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2005-07-25

 

Os erros das vítimas




Jean Charles de Menezes, chamava-se ele. Tinha 26 anos e estava a viver e a trabalhar em Londres.

O João Tunes escreveu há pouco (ver aqui) no seu blogue Água Lisa 3, um poste intitulado «Há lágrimas que...». Acha ele «lamentável» e «condenável» o sucedido, acreditando que o jovem brasileiro fugiu «às autoridades [tendo assim] acentuado suspeitas de que se tratava de um bombista suicida.»


Ao ler o poste fiquei surpreendido.


Como a Comissão de Averiguações, à hora em que escrevo, ainda não apresentou as conclusões a que chegou tendo já deixado escapar, sugestivamente, que foram 8 e não 5, como «erradamente» tinha sido noticiado, o número de projécteis que atingiram o jovem electricista, fiquei de pé atrás. Pensei: então não está aqui uma das provas de que este não é (não pode ser!) o caminho?


Esta «resposta» que consiste em atirar a matar quando não se percebe o que os outros estão a fazer é a execração das civilizações, a irracionalização da (in)segurança, e a destruição de quaisquer planos de recuo para a hipótese tão plausível de nos enganarmos como tantas vezes nos enganámos entre «terrorismos», «terroristas» e «reacções em força».


João Tunes acha uma «choradeira despropositada» as manifestações de preocupação e pesar cuja carga de indignação por certo ainda nem sequer se fez sentir. Discordo e, pelo contrário, sugiro que ponhamos os olhos no que sucedeu e nos interroguemos sobre o que distingue esta vítima da «resposta» securitária, das vítimas dos outros atentados terroristas. Menos inocente? Por certo, não!


Então é o quê?


É a primeira demonstração de que a «resposta totalizante» tomará incessantemente os «inocentes» como justificação para uma abordagem sem esperança nem retorno.


Não se compreende bem que, para efeitos de (auto)justificação ideológica, alguém se ponha a minimizar as vítimas que erraram...

Como sabemos, por experiência própria, as vítimas costumam errar postumamente pelas vozes desconsiderantes dos que lhes vão sobrevivendo.

Comments:
Caro Manuel Correia (finalmente é possível comentar...),

Está demonstrado que se tratou de um erro policial (e serem 5 ou 8 tiros, nada acrescenta nem diminui) mas sabe-se que o comportamento do infeliz não ajudou. Pelo contrário. A quem passava pela cabeça circular em Londres após os atentados terroristas e, perante a ordem de parar dada pela polícia, desatar a correr e a saltar barreiras?

Pela minha parte, mantenho que a situação verificada, apesar da revolta emocional para com o efeito do erro, é muito menos grave que, se se tratasse efectivamente de um bombista, a polícia não atirasse ou, atirando, errasse o alvo. E, na altura, com competência ou incompetência, os polícias londrinos pensaram estar perante um bombista em acção pelo comportamento do jovem brasileiro em escusar-se à intervenção da autoridade.

O fenómeno do terrorismo de massas implica mudanças profundas nos nossos comportamentos. Pela forma como o terrorismo se espalha e se executa, temos de ser mais selectivos como recebemos imigrantes, mais vigilantes para com os fanatismos que se propagam, exigindo-se uma ponte de confiança colaborante com as forças de segurança, aceitando que actuem e colaborar com elas nos métodos que forem razoáveis. Com o terrorismo à perna, os cidadãos das nossas cidades, para se defenderem, terão de ser mais prevenidos e vigilantes. É uma perda de expontaneidade que, como preço de defesa contra o terrorismo, considero plenamente justificada. Bem sei que esta mudança implica um preço a pagar em perda de expontaneidade na cidadania e na respiração da liberdade de movimentos e de comportamentos. Desejo que essa seja a única vitória de Bin Laden e que gozará até que o(s) liquidemos. E é preciso liquidá-lo(s) para que ele(s) não nos liquidem.

