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2009-10-21

 

Velhas Sanfonas (2)



Foi há uns anos, quando alguns católicos tentaram explicar a Herman José que os dez mandamentos não deviam ser parodiados com uma tábua de engomar numa lavandaria, nem Moisés tinha incluído nas palavras que o Senhor lhe ditara, "Não pirilamparás a mulher alheia". Alguém escreveu, então, que a Igreja (Católica) estava zangada, mas, como sempre, houve católicos que não se importaram nada com as graçolas de Herman e até confessaram em público acharem-lhe montes de piada. Há sempre católicos que se escandalizam, muito compreensivelmente, quando alguns objectos, associados à sua fé, se podem confundir com ela. Nada de novo.

Uns sim, outros não.

O humor, a crítica, a análise, suscitam sempre reacções de desconforto por parte de quem vive colado aos seus ritos, confundindo-se com eles, sem tempo, vontade ou disposição para se pôr a questioná-los.

Desta vez, porém, com o seu "Caim", José Saramago fez o pleno. Atirou-se ao "Livro" - a Bíblia - que é o elemento identitário reclamado por Cristãos das várias igrejas, Judeus e Muçulmanos. E se é verdade que o gesto da criação (literária e artística) não deve conhecer fronteiras, também é sabido que cada um se indigna com o que entende, e o autor de "Levantado do Chão" já tem uma fila enorme de gentes despeitadas, ofendidas e agravadas, não tanto com o livro, que ainda não tiveram tempo ou vontade de ler (apesar de ser pequeno e de fácil leitura), mas com as detracções que Saramago fez ao ler a Bíblia com olhos de ateu, ao comentá-la sem respeitar a hermenêutica vaticana, e, finalmente, ao tirar conclusões de carácter popular, discutíveis, manhosas e brejeiras tal como convém ao registo popular.

Resultados:

1) o Cardeal Patriarca correu a falar com o 1º Ministro. Há quem pense que é por causa da formação do novo governo. Eu suponho que foi por causa das declarações de Saramago. Quem irá sobraçar a pasta da Cultura?

2) o deputado europeu Mário David afirmou que gostaria de ver Saramago desnacionalizado, explorando as "ameaças" que o nosso Prémio Nobel da Literatura fez ao tomar conhecimento de que o Sec. de Estado da Cultura, Sousa Lara, (de um governo do PSD chefiado por Cavaco Silva) tinha vetado o "O Evangelho segundo Jesus Cristo" expulsando-o da lista de obras concorrentes ao Prémio Literário Europeu. Desde aí, o PSD nunca mais foi o mesmo e, Mário David, também membro do PSD, vem confirmá-lo.

3) Cavaco Silva declina convite dos Gato Fedorento Esmiuça os Sufrágios. Supõem muitos que se trata de uma precaução contra o ridículo. Disparate. Cavaco sabe que seria confrontado com a polémica que a esta hora divide o mundo bíblico. Necessita do apoio de todos para as próximas presidenciais. Deste modo, não beneficiará Caim... nem Abel. Além disso, não terá de explicar-se sobre a lucidês de Sousa Lara e o facto de ele ser seu subordinado na altura do desconchavo.

4) Salman Rushdie ficou cheio de inveja. Palpita-lhe que "Caim" vai ser mais lido do que "Os versículos Satânicos". As taxas de alfabetização, os pluralismos democráticos e os mercados livreiros fazem alguma diferença entre o Irão e a União Europeia.

5) Maitê Proença já encomendou um exemplar de Caim. Depois do que os media portugueses lhe fizeram, não quer que nada do que é português lhe escape.

6) O Papa Bento XVI, ciente das procelas que se avizinham, convidou os Anglicanos a regressarem ao seio Católico. Quinhentos anos, na divina presciência não devem valer mais do que 2 ou 3 segundos dos nossos relógios. O lugar deles na Igreja Católica nem sequer arefeceu ainda. Falta apenas saber se a Coroa Inglesa estará agora pelos ajustes.

Com franqueza, José Saramago!

Não havia necessidade!

Comments:
Muito bem, muito engraçado!
 
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