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2009-11-03

 

O Todo e as Partes (3)


Por um punhado de euros

Esse Vara. Esse Vara! 1º no Governo de Guterres com o caso da Fundação para a Prevenção Rodoviária, e logo, fresquinho ainda, na administração da CGD. As oposições rosnaram baixo, enquanto as maiorias assobiavam para o ar. O costume. Que se há de fazer? É o trajecto típico de ministros e secretários de Estado que pertencem ao clã do vou ali e já venho, à volta cá te espero. Depois do governo, uma vida de gestores de topo, nas empresas do Estado, ou equiparadas, onde o Estado tenha golden shares, enfim, mande no Conselho de Administração, dê ordens, apesar de o 1º Ministro vir dizer, de tempos a tempos, que não senhor, que quem manda lá são os accionistas, que sabem muito bem defender os seus interesses.

Pois sabem.

Vai senão quando, estava já Vara assente a aprender a ser banqueiro do povo, dá-se aquela moscambilha no BCP/Milennium, com o Berardo a gritar por um lado, o Jorge Jardim a gemer pelo outro, e os buracos financeiros a rebentar como bombas de carnaval, crédito mal parado perdoado a familiares, financiamento para compra de acções próprias, contabilidades criativas em paraísos fiscais. O Estado tem de intervir, tem de nacionalizar, mas como a crise ainda não se tinha declarado, nacionalisemos sem dar ar disso, pronto, excelente ideia, vai a Administração da CGD, em peso, para o BCP/Millennium, tomem-me lá conta disso, o sistema financeiro não pode aguentar tanta ameaça, os banqueiros não são todos os mesmos, mas há alguns mesmos que são muito parecidos com os outros.

Já no seu descanso do BCP, Vara é assediado por empresários sem escrúpulos, entre eles o milionário da sucata (parece título de telenovela de tão sugestivo!) que trazia a PJ na peugada, desconfiada de que ele se andava a insinuar junto de gentes com influência para conseguir contratos e outros negócios de favor com empresas em que o Estado tem o lote dourado de acções.

Lê-se a imprensa e não se acredita. Dez mil euros? Mas para que quereria Vara dez mil euros? Por se ter esquecido da carteira em casa naquela manhã? Por distracção? Para não desfeitear o sucateiro? Ó pá, dá cá dez mil e não se fala mais nisso?

Putativos membros de um lobby tentacular (as notícias sublinham o "tentacular" para nós pensarmos naquela série italiana do Polvo, quase de certeza), arrastam-se pelas lamas da calúnia, os nomes dos Penedos, dos Barreiras, dos Costas, dos Contradanças...

O país contorce-se, convulsivo. Então a justiça não funciona, e a PJ gasta horas e horas atrás destes contrabandistas de influências, espiando-lhe os opíparos almoços no Mercado do Peixe, escutando-lhe as comunicações telefónicas, espreitando para dentro dos automóveis nas portagens?

Afinal há ou não há justiça? - perguntam-se os desabusados cidadãos, preocupados com este desnorte na administração das empresas públicas e privadas. No fundo, com uma ponta inconfessável de inveja por não pertencerem ao grupo mágico em que, entre o café e o armagnac, um deles se vira para o outro e lhe diz: passa para cá dez mil euros para me compensares de umas chamadas que tenho andado a fazer para tratar de assuntos do teu interesse...

E é aqui que o mortificado cidadão estaca, fica paralisado, com os olhos a rolarem nas órbitas de tantos pensamentos que se entrechocam e amarfanham.

Há aqui qualquer coisa que não bate certo.

Dez mil euros?

Mesmo que o resto batesse certo (favorecimento de negócios, influência política, corrupção activa, traição ética...), esta quantia não pode estar certa. Ou, se estiver, o cenário mais provável é o de Vara estar a preparar o seu regresso à CGD.

Se soubessem quanto o homem ganha por mês, não o punham a reclamar um montante tão exíguo.

Para que quereria Vara dez mil euros?

Os investigadores da PJ, tal como os jornalistas, não terão percebido que se tratava de uma anedota?

Comments:
O Godinho já não pode dar ao homem uns trocos para o café que é logo esta escandaleira toda!
 
Não desvalorize, Manuel Correia. O caso é grave.
 
A questão de fundo é que, ao contrário do que alguns procuram fazer crer, o Armando Vara nunca esteve sózinho nestes negócios. Na Fundação esteve com Luis Patrão que depois passou a chefe de gabinete do Sócrates e mais tarde foi nomeado para diversos cargos estratégicos.
De acordo com a edição de segunda-feira do Correio da Manhã, o ex-chefe de gabinete de José Sócrates Luís Patrão ganhou em 2008 7.000 euros por mês como vogal do Conselho Geral e de Supervisão (CGS) da TAP, um cargo que acumula com o de presidente do Instituto de Turismo de Portugal (ITP) (http://dn.sapo.pt/inicio/economia/interior.aspx?content_id=1283356)
Depois aparece neste cambalacho com a família Penedos. Os 10 mil euros correspondem apenas a um pagamento. Deve ser o preço de tabela por cada serviço.

Agora não é liquido que isto fosse apenas para seu usufruto pessoal. Ainda se lembram do livro do Rui Mateus e os esquemas de financiamento partidário? Pois...
 
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