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2021-02-14

 

BANIR OU NÃO BANIR O CHEGA

Texto de Eugénio Lisboa.        (Imagem do Puxapalavra)

A minha ex-colega na embaixada de Portugal, em Londres, Ana Gomes, pessoa cuja inteligência, energia e coragem muito admiro – tendo um invejável percurso em defesa de grandes causas – fez recentemente uma participação à PGR no sentido de se ilegalizar o CHEGA. 

O assunto é complexo e o paradoxo democrático que implica não é de hoje. António Barreto, no Diário de Notícias, classifica expeditamente o acto da diplomata portuguesa, sem a ela explicitamente se referir, como estúpido e irracional. Acho curioso e um bocadinho bizarro um juízo tão expedito e sumário sobre uma perplexidade que tem preocupado os filósofos desde Platão para cá: a de saber-se se os tolerantes devem ou não tolerar os intolerantes. Há quem pense que sim, seja qual for o grau de intolerância, a bem da pureza da democracia. 


O notável filósofo Karl Popper chamou a isto o “paradoxo da democracia” porque, se por um lado, não aceitar tolerantemente a intolerância dos outros pode ferir a imagem da democracia, por outro, aceitá-la pode levar à morte dela. O problema não é de fácil solução, pelo que não deve ser despachado à pressa, com dois qualificativos injuriosos. 

No seu notabilíssimo livro – The Open Society and its Ennemies – Popper pronunciou-se, não só do alto da sua imensa cultura filosófica e científica, mas também ao sabor da sua experiência de cidadão germânico que assistiu ao assalto ao poder congeminado pelas hostes de Hitler, que a República de Weimar não quis ilegalizar (mesmo depois de Hitler ter deixado bem claro ao que vinha). A democracia alemã jogou o jogo da democracia impoluta e os nazis aproveitaram-se dessa fraqueza para se alcandorarem ao poder, alterando então as regras para se perpetuarem nele. Ficou-se à espera do “crime cometido” para só então se poder “democraticamente” agir. Simplesmente, uma vez cometido o crime, já era tarde para o punir e corrigir.

Quando se diz que, só quando o CHEGA cometer um claro atentado violento (“tiros e pistolas”) contra a democracia, se poderá ilegalizá-lo, está-se a escancarar a porta a uma tirania. A verdade, repito, é que o partido nazi já tinha deixado bem claro ao que vinha, e não me parece particularmente sensato que se tenha ficado à espera de ele destruir toda a Europa, para, finalmente, se intervir.

O CHEGA já deu claramente indícios de que não quer jogar o jogo da democracia e quem não quer jogar segundo as regras do jogo não deve sentar-se à mesa de quem joga. Pode ser que assim, como se diz, a democracia fique ligeiramente imperfeita, mas é preferível ficar com ela imperfeita a assistir ao seu suicídio, a bem da pureza. 

A perfeição não é deste mundo e eu prefiro viver com uma democracia um bocadinho imperfeita a cair de novo na ignomínia de um regime regido por um tiranete. Os demagogos intolerantes e famintos de poder fazem-me e sempre me fizeram mau sangue. Como dizia o meu admirado Jean Rostand, grande biólogo, excepcional escritor e admirável pensador aforístico, “há, na intolerância, um grau que confina com a injúria”.

Eugénio Lisboa 


2021-02-06

 

A CHINA luta contra a pobreza

 Mulher rural chinesa supera a pobreza e muda a sua vida


Bamu e sua família na nova aldeia de Taoyuan, que é servida por água, eletricidade, telecomunicações e estradas modernas. | Foto: Xinhua

Em 2010 ela se tornou conhecida graças a uma foto icônica, e 11 anos depois conta como sua vida mudou. 

O fotógrafo Zhou Ke passou 11 anos a procurar uma mulher que fotografou em 30 de janeiro de 2010, durante o período de viagens do Festival da Primavera na China.

Naquele dia ele tirou uma foto que, depois de publicada, tocou o coração de muitas pessoas: uma jovem mãe, chamada Bamu Yubumu, segura um bébé nos braços com a mão direita, enquanto com a esquerda carrega uma mochila e às costas leva um saco enorme.

Ke capturou o momento em que a jovem Yi* da Prefeitura Autónoma de Liangshan Yi (província de Sichuan do sudoeste) estava à espera do seu comboio na cidade de Nanchang para viajar para casa para a reunião de família no feriado.

