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2013-01-27

 

“O enorme êxito da ida aos mercados”

“O enorme êxito da ida aos mercados” em 23 de Janeiro é o último episódio da propaganda do governo para distrair o eleitorado da gravíssima situação a que a sua política conduziu Portugal.
Que “vitória” foi esta da ida aos mercados? O governo ajustou com um grupo de banqueiros (Barclays, BES, Deutsche Bank e Morgan Stanley) a procura de quem lhe emprestasse 2,5 mil milhões de euros por um prazo de 5 anos e esses banqueiros conseguiram a “proeza” de encontrar  quem o emprestasse o que levou Ricardo Salgado, do BES, a elogiar muitíssimo essa operação em que ele participou e a elogiar muitíssimo o governo que assim revelou ir pelo caminho certo para os banqueiros o país.
Vale a pena ir ao detalhe desta  “ida aos mercados”.  O empréstimo foi conseguido a uma taxa de juro de 4,891%, muito boa para os "mercados" mas também melhor para Portugal que a 7 de fevereiro de 2011 teve de contrair um empréstimo com a taxa de juro de 6,4%. Mas aquela continua a ser uma taxa de juro sem sustentabilidade, isto é, trata-se um empréstimo que como os outros, com esta taxa, continuamos a não conseguir pagar porque não temos hoje nem a curto prazo, provavelmente nem na próxima década, a expectativa de crescimento médio da economia a, digamos 2,5 ou 3%  ao ano. Foi uma grande vitória? Nem grande nem pequena, sem crescimento da economia é a expressão da continuação da trajectória de desgraça a que conduziram os trabalhadores e as classes médias.
Mas, mesmo assim, o governo poderá vangloriar-se, não? Pois não, porque este “mérito”, apesar de todo insuficiente, deve-se não ao governo mas ao facto de o BCE, há alguns meses atrás, ter garantido aos mercados a recompra dos títulos das dívidas soberanas. Por isso a Irlanda também foi agora aos mercados e obteve dinheiro a juro ainda mais baixo que Portugal. Mérito de Passos Coelho? Mérito da Irlanda? Mérito das garantias dadas pelo BCE.
Então como se explica esta aparente euforia do Governo? Pela ingente necessidade de fazer esquecer o fracasso da política que tem seguido e que tem tido como resultado:
·         um alarmante aumento do desemprego (passou de 11,1% no início de 2011 para mais de 16,3 no início de 2013 ),
·         a fome para dezenas de milhar de famílias;
·         a diminuição da assistência à saúde com os cortes de verbas para o SNS;
·         a diminuição da qualidade do ensino, da investigação e da ciência com a diminuição do seu orçamento, hipotecando o futuro do país, numa área onde se tinham conseguido assinaláveis êxitos;
·         do aumento da emigração nomeadamente de licenciados e quadros técnicos e científicos;
·         o aumento da dívida do Estado que passou de 94,5% do PIB no primeiro trimestre de 2011 para 120% no fim de 2012;
·         da incapacidade em reduzir e mesmo cumprir a meta do défice de 4,5%  do PIB que acordou com a tróica para 2012 (garantia dada pelo min Gaspar na AR ainda em 14 de Março de 2012) nem cumprir a nova meta de 5% renegociada se excluirmos as “engenharias” financeira da venda da ANA como se confirmará em breve.
Mas apesar de tudo isto como se compreendem os elogios da tróica? Estes, apesar de conjunturais, são explicáveis, pois são elogios a si própria e uma forma de encobrimento do fracasso que também é dela. No entanto o governo apenas faz o que a União Europeia, a Zona Euro ou mais precisamente a tróica impõe!
Sem dúvida que o mal não reside apenas no governo português, as condicionantes externas são muito adversas porque a Europa tem aplicado desde há uns pares de anos, como bem o caracterizou o Público (o de Espanha), a orientação política do “Tea Party” que a extrema-direita americana não tem conseguido, apesar de tudo, impor a Obama.
Então não há razão para nalguma medida desculparmos o impreparado Passos Coelho, o  técnico de finanças Gaspar, o “dr” Relvas, o “ministro” António Borges e o “ministro” Carlos Moedas, que trazem a experiência do Goldman Sachs? Não, não há razão para lhes perdoarmos. Este 1º M das “jótas”, não é apenas um “aparatchic” que contrariado se vê obrigado a seguir esta política. Não, ele quer e tem-no afirmado repetidamente,  ir para além da “tróica”. Faz o papel do lacaio que se esforça na lisonja ao seu senhor. Faz o papel do antigo cipaio colonial que encarregado nas roças, em Angola, de aplicar 50 palmatoadas aos trabalhadores castigados pedia autorização ao capataz para dar 60.
Temos um 1ºM que envergonha o país. Um senhor que, como candidato a governante, fazia gala em dizer que queria o FMI em Portugal. Oferecia-se ao poder financeiro local e ao que impera na Europa para governar, com empenho e alegremente, sob a sua tutela. Temos um primeiro-ministro que não assume a defesa dos interesses de Portugal e dos portugueses e antes se assume como advogado dos credores agiotas.
Tenho para mim que a incultura do1º M, a ignorância do que é um país e um povo, uma vida partidária formatada pelo carreirismo aparelhístico, uma “vida empresarial” assente afinal… na mama do Estado… tenho para mim que esta experiência de vida não está associada a qualquer doutrina ou ideologia. Está associada apenas aos poderes fácticos e que são os dos banqueiros e financeiros. É, para usar uma imagem de Freitas do Amaral, o diligente e aparatoso rapaz que carrega a pasta do chefe, na esperança certamente de que no futuro lhe caiba qualquer coisinha.

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