia. A Ucrânia com o apoio do império do "Mundo Livre" - EUA e seus vassalos da União Europeia - escolheu aderir à NATO e enfrentar a Rússia. É uma escolha absolutamente legítima.


Mas recordemos uma situação equivalente muito perigosa mas que foi bem resolvida. Em 1961 os EUA promoveram a invasão de Cuba através do desembarque de força mercenária na Baia dos Porcos que fracassou. Para se defender das ameaças dos EUA, Cuba acordou com a União Soviética em 1962, a instalação em Cuba de um sistema de mísseis com capacidade de  atingir os EUA. 
Kennedy reagiu e Kruschev aceitou a não instalação dessas armas, exigindo no entanto a retirada de armas equivalentes norte-americanas da Turquia apontadas à URSS, evitando uma crise que poderia ter degenerado em guerra nuclear. 

Ora Cuba tinha todo o direito de instalar no seu território as armas que entendesse para se defender mas, se não tem prevalecido o bom senso, poderia ter tido a invasão dos EUA. 

Com a guerra na Ucrânia os EUA estão exultantes. Poderão vir a usufruir de grandes vantagens comerciais e económicas à custa da Rússia e da União Europeia. Conseguiram o que tanto desejavam - com ajuda do pouco avisado ex-comediante, presidente da Ucrânia, o Sr. Volodymyr Zelensky, originário do sudeste do país onde a língua da maioria da população é o Russo e com a ajuda entusiástica dos bem organizados neonazis ucranianos. 

A comunicação social do "mundo livre" completamente dominada por quem desejava esta guerra... na Europa !! tudo fez e tudo faz para nos desinformar e ganhar o "bom povo" para os interesses dos seus Senhores.

A situação é muito perigosa para os ucranianos mas também para todos os europeus. O Tio Sam rejubila.


2022-01-04

 

O Homem é único... a matar o seu semelhante

Já repararam?

Não há animal tão perigoso e inimigo do seu semelhante como o bicho homem.
Os coelhos atacam até à morte outros coelhos? E as galinhas e os milhafres e as águias? E os cães atacam e matam outros cães? E os lobos, os leões, os elefantes, as baleias, os crocodilos, os escorpiões, as abelhas, as formigas, as minhocas?
Só uma ou outra espécie destes viventes ataca e mata o seu semelhante mas muito raramente. E o homem? Só no século XX esse bicharoco arranjou maneira de atacar e matar mais de 200 milhões de seus semelhantes em sofisticadas guerras que são sempre – excluindo as guerras de libertação ou defesa - actos organizados para roubar. Já não contando os ataques e mortes individuais por isto ou por aquilo.
Todos sabemos que não há animal mais sofisticado que o bicho homem, para o Bem mas talvez nem todos tenham presente que também para o Mal.

"3 de Maio", criado em 1814, por Francisco José de Goya y Lucientes (1746 Fuendetodos/Saragoça - 1828 Bordéus) um dos mais importantes pintores espanhóis.

2022-01-03

 

Sócrates denuncia magistratura no DN de 2022 - 01- 03

                                                            

                                                            Link: No Diário de Notícias 

Carta aberta ao Conselho Superior da Magistratura
                                                                                                                            

Começo por assinalar a evolução da vossa posição. Há cinco anos o Conselho defendia que a nova distribuição do processo Marquês não era necessária e que ela "foi manual por não poder ser eletrónica dados os problemas de funcionamento que determinaram o encerramento do Citius em setembro de 2014". Hoje reconhece que nada disto era verdade - a distribuição era necessária e o sistema informático naquele tribunal estava a funcionar regularmente. O relatório admite, finalmente, que no dia 9 de setembro de 2014 a distribuição do processo Marquês foi manipulada e falsificada. Não foi feita por sorteio, não foi feita com a presidência de um juiz, não foi feita de modo a garantir igualdade na distribuição de serviço. Pronto, até aqui estamos de acordo. A partir daqui divergimos.

