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2008-03-25

 

Como nós (10)


O artigo de Vital Moreira hoje dado à estampa no PÚBLICO (pág. 41 da edição em papel) - O "mal-estar" nacional - configura uma atitude intelectual interessante. É uma afirmação da confiança nos aspectos positivos dos nossos adquiridos civilizacionais (mormente em matéria de índices de pobreza, criminalidade e corrupção) com o elevado propósito de "vencer o derrotismo nacional" e debelar a "autoflagelação" crónica dos portugueses.
Não posso estar mais de acordo.
A diligência é meritória.
Como é que Vital Moreira sustenta o seu optimismo moderado? Nas estatísticas que, segundo ele, contrariam muito do que os media registam quotidianamente acerca do que se vai passando no país.
Para respaldar a ideia, aponta a "vulnerabilidade da opinião pública ao enviesamento informativo".


E aqui, o discurso toma aspectos estranhos.


Os media estariam a influenciar negativamente o julgamento dos portugueses relativamente ao estado (estatisticamente comprovado) em que se encontra o país.
A atitude de Vital Moreira, virtuosa à partida, depara-se, assim, ao desdobrar-se em argumento, com três enormes obstáculos.


O primeiro tem a ver com a "suspeita" elitista: os media estão a exagerar o que é negativo; eu dou por isso; darão os outros também?


O segundo liga-se à (i)legitimidade de os media tenderem a funcionar como "válvula" de descompressão dos sistemas de regulação, disparando sempre que há perigo, e remetendo-se ao silêncio quando as situações são corrigidas ou os acontecimentos são de bom agoiro. É de facto assim. Ver nesse esquema de funcionamento uma intencionalidade antigovernamental ou a cultura jornalística submetida às deliciosas teorias da "actualidade", é que faz a diferença.
Uma diferença que conta.


O terceiro vai de encontro à "percepção" das pessoas, dos grupos e dos agentes pontualmente atingidos por flagelos cuja intensidade desumana será mais tarde devorada pela estatística, que os digere com o auxílio das suas gulosas medidas de tendência central.
Os desempregados, um por um, região por região; os professores, escola a escola; os funcionários públicos, incluindo os professores catedráticos; os trabalhadores agrícolas (apesar de serem cada vez menos), etc. No momento em que são atingidos, gritam e desesperam. As estatísticas dificilmente terão qualquer papel tranquilizador junto deles.


Assim, em 2005, quando um dos incêndios daquele malfadado mês de Agosto entrou por Coimbra adentro, [Coimbra invadida pela força das chamas/JN] alarmando justificadamente as gentes de lá, arredores e do País inteiro, deveríamos ter parado para, racionalmente, inquirirmos da verdadeira grandeza dos estragos.
Afinal a área ardida desse ano iria ser inferior à de dois anos antes.
Estava-se, a quente, a exagerar a negatividade do cataclismo.


O Chico Buarque diz numa das suas canções que "a dor da gente não sai no jornal".
Mas é bom que saia, mesmo que vá contra todas as estatísticas.
A dor, o desespero, as injustiças não devem perder o direito à visibilidade.
Alguém saberá julgar se os media estão a exagerar ou não.
É necessário recuperar o lado virtuoso da intenção apocalíptica.


Confiar no julgamento dos portugueses.

Comments:
Mas oh meu caro Manuel Correia, vosselência "confia" mesmo no "julgamento" dos portugueses?
Não me diga...
 
Caro R. Proença,

sim, confio. Tudo, tudo considerado, o melhor é confiarmos mesmo. Aos que desconfiam (de todos ou de uma parte) resta-lhes a recíproca.
É claro que a questão presta-se a uma conversa mais desenvolvida, mas como a pergunta foi directa, a resposta tenta merecê-la.
 
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