Eu disse “Lamentável e condenável a choradeira desproporcionada sobre este erro policial (somado a um erro da vítima)”, tu substituíste o que eu disse por outra coisa. Compuseste a frase ao teu jeito. Qual a necessidade?

Disseste tu “Não se compreende bem que, para efeitos de (auto)justificação ideológica, alguém se ponha a minimizar as vítimas que erraram...”. E eu que faço, assim incompreendido? Não sei, mas prometo pensar nisso.
Quanto ao resto dos teus argumentos, as águas de separação de pontos de vista ficaram mais que separadas. Nesse aspecto, considero o teu post de grande utilidade. Sobretudo quanto à manifestação de hierarquias sobre os medos e as formas de os querer esconjurar. Mas descansa que não sou polícia nem pretendo ser.

Um abraço.


João Tunes
 
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João Tunes,

Vou parágrafo por parágrafo.

1º) O número de tiros (primeiro 5 e, depois, 8) ilustra apenas a inconsistência das sucessivas versões. Podemos fiar-nos nelas? Não creio. Quanto ao resto, 1 tiro poderia ter sido demais. Chegava para ceifar uma vida... inocente.

2º) Discordo da tua relativização ao manteres que « (...) é muito menos grave que, se se tratasse efectivamente de um bombista, a polícia não atirasse ou, atirando, errasse o alvo.»
Segundo li na imprensa londrina, o jovem electricista vinha a ser seguido desde o local onde residia. A decisão de abatê-lo, tantos quilómetros depois, não está ainda esclarecida.
É um crime e, como tal, deve ser investigado, instruído e julgados os responsáveis. De outro modo, a alternativa que nos estão a oferecer é a de uma morte compreendida e desculpada às mãos das «forças da ordem».

3º) Estes métodos não são «razoáveis»; muitos dos bombistas-suicidas são nacionais, de segunda geração; não há selecção possível para a reserva mental; é tarde para resolver o problema através do controlo de fronteiras. O Terceiro Mundo deita-se com o Segundo e trabalha nas empresas do Primeiro. É por isso que é mais difícil. As soluções convencionais falharam todas. Os que morrem no acto de terror que originam não podem ser ameaçados com a lei, com a privação de liberdade ou com a morte.

4º) Supus que, remetendo automaticamente para a leitura do teu poste, não correria o risco de pôr-te a dizer coisas que não disseste. Se distorci algo do que escreveste, penitencio-me e, humildemente, peço desculpa. Os meus objectivos são claros: - Compreender melhor a tua posição e expor a minha. Não tenho nada a perder se mudar de opinião. Posso até ficar a ganhar, perdendo.

5º) Tenho acompanhado o que escreves sobre muita coisa. Sobre as receitas anti-terroristas não seguimos juntos. Chamei auto-justificação ideológica ao facto de fazeres coincidir os parâmetros das tuas convicções acerca do terrorismo com os da análise daquilo a que chamas «um erro policial (somado ao erro da vítima)». Se fui injusto, fazendo simetricamente aquilo de que te acuso, diz-me. Sozinho não chego lá.

Faço votos para que a gravidade do assunto e a diferença dos modos de encarar o terrorismo não inibam a polémica.

Fico a reflectir no que dissemos.

Um abraço
 
Manuel Correia,

Era o que faltava que “a gravidade do assunto e a diferença dos modos de encarar o terrorismo” inibisse a polémica. Acho exactamente o contrário.

Já que falas em “auto-justificação ideológica” (tenho dúvidas que esta seja a melhor via para reflectir acompanhado mas concedo, sem problemas, perante a tua escolha das “armas para o duelo”) e como fizeste um TAC à que consideraste como sendo a minha, sempre falarei da (“auto-justificação ideológica”) que me parece ser a tua.