E a primeira divergência é a inacreditável qualificação jurídica que o Conselho atribui a tal ato - "irregularidade procedimental". Por um lado, não deixa de ser extraordinário que durante cinco anos o Conselho andasse a defender o que agora classifica de irregularidade. Mas o que é importante não é isso. O que é importante é que não foi uma irregularidade procedimental, foi uma falsificação. O que aconteceu naquele dia 9 de setembro foi uma trapaça jurídica com o objetivo de escolher, de forma arbitrária, o juiz do caso. Um juiz conveniente. Um juiz parcial. Um juiz capaz de ordenar a detenção no aeroporto por perigo de fuga quando estava a entrar no país e não a sair; um juiz disponível para colaborar com o festim da violação de segredo de justiça que se seguiria; um juiz sem pudor de fazer indecentes insinuações a propósito do principal visado numa entrevista televisiva. Acontece que o processo envolvia um antigo primeiro-ministro, o que coloca imediatamente em cima da mesa a motivação política. Irregularidade procedimental? Não, senhores conselheiros, o que aconteceu não foi uma irregularidade, mas uma manipulação gravíssima da escolha do juiz por forma a tornar o todo o processo judicial num jogo de cartas marcadas. Os motivos são claros e as vítimas muito concretas. Entre essas vítimas está também a credibilidade do sistema judicial.

Esta manipulação remete direitinha para um dos princípios mais importantes do direito democrático - o princípio do juiz natural, o qual, segundo o Tribunal Constitucional, constitui "uma das garantias constitucionalmente consagradas do arguido". Garantias constitucionais, é disto que estamos a falar, não de irregularidades processuais. E quando se põe em causa as garantias constitucionais dos cidadãos é a legitimidade do poder judiciário que é afetada. Eis o que tenho a dizer sobre as vossas "irregularidades processuais".

O tribunal de exceção

No entanto, o aspeto mais chocante no vosso relatório é a desresponsabilização dos juízes que prestavam serviço naquele tribunal. É facto assente que não houve sorteio eletrónico e é facto assente que nenhum juiz esteve presente nos atos de distribuição de processos. Dos dois imperativos legais da distribuição, nenhum deles foi cumprido. Durante um longo período e tendo perfeita consciência da lei, nenhum dos dois juízes fez nada para corrigir a situação. Sabiam e nada fizeram. E o que é absolutamente escandaloso é que os dois juízes descartem qualquer responsabilidade pelo que se passou - não era com eles, não sabiam, nada viram, não se interessaram. A avaliar pelos seus depoimentos, a questão da distribuição não passava de uma questão de intendência, sem dignidade para ocupar lugar nas preocupações dos senhores magistrados. Não havia escalas de distribuição, diz um deles. Sim, os processos caíam-lhes simplesmente nas mãos e era quanto bastava. E, no entanto, os dois juízes conheciam a lei - sabiam que a lei impõe a presidência de um juiz na distribuição e sabiam que a lei ordena que esta seja "realizada por meios eletrónicos, os quais devem garantir aleatoriedade no resultado". O descarte de responsabilidades é absolutamente revoltante. Mas mais revoltante ainda é que o Conselho Superior da Magistratura normalize essas práticas.

E o encobrimento

O que resulta absolutamente evidente do mapa de distribuições daquele tribunal é que os chamados "processos mediáticos" foram fraudulentamente atribuídos ao juiz Carlos Alexandre. Essas "atribuições manuais" foram feitas pela escrivã Teresa Santos, que foi colocada no tribunal por "sugestão" do senhor juiz Carlos Alexandre. Acontece também que a senhora escrivã começou a prestar serviço naquele tribunal exatamente no dia 1 de setembro, dia em que o tribunal passou a ter dois juízes e dia também em que a distribuição de processos passou a ser necessária. Oito dias depois de entrar ao serviço decidiu começar a longa lista de falsificações entregando ao juiz Alexandre o processo Marquês.

