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2011-05-08

 

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Fernando Pessoa 1931-04-01
Publicado in Presença, n.º 36, Novembro de 1932.

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Comments:
Caro Raimundo,
Obrigado pela partilha e pela escolha que, de tão excelente, me chega já comovente...
Um abraço.
 
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