O empolamento do

“caso do jovem electricista brasileiro, emigrante pobre, um oprimido a tentar fugir da miséria, assassinado barbaramente com oito tiros (sete deles na cabeça!) pela polícia do imperialismo britânico, sob o falso pretexto do combate ao terrorismo, mostrou a incapacidade de Blair em derrotar o terrorismo que ele próprio ajudou, com Bush, Aznar, Berlusconni e Barroso, a criar e incentivar ao agredirem, invadirem e bombardearem países islâmicos e assim se tendo transformado em “terrorista nº 1” pois os chamados terroristas, aqueles que se imolam e nos imolam com base em convicções de outra civilização e outra religião, por muito que façam, nunca serão tão culpados como ele – Blair - e Bush e Aznar e Berlusconni e Barroso ”

era demasiado previsível e politicamente expectável num “olhar ideológico” que, pelo pretexto mais expedito, bastando a paciência de o esperar, apareceria mais cedo ou mais tarde para demonstrar que “o mal está entre nós” (nas democracias que não resolveram o problema do capitalismo e do imperialismo). E um “erro policial” deu todo o jeito para relativizar os crimes do terrorismo e desviar as culpas para os “nossos maus”.

É um arquétipo visto e respeitável. Infelizmente, grande senão, o principal objectivo da patologia terrorista – matar-nos e fazer-nos virar contra “nós” e não aceitando, que mais não seja pela probabilidade de se cometerem erros e abusos, que nos defendamos policialmente dos homens que defendem crenças com bombas em que todos somos alvos. E a "superioridade moral" desta ideologia prefere que, como se tem de morrer, morra-se de uma bomba no metro mas que ninguém morra de um erro policial nem seja devassado nos seus direitos. Bin Laden sabe-o porque conhece os nossos mecanismos de conceitos e preconceitos democráticos. Como sabe que a “esquerda anti-imperialista” nunca deixará, nos seus comunicados sobre os assasínios terroristas, por começar com um parágrafo a repudiar o terrorismo e acabar noutro parágrafo a condenar Bush e Blair, atribuindo-lhes a máxima responsabilidade e, no balanço entre parágrafos, a condenação de Bush e Blair ser sempre mais forte que a de Bin Laden.

Abraço.

João Tunes
 
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Ainda bem que a conversa pode continuar.

A minha perspectiva do terrorismo da Al Qaeda não coincide com a que intuis, bastante parodiada, no teu estilo divertido. As concepções dos ultra-fundamentalistas islâmicos pré-existem aos jogos de poder das grandes potências. Acusações a Bush e a Blair, sim, mas só por terem pactuado com eles noutras fases, fornecendo-lhes muitos dos meios com que nos atacam hoje. Acresce que, como sabes, o novo terrorismo ainda não mostrou o arsenal todo. O horror poderá vir a ser incomensuravelmente maior.

Não empolo o caso do jovem brasileiro. Insurjo-me contra as tentativas de relativização de um assassinato que põe a nu a ineficácia estrutural das respostas que estão a ser dadas aos atentados terroristas. Se os terroristas são suicidas e a prevenção redunda no assassinato de mais inocentes, é o ambiente de terror que está a adensar-se e não o contrário.

É verdade que se olhares para a Palestina, para o Afeganistão, para o Iraque, dificilmente concluirás que o combate ao terrorismo vai no bom caminho. A aliança dos EUA e do reino Unido com o Paquistão é uma anedota de mau gosto.

Em suma: acho o terrorismo injustificável. Apoio a sua erradicação. Quero fazê-lo de uma forma eficaz orientada para a «secagem» radical das suas origens. Para isso conto coma mais vasta aliança que for possível para o isolar, lhe retirar as razões, os apoios de Estado, os financiamentos, as falácias religiosas e culturais, o desprezo cobarde pelas vidas dos inocentes, todos, de todos os credos e latitudes.

A deriva ultra-securitária, obstinadamente marcial e estéril, do ponto de vista dos resultados, não me convenceu até agora. Penso que temos de fazer um esforço maior, à altura do desafio. Para isso cada vida tem de contar, absolutamente.

