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2009-02-20

 

Não há pior cego...

O país andava angustiado com o Serviço Nacional de Saúde (SNS) e com razão, digo eu. A tristeza aumentava quando nos virávamos para as cataratas. Era uma espera infinita, as pessoas morriam antes que fossem chamadas para a operação à vista.

Quem não se lembra da humilhação que era cãmaras municipais (sem serem do PCP, atenção!) organizarem excursões a Cuba para numa semana fazerem o trabalho que os nossos hospitais faziam num ano. E a vergonha por que passávamos quando duas equipas de oftalmologistas espanhóis entravam afoitos pelo país adentro, esquecidos de Aljubarrota, assentavam arraiais numa clínica qualquer e de lazer na mão, por metade do preço dos artistas nacionais (que os verberavam) derrotavam em 15 dias mais cataratas que todo o luso SNS em 6 meses.
O país discutia como atacar tamanha desgraça oftalmológica e esta afronta ao orgulho nacional.

A receita neoliberal, em voga antes da catastrófica crise que ela provocou, era imbatível: pagar às clínicas privadas. Mas com a sua detestável teimosia Sócrates insistiu no SNS e quando menos eu esperava eis que ontem veio cantar de galo na TV. Que se fizeram em 2008, 255.000 primeiras consultas à vista contra 102.000 em 2007 e que finalmente as cataratas e a cegueira dos portugueses tinham sofrido uma clamorosa derrota (ainda receei que acrescentasse "às mãos do PS", mas não. Em 2008 o SNS (atenção o SNS e não mil clínicas privadas) fez 83.000 cirurgias às cataratas - disse ele. Mais 30.000 que no ano anterior. A espera pela cirurgia aos olhos passou de 2 anos para 2 meses.

A RTP, para garantir o pluralismo - e bem - chamou ao pequeno ecrã o presidente da sociedade portuguesa de oftalmologia, o Dr. António Travassos e então a propaganda eleitoralista do Governo teve a resposta merecida.

Aparentemente a situação era melhor mas defacto estávamos pior - explicava o presidente. Quando me preparava para abrir a boca de espanto ele explicou: é que assim fazem-se as operações sem dar tempo para ver a evolução da doença. Há muitos casos em que a catarata pode estagnar e talvez não valha a pena fazer operação porque o paciente vê mal mas sempre vê alguma coisa e poupa dinheiro. A Cecília Carmo - a apresentadora do noticiário das 22h que eu pus aqui ao lado - que de parva não tem nada, enquanto eu, incréu, ruminava pastosamente o elíptico argumento do oftalmologista presidente, ela observou: oh Dr. Travassos desculpe lá, mas quem decide da operação não é o Sócrates, pois não? São os médicos, não é? Ela não verbalizou "Sócrates", que ficaria mal numa pivô charmosa como ela, mas o resto foi tal e qual. O Dr. meteu os pés pelas cataratas e eu conclui que pior que catarata é não querer ver.

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pior que políticos, só médicos e advogados...
 
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