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2006-01-23

 

Que vai Alegre fazer com tantos votos?

Eis a interrogação que corre por aí.
Roseta concluiu que Manuel Alegre vale mais que o PS. Pensará na fundação de um novo partido? Não acredito. Em primeiro lugar porque isso obrigava a criar um aparelho partidário! E isso não é a última coisa que ela, Manuel Alegre e tantos outros da sua candidatura quereriam?
Mas que ambições terão os apoiantes de Manuel Alegre? Creio que uma parte, a avaliar por muitas pessoas que conheço a seu lado, querem e legitimamente, um mundo melhor. Um país melhor. Uma governação melhor. Ou seja mais justiça social, mais igualdade, menos corrupção, mais seriedade na política. Que a política, a governação, os "aparelhos partidários" não estejam ao serviço dos interesses ilegítimos dos políticos, dos governantes, dos videirinhos dos "aparelhos", das clientelas.
Apesar de sensível a todos esses arrebatadores objectivos. A toda a utopia, como limite. Mas sou cada vez mais avesso ao abandono da realidade e à miragem.

Não conheço (e há muitos exemplos na vida política nacional e internacional) nenhum partido ou organização ou movimento que tenha surgido em nome da ética e da regeneração dos costumes para reformar os partidos que não se tenha transformado rapidamente na negação do que anunciava. Boca cheia de ética, moral, virgindade? É mau sinal. É um carrocel com espertalhões à frente e ingénuos atrás para convencer o parolo.

Seguramente muitos outros compagnons, na onda de Manuel Alegre, só estão contra os aparelhos partidários porque se sentem injustiçadamente à margem de algum "aparelho". E a sua grande ambição será arranjar um aparelho partidário, mesmo com o nome de "anti-aparelho" que lhes dê também a eles, que não são menos que os outros! um lugarzinho ao Sol.

Não há partidos sem aparelho. Não há organizações que durem e sirvam para alguma coisa, mesmo com o atraente nome de movimento de cidadania, sem aparelho. Sem organização. Sem estrutura, hierarquias, sem pessoas ao leme. A todos os lemes, de alto a baixo, do "movimento" ou do partido!

A "lógica aparelhística" não está no aparelho. Está no Homem. E na Mulher. A justa, e urgente luta contra ela passa pela cultura, pelo grau de desenvolvimento dos povos, pela legislação, por mecanismos de controlo, por "movimentos de cidadania" ou "opinião pública" organizada (hoje com uma arma cada vez mais importante, a comunicação social livre proporcionada pela internet) para a vigiar, a denunciar e a minorar. Para combater a corrupção no seu lato sentido.

Estar contra os partidos, enquanto não se inventar nada de melhor, é um embuste. Mas, como se sabe, dá resultado. E a prova disso foi a campanha demagógica anti-partidos de Cavaco Silva. E a de Manuel Alegre que transformou, e com êxito, em bandeira, a ausência de apoio partidário quando não conseguiu ter o desejado apoio do PS.

Seria mau escamotear, no entanto, o mérito da grande votação de Manuel Alegre. Ela revela a crescente repulsa pela corrupção e nepotismo associados aos poderes e aos partidos e a vontade crescente de os combater. Revela o mal-estar no país em consequência do empobrecimento, do desemprego e das fracas perspectivas. Que Manuel Alegre dê bom uso a essa arma! É seguramente esse o seu propósito.

