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2009-12-12

 

O inesperado destino das cartas anónimas (2)





Os jornalistas sabem, por certo, que as entrevistas a arguidos notáveis (os restantes, por definição, não têm acesso aos media clássicos) comportam duas especiais vantagens estratégicas para os entrevistados além, é claro, da probabilidade de influenciarem os magistrados. Uma delas tem a ver com a "destruição" de provas. Um facto que o processo trata como singularidade, ao tornar-se público, perde potencial probatório. O expediente foi amplamente usado no caso "Casa Pia". Sempre que tal sucede, o jornalismo não está a contribuir para o esclarecimento público acerca das matérias em apreço. Está apenas a reforçar a defesa de uma das partes.
Por outro lado, enquanto uma testemunha é sancionada se se vier a provar que mentiu no decurso do inquérito, o suspeito, na sua condição de arguido, pode mentir para se defender. A lei não o sancionará especificamente por ter mentido.


Impõe-se que os responsáveis dos media façam uma curta introdução para nos lembrar (pelo menos) destas duas extraordinárias prebendas que vão oferecer a quem entrevistam, em casos semelhantes.


À luz desta reflexão a entrevista de Judite de Sousa a Armando Vara serviu apenas para pintar o que poderia ser o esboço de uma criatura inocente que as guerras entre tribos partidárias colocaram em maus lençóis.


Para além do mais, Armando Vara personifica a promiscuidade entre a política e a finança. Foi a potência política que para o "castigar" relativamente ao caso da Fundação para a Segurança Rodoviária, fez dele banqueiro, primeiro da CGD e depois do BCP. É um pouco tarde para se queixar da dimensão pública de alguns dos seus actos e cedo de mais para se tirar conclusões acerca de mais este imbróglio.


Comments:
Manuel Correia

Não quero arvorar-me em defensor de Armando Vara e muito menos contribuir com um miligrama que seja para a impunidade da corrupção em Portugal.
Mas não posso negar que fui sensível a dois factos: o primeiro respeita a mentiras que meios ligados ao inquérito puseram a circular, imputando a Vara factos gravíssimos que o processo (já se percebeu) de forma alguma comporta; o segundo tem a ver com a segurança e a inteligência com Vara afrontou os media, tanto depois das inquirições de Aveiro como na entrevista à Judite (que estava obviamente de posse de todos os elementos relevantes do processo).
Por último, comparar Vara aos arguidos da Casa Pia ou aos mais mediáticos não releva de uma observação imparcial. Francamente, não há comparação
 
Concordo genericamente com o texto deste post.
Gostaria no entanto de acrescentar o seguinte.
No essencial Vara usou repetidamente durante a entrevista o seguinte "silogismo" falso:
Um crime que não foi cometido não pode ser provado logo um crime que não pode ser provado não aconteceu.
Repetiu explicitamente a primeira parte do enunciado várias vezes e insinuou apenas, habilmente, a segunda.
 
J.M.Correia Pinto,

a comparação com o processo Casa Pia é feita em abstracto. Aí, o meu ponto é o da possibilidade de um arguido "queimar" provas através dos media. Daí ter comparado o "expediente" e não a substância. Lamento que uma comparação de "expedientes" tenha levado à suposição de que eu estaria a confundir o carácter e a substância dos processos.

A louvável inteligência de Vara e a pose adequada também me impressionaram. Por isso, apontei dois ou três exemplos que contrastam com um script bem estudado.

O que é mentira e o que é verdade neste caso permanece nebuloso. A empatia que Armando Vara criou com os telespectadores não altera o fundo da questão. Está no seu direito de falar quando lhe convém, de se calar quando quiser e de defender-se de eventuais falsidades contra a sua pessoa.

De qualquer modo, obrigado pelo comentário.
 
Obrigado também ao Penim Redondo pela reflexão. De facto a análise da estratégia discursiva de Armando Vara revela alguns "expedientes" menos inteligentes.
Um exame mais circunstanciado do discurso revela o esquema que Penim Redondo destaca.
 
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