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2009-11-09

 

Paradoxo do perdedor-ganhador

O PS ganhou as eleições. Vai governar. Isto é líquido.
Mas o PS foi também o único partido a perder uma parte substancial do eleitorado que o apoiou em 2005. Foram à volta de meio milhão de votos, 9 pontos percentuais e 24 deputados a menos.
Dito de outro modo: o PS foi o único partido que perdeu influência eleitoral nas últimas legislativas.

Ganhou o necessário para governar, mas houve 1/2 milhão de eleitores que não se deram bem com a escolha anterior.
Será caso para encolher os ombros, atribuir o desgaste à crise, à "erosão natural" que decorre da actividade governativa, e prosseguir no rumo anteriormente traçado?
José Sócrates acha que sim. Ou assim o diz.
Os eleitores que deixaram de votar no PS deverão ter, em princípio, uma opinião diferente.
Azar, parecem dizer os socialistas, se em vez de 500.000 tivessem sido o dobro ou o triplo, aí estaríamos perante uma indicação clara de desgosto com a governação anterior, mas, assim, o facto de nos ter sobrado a maioria relativa, faz a demonstração de que, apesar de tudo, o povão continua a preferir o nosso programa.

Os socialistas têm uma certa razão quando usam este argumento. De facto é difícil esmiuçar no programa do PS o que deveria ser retirado ou acrescentado de acordo com a debandada eleitoral, apesar de se perceber claramente que os restantes líderes partidários puxem a corda noutro sentido.

O PS optou por montar o cenário da virgem ofendida. Chamou todos lá a casa. Como ninguém mostrou interesse numa ligação duradoura, passou a lançar sobre as oposições, a toda a hora, em tom recriminatório, a ameaça velada: poque me vêm agora estorvar se não quiseram nada comigo?

Finge não compreender que o oferecimento geral só podia gerar ciúme e desconfiança por parte dos pretendentes. Qual a pureza deste sentimento que não afasta a hipótese de ir com qualquer um?

Porque não terá António Costa, em Lisboa, feito o mesmo?
Provavelmente porque está convencido de que as políticas municipais que preconiza não só se distinguem das do PSD e do CDS, como são, em muitos casos, contrárias às concepções que a direita sustenta.

Relativamente ao Governo da República, o PS é menos taxativo.

Já sabíamos. Mas com maioria relativa vai notar-se um pouco mais.





Comments:
Olhando bem à esquerda e à direita não sei qual a melhor parte se a de Sócrates se a de Manuel Alegre. Mesmo só à vista, esse PS, é material de primeira.
 
Parece-me que estamos de acordo em duas coisas.
Primeira, o PS ganhou as eleições e por isso, deve governar.
Segunda, o PS perdeu influência eleitoral face às últimas eleições, mas continua a ter
maior influência eleitoral que o PSD e muito maior do que os outros partidos.
Há uma questão a que o Manuel Correia responde com uma interrogação, ou seja, não responde, mas que devia responder para percebermos o seu pensamento: deve o Governo continuar a seguir o rumo anteriormente traçado?
Eu respondo o que penso: deve continuar, no essencial, como está indicado no seu Programa, sem prejuízo das correcções, melhorias e adaptações que a avaliação das causas da perda de alguma influência que teve, a situação concreta e a experiência forem exigindo, porque foi essa, claramente, a vontade expressa pelos eleitores. O que o Governo não deve fazer é seguir o rumo indicado pelos diferentes partidos da oposição, porque esse não é, claramente, o rumo que os eleitores pretendem. E no que respeita, em particular, ao PCP, ao BE e partidos que o geraram (UDP e PSR) e ao CDS/PP é um rumo em que, desde o 25 de Abril, estes partidos têm, permanentemente, vindo a insistir, mas que os portugueses sempre disseram não querer seguir.
Daqui não se pode concluir, como é evidente, que a acção e o papel destes partidos é nefasto ou inútil. Muito pelo contrário. Mas pode-se concluir, certamente, que estes partidos devem tirar as devidas conclusões dos resultados eleitorais.
 
O Mário Lino continua a fingir que não percebe que, independentemente da distribuição da correlação de forças de cada partido, a esmagadora maioria do eleitorado não gostou da acção governativa do PS e é contra muitas das medidas que querem implementar.

Neste caso o facto do PS governar não o isenta da necessidade de respeitar o sentimento maioritário do povo português, mesmo que dividido por vários partidos.
Além disso também muitos que votaram no PS por fidelidade clubística gostariam de ver mudanças significativas no rumo da governação.
 
Desde logo é vergonhosa a forma como o investimento público está a ser todo concentrado em Lisboa e o resto do país tem sido deixado ao abandono. Na perspectiva deste governo o resto do país só serve para barragens e eólicas. Basta ver o folhetim em que transformaram o alargamento do Metro do Porto, a ser constantemente adiado e com o governo a falhar todos os compromissos assumidos.
 
É verdade que 36,3% do eleitorado votou PS e, portanto, 63,4% do eleitorado não apoiou as propostas do PS. Mas, João Manuel, seguindo este seu raciocínio, então 29,1% do eleitorado votou PSD e, portanto, 70,9% não apoiou as propostas do PSD. E dispenso-me de fazer idênticas contas para os outros partidos.
Ou seja, o João Manuel continua a fingir que não percebe que, independentemente da distribuição da correlação de forças de cada partido, uma muito maior esmagadora maioria do eleitorado não gostou da acção oposicionista de cada um dos outros partidos e é contra muitas das medidas que cada um desses partidos defende para o País.
Quanto à questão da concentração do investimento público em Lisboa, vejo que o João Manuel está muito mal informado. No que se refere, por exemplo, aos sectores dos transportes e das comunicações, remeto-o para o Balanço da Actividade do MOPTC durante a anterior legislatura (ver em http://www.moptc.pt/tempfiles/20091021181407moptc.pdf) e, depois, podemos discutir o assunto.
 
...

A conversa vai animada por aqui. Interessante. Gostaria que o autor do poste me explicasse que sentido tem a ilustração. Não atino.

Marques Vinhas
 
Caro Marques Vinhas,

a ilustração do meu poste personifica a crise. Apresenta-se de tal forma que todos se sentem tentados a aproveitar-se dela ou, pelo menos, a lançar-lhe um olhar concupiscente.

Tinha de vir em corpo de mulher e em banda desenhada para ensandecer completamente o imaginário masculino.

Esqueci-me da legenda: "A lascívia da crise".

Obrigado por ter perguntado.
 
Pois..., estou a ver.

Em fundo de crise. Chama-se a isso uma saída pela esquerda baixa. Se fosse assim, teria por certo corrigido Raimundo Narciso que fez uma interpretação mais doméstica.

Não quer assumir que a boneca representa o PS a "chamar todos lá a casa"?

Marques Vinhas
 
Caro Marques Vinhas,

também está muito bem observado. Não confirmo nem desminto. O que cada um lá vir é o que está a sentir. Contra isso não posso nada.
 
"Porque não terá António Costa, em Lisboa, feito o mesmo?"

Porque não tem maioria na Assembleia Municipal e precisa da CDU.
 
Caro Luis,

o "mesmo" era convidar "todos" para ver quem queria dançar.
E essa do José Saramago não ter apoiado António Costa aproxima-se perigosamente da balbúrdia com Carvalho da Silva, não acha?
Para quê tentar tapar o sol com uma peneira?
 
Não, o Saramago disse exactamente o mesmo que eu disse a um dos meus irmãos que foi candidato na concorrência: "Felicidades, pá, vais ter que dar muita corda aos sapatos!". E ambos sabíamos que cada um votava no seu.
 
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