Depois de muito procurá-la, Ke encontrou Bamu e entendeu que sua descoberta era uma espécie de alegoria às mudanças vividas pelos habitantes rurais da China graças às ações de seu governo no combate à pobreza.

A viagem de Bamu para sua casa pobre em 2010 levou três dias e duas noites. Agora, graças aos comboios de alta velocidade, a viagem entre Nanchang e Chengdu, a capital de Sichuan, leva oito horas, e daqui para a sua casa mais seis.

Com 32 anos de idade, Bamu passou a infância numa montanha alta e nunca pôde ir à escola. Depois de se casar, ela e o marido estabeleceram-se no sopé da montanha numa casa sem eletricidade.

Naquela época, eles tinham apenas 0,4 hectares de terra árida, onde plantavam milho, batata e trigo sarraceno. Graças ao seu primeiro emprego, ele ganhou um salário de 500 yuans (US $ 77) por mês.

Mas sua sorte começou a mudar quando um projeto de redução da pobreza começou a ser implementado em sua aldeia, Taoyuan. Em 2014, a família foi registrada como uma família pobre pelo governo local.

Quatro anos depois, eles receberam um auxílio-moradia de 40.000 yuans (US $ 6.200). Com mais 70.000 yuans (US $ 10.800) em economias, Bamu e sua filha construíram uma casa de concreto e cimento.

Desde 2013, Bamu deu à luz outras três crianças, todas em hospitais locais gratuitos, e recebeu apoio financeiro para cuidar da saúde e da educação de seus filhos.

Durante 2020, sua renda familiar chegou a 100.000 yuans (US $ 15.480) e eles conseguiram sair da pobreza. Seus filhos são educados em uma escola próxima.

Atualmente, os moradores de Taoyuan têm acesso a água canalizada, estradas modernas, eletricidade e telecomunicações.

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Artigo obtido aqui: Link


2021-02-01

 

Isabel do Carmo e o covid-19

Do Jornal Público de 29 de Janeiro de 2021

Notícias do túnel  

A médica Isabel do Carmo esteve internada dez dias com covid-19 no Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Este é o seu testemunho, que é também um alerta e um gesto de reconhecimento.

Isabel do Carmo

Eu, médica, observadora diferenciada, estive internada com o diagnóstico de covid-19 durante dez dias nas enfermarias do Hospital de Santa Maria e penso que o meu testemunho pode servir de alerta e de um enorme reconhecimento. Alerta para o risco real e actual (rastrear e confinar é preciso). E dar graças à vida pela existência do nosso Serviço Nacional de Saúde.

Estive a trabalhar e a ver doentes até ao dia 23 de Dezembro, com todo o cuidado, e não foi por aí que o vírus entrou. No dia 24, juntámo-nos seis adultos e três crianças e, apesar das máscaras e das distâncias, alguma imprudência abriu por momentos a porta ao invisível. Contaminámo-nos todos e, fiados na falsa segurança do teste simples, alguns de nós multiplicaram o contágio. Os mais jovens mantiveram a sua energia transbordante, os de idade intermédia tiveram muitos sintomas, mas trataram-se em casa, os mais velhos reagiram de acordo com os factores de risco. E foi assim que, ao décimo dia de febre e outras queixas, o meu colega do centro de SME ordenou, e bem, que fosse à urgência de covid. Se não tivesse ido, tinha morrido, e esse é o primeiro alerta a manifestar.

Há um momento, determinado empiricamente, em que se conclui, por estatística, que é assim. Não vale a pena correr contra as probabilidades. Claro que foi muito incómodo, muito frio, muito desaconchegado, esperar por ser chamada no pequeno telheiro improvisado no piso das entradas. Fica melhor quem está dentro das ambulâncias, que têm suporte de oxigénio e macas ou cadeiras. Esta condição de espera, este ponto de entrada, seria possível melhorar fisicamente? Talvez. Mas os doentes chegam e não podem ser mandados para trás. Seria possível desviar um meteorito que caísse em cima das nossas cabeças? Só para os encartados e teóricos comentadores, que eles preveriam tudo.

