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2011-02-20

 

Onde estavam os pobres do Egipto na revolução?

"Nos bairros miseráveis do Cairo não há Facebook, nem empregos, nem escolas, e as pessoas mal souberam que se preparava a queda do regime. Nos cafés de Berek el Khiem ou Al Azhar e El Gamalia ninguém se lembrou de ir manifestar-se para a Praça Tahrir. Chegaram atrasados à revolução e ela agora também pouco poderá fazer por eles. Por Paulo Moura, no Cairo"

Paulo Moura foi ao bairro Berek el Khiem, do tamanho de uma cidade, nas margens do Cairo.
Eis alguns extratos da excelente reportagem que dá a conhecer um dos lados da sociedade egípcia, um lado com 40 milhões de pessoas, indispensáveis para imaginarmos o futuro da "revolução" a qual não será apenas decidida pelos jovens instruidos e abnegados que estiveram na primeira linha da Praça Tahrir

“Pelas ruas de terra, cheias de buracos e atapetadas com dejectos, passam carroças puxadas por burros, passeiam ovelhas e cabras. Há pó e lixo por todo o lado, bancas onde se vendem pacotes de bolachas muito velhos, lojas sem nada e talhos com carne de camelo visivelmente podre, coberta de moscas, a 45 libras (6 euros) o quilo. As vielas cheiram mal e estão cheias de crianças.”

 “Jamil é um jovem da geração Facebook, tem 19 anos, … veste um blusão roto, está descalço e tem os pés sujos, não sabe ler e vive num bairro onde no único cibercafé existente os computadores não têm ligação à Internet.”
São muito antigos, têm jogos.

“Sabem o que se passou na Praça Tahrir? "Não", diz Jamil. "Problemas, não é?" Riem todos. São alegres e cultivam um certo estilo de rufias, nos cabelos e barbas. Só um deles alguma vez trabalhou: Samir. Andou a esgaravatar no lixo, procurando coisas para vender. Chegou a fazer 30 (4 €) libras por dia. É um negócio bem montado no bairro, com um circuito definido e gente nas várias fases da operação. Se há uma especialidade em Berek el Khiem, é esta. Sabem de lixo como ninguém.”

Que fazem aqueles egípcios, aqueles egípcios do grupo dos 40 milhões de pobríssimos, dos que travam uma luta diária e desesperada para sobreviverem? Querem Liberdade, prezam a democracia? Estão contentes com a queda de Mubarak?
Querem comer, querem sobreviver, depois disso, depois de terem um almoço e um jantar, bem… então mesmo analfabetos, rotos e sem saberem bem em que mundo estão, podem discutir essas coisas da “política”.
Em que se ocupam? De tudo o que lhes dê um retorno que garanta comer. O bom e o mau. Salvar ou matar.

"…Salama, que tem 9 filhos, dois deles já casados e também com filhos. Vivem todos no mesmo apartamento, de 50 metros quadrados, arrendado por 300 libras (40 euros) mensais. Dezassete pessoas no total. "Deve ser bom. Estou contente", diz ele da revolução. Só soube agora, quando a televisão estatal falou finalmente do assunto. "Caras novas, é sempre bom."
“Mohamed el Saedy vive com a mãe e uma irmã num velho apartamento de duas divisões. É solteiro, tem 42 anos, e a única vez que realmente trabalhou foi há sete, como empregado de um café.

“... Nas últimas legislativas, ajudou um independente e um outro do PND, o partido do poder. "Ajudar" significa comprar votos no bairro. "Eles davam-me o dinheiro, e eu levava as pessoas a votar, mediante uma pequena gorjeta", explica Mohamed em frente ao prato de feijões cozidos que é a sua refeição do dia.
"Quando acabou a votação, Mohamed tinha outra tarefa: ficar na mesa de voto, antes da contagem e depois de a polícia fechar as portas para não deixar entrar mais ninguém, a preencher boletins com uma cruz no PND. "Fiquei lá dentro duas horas, com uma resma de boletins em branco à minha frente. Ainda preenchi umas largas centenas. Recebi 50 libras [59 euros]."

“Quando, a 2 de Fevereiro, a Praça Tahrir foi atacada por grupos armados supostamente pró-Mubarak, foi Mohamed el Saedy quem recrutou o contingente do seu bairro. "Uns tipos do partido, que eu conheço, vieram pedir-me. Disseram que era para uma manifestação. Se tivessem explicado que era para a violência, eu não teria colaborado. Sou contra isso", diz, sentado num sofá imundo, por baixo de um quadro com uma frase do Corão, outro com cavalos numa planície e outro com um xeque de barbas. "Paguei 30 libras [35 euros] a cada um dos rapazes. As pessoas aqui fazem qualquer coisa por dinheiro."

Quando, aqui na mesa do café, traçamos o futuro da revolução no mundo árabe teremos que contar com toda a realidade, (interna e internacional) incluinda esta que Paulo Moura relata. E temos de ter presente que uma coisa é fazer cair um ditador e outra é fazer uma revolução. A primeira pode exigir 18 dias de heroísmo, a segunda pode exigir 18 anos de perseverança, de inteligência e daquele quotidiano heroico que não aparece nas televisões.

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Comments:
O problema é que se vier "a democracia" a experiência não se perde. Agora os destinatários poderão ser outros. A "profissão" de comprar votos já lá está. Se aqui em muitos sítios funciona e até no interior dos partidos!
 
Comprar votos, arregimentar, trafulhar votos é prática democrática em todos os partidos portugueses. As técnicas é q são diferentes. Disseram-me que um tal deputado que esteve na AR muitos anos só lá estava porque era um homem de mão de um cacique do partido para trafulhar eleições, fichas de militantes e coisas do género. A gangrena passa por dentrodos partidos.
 
O lumpen proletariat e a sua acção nas revoluções já foi definido e estudado por Karl Marx há quase 160 anos. Ver Manifesto Comunista
 
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