Um abraço
 
Obrigado Manuel Correia, step-by-step chegaremos lá (à boa “auto-justificação ideológica”). Pelo que reformulo de imediato:

“Veja-se o caso do jovem electricista brasileiro, um inocente assassinado com oito tiros pela polícia britânica, sob o falso pretexto do combate ao terrorismo que, como se sabe, enquanto concepção de luta dos ultra-fundamentalistas islâmicos, é anterior aos jogos das grandes potências. Este crime que atingiu um irmão brasileiro, ido da pátria do Companheiro Lula onde se pôs a fome a zero, se deu terra a quem a não tinha, mensalão aos deputados e onde polícia não assassina (e se assassinar uma vez ou outra é branco grão-fino, tubarão ou traficante de droga ou mãe de jogador de futebol milionário ou dono de cadeia do jogo do bicho, nunca por nunca electricista nem jovem nem pobre e muito menos se fôr preto ou mulato ou branco muito moreno) nem a corrupção ali tem cultivo porque PT é pureza, é uma demonstração preversa da deriva ultra-securitária, obstinadamente marcial e estéril, do ponto de vista dos resultados, cujo absurdo é por demais evidente quando bem se sabe que foram Bush e Blair, ou seus antecessores, que pactuaram com Bin Laden e seus companheiros, dando-lhes muitos dos meios com que hoje atacam. Este caso do infeliz brasileiro que veio da terra pura e justa do PT para terra imperializada dos britânicos, demonstra a ineficácia estrutural do combate ao terrorismo, aliado a esse contrasenso anedótico que é a chamada aliança dos EUA e da GB com o regime militarista corrupto do Paquistão e que, só por si, demonstra o non-sense da estratégia geopolítica de combate internacional ao terrorismo como se viu e vê na Palestina, no Iraque e no Afeganistão e que só faz proliferar o terrorismo em vez de o destruir ou sequer conter, o que torna as grandes potências, objectivamente, nos principais responsáveis pela actual vaga terrorista. Para mais, o novo terrorismo ainda não mostrou o arsenal todo e o horror poderá vir a ser incomensuravelmente maior. Até chegar esse momento, o apocalítico, cada vida tem de contar, absolutamente. Polícia não pode errar. Erro é o pior dos terrorismos.”

Eu sei que ficou pior e mais caricatural. Mas havemos de lá chegar.

Abraço.

João Tunes
 
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João Tunes,

O Zapatero e o Blair estiveram hoje a discutir a criação de uma «frente» - qualquer coisa como «Aliança de Civilizações» - contra o terrorismo.
Público, Última Hora (http://www.publico.clix.pt/shownews.asp?id=1229250&idCanal=16)
Estou a favor.

O Pacheco Pereira escreveu, há dias, uma catilinária marcial elogiando aquilo a que chamo o «pensamento único». Faz a apologia da guerra e marimba-se para o resto.
Estou contra.

Tu estás a controverter os meus textos, ridicularizando-os até aos limites da tua criatividade.
Estou a ver...

Um abraço
 
Manuel Correia,

Vamos pois nessa (verdade, também alinho) da “frente” da “Aliança de Civilizações” proposta por Zapatero e Blair (eu sabia que ia sobrar para camaradas da minha família política). E se vamos juntos, tanto melhor. Falando por mim, será sempre um prazer militar ao teu lado. E deixemos o JPP a “pensar único” quando o que ele devia fazer, porque é o que melhor sabe, era acabar a biografia do Cunhal e que bem falta nos faz para recuperar lacunas na historiografia do nosso movimento proletário.

Não gasto mais um décimo de neurónio a controverter-te, ridicularizando-me. Reconheço que não devia ter ido por aí. O que comprova, mais uma vez, que não se deve imitar estilo de outro. No caso, o estilo que escolheste para o teu post.

Mais uma vez, foi um prazer conversar contigo. E julgo que, no meio de muita desconversa, alguma conversa sobrou. E aprendi, como sempre se aprende, contigo.

Abraço.

João Tunes
 
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