Resolveu-se: agora temos o hospital de campanha. Todavia, foi por ali que me salvei. Quando finalmente dei entrada no “covidário”, ganhei direito a um cadeirão, a uma máscara de oxigénio e à segurança de ter entrado no circuito. Desde esse momento, fui sempre a senhora Isabel, idêntica a todos os outros, e nunca, e bem, a médica da casa. Algumas horas depois entrei numa “box”, com WC e uma porta com janelão de vidro. As dimensões comparei-as com outras de outras “boxes” de há muitos anos. Idênticas, mas o janelão e o calor humano pertencem a outro universo. Fiz então uma TAC num dispositivo colocado no “covidário”. E é aí o extraordinário. Nunca ao longo de tantos anos de clínica tive conhecimento de tal quadro – os meus pulmões estavam infiltrados de alto a baixo e dos dois lados com múltiplos focos de inflamação, que não deixavam o oxigénio atravessar os alvéolos e passar para o sangue, onde ele é necessário à vida. Sintomas? Poucos. Mas lá estava o oxímetro a mostrar níveis baixos.

Os meus colegas não estão desesperados, nem aflitos, estão profundamente preocupados, esgotados também. Quando lançam o alarme cá para fora não é um pedido de socorro para eles. É dizer que só o confinamento melhora o problema. E há uma linha vermelha que percorre este chão e é móvel – a das mortes evitáveis

Aqui reside um grande risco: esta “hipoxemia feliz” mata. Assim morreu o pai de uma colega minha com 50% de saturação e poucos sintomas. Foi a partir do nada ou da experiência inicial da China que os protocolos foram sendo estabelecidos. De madrugada, saí do “covidário” e fui rapidamente internada nas enfermarias de covid, Medicina 2C. Fizeram-me aquilo que está protocolado que se faça: oxigénio, corticóides, broncodilatadores, antibiótico se necessário. Para os meus companheiros de enfermaria, alguns hemodialisados, diabéticos, transplantados, cada protocolo era diferente. No mesmo piso, para além da porta de separação, havia mais enfermaria de covid, havia a zona dos intensivos e havia a zona dos intermédios com máscara permanente de oxigénio, onde ficou o Carlos Antunes e donde partiu para sempre no dia 19 de Janeiro.

Aquilo a que assisti de serenidade, de eficácia, de competência, ficará para sempre marcado como um momento muito alto da minha vida. Sei que as pessoas todas juntas não somam inteligências, multiplicam. É um fenómeno que faz parte da natureza humana, assim a humanidade sobreviveu. Observei a entrada regular e harmoniosa das assistentes operacionais, dos enfermeiros, dos fisioterapeutas, dos jovens médicos internos e das chefes seniores. Cada um sabe o gesto que tem que fazer, o equipamento em que tem que mexer, o registo necessário, a colheita de sangue a horas, a administração do medicamento. E… sabe também informar. Explica o que vai fazer e porquê.

O meu conhecimento dos espaços das urgências cresceu comigo organicamente. Fiz urgências nos bairros pobres de Lisboa, fiz no Hospital do Barreiro actos clínicos que não passavam pela cabeça de uma miúda de 20 e poucos anos, antes da classificação de Manchester andei de papel na mão a fazer triagem na sala de espera, vi crescer o Serviço de Observações das Urgências de Santa Maria com a Teresa Rodrigues a decidir os gestos urgentes. E lá continua ela a salvar gente. Sofri com os “directos” e culpabilizei-me. Vi o Carlos França instalar finalmente os cuidados intensivos. Vi tudo? Não. Não vi nada. Porque bastou o ano de 2020 e o inimigo ultra-invisível para perceber que há uma coisa que de facto é um “milagre”: a capacidade de auto-organização, rápida, eficaz, criativa, serena. Era possível fazer tudo isto com requisição civil? Tenho dúvidas. É a cultura que está para trás que explica o “milagre”.

Com as minhas amigas enfermeiras conversávamos por vezes sobre os “territórios”. Pois o milagre também desenhou territórios. Quer isto dizer que reina a paz nos serviços de urgência do Serviço Nacional de Saúde? Não. Esta onda organizada de espaços e de recursos humanos palpita como um corpo que pede respiração. O director da Medicina, Lacerda, vai buscar enfermarias a todo o lado possível, converte serviços e adapta-os. A Sandra Brás supervisiona como um arcanjo os vários espaços e equipamentos covid-19. Os meus colegas dos cuidados intensivos, com 85% de lotação, estão no limite, ou seja, na zona das necessárias e rápidas escolhas. Estes doentes não são pneumonias habituais. Têm mais demora de cama (quanta?), têm uso de equipamentos que não existiam antes.

Os meus colegas não estão desesperados nem aflitos, estão profundamente preocupados, esgotados também, a situação é dinâmica, é preciso fazer opções técnicas. Quando lançam o alarme cá para fora, não é um pedido de socorro para eles, é dizer que só o confinamento melhora o problema, é explicar que quanto mais infectados, mais sintomáticos. Entre estes aumentam os de risco e quanto mais risco mais cuidados intensivos. E há uma “linha vermelha” que percorre este chão e é móvel – a das mortes evitáveis.

