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2009-11-23

 

A Face Oculta em Pasárgada

Andei para ali a postar o que de mais relevante li pela outra blogosfera (a dos jornais ) sobre as escutas, o segredo de Justiça e a Face Oculta exposta pelos media de acordo com as agendas políticas de cada emissor e que alguns utentes (ou todos?), escolhem de acordo com o que lhes dita o coração (e em parte a razão). Estava eu postando ali - como disse - o que escreveram alguns dos mais conceituados especialistas da matéria Costa Andrade ou José Manuel Correia Pinto (além de outras sumidades) quando esbarrei com Pasárgada no texto daquele ilustre prof de Direito Penal. Na primeira travagem deixei passar mas à segunda disse comigo desta não te safas. E aí mais abaixo poderão saborear o resultado.
Foi a minha opção, porque ao certo não sei se Costa Andrade se referia à outra Pasárgada, à antiga capital da Pérsia Aqueménida.  
Mas não vo-la mostrarei sem antes dizer que ter esbarrado em Pasárgada não o devo aos estudos facultados pela universidade mas à actividade cultural da Associação de Estudantes do IST, importantíssimo complemento (anos 60) à formação cultural e cívica que uma parte dos estudantes do IST, por uma razão ou outra, talvez por igorância, desperdiçava. Era um outro mundo o dos associativos. E esteve na origem da formação de muitos dos futuros cidadãos mais ilustres do país. Organização de exposições de artes plásticas, concursos de poesia, sessões de música erudita, cineclube, desporto, auto-governo, política e mais política.
Foi numa exposição de poesia organizada pelo meu amigo Rui Martins, na AEIST, que descobri Manuel Bandeira.

Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

Manuel Bandeira

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Comments:
Sim, esse poema de Manuel Bandeira, do livro Libertinagem,vale bem todas as teorias jurídicas sobre a validade das escutas...
E depois aquele "Vou-me embora para Pasárgada..." em vez "mi vou embora..." é um toque de bom gosto, ritmo e musicalidade que num brasileiro, embora um grande clássico, tem de ser mais enaltecido do que num português.
JMCPinto
 
Sim. Compreendo-o. Aproxima-se a hora de José Sócrates declamar este poema. Muito subtil.

A. Teixeira
 
Olá CP Seguindo o link ali facultado encontra-se esta explicação interessante do autor:
Vou-me embora pra Pasárgada” foi o poema de mais longa gestação em toda minha obra. Vi pela primeira vez esse nome de Pasárgada quando tinha os meus dezesseis anos e foi num autor grego. [...] Esse nome de Pasárgada, que significa “campo dos persas”, suscitou na minha imaginação uma paisagem fabulosa, um país de delícias [...]. Mais de vinte anos depois, quando eu morava só na minha casa da Rua do Curvelo, num momento de fundo desânimo, da mais aguda doença, saltou-me de súbito do subconsciente esse grito estapafúrdio: “Vou-me embora pra Pasárgada!”. Senti na redondilha a primeira célula de um poema [...]."
 
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