Aqui chegados e guiados pelos factos, devemos colocar seriamente a suspeita de que a fraude tenha tido motivação política e que a dita "atribuição manual" do processo tenha sido feita por forma a agradar ao juiz, beneficiando-o na sua carreira e na sua vaidade. Quando o vosso relatório fala de "critérios que não foi possível apurar", eles estão mesmo à frente dos olhos - a vaidade, a carreira e a motivação política. A motivação política para perseguir o inimigo político; a vaidade de construir a biografia do juiz herói. Os aspetos políticos dessa biografia são hoje absolutamente evidentes - desde as páginas eletrónicas da extrema-direita que aclamam o juiz até ao convite para discursar ao lado do seu antigo colega Sérgio Moro nas conferências do Estoril. Quanto à obtenção de benefícios ilegítimos, julgo que é suficiente. No que toca a prejuízos talvez devam perguntar às dezenas de vítimas que naquele tribunal nunca tiveram direito a juiz natural.

Ao ler este vosso relatório a primeira ideia que me vem ao espírito tem que ver com os primeiros comunicados da Igreja Católica a propósito do abuso de menores. A Igreja demorou a aprender. Espero que o sistema judicial não leve tanto tempo a perceber que o encobrimento só agrava as coisas, não as resolve.

Ericeira, 29 de dezembro de 2021

Antigo primeiro-ministro


2021-12-26

 

O Presidente do CAE da EDP teve em 2020 um salário de cerca de 200 mil euros por mês.

Para onde vai o dinheiro que pagamos pela electricidade? Uma parte vai para os custos materiais de produção e uma outra parte para o Conselho de Administração Executivo (CAE) que é composto por pessoas de muito alimento. Assim, por exemplo, o seu presidente, António Mexia, o ano passado (2020) arrecadou com o seu salário apenas 2 milhões e 370 mil euros o que dá por mês a miséria de um salário de 197.500 euros, cerca de 200 mil euros por mês. 
Alguns escandalizam-se com o salário dos deputados (cerca de 4 mil euros mensais. Veja remuneração dos políticos aqui: https://www.idealista.pt/news/financas/economia/2018/06/06/36442-fica-a-saber-quanto-ganham-os-politicos-portugueses ) pois o presidente da comissão executiva da EDP ganha o equivalente ao ordenado de 50 deputados.
E quanto ganha no ensino público um professor? Varia com o tipo de ensino e a antiguidade/escalão mas podemos dizer que varia entre 1400 euros e 3.400 euros, um bocadinho longe do que pagamos aos rapazes da CAE da EDP.
 A EDP como outras empresas fundamentais à vida e economia do país foram privatizadas pois os multimilionários é que sabem governá-las, governarem-nos, governarem-se! 
É a política de direita em todo o seu esplendor
  
A Comissão Executiva da EDP , com 9 elementos custava-nos por mês 12 milhões e 800 mil euros. Agora reduziram para 5 elementos a comprovar que havia pelo menos 4 importantes senhores dispensáveis.    
 

 Link: Expresso - 12 MARÇO 2021 21:23

Remunerações dos gestores da elétrica revelam que António Mexia auferiu 2,37 milhões de euros brutos no ano passado, entre remuneração fixa, variável e diferida

O encargo da EDP com o seu conselho de administração executivo em 2020 ascendeu a 12,8 milhões de euros em termos brutos, com o gestor mais bem pago a ser, como habitual, o presidente executivo, que no ano passado era ainda António Mexia.

Globalmente o encargo com a administração executiva aumentou 16%, já que em 2019 os gastos da EDP com a remuneração bruta do conselho de administração executivo tinham sido de 11,05 milhões de euros.

António Mexia, que foi suspenso de funções durante o verão por decisão do juiz Carlos Alexandre no âmbito do processo 184/12 do Departamento Central de Investigação e Ação Penal, auferiu em termos brutos, uma soma de 2,37 milhões de euros. Em 2019 Mexia tinha auferido um total de 2,16 milhões de euros.

