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2009-03-12

 

Nacionalizar ou não nacionalizar, eis a questão

É um artigo de Martin Wolf, articulista do Financial Times, traduzido de forma livre, a partir da sua publicação no Le Monde.

O senador republicano Lindsey Graham, o ex-presidente do Federal Reserve, Alan Greenspan*, e James Baker, segundo secretário do Tesouro do governo Ronald Reagan, são a favor. Ben Bernanke, actual presidente do Fed, e a Administração Democrata são contra. O que os divide? A nacionalização da banca.

Em 1978, Alfred Kahn, conselheiro do presidente Jimmy Carter, usou a palavra "depressão". O presidente ficou de tal modo furioso que Kahn passou a chamá-la de "banana". Mas a recessão que Kahn previu, acabou por acontecer. O mesmo pode suceder com a nacionalização. Como definir as medidas do governo federal em relação ao Fannei Mae e Freddie Mac, à seguradora AIG e ao que está acontecendo com o Citigroup? A nacionalização não é a nova grande “banana” do sistema financeiro?

Uma boa parte do debate é puramente semântica. Mas, por detrás das palavras, colocam-se, pelo menos, duas grandes questões. Quem vai suportar as perdas? Qual é a melhor maneira de reestruturar os bancos? Os bancos somos nós todos. O debate sempre foi conduzido como se eles pudessem ser punidos sem nenhum custo para o povo. Mas, se eles geram perdas, alguém tem que as suportar. Com efeito, a decisão tem sido a de fazer repercutir sobre os contribuintes as perdas que deveriam recair sobre os credores, uma decisão que poderemos chamar de "socialização"

A segunda grande questão consiste em determinar como reestruturar os bancos. Um ponto está claro: a recapitalização não pode provir das trocas de dívidas por acções como acontece habitualmente em caso da falência.

Esse processo deixa duas soluções: os fundos públicos ou os capitais privados. Na prática, ambas as possibilidades estão pelo menos parcialmente bloqueadas nos Estados Unidos. A primeira, pela reticência dos políticos. A segunda, por uma alargada série de incertezas - sobre a avaliação dos activos tóxicos, o futuro tratamento dos accionistas, e o futuro da economia. Isso torna a alternativa do "banco zumbi" uma saída provável. Aliás, esse tipo de bancos zumbis, descapitalizados também encontra dificuldades para reconhecer perdas ou expandir seus créditos.

A resposta do Tesouro americano consiste em fazer um "teste de solidez" aos 19 bancos americanos com activos superiores a 100 biliões de dólares. Foram solicitados a estimar as suas perdas segundo dois cenários. O pior deles assume, quase de forma optimista, que a grande contracção do PIB será de 4%, na comparação anual, no segundo e terceiro trimestres de 2009. Os reguladores decidirão se é necessário um aumento de capital . As instituições necessitadas lançarão títulos convertíveis em acções junto do Tesouro e terão até seis meses para realizar o capital privado. Se forem mal sucedidos, os títulos convertíveis serão transformados em acções na base do "que for necessário".

Isso, então, é a socialização das perdas que poderia acabar por atribuir ao governo uma quantidade de acções dando-lhe o controlo de certos estabelecimentos, como o Citigroup.

Quais são as vantagens e os inconvenientes desta abordagem, comparada com um controlo directo dos estabelecimentos bancários? Douglas Elliott, da Brookings Institution, sublinha num artigo surpreendente que parte da resposta se prende com saber se os bancos estão insolventes. Se Nouriel Roubini, da Stern School de Nova York, estiver certo (como tem estado até aqui), eles estão. Se Roubini estiver enganado, não estão. Eis a razão porque o professor Roubini sugere que seria melhor esperar seis meses mais para, deste modo, distinguir entre as instituições solventes e insolventes.

Nestas circunstâncias, a ideia de "nacionalização" deveria ser vista como um sinónimo de "reestruturação"o que permitiria reestruturar os activos e as dívidas entre em "bons" e "maus" bancos.

Se for impossível impor perdas aos credores, o governo deveria controlar os bancos por um longo período, antes que eles estejam aptos a retornar ao mercado. A maior reestruturação bancária realizada nos Estados Unidos, antes deste ano, foi o do Continental Illinois, assumido em 1984. Era então o sétimo maior banco e demorou uma década. Quanto tempo demoraria a reestruturação e a venda do Citigroup, com a sua complexa rede global?

Estamos dolorosamente a aprender que os megabancos mundiais são demasiado complexos para ser geridos, demasiado grandes para falhar e demasiado difíceis de reestruturar. Ninguém gostaria de "agarrar" um tal problema Mas, à medida que o mercado de acções piora os bancos devem ser resgatados de um modo sistemático e recapitalizados. Chame-se a isto de “banana”, se quiserem.

* um dos grandes responsáveis por esta crise

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