Na minha enfermaria, por sinal toda de afrodescendentes, senti no mais fundo da noite que alguém abandonava a Montanha Mágica. Com serenidade. Sem obstinação. É também uma escolha. No dia seguinte, a animada Inalda, assistente operacional de São Tomé (já sou efectiva!), a enfermeira Ana, a enfermeira Marta, nos doentes o Sr. C., que ficou meu amigo e é de Cabo Verde, a Dona A., de Luanda, o Sr. D., que também é de Luanda e já venceu muitas coisas, corpos que já foram desejados, já se reproduziram, são a humanidade que ali está.

A médica de Medicina Interna dra. Patrícia Howell Monteiro, que ainda foi contratada em exclusividade (2008/2009?), é o pilar sólido e sustentável que orienta o Henrique Barbacena, o Renato e o Francisco, que hão-de fazer o exame da especialidade proximamente. Para onde irão? O Renato está a sofrer nos cuidados intensivos, a dar o máximo. O Henrique é também professor de Farmacologia, tive o privilégio que me explicasse coisas sobre vírus. E ausculta à velha maneira, como eu. Conseguimos ter um momento para conversar e a propósito da vida e do ultra-invisível, contou-me como lera apaixonadamente a Estranha Ordem das Coisas, do Damásio, livro que a chefe Patrícia lhe ofereceu. Há muitos anos, o António Damásio também foi da nossa incubadora, o Hospital de Santa Maria. E, a propósito, eu e o Henrique conversámos sobre a dinâmica da vida, a necessidade de não fazer classificações mecanicistas. E reganhei a grande esperança do aviso da tal frase do Abel Salazar: “Um médico que só sabe Medicina, então, não sabe Medicina.” Estes sabem Medicina e são uma das estruturas do SNS.

Médica, professora da Faculdade de Medicina de Lisboa, membro do grupo Estamos do Lado da Solução

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2021-01-29

 

Com André Ventura e o Chega o fascismo sai do armário.

Reproduzo mensagem recebida de Vasco Lourenço/A25A que oferece as considerações de ALFREDO BARROSO sobre o Chega e André Ventura e que transcreve as "prevenções" contra o fascismo feitas por Humberto Eco.

Vasco Lourenço: "Caros Associados

Temos ouvido algumas piedosas afirmações, que procuram branquear os actuais  neofascistas, com o argumento de que o fascismo ou o nazismo foram diferentes. 
Alfredo Barroso, nosso associado, tem assumido relevante papel na denúncia do avanço da extrema-direita, em Portugal e no Mundo. 
Nem sempre estamos de acordo com ele, nomeadamente na qualificação de forças políticas e dirigentes nacionais. Mas respeitamo-lo, como Homem íntegro e honesto, democrata e patriota, frontal nas suas atitudes e eterno lutador contra o politicamente correcto! 
Ao decidirmos divulgar este seu texto de alerta e denúncia contra o avanço de um novo nazismo/fascismo, ainda admitimos a não inclusão do seu comentário pessoal. Considerámos que não tínhamos esse direito, que, sendo claro que são opiniões pessoais, as deveríamos incluir. 
Aqui ficam, com um forte abraço amigo e de Abril ao Alfredo Barroso. 
A todas e a todos, as nossas mais cordiais saudações de Abril"    

Vasco Lourenço
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Alfredo Barroso:     

O FASCISMO E A INTOLERÂNCIA EVOCADOS POR UMBERTO ECO

Os textos de UMBERTO ECO que a seguir vão ler, traduzidos por mim, Alfredo Barroso, dedico-os a todos aqueles que ainda se atrevem a dizer que o movimento do CHEGA, chefiado por André Ventura, não é fascista ou neofascista, é só um movimento demagógico e populista de extrema-direita. Para que não acordem para a realidade quando já for demasiado tarde, quando Ventura tiver encontrado em Rui Rio um aliado como Hitler encontrou em Franz Von Pappen (que o ajudou a dissolver a República de Weimar e a consolidar o seu poder), e em Marcelo Rebelo de Sousa, um PR tão impotente como o marechal Paul Von Hindenburg, Presidente da República de Weimar desde 1925 até à sua morte em 1934. Ora leiam:

“Ora Temos de velar para que o significado de cada um destes dois termos [Liberdade e Libertação] nunca torne a ser esquecido. O fascismo eterno está sempre em nossa volta, por vezes com disfarces civis. Seria tão confortável que alguém avançasse pelo palco do mundo e dissesse: 'Quero reabrir Auschwitz, quero que os camisas negras voltem a desfilar pelas ruas italianas'. Pois é, mas a vida não é assim tão simples! O fascismo eterno é susceptível de regressar sob as aparências mais inocentes. E temos o dever de o desmascarar, de apontar a dedo cada uma das suas novas formas - todos os dias, em cada parte do mundo. Dou, mais uma vez, a palavra a [Franklin D.] Roosevelt: "Atrevo-me a dizer que, se a democracia americana deixasse de progredir como uma força viva, procurando dia e noite, por meios pacíficos, melhorar a condição dos nossos cidadãos, a força do fascismo cresceria no nosso país" (4 de Novembro de 1938). Liberdade e Libertação são, portanto, um dever que nunca acaba. E tal deve ser a nossa divida: "nunca esqueçamos”

“A intolerância mais perigosa é aquela que nasce na ausência de qualquer doutrina, movida por pulsões elementares, É por isso que os argumentos racionais não servem para criticá-la nem para travá-la. É evidente que os fundamentos teóricos de 'Mein Kampf' são refutáveis com uma bateria de argumentos bastante elementares, mas se as ideias que [o livro de Hitler] propõe sobreviveram a todas as objecções é precisamente porque elas se apoiam numa intolerância selvagem, impermeável a toda e qualquer crítica”

“Toda e qualquer teoria se torna vã perante a intolerância rastejante que ganha terreno dia após dia. A intolerância selvagem baseia-se num curto-circuito categorial que ela empresta ,desde logo, a uma futura doutrina racista. Por exemplo: se Albaneses entrados em Itália nos últimos anos se tornaram ladrões ou deram em prostitutas (o que até é verdade), segue-se então que todos os Albaneses, sem excepção, são ladrões ou prostitutas”.

“Este é um curto-circuito terrível porque constitui uma tentação permanente para cada um de nós: basta que nos tenham roubado uma mala no aeroporto dum país qualquer para que se regresse a casa afirmando que é preciso desconfiar das pessoas desse país.

“Aliás, a intolerância mais terrível é a dos pobres, primeiras vítimas da diferença. Não há racismo entre os ricos: esses, eventualmente, produzem doutrinas do racismo; mas os pobres produzem-no na prática, que é bem mais perigosa. 
«Os intelectuais não conseguem lutar contra a intolerância selvagem porque, face à pura animalidade sem pensamento, o pensamento está desarmado. Mas já é bastante tarde quando eles enfrentam a intolerância doutrinal, porque, quando a intolerância se faz doutrina, é demasiado tarde para a combater, e aqueles que deveriam fazê-lo tornam-se as suas primeiras vítimas.

E no entanto, é aí que está o desafio. Educar na tolerância os adultos que se disputam uns com os outros por motivos étnicos e religiosos é tempo perdido. Demasiado tarde. É que a intolerância selvagem tem de ser combatida na raiz, por via de uma educação constante que tem de começar desde a mais tenra infância, antes que ela se inscreva num livro, e antes que ela se torne uma casca comportamental demasiado espessa e excessivamente dura.”

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NOTA (de Alfredo Barroso): Este texto foi escrito na altura do julgamento do capitão SS Erich Priebke, que participou activamente, sob as ordens do major Kappler, no terrível massacre das Fossas Ardeatinas (em Roma, a 24 de Março de 1944, e que consistiu na execução de 335 reféns italianos, como represália a um atentado cometido por "partigiani" da Resistência Italiana que causou 33 mortos membros das SS; o cálculo feito pelos nazis era o de fuzilar 10 italianos por cada SS morto, mas ainda foram acrescentados nomes à lista inicial). Encontrado na Argentina, onde se tinha refugiado, Erich Priebke foi extraditado em 1995 e julgado em Roma por um tribunal militar que, em 1 de Agosto de 1996, o deu como culpado de homicídio mas ordenou a sua libertação imediata por o crime ter prescrito. Ora, o texto de Eco, do qual apenas traduzi alguns excertos, foi escrito no momento dessa escandalosa sentença, que suscitou uma enorme emoção em Itália. Entretanto, o Supremo Tribunal de Justiça italiano anulou a sentença e, em consequência de novo julgamento, Priebke foi condenado, em 