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2009-10-01

 

País "Encavacado"


Quanto não se sabe nadar em águas revoltas o que se deve fazer é boiar e esperar que a turbulência passe. Esbracejar é contra-indicado porque quanto mais se esbraceja mais se afunda.

Cavaco Silva é, como já pôde provar quando foi 1º M, que é competente. É competente na sua especialidade a Economia, ciência social que, como tal, oferece uma larga margem para os vaticínios "científicos" mais desencontrados. E revelou-se competente, de acordo com as opções da direita, quando à frente do Governo. Mas, como analisa um amigo meu, a sua maneira é adversa à gestão serena das contrariedades e da controvérsia da luta política. Não é capaz de enfrentar com serenidade os diferendos e interesses contraditórios na complexa arena político/partidária. A sua pulsão autoritária não se compagina com as disputas em regime democrático.

A política em democracia está repleta de manobras, golpes baixos, intrigas, jogos subterrâneos, que acompanham e condicionam a política reluzente à vista de todos. Desde Maquiavel que se sabe bem de tudo isso. Jogar esse jogo sujo também tem, apesar de tudo, as suas regras e os seus limites. O Chefe não pode nunca proceder de modo a perder a face. Cada jogada suja tem de ter sempre uma porta de recuo. Uma boa desculpa, prova de "inocência" do Chefe. E ter preparada para o contra-ataque a jogada da vitimização.

Goste-se ou não a luta entre os Homens, seja em que actividade for, e portanto também na política, está sujeita à amoralidade.

Quanto mais limpa, mais honesta, mais portadora de ideais for a actuação dos líders mais prestígio terão mas nem sempre maior êxito atingem, como se sabe.

O que Cavaco Silva tentou fazer, por acção ou omissão, foi ajudar o seu PSD, a facção dirigida pela sua fiel colaboradora Manuel Ferreira Leite. Não é nada que em princípio não seja tolerado e menos ainda, estranho à política democrática. Mas Cavaco Silva não tem jogo de cintura e não é capaz da jogada fina e arguta da florentina perfídia política.
A operação contra o Governo e o PS, na campanha eleitoral, a inventona das escutas, montada pela "fonte da presidência" e José Manuel Fernandes do Público, foi mal gerida e o PR ficou a descoberto. Não ter esclarecido o caso antes dos votos e pior, ter insinuado que haveria mesmo vigilância do Governo ao PR ,com a afirmação "depois das eleições vou-me informar melhor sobre aspectos de segurança" parecia ser de todo impossível de "explicar". A menos que houvesse escutas! Mas se tivesse provas de escutas então a situação era ainda mais penalizadora do Presidente por não tomar medidas.

Antes de se meter neste jogo sujo deveria ter pedido ajuda ao grande criador nacional de factos políticos, Marcelo Rebelo de Sousa.

A incomodidade do Presidente foi-se-lhe tornando intolerável devido à excessiva ambição de intocável quanto a imparcialidade no debate político/partidário.
Cavaco Silva devia, portanto, uma explicação ao país e a que deu agravou sobremaneira a sua situação. Fugiu à explicação das "escutas", expôs-se como fraco analista político, entrou em confissões pessoais espúrias e deu de si uma imagem de periclitante sanidade mental.

Já toda a gente, que não estivesse obnubilada pela cegueira do facciosismo, tinha percebido tudo. Os beneficiários do PSD, os obcecados pelo ódio a Sócrates, o PCP, fingiam que não percebiam e apoiavam no todo ou em parte as teses do PR. Mas só era possível enquanto ele conseguisse salvar a face. Para sua desgraça nem uma burka, ou simples capuz tinha de reserva no palácio.

Faculto aqui, mas já demasiado tarde para o caso em análise, um pequeno truque que se usava na luta clandestina contra a ditadura, luta que Cavaco Silva saberá ter existido.

Nesse tempo, quando opositores da ditadura se reuniam para conspirar, fazia-se o "minuto conspirativo": combinava-se uma "boa" explicação para gente por vezes tão dispar estar ali reunida, no caso de eventual entrada abrupta de uma brigada da PIDE para os prender. Não resolvia o problema mas salvava a face.

Era melhor ter ficado calado. Ficava em falta mas não agravava a situação. Assim o Presidente ficou mais fragilizado e aparentemente sem a serenidade de que o país que precisa particularmente numa conjuntura tão exigente como a actual.

A minha proposta é mesmo que se esqueça o caso. Finja-se que não passou nada e ver se a atrapalhação do Presidente não atrapalha ainda mais o país.
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Nota: O post é de ontem mas a TVcabo interrompeu, na minha zona de residência, a ligação à rede, por isso só agora aqui vai, já talvez a destempo. O qualificativo "encavacado" é como se sabe uma expressão de Ana Gomes. Que no seu blog era prova de humor mas naquela cerimónia, onde estava o 1º M, é deslocada.

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Comments:
PELO SEU ARTIGO FICO CIENTE DAS ÁGUAS EM QUE ACHA LEGITIMO QUE SE NAVEGUE. NÃO GOSTO.
 
"Os beneficiários do PSD, os obcecados pelo ódio a Sócrates, o PCP, fingiam que não percebiam e apoiavam no todo ou em parte as teses do PR" ?????

Pode explicar o que é que o PCP fingiu que não percebeu e que tese do PR apoiou no todo ou em parte?

É que está a tomar proporções disparatadas a tese da virgindade do PS.

Não somos todos ingénuos, certo? Nem anjinhos.

E já agora como é que o Louçã soube do Lima?
 
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