Comments:
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Provavelmente Manuel Alegre não poderá fazer nada com os votos que obteve. Primeiro, porque eram votos para que o candidato (humilhado e ofendido) desse um bigode a Soares e a Sócrates, e passasse à 2ª volta. Como não conseguiu, essa parte perdeu-se. Segundo, porque não creio que o voto em Alegre fosse contra os partidos. Acho que a abstenção atesta melhor o desgosto e o desinteresse que o senso comum anti-partidário representam. Mas há pelo menos uma lição a tirar do fenómeno Manuel Alegre: é a de que as direcções partidárias mailos respectivos aparelhos, chocalhos e pendentes, estão a deixar de poder impor soluções aberrantes e políticas mentecaptas contando perversamente com o espírito de equipa dos respectivos partidos. A votação em Alegre - malgré lui - vem anunciar que o autoritarismo estrutural tem os dias contados e que os militantes deixaram de ser rebanhos. Por isso, ao desdramatizar o exercício do direito a uma opinião diferente da da direcção partidária (com todas as suas consequências) Alegre refrescou um certo entendimento do dever cívico de consciência, da cidadania e da participação. Não pode fazer nada com os votos dos que votaram nele porque o mandato terminou na noite de 22. Mas ficámos a dever-lhe isso. Uma dívida que, como o João Tunes afirmou com elevação e graça no «Água Lisa 5», não é para pagar.
 
MC: e o preço (Cavaco PR) valeu a pena?
 
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Margarida,

Deixe-me pôr o Pessoa a responder-lhe:

«Tudo vale a pena se a alma não é pequena
Quem passar além do Bojador
tem de passar além da dor
Deus ao mar o perigo e o abismo deu
mas nele é que espelhou o céu».

Depois, como provavelmente não nos entendemos nos domínios de Deus, deixe-me pedir auxílio ao (injustamente esquecido) Armindo Rodrigues:

«Nenhuma mudança
Se faz sem esperança.
Se enganosa é
Só depois se vê.»

Depois, sabe?, não me parece que a baixa prestação das forças de esquerda seja explicada apenas no quadro das presidenciais. A direcção do PS não estava visivelmente preocupada com o posicionamento de Cavaco Silva. Tratou de tudo tarde e a más horas. Mesmo aqui no PUXA, até os apoiantes confessos da liderança de Sócrates, mostraram apreensão com o rumo das coisas a esse respeito.
Bem vê: quando o maior partido das esquerdas tem uma «distracção» semelhante, torna-se difícil, se não impossível, encontrar entre os restantes uma solução federadora.

Respondendo agora «eu próprio» à pergunta.

Acho que valeu a pena.

Pior para Alegre (e alegristas) era pactuar com mais um exercício de terrorismo administrativo que faria deles perdedores disciplinados, apoiando um Soares a quem não deixaram compreender que, depois de ter declarado publicamente o apoio a Manuel Alegre, já não estava em tempo de pôr a declaração anterior na gaveta. Ao pô-la, perdeu a simpatia de muitos; ao prosseguir, com o beneplácito pseudo-entusiasmado de José Sócrates, deu origem a uma candidatura fraca.

Em suma: uns poucos decidiram o que desagradou a muitos.

Os resultados aí estão.

Não acho que a «esquerda» seja «burra» como a Margarida desabafa num outro comentário que assinou. Acho, em vez disso, que as grandes ideias «federadoras» não tendo habitado genuinamente as preocupações das direcções partidárias antes da maioria absoluta do PS, menos contam agora. Provavelmente, as diferenças obstaculizadoras de entendimentos de médio prazo são mais profundas entre PS, PCP e BE, do que entre PPD/PSD e CDS-PP.
Não acha?
 
MC: mas não foram sempre? E apesar disso, nisto das presidenciais sempre nos acabámos de entender, mas agora não por obra e graça do Alegre e do Louçã (ou de quem os movimentou)...

Mas há mar e mar, há ir e voltar...
 
