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2005-01-29

 

Quando a direita vota na esquerda (cont.)



O nosso vizinho João Tunes premiou-me com a sua atenção crítica e vá de me interpelar no Água Lisa, - SINDROMA “SEITAS DO MAL” - acerca do meu post de ontem «Quando a direita vota na esquerda». Apesar de a minha perspectiva de abordagem ser ligeiramente diferente da dele - «declaração de voto» e «coerência» não entraram nem voltam a entrar no rol dos meus argumentos - é com prazer que lhe respondo, não sem antes aqui deixar, a título de «chamada de blogue» um entrecho da sua crítica:

«Caro Manuel Correia, em que é que é menos “honroso”, menos “dignificante” e menos “estimulante” a trajectória de Freitas do Amaral relativamente à de Vital Moreira ou de outros que, por exemplo, andaram pelo maoísmo, para chegarem ao voto no PS e apelarem a ele? (Lembro que Zita Seabra também se encontrou, no PSD, com antigos adversários) E não é naturalíssimo que qualquer partido se entusiasme por verificar que tem poder de atracção abrangente com poder de captação de vária gente que caminha desde a outra esquerda mais uns tantos que vêm da direita? Se um estalinista aprende o suficiente para sacudir a sarna (por “coerência”, nunca a deveria sacudir?), ou um direitista se desilude com a prática da direita no poder (devia morrer “facho?), por caminhos distintos de coerência, eles não se podem encontrar num ponto de encontro, sem a aversão recíproca ao pecado original do outro?»

Meu caro João Tunes,

Não foi meu propósito, nem creio que possa deduzir-se das minhas palavras, um julgamento negativo de Freitas do Amaral, cujo percurso político tenho seguido com interesse nestes últimos trinta anos. Por isso, estou de acordo com muitas das considerações que teces acerca da «coerência», do direito de mudar (de atitude, de orientação política, de perspectiva filosófica, de partido e de clube desportivo). Para mim o PS é o partido melhor colocado para ganhar as próximas eleições de dia 20. Sinto-me feliz por não ser, outra vez, o PSD. Freitas do Amaral, que apoiou Durão Barroso nas últimas eleições para a AR, apoia agora José Sócrates. Acho bem.

Porém não me limito a acompanhar as mudanças pelo que elas aparentam à superfície e no imediato. Freitas do Amaral (FA), no plano simbólico, é como o «homem do leme» no «Mostrengo» do Pessoa, quando solta a voz ao vento: «Aqui ao leme, sou mais do que eu!». FA é o passo reflectido que um sector importante da direita dá para forçar o PS, se necessário, a uma razoabilidade nivelada pelos seus valores; a uma governabilidade enquadrada nos seus critérios; a uma estabilidade cuja regra é, no mínimo, a paralisia das relações sociais assimétricas. O seu investimento amplamente publicitado no PS implica contrapartidas, ponderações e repercussões que não devem ser simplificadamente reduzidas ao plano pessoal, individual ou de quaisquer direitos de mudar, votar ou aderir a um qualquer partido político. FA é um homem de direita que personifica um sector (é isso e não outra coisa que enerva supinamente Santana, Portas e Félix) que recusa o populismo trauliteiro, a incompetência e alguns arcaísmos que, provavelmente, até o envergonham. Este sector da direita, para pôr cobro à zizânia que a desacredita e desprestigia, tem de agir depressa. É compreensível. É uma boa jogada. Será um bom investimento?

Por outro lado, José Sócrates exulta. Porquê? Não compreenderá ele o alcance da decisão de FA? Com certeza que sim. É um político experiente, arguto, com uma acutilante capacidade de análise. Daí, eu perguntar no fecho do meu post anterior: «Mau augúrio»? A questão de grau, para mim, quanto à escolha dos adjectivos «honroso, dignificante e estimulante» não é de «menos». É de «mais». Quando ouvir uma litania equivalente para uma grande figura de esquerda, mudarei a minha apreciação.

Que traz de novo agora, a três semanas das eleições, o apoio de FA à imagem do PS? Aquilo que anima os indecisos que se revêem no exemplo do Professor? O quantum satis para obter a Maioria Absoluta? A inibição dos que não quererão apanhar a mesma carreira? Como não ouvi nenhuma declaração tão entusiástica com as adesões de grandes figuras de esquerda, sou levado a supor que esta coloração democrata-cristã que FA traz ao PS, levará a um separar de águas favorável à polarização identitária do voto ideológico nos extremos do espectro partidário. As últimas sondagens parecem apontar nesse sentido. Com as próximas perceber-se-á melhor.

Almeida Santos dizia há dias, entrevistado na SIC-Notícias, que os entendimentos à esquerda seriam sempre muito difíceis para o PS. Segundo ele, é de prever que o PS queira fazer passar medidas legislativas que agradam à esquerda, podendo aí contar, provavelmente, com votos comunistas e bloquistas mas, também algumas medidas «mais conservadoras» que não merecerão, por certo, o voto favorável das mesmas bancadas. Quer isto dizer que, pelo menos na mente de alguns dirigentes do PS, com Limiano ou com Maioria Absoluta, os próximos episódios vão trazer-nos mais do mesmo... Nesse quadro de possibilidades, o penhor do apoio de Grandes Figuras como FA faz-nos voltar à primeira forma de todas as conversas. Podem os grandes homens da direita apoiar a esquerda sem consequências? A minha resposta é não.

Cada um votará de acordo com a sua consciência. Espero que o PS ganhe as eleições. Não deixo porém de reparar que com tanto peso bem-vindo e distinto a estibordo, a embarcação se arrisca a levar metade do casco no ar... E esse vai ser também um problema nosso. Não podemos deixar de nos precaver relativamente aos lances seguintes.

Um abraço


Comments:
Caro Manuel Correia, parafraseando o saudoso camarada Pavlov, um bom estímulo faz salivar a vontade de continuar a conversa. Dito e feito. Um abraço. João Tunes
 
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