A remuneração bruta do ex-presidente executivo da EDP incluiu 970 mil euros fixos, 554 mil euros variáveis (relativos ao desempenho da gestão em 2019) e 848 mil euros de remuneração variável plurianual (relativa ao exercício de 2017).

O segundo gestor mais bem pago da EDP foi João Manso Neto (também suspenso de funções pelo juiz Carlos Alexandre), que custou à empresa 1,65 milhões de euros em 2020.

O terceiro mais bem pago foi Miguel Stilwell de Andrade, que até 2020 ocupava o lugar de administrador financeiro, tendo ocupado interinamente o lugar de presidente executivo após a suspensão de Mexia (sendo já em 2020 formalmente nomeado presidente executivo da EDP). Stilwell teve uma remuneração bruta de 1,56 milhões de euros.

Os encargos da EDP com o seu conselho de administração executivo devem baixar de forma significativa em 2021, já que este órgão passou este ano a ter apenas cinco elementos em vez dos nove elementos que tinha até ao final de 2020.
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E quanto ganham os políticos? (um clique mostra tudo)


2021-11-15

 

 



2021-10-10

 

A BATALHA DO SALIENTE DE KURSK - 2ª GM

A BATALHA DO SALIENTE DE KURSK
Foi a batalha, onde se verificou o maior confronte de tanques da história das guerras. Ocorreu durante a 2ª Guerra Mundial, durante 50 dias, de 5de Julho a 23 de Agosto de 1943, na União Soviética invadida por Hitler. 
O relato está publicado aqui no "Esquerda.net"  : 

A batalha de Kursk

A batalha de Kursk (5 de Julho a 23 de Agosto de 1943) foi a batalha que confirmou a viragem estratégica da guerra na Frente Leste entre a Alemanha hitleriana e a União Soviética. Por Raimundo Narciso.
Batalha de Kursk.

Kursk é uma cidade da Rússia a cerca de 450 kms a sudoeste de Moscovo, actualmente com cerca de 500 mil habitantes.

A Batalha de Kursk, também designada batalha do Saliente de Kursk, ocorreu na 2ª Guerra Mundial, durante 50 dias, de 5 de Julho a 23 de Agosto de 1943 em torno desta cidade, entre as forças armadas da Alemanha nazi com o apoio de forças da Itália fascista de Mussolini e de países dominados pela Alemanha como a Roménia, Hungria ou a Croácia e as forças armadas da União Soviética, que tinha sido invadida pela Alemanha em 22 de Junho de 1941.

A batalha de Kursk, uma das maiores batalhas da 2ª Guerra Mundial, ficou célebre a vários títulos, porque foi a batalha que, em 12 Julho de 1943, no confronto de Prokhorovka, envolveu o maior número de carros de combate da história, 600 de cada lado, segundo o relato do marechal Vassilievsky que no relatório de 14 de julho de 1943 para o “Comandante Supremo” (Stalin) diz nomeadamente “… ontem assisti a este combate titânico… após uma hora de confronto o terreno ficou coberto de tanques em fogo”i.

O combate atingiu uma ferocidade inaudita. Para avaliar o desespero, um caso singular mas significativo:

“Um carro de combate T34 do exército soviético fora atingido e incendiado por um carro Tigre, o mais moderno e potente tanque da Whermacht. O condutor do T34 e o comandante, que ficara ferido, saíram do tanque mas o condutor vendo o Tigre vir na sua direcção voltou ao T34 em chamas e conduziu-o a toda a velocidade contra o carro alemão, provocando uma explosão que fez a terra tremer”ii.

Nesse combate de Prokhorovka foram destruídos 300 tanques alemães, incluindo 70 “Tigres”, e um número ainda maior de tanques do Exército Vermelho.

A Batalha de Kursk ficou célebre também porque foi a batalha que confirmou a viragem estratégica da guerra na Frente Leste entre a Alemanha hitleriana e a União Soviética, viragem que se tinha iniciado pouco antes com a maior e mais decisiva batalha da 2ª Guerra Mundial, a batalha de Stalinegrado (actual Volgogrado).

Quer Hitler quer Stalin tinham a consciência de que aquela batalha era decisiva para o futuro da guerra.

Após a derrota da Wermarcht em Stalinegrado, que se estendeu de 17 de julho de 1942 a 2 de fevereiro de 1943, as forças armadas soviéticas empurraram as forças invasoras para ocidente fazendo um saliente de cerca de 400 kms de largura em torno da cidade de Kursk, numa linha de frente geral de perto de 2.000 kms, desde Leninegrado (hoje S. Petersburgo) ao Norte, na margem do mar Báltico, até ao Mar Negro, no Sul da Rússia.

A Alemanha reuniu 900.000 combatentes, o maior número de forças terrestres e aéreas de que podia dispor, na expectativa de cercar e dizimar o conjunto de exércitos soviéticos concentrados no saliente de Kursk, cujos efectivos ascendiam a 1.000.337 combatentes, para retomar a iniciativa estratégica e inverter o rumo da guerra alterado em Stalinegrado.

Ao longo da batalha, um e outro lado juntaram reforços ao ponto de nela terem participado no total, do lado nazi 1.514.000 militares e do lado soviético 2.640.000. As forças envolvidas, de um e outro lado, ao longo desta batalha histórica atingiu assim uns inimagináveis 4.154.000 combatentes.

Esta decisiva batalha foi preparada e conduzida sob a supervisão directa quer de Hitler quer de Stalin. Do lado soviético, a coordenação geral das frentes no terreno era feita pelo Marechal Jukov, adjunto de Staline e pelo marechal Vassilievski, Chefe do Estado Maior General do Exército Vermelho.

Vassilievski considerou que esta batalha se desdobrava em três grandes operações estratégicas: - a operação defensiva perante o ataque alemão e, como resposta, a operação ofensiva do Exército Vermelho na direcção da cidade de Orel, a norte de Kursk e a operação ofensiva que tem como primeiro alvo as cidades de Bielgorod e Carcóvia, a sul do Saliente.

O ataque alemão, a “Operação Cidadela”, foi concebido como um ataque em tenaz, para cercar e aniquilar a concentração de forças soviéticas no interior do Saliente:

- a partir do norte pelo Grupo de Exércitos Centro, numa frente de 50 kms, comandados pelo marechal de campo Kluge, em 5 de Julho, a que se opôs a Frente Central dos exércitos soviéticos comandada pelo general Rokossovski, vitorioso a 10 de Julho;

- e a partir do Sul, em simultâneo, numa frente de 80 kms, pelo grupo de Exércitos Sul comandados pelo marechal alemão Manstein a que se opôs vitoriosamente o marechal Vatutin ao comando da Frente de Voronez.

Os exércitos nazis apenas conseguiram avançar 12 kms ao Norte e 35 kms ao Sul.

Um factor importante na vitória soviética no Saliente de Kursk foi ter o Exército Vermelho obtido informação com bastante antecedência dos planos de ataque nazis, o que lhe permitiu reunir suficientes forças prontas para o combate, como importantes reservas na proximidade, além da preparação do terreno com minas e obstáculos, para dificultar o avanço das forças inimigas.

Na batalha do Saliente de Kursk a luta ganha uma rara ferocidade e o máximo desespero tanto por terra como pelo ar, por quanto se sabia, de um e outro lado, se tratar de um choque estratégico e provavelmente decisivo – como aliás se veio a provar - para o futuro da guerra na frente Leste, que o mesmo é dizer para o futuro da Alemanha nazi.

Com a vitória nesta batalha, o Exército Vermelho ganha, sem mais a perder, a iniciativa estratégica, que confirma os resultados da vitória de Stalinegrado, ao fim de dois anos de recuo, iniciados com a invasão alemã, em 22 de Junho de 1941.

A batalha de Kursk compara os seus decisivos 50 dias de luta com os cerca de sete meses das batalhas de Stalinegrado e de Moscovo ou os dois anos do cerco e batalha de Leninegrado que continuaria até 1944.

Na URSS, de Junho de 1941 a Junho de 1943, a Alemanha perdeu 4.130.000 homens entre mortos, feridos, doentes e desaparecidos. Foram mortos mais de 1.000.000 de alemães, romenos e italianos.

No verão de 1943, a totalidade das FA da Alemanha atingem os 10.300.000 combatentes, dos quais 6.682.000 em campanha e, destes, 4.800.000 (72%) na frente germano-soviética. A estes somam-se 525.000 romenos, italianos e de outros países subjugados pela Alemanha nazi num total de 5.325.000 no território da União Soviética. Já as forças armadas da URSS que aumentaram muitíssimo desde a invasão, em número de combatentes, meios bélicos e experiência de guerra, têm em operação, em 1943, 6.442.000 de combatentesiii.

Para atingir aquele número impressionante de combatentes, Hitler mobilizou em 21 de Janeiro de 1943 todos os alemães dos 16 aos 65 anos de idadeiv e para manter a economia de guerra levou para trabalho forçado na Alemanha 6.300.000 operários estrangeiros e prisioneiros de guerra.

Na informação geral disponível no Ocidente e na obra de alguns dos seus historiadores, a Batalha de Kursk e outras muito relevantes ocorridas na “Frente Leste” da Europa são subestimadas ou até mesmo ignoradas. A projecção comunicacional e a relevância atribuída a batalhas como por exemplo a de El Alamein, no Egipto, sem dúvida importante, onde se confrontaram forças da Alemanha nazi com as da Inglaterra e das suas colónias, é muito maior do que a atribuída à batalha de Kursk. Mas as forças em luta de um e outro lado em Kursk somam 4.000.000 de homens e as da segunda batalha de El Alamein, a maior, de 23 de Outubro a 2 de Novembro de 1942, somam 310.000 homens.


Obras consultadas:

Histoire da la Seconde Guerre Mondiale do historiador militar inglês Liddel Hart – Éditions Marabout 1985

Segunda Guerra Mundial de G Deborin – edição Fulgor, Brasil.

Notas de final:

i La Bataille de Kursk - Editions du Progrès – Moscovo, 1975 que reúne os testemunhos dos principais comandantes de Frentes e de Exércitos soviéticos que combateram na batalha de Kursk, pág 57.

ii A 2ª Guerra Mundial de Martin Gilbert, historiador inglês, Publicações D. Quixote 1989, 2º Vol pág 84.

iii História da 2ª Guerra Mundial na Frente Leste vol II Editorial Estampa, Instituto do M-L, CC PCUS págs 45, 46.

iv Grande Crónica da Segunda Guerra Mundial- Selecções do Reader’s Digest - 1º volume pág 474).


2021-07-11

 

Shahd Wadi, palestiniana. Estudou em Coimbra. Foi despedida.

Recebi esta mensagem do Comité Palestina. Que me dizem? 

" Shahd Wadi, militante contra a ocupação israelita, membro do Comité de Solidariedade com a Palestina, foi despedida do seu posto de assessora na representação diplomática da Palestina em Lisboa. A carta que aqui divulgamos testemunha a repressão usada pela Autoridade Palestiniana contra os que levantam a voz contra a sua política de opressão e violação dos direitos humanos.

"No dia 5 de julho último, a Missão Diplomática da Palestina informou-me verbalmente de que o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Palestina exigiu a minha demissão imediata e sem aviso prévio do cargo de Assessora dos Assuntos Culturais e Imprensa, por ter condenado nas redes sociais, o hediondo assassinato do activista político e candidato ao Conselho Legislativo da Palestina, Nizar Banat, morto pelas mãos das Forças de Segurança da Autoridade Palestiniana após a sua detenção.

"Banat, era um activista que acusou em várias ocasiões Autoridade Palestiniana de corrupção e que revelou 

ultimamente o escândalo do acordo entre as autoridades palestinianas e Israel sobre vacinas contra a COVID-19 perto de fim da validade. Nizar Banat, foi detido de madrugada do dia 24 de Junho e espancado até a morte.

Até àquele momento, a expressão do meu repúdio por aquele acto consubstanciou-sena partilha nas redes sociais de artigos que o meu pai, o escritor Farouq Wadi, escreveu sobre o assunto, na assinatura de uma carta aberta conjunta de um grupo de jovens palestinianas e palestinianos residentes em Portugal (em anexo), a qual foi entregue na Missão Diplomática da Palestina, no dia 30 de Junho último. A Missão Diplomática da Palestina entregou-me uma carta de cessação de contrato, prometendo pagar uma indeminização em breve e agradecendo o trabalho desempenhado no exercício das minhas funções desde 2010.

O meu despedimento não foi o primeiro. Ihab Bseiso, Director da Biblioteca Nacional da Palestina  ex-ministro da cultura, foi demitido por ter criticado nas redes sociais este assassinato extrajudicial. As manifestações pacíficas que foram organizadas em protesto contra esta morte, foram reprimidas violentamente, usando métodos utilizados normalmente pelas forças da ocupação israelita, como o gás lacrimogêneo, manifestações estas onde muitas pessoas foram feridas e detidas. As manifestantes mulheres jovens sofreram particularmente represálias, tendo os seus telemóveis sido confiscados com a ameaça de divulgar as suas fotografias íntimas.

Especialmente hoje, num momento em que se intensificam os ataques contra Gaza e as tentativas da limpeza étnica e colonização da Palestina seja em Sheikh Jarrah, Silwan, Beita e outras localidades palestinianas, é urgente fortalecer a unidade e resistência do povo palestiniano contra a ocupação israelita. Saliento que as minhas críticas neste momento sobre os vários episódios de violência e de represálias da parte da Autoridade Palestiniana partem da minha crença da importância de reunir e juntar o povo palestiniano e não criar mais divisões.

Apesar de meu despedimento ter sido amplamente divulgado pelos meios de comunicação na Palestina e até fora, não pretendo de maneira nenhuma torná-lo num caso específico ou pessoal, mas demonstrar, através do mesmo, o ponto a que chegou a repressão do exercício de liberdade, designadamente da liberdade de expressão na Palestina.

Também não pretendo desviar a atenção da nossa luta principal contra a ocupação israelita, mas não podemos esquecer que quando lutamos pela liberdade da Palestina, lutamos por toda a liberdade contra qualquer opressão, venha ela de onde vier.

Neste momento, é importante juntar a voz das pessoas solidárias com a causa palestiniana à voz do povo palestiniano, o qual, enquanto resiste a perseguição dos seus jornalistas pela ocupação israelita, não esquece as tentativas de asfixia da liberdade de expressão exercida pela Autoridade Palestiniana. As mesmas pessoas que estão à porta das prisões israelitas para saber de membros da sua família, estão à porta das prisões da Autoridade Palestiniana para saber dos seus entes queridos. As pessoas que saem à rua contra a ocupação israelita são também as mesmas que se manifestam contra a opressão da Autoridade Palestiniana.  O luto que se faz pelos resistentes mortos pela ocupação tem a mesma cor do que se faz por Nizar Banat.  

Qualquer pessoa que se junte ao seu povo na defesa dos seus direitos, onde eu me incluo, é perseguida ou despedida injustamente.  Apelo-vos juntar a vossa voz à do povo palestiniano para pôr fim a qualquer tipo de injustiça, sejam elas as perpetuadas pela ocupação israelita sejam as praticadas pela autoridade palestiniana. 

Continuarei, como sempre, a minha luta pela defesa dos direitos do povo palestiniano, contra a opressão e pela liberdade, toda a liberdade. 

Shahd Wadi

9 de Julho 2021"
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Acarta acima referida:
Liberdade para a Palestina, contra a opressão! Nós, abaixo-assinados, filhas e filhos do povo palestiniano, residentes em Portugal, condenamos o hediondo assassinato do activista político e candidato ao Conselho Legislativo da Palestina, Nizar Banat, morto após a sua detenção pelas Forças de Segurança da Autoridade Palestiniana. Salientamos que a liberdade de expressão é garantida pela Lei Básica Palestiniana. 

Denunciamos e condenamos os ataques bárbaros e as detenções perpetrados pelas Forças de Segurança da Autoridade Palestiniana contra os manifestantes pacíficos que protestaram contra o assassinato do activista Nizar Banat. 

 Sob o princípio da liberdade total que acreditamos não pode ser posto em causa, apelamos ao direito de reunião e manifestação, à necessidade de preservar as liberdades políticas e à proteção dos manifestantes. Rejeitamos as acusações de traição e o desvio da essência de nossa causa: a libertação da Palestina. 

Condenamos veementemente as intimidações, as detenções e os ataques contra activistas políticos e manifestantes pelas mãos das Forças de Segurança da Autoridade Palestiniana. Acções como estas constituem uma grave violação dos direitos e liberdades garantidos pela Lei Básica Palestiniana. Esses ataques contra o nosso povo acontecem num momento em que temos uma necessidade extrema de fortalecer a nossa unidade e resistência contra a brutalidade da ocupação sionista. Seja em Sheikh Jarrah, Silwan, bairro de Al-Bustan, Beita e outras localidades palestinianas ameaçadas de despejos, seja na Faixa da Gaza, onde nosso povo inabalável ainda está a curar as suas feridas, perante o silêncio da liderança palestiniana, a indiferença árabe e da comunidade internacional. 


              Nós, abaixo-assinados, filhas e filhos do povo palestiniano, residentes em Portugal: 

● Enviamos as nossas mais profundas condolências à família de Nizar Banat, o mártir da palavra, que morreu num assassinato hediondo. 

● Juntamos a nossa voz a quem apela à formação de um comité de investigação independente fora do quadro da Autoridade Palestiniana, constituída por personalidades reconhecidas pela sua independência e integridade, para conduzir uma investigação abrangente sobre o assassinato de Nizar Banat, garantindo que os responsáveis serão exemplarmente punidos. Para conduzir também uma investigação sobre as agressões contra os manifestantes pacíficos, tenham essas agressões sido levadas a cabo por civis ou militares. 

● Afirmamos a importância do trabalho jornalístico e da proteção de todos os profissionais da comunicação social que continuam a trabalhar ininterruptamente para transmitir a verdade e expor os crimes da ocupação e suas políticas racistas. Da mesma forma, condenamos veementemente a repressão por parte das Forças da Segurança da Autoridade Palestiniana. Exigimos que estes profissionais não sejam atacados de qualquer forma ou sob qualquer pretexto. 

● Rejeitamos a política de traição, infidelidade e a anulação do outro. Afirmamos a importância e a necessidade da existência da oposição nacional sob o teto de uma Palestina unida. 

● Afirmamos a ilegalidade de qualquer detenção por causa de uma opinião ou filiação política. Afirmamos a necessidade de proteger o direito da liberdade de expressão e exigimos a libertação de todos os presos políticos. 

Finalmente afirmamos que a unidade nacional é a válvula de segurança e da vitória do nosso povo palestiniano na Cisjordânia, Gaza, Jerusalém, nos territórios de 1948 e na diáspora. Recusamos os confrontos internos, que nos distraem do nosso objectivo principal: resistir e derrotar a ocupação.Força para o nosso povo até a liberdade e o regresso à nossa terra. Paz para os mártires, cura para os feridos e liberdade para todos os prisioneiros. Liberdade para a Palestina. 

Abdel Jawad Rabie 

Dima Mohammad 

Hindi Mesleh 

Obai Radwan 

Rasha Salah 

Serena Sabat 

Serene Issa 

 Shahd Wadi 

Thuraya Alayan 

 Younes Khamash



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