É incontornável falar sobre o rescaldo das eleições, procurando olhar o futuro a partir da margem esquerda do rio. Até porque julgo que nos cabe a nós, os “alegretes” (sobretudo, os de circunstância), o ónus-beneficio de o poder e dever fazer. Porque a “esquerda jerónima” já desandou do pólo do eleitoralismo para o pólo do populismo, passou o testemunho à CGTP e retomou o facho anti-PS, contente de ter mais um lugar para improvisar “manifes” (provavelmente as próximas, com polícias, militares, professores, juízes e enfermeiros, a nata da classe operária, rumarão de frente a São Bento até ao largo fronteiriço ao Palácio de Belém). O Bloco lambe as feridas enquanto tenta perceber o que nunca vai entender - a essência da volatilidade do seu eleitorado. O respeitável e obeso aparelho socrático-soarista do PS “oficial” não vai perceber coisa alguma enquanto não decifrar o enigma maldito de Alegre e muito menos admitir que o “soarismo” já estava morto antes de ter de ser re-enterrado, tanto que se prestaram á representação obscena de passearem um mausoléu (político) para esconderem o alívio de verem Cavaco ganhar à primeira, poupando nos sobressaltos familiares.

Na “banda alegrete”, as coisas também não são fáceis e muito menos lineares. O conglomerado é vasto, diverso e com pulsões diversas e algumas eventualmente contraditórias. Há ajustes de contas infra-PS (pois há, e graças a eles, se deve o ter havido uma estrutura condutora da campanha, registe-se em seu abono, embora anárquica e desastrada, ingénua, romântica e amadorista). [O que só significa que o PS (militantes e eleitores) é mais, muito mais (haja deus!), que as “canadianas” que amparam Sócrates e o seu governo.] Mas o vasto eleitorado de Manuel Alegre, essa espécie de “maioria de esquerda silenciosa”, é mais que o “PS (m-a)” que nela se entranhou e estruturou a campanha, atamancando-lhe um “aparelho mínimo”. Sobretudo, inclui muitos estreantes e re-entrantes na actividade política, pessoas atraídas pelo exercício da cidadania, cansadas do controlo aparelhístico (do PS e de todas as outras “esquerdas”), ansiosas pela renovação arejada da esquerda, combatendo essa maldição vendida que a modernização da esquerda só pode ser feita pela via neo-liberal, anti-social, esquecendo o sonho, a cultura e o projecto. Da mesma forma, os que (há muito ou há pouco) perceberam que o revigoramento da esquerda não passa pelo retrocesso a Fidel Castro, Kim-Il-Sung e Hugo Chávez, nem o culto “fatimista” a um caudilho de pacotilha formado em gentilezas operárias de bailes de bombeiros ou na veneração basbaque perante um economista “pró-nobel” com espasmos de exorcismos evangélicos.

Manuel Alegre, pela vontade rebelde de o fazer e pelas circunstâncias particulares e partidárias que o levaram a candidatar-se, com enorme coragem e estoicismo, ao dar corpo e caminho a esta “convulsão alegrista”, heterogénea e enérgica (pelo menos, na afirmação da teimosia na recusa da canga), imensa se se atender ás circunstâncias e oportunidades, prestou um enorme contributo à redignificação da condição democrática, impedindo que o jogo eleitoral (fundamental no funcionamento democrático) fosse um jogo pré-marcado pelo pior que os partidos segregam como ganga de cultura e prática políticas. Ficará para a história. Dele, Alegre (um símbolo do estoicismo democrático). E nossa, seus apoiantes, os que acreditámos até ao fim e só parámos para desanimar e chorar quando vimos que morremos na praia.

O que fazer agora com este milhão e tal de votantes “rebeldes” que votaram por Alegre? Nada. Absolutamente nada. Sendo certo que cada militante pró-Alegre, e cada votante em Alegre, podem fazer “tudo” para melhorar o nosso estar democrático. Não desperdiçando esta convulsão cidadã de maior exigência política e de alimentar o direito a sonhar e a transformar. Não permitindo que calquem aos pés tantas bandeiras e tantas vontades. Ao contrário, levantando-as onde elas continuarem a fazer falta, cada qual com seu vento ou sua maré. Ocupando o espaço em que cada qual se sinta com direito a ocupar. Lembrando, aos “donos dos partidos”, que a política não tem donos e a cidadania muito menos.

É hora de desarmar a tenda do conglomerado imenso e nobre que levou Manuel Alegre até onde ele chegou, sabendo que se podia ir mais além. Insuflar este sobressalto em cada intervenção. No mínimo, não desperdiçar esta energia alegre de tornar cada cidadão em cidadão mais exigente, mais cidadão, menos abúlico, menos espectador, menos disponível a que sejam donos dos seus sonhos, do seu cartão de militante e … dos seus votos. Sobretudo, não desistindo de pensar que a democracia, se é plural (e só pode sê-lo) e partidária (pois claro!), nunca é obra acabada nem segmentável (em que a fatia gorda da economia e das finanças reduz a migalhas o viver cultural, social e cívico, pois é por isso, não pelo défice, que vivemos e queremos viver).

Se Manuel Alegre, com a mesma grandeza com que montou a tenda da rebeldia cidadã, souber desmontar a tenda do imenso conglomerado de cidadãos rebeldes e relapsos á canga dos aparelhos partidários, então este homem terá direito ao mérito suplementar e maior de ter permitido que, para tantos, a poesia rime com política, o canto com a luta, a esperança com o futuro. O que nos melhora como povo, retirando-nos o peso sinistro de nos vermos, uns aos outros, como agiotas concorrentes de um presente efémero.

Eu acredito em Manuel Alegre. Se ele, agora, me desiludir, o problema será dele. Não meu, porque o voto e a vontade não têm donos, como ele bem apregoou e a essa ideia deu corpo e bandeira. E os povos têm sempre um passado, um presente e um futuro, aproveitando-os ou não.

João Tunes
 
Eu comecei a ler o comentário antecedente mas como era palavroso resolvi ir ver quem o assinava. Depois de ler "João Tunes" já não li mais, não valia a pena. É que o João Tunes é a pessoa que aqui há tempos, pura e simplesmente me cortou o acesso à caixa de comentários do blogue dele porque eu num comentário anterior exercera o contraditório.
É gente como o João Tunes que agora se arvora em papa da cidadania? Não me façam rir!!!
 
Em relação a Soares, dedicada a Churchill (que morreu há 40 anos), ontem escrevi esta frase: "Acontece aos grandes homens em Democracia, mas nada nem ninguém os varre da História porque o seu nome se confunde com ela. Pelo contrário, só a custo nos conseguimos recordar de quem, conjunturalmente, se sentou então na sua cadeira".

Quanto a Manuel Alegre, novo partido baseado num homem só?... mais tarde ou mais cedo, teria o fim do PRD. No entanto, o resultado alcançado por Alegre deverá, sobretudo, ser levado a sério pelo PS. Há muita gente farta dos tipos que chegaram à sua cúpula, vindos pela mão do beato Guterres e do vulgar Coelho. Está na hora de afastar os medíocres, gente pouco culta e amante dos patos bravos. Merece-o a Esquerda e a memória dos fundadores do partido.

Abraço, IO.
 
Enterrado o Soarismo, há quem se apreste para patrocinar o funeral da cidadania.
Portugal não carece de mais partidos políticos, carece sim de bons políticos e de cidadãos, muitos cidadãos atentos.
 
O que irá fazer Manuel Akegre a seguir? Provavelmente ir caçar umas perdizes ou pescar umas trutas nos afluentes do Mondego.Talvez escreva um soneto onde entrem as palavras votos, vento, silêncio e Coimbra.

Agora o que ninguém compreenderia, muito menos quem votou nessa candidatura, era que regressasse agora ao parlamento e pasasse a votar a favor daquilo que ainda a semana passada era contra.

No entanto causa-me alguma perplexidade de que a única preocupação depois das eleições é o que vai fazer alegre. Pelos vistos pensam que a conjugação de Sócrates e Cavaco no pacote de políticas anti-sociais deste governo é um pormenor irrelevante.

José Manuel
 
JT deve estar satisfeito com Cavaco em Belém. Cidadão iluminado não deixou morrer o culto pela personalidade. Alegre é o seu guru.
Fadunchoso país, com tanto pirilampo, cada vez estás mais às escuras...
 
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