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2008-05-11

 

Um português na Flórida. Por Obama...

O meu amigo Sousa Marques vive há uns anos na Flórida e não só acredita na vitória de Obama na disputa com Hillary Clinton como também na oportunidade que ele representa para uma mudança histórica na sociedade norte-americana se chegar a presidente. Hoje conta-me como decorreu a sua intervenção cívica na campanha pela inscrição nos cadernos eleitorais de alguns dos muitos milhões de americanos que, cépticos com a prática política, dela se alheiam. E com a sua singela história dá-nos um retrato cheio de frescura de uma das mil facetas do Grande Império.
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Caros amigos,
Pela primeira vez, participei, nos EUA, num acto de campanha eleitoral.
Começou a cerca de 20 km de minha casa, no "MLK Recreation Center", numa cidade chamada Clearwater.
Tratava-se de ir para a rua, falar com as pessoas e tentar que se registassem como votantes para que, em futuras eleições, estejam em condições de exercerem este direito cívico.
Aqui vão algumas notas relativas a esta experiência.
...
1.
Quando cheguei ao "MLK Recreation Center" é que percebi que as 3 primeiras letras queriam dizer Martin Luther King.
2
Éramos cerca de 30 pessoas. De todas as idades (sentei-me entre um jovem que teria 20 anos e uma senhora que deveria ter cerca de 80). De todas as cores (cerca de metade eram brancos, sendo os restantes, pretos ou mulatos). De ambos os sexos, embora houvesse maioria de mulheres (aliás, em quase todos os actos eleitorais, tem havido mais participação de mulheres).
3
Dividimo-nos em grupos de 3 e partimos para vários locais. Sábado de calor. Um sol quente que queimava. O auto-colante OBAMA'08 ao peito, um monte de fichas na mão presas a uma prancheta, uma esferográfica, uma garrafa de água. No meu grupo ía o jovem ao lado de quem eu me sentara e uma senhora que talvez andasse perto da minha idade. Teve piada saber que ele tinha passado por Lisboa numa viagem que tinha feito à Europa. "A beautiful place..." disse-me.
4
O primeiro lugar onde o meu grupo esteve foi numa paragem de autocarros. Desde que não estivessemos dentro das instalações, podíamos falar com as pessoas que se aproximavam ou chegavam. Uma estranha sensação de estar num país com dezenas de milhões (quantas?) de pessoas que não estão, sequer, inscritas nos cadernos eleitorais e que, portanto, na prática, têm vedado o seu direito de votar. E que o que deveria ser um dever do Estado (tratar deste assunto) estar a ser assumido por pessoas como eu...
5
Depois fomos para as imediações de uma biblioteca e, daqui, para um enorme parque, carregado de árvores, um imenso lago, espaço para as pessoas levarem os seus cães, mesas estrategicamente colocadas para pic-nic espalhadas pela relva, etc. "Are you registered to vote?" recebia as mais diversas respostas. Mas, o que mais chocava era saber que a maioria de pessoas com quem falávamos não estavam inscritas e não queriam estar. A maior parte afastava-se e não queria abordar o assunto. Mas algumas falavam, perguntavam, afirmavam as suas opiniões.
6
A política é para os ricos!... Alguma vez poderá ser eleito, aqui na América, um Presidente que seja mulher ou preto?... Nunca votei e não quero votar!... Vocês andam a perder tempo!... Não percebem que quem manda é o dinheiro?... Não estou interessado... Você é de alguma religião? É "scientologist", não é verdade?... Não posso votar porque não sou cidadão...
6
Um taxi aproxima-se de mim. O motorista negro aponta para o auto-colante e pergunta "Tem um para mim?". Damos-lhe uma folha e ele retira dois. Cola um no tablier e guarda o outro. E vai contando. Que levou 5 semanas para conseguir inscrever-se. Que a funcionária responsável por esse serviço, ali, em Clearwater, levanta inúmeros problemas a todos os negros que procuram inscrever-se nos cadernos eleitorais. Que há milhares de pretos, famílias inteiras, que não estão inscritas.
7
Um casal com dois filhos já tinha o seu almoço preparado na mesa, por baixo de uma árvore, à beira do lago. Dirigi-me a eles. Sorriram. "I know, you are encouraging people to vote!... Good!... We are with you!... We support Obama!..."
8
Quando, 3 horas mais tarde, voltámos ao Martin King Luther Center, levávamos 5 fichas de novos eleitores. Fomos o segundo grupo a chegar. Os primeiros, com sorrisos, disseram "Conseguimos 7!"... Os outros grupos íam chegando... Quando me despedi, deixámos todos a promessa "No próximo sábado continuamos..."
9
Tudo isto num país onde não há, praticamente, estatísticas sobre a abstenção. Quando há eleições diz-se quem ganha e perde, contam-se os votos e as percentagens dos que votaram. Mas nunca se diz qual a percentagem dos que não votam. Os resultados oficiais de anteriores eleições presidenciais (as mais concorridas) apontam para uma abstenção que varia entre os 50% e os 60%. Como há milhões que nem votantes são, poderemos dizer que um Presidente pode ser eleito por metade mais um votos, de uma minoria de cidadãos. Metade de uma minoria pode ser uma escassa minoria, não concordam?
10
Aqui está onde me encontro. Numa democracia mitigada. Que alguns procuram tornar melhor. Utilizando parte do seu tempo para trazer outros para um processo de mudança que não pára, mesmo que muitos não o descortinem...
...
Um abraço a todos.
Boa noite e boa sorte.
fernando

Comments:
Bem....!!!! percebo as diferenças, de quantidade de pessoas votantes e não votantes, de pessoas recenciadas(como se diz por este lado do Mar) ou não.
E já quase digo a todos os da minha idade, aqueles que conheço e também a quase todos os individuos que almoçam naturalmente ao meu lado no balcão do tasco do costume, olhe se vota pode falar e criticar se não vota cale-se se faz favor pois estou cançado da conversa.
Pois uma das unicas oportunidades que nos resta é mesmo votar.
E sim, muitas pessoas não votam.

JN
 
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