2007-04-03
A Revolta da Madeira - 1931 (4)
Ontem, num jantar, no restaurante da ordem dos Engenheiros, em que estiveram presentes 73 pessoas, na sua grande maioria (>90%), nascidas na Madeira, mas residentes em Lisboa, debateu-se a Revolta da Madeira de 4 de Abril de 1931.
Foi convidado, para introduzir o tema, o deputado do grupo parlamentar do PS, João Soares, não na sua qualidade de deputado, mas na de quem organizou um livro, publicado em 1979, sobre este mesmo tema.
A escolha, tendo em conta as opiniões expressas, foi bem sucedida. Na verdade, João Soares apresentou-se em grande forma e a sua introdução ao tema foi excelente.
Numa análise marcadamente pessoal, acho que João Soares fez um enquadramento nacional e internacional da Revolta da Madeira, muito rigoroso
Quanto à participação da população da Madeira nesta revolta, há perspectivas diferentes. Sobre este aspecto, João Soares defendeu a tese de que, apesar do líder máximo, o general Sousa Dias, não ser madeirense, a participação do povo foi elevada.
Pelo que tenho lido sobre o tema, inclino-me para esta tese. Aliás, na revolta da Madeira, que durante 28 dias desafiou o regime saído do 28 de Maio de 1926, houve uma grande participação de quadros madeirenses (civis e militares) e várias manifestações da população de apoio à revolta, com todas as consequências que isso acarreta.
Daí a tese de que os deportados continentais se aproveitaram de um ambiente propício reinante, desde há vários anos, contra medidas do governo central que prejudicavam a população madeirense, para desencadear a revolta da Madeira, na sequência da revolta da farinha de Fevereiro de 1931, tenha grandes debilidades de sustentação. O ambiente contra o governo central era tenso na Madeira, pois muitas das medidas tomadas eram lesivas dos interesses da população, pois visavam a instituição de monopólios com os consequentes efeitos negativos na vida dos povo como a subida dos preços dos bens.
Daí que era só lançar a acha ....
2007-03-31
A Revolta da Madeira - 1931 (1)
No próximo dia 4 de Abril passam 76 anos sobre a Revolta da Madeira contra a ditadura instalada em Portugal 5 anos antes (1926).
A Madeira revolucionária durou 28 dias - o maior tempo que qualquer tentativa de derrube do regime durou, antes do 25 de Abril de 1974.
Durante esse período, a Junta Revolucionária da Madeira, presidida pelo General do Exército Adalberto Gastão de Sousa Dias, criou um embrião de governo provisório que tomou medidas de alcance económico e social e algumas iniciativas diplomáticas, como o reconhecimento da República Espanhola.
Há quem olhe para a revolta da Madeira como "um produto importado", ou seja, como um produto com origem nos deportados pelo regime para a Madeira que, então, seriam cerca de 200, entre civis e militares.
Não domino o problema em profundidade. Mas uma leitura tão simples dos acontecimentos coloca-me profundas dúvidas, não só porque, nos próprios dirigentes da Revolta havia muitos madeirenses, quer civis quer militares, por exemplo, as duas únicas subsecretarias do governo provisório, dirigido pelo general Sousa Dias, foram ocupadas por madeirenses: a da economia pública pelo dr. Manuel Gregório Pestana Júnior e a do comércio e comunicações pelo capitão engenheiro Frazão Sardinha, mas ainda e, mais determinante das minhas dúvidas, porque este acto de rebelião contra a ditadura dá-se num processo de sucessivas lutas da população da Madeira contra medidas do governo central de que é bem conhecida a "revolta da farinha" dois meses antes e, apesar do insucesso da Revolta de 1931, das prisões e deportaçãoes, as lutas continuaram com grande intensidade pelo menos até 1936, com a não menos conhecida "revolta do leite".
Como diz o dr. João Soares, que, no próximo dia 2 de Abril, vai introduzir este tema num jantar/debate essencialmente de gente ligada à Madeira, no seu livro "A Revolta da Madeira - documentos", publicado em Abril de 1979, esta revolta veio endurecer, no futuro, as medidas repressivas do regime.
A Revolta da Madeira - 1931 (2)
A Revolta da Madeira um "produto importado - estrangeirado" ou não?
Alguns factos e enquadramento que prosseguirá no próximo post com "a revolta da farinha".
Acerca dos factos: As primeiras décadas do século XX foram muito gravosas para a Madeira, em termos económicos.
O século XX inicia-se na Madeira com uma série de inovações. É a introdução do automóvel, do cinema, do gramafone, do fonógrafo, do raio X e do desenvolvimento da electricidade. Mas a estas inovações apenas tem acesso uma muito pequena minoria da população, na medida em que mais de 70% da mesma vivia de uma agricultura de subsistência (uma capitação média de 30 escudos/mês)
Asim, a emigração sempre foi um desafio e um destino do madeirense e através dela algum dinheiro era injectado na economia local, o que contribuia para minorar o baixo nível de vida da sua família.
Acontece que as primeiras décadas do século XX e, designadamente a 2ª e 3ªdécadas, foram de grandes crises, que ainda se agravam nos finais dos anos 20 e princípios de 30, com as consequências da grande crise económica mundial de 1929/33 que vem afectar em preço e quantidade as exportações dos produtos da Madeira (bordados, vinho, turismo) que, juntamente com as remessas da emigração, injectavam dinheiro na economia madeirense.
A crise do bordado afectou, segundo alguma informação disponível de então, cerca de 70 000 pessoas numa terra com 200 000 pessoas: 50 000 bordadeiras de campo e os restantes trabalhadores em cerca de 100 casas de bordados existentes no Funchal. Esta crise atingiu uma tal dimensão que as exportações se reduzem a metade entre 1924 (2853134 dólares) e 1930 (1258641 dólares). Neste contexto, cerca de 50% das pessoas trabalhando nesta actividade ficam no desemprego.
É a crise do vinho porque aparecem outros países na concorrência, a preços mais compettivos.
É a crise financeira em que algumas casas bancárias como a Henrique Figueira da Silva, mais conhecida pela casa Henrique Figueira, suspendem os pagamentos. E, neste caso, ao contrário do que aconteceu em Lisboa com Alfredo da Silva, o governo central nada interveio.
É a descida do preço da cana sacarina que provoca manifestações junto do Governo Civil do Funchal a exigir soluções (Junho de 1922), crise mais tarde agravada com o célebre decreto nº 14168 de 1927 que levou ao encerramento de fábricas de aguardente e álcool bem como à proibição do fabrico de aguardente vínica que durante anos era comprada aos agricultores para uso no fabrico do vinho Madeira.
A revogação deste decreto, considerado pela imprensa local, pelas associações de agricultores, sindicatos e políticos madeirenses, "uma calamidade da nossa economia" foi pedida várias vezes ao governo central que nunca atendeu a essa solicitação e, antes pelo contrário,reforçou vários monopólios (acúcar, álcool para o vinho e bebidas, importação de açúcar para refinação, comércio de açúcar etc.,) onde o grupo W. Hinton & Sons beneficiou de um grande quinhão.
2007-04-01
A Revolta da Madeira - 1931 (3)
O decreto nº 19 273, de 26 de Janeiro de 1931, que os madeirenses apelidaram de "decreto da fome" causou uma grande repulsa e uma unânime rejeição.
Logo no dia 27, associações de classe, organismos, entidades administrativas e imprensa local manifestam-se contra o decreto, enviando telegramas ao Governo a pedir a sua imediata suspensão.
Ora este decreto vinha, de novo, impedir a livre importação de farinha e trigo, conquistada com tremendas lutas anteriores, e instituir de novo o regime de monopólio, uma vez que tal importação era dada em exclusivo a um grupo de moageiros.
Perante este decreto, a população movimenta-se e, a 29 de Janeiro, dá-se a primeira manifestação em frente ao Palácio do Governador Civil, o Palácio de S. Lourenço.
O governador militar, coronel José Maria de Freitas, promete intervir junto do Governo no sentido de revogar o decreto.
Passados uns dias, a população sente-se enganada, pois o decreto é publicado e, assim, no dia 4 de Fevereiro inicia-se uma greve de 3 dias, durante a qual alguns moageiros são levados a publicamente discordar do decreto.
No dia 5 de Fevereiro, aderem à greve os taxistas. Há várias manifestações populares pela cidade e tentativas de asslto aos moageiros.
Dia 6 de fevereiro, é a paralização global, com a adesão dos trabalhadores marítimos, continuando as tentativas de assalto aos moageiros. Durante estes dias de greve, o comércio também fechou em solidariedade a estes "atentados" contra a economia da Madeira, da responsabilidade do goveno central.
É esta reacção da população que ficou conhecida pela "revolta da farinha", dois meses antes do 4 de Abril de 1931 que abordaremos mais em detalhe num post seguinte.
2005-04-04
A Revolta da Madeira: 4 de Abril de 1931
1931 foi um ano muito agitado para a ditadura portuguesa. Há quem lhe chame "o ano de todas as revoltas".No dia 4 de Abril, desencadeou-se a revolta na Madeira que durou até 2 de Maio, dia em que a Junta Revolucionária presidida pelo Gen. Sousa Dias se rende perante a desvantagem de meios e de homens face ao poderio que entretanto o Governo Central fizera deslocar para lá. Pelo meio, há a registar umas quantas traições de governos estrangeiros como o de Inglaterra e Brasil, sendo um pouco obscuro neste processo o papel do então Bispo do Funchal.
Esta revolta tem a sua origem em problemas regionais, designadamente, uma grave crise económica na região, mas também foi incentivada por um ambiente criado por um núcleo elevado de deportados militares, entre eles o próprio Gen. Sousa Dias, apesar de ele e outros não terem participado no desencadeamento da revolta na manhã de 4 de Abril. Só depois de consumada a vitória nesse mesmo dia, com a prisão das autoridades e a ocupação dos serviços públicos pelos revoltosos e lida a "Proclamação ao Exército e à Nação, é que os deportados aderem.
A revolta encaixava-se num plano mais vasto. Havia muitos contactos no Continente, nas colónias, nos Açores, onde se deram quase em simultâneo levantamentos em várias ilhas, e com núcleos no estrangeiro, designadamente Paris e Galiza.
No entanto, muitos foram "os desentendimentos e as falhas entre as diferentes oposições" e o resultado foi a prisão e a grande perseguição do regime ditatorial aos envolvidos.
Hoje, em Lisboa, um grupo de madeirenses encontra-se num jantar para debater este facto. Como se lê no DNotícias da região trata-se da "REVOLTA DA MADEIRA" em Lisboa.
