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2011-07-09

 

À mercê dos mercados

Como se tem visto e ouvido por aí, as opiniões são muito contraditórias quanto aos efeitos que se pretende alcançar com a aplicação do programa imposto pela troica a Portugal.
Oficialmente trata-se de uma receita para:
1) diminuir o défice das contas do Estado. Este ano para 5,9% do PIB e depois até 3% do PIB em 2013.
2) Promover o crescimento da economia e assim tornar sustentável ( pagável ) a dívida acumulada pelo Estado, cerca de 150.109 . 
Mas a troica, em representação dos mercados, impôe também a metodologia. O como se deve fazer. E aí é que  o gato escondido fica com o rabo de fora. É que a troica ao impôr que o Estado privatize depressa, em dois ou três meses, grandes empresas públicas está a obrigar o Estado a vender aos privados, isto é ao grande capital financeiro, estrangeiro seguramente, porque internamente há pouco dinheiro, a preço de saldo, empresas estratégicas para a soberania e que no fundo são propriedade de todos nós. Constrangidos a vender à pressa pelos patrões da troica, com o apoio entusiástico e saloio de Pedro Passos Coelho, Cavaco e Ciª, faz-se a transferência de centenas de milhões de euros do património dos Portugueses para o bolso dos grandes capitalistas.
É, de facto, um roubo descarado a todos nós.
Mas há uma outra consequência escondida muito importante para os bancos e fundos a quem hoje o Estado Português deve o dinheiro. É que, praticamente, o dinheiro que a UE, o BCE e o FMI nos vão emprestar, 78 mil milhões de euros, a um juro alto mas menor do que o conseguiríamos no mercado, mas de curto prazo, não nos permite diminuir a dívida mas permite-nos neste meio tempo pagar aos mercados financeiros (ao capital privado) livrando-os assim de dívidas mal paradas que são transferidas para o bolso dos contribuintes dos países que sustentam e financiam o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira, o BCE e o FMI.
Eis o milagre.
Com o seu plano a troica salva os banqueiros milionários das dívidas malparadas dos países em dificuldade e atira para o bolso do comum cidadão europeu (e, em parte, de outros continentes, no caso do FMI) o perigo de dívidas que não há a certeza de poderem ser pagas ou que quase certamente não serão pagas na totalidade.
Que fazer então? Havia outras medidas.
Potenciar a nossa capacidade de negociar concertando (ou ao menos tentar) posições com a Grécia, a Irlanda e a Espanha, para mudar o paradigma: "somos muito diferentes da Grécia", ou a Espanha:  "somos muito diferentes de Portugal". 
Cumprir a diminuição do défice, mas fazendo recair nas camadas mais ricas uma muito maior e significativa contribuição. Não privatizar as empresas mais importantes e rentáveis. Exigir renegociação dos juros e dos prazos. Porque uma coisa é sabida de toda a gente: com as medidas recessivas impostas pela troica não é possível conseguir o essencial, o crescimento  da economia. Por isso esta meta não passa de uma demonstração de cinismo.
Há alguma capacidade de êxito da imposição de renegociação porque o que está em causa e isso vai ficando cada dia mais claro é o ataque ao euro, como o demonstram as Moody's. E se  a UE não tomar as medidade indispensáveis e conhecidas da defesa de cada um dos seus membros quer o euro quer a UE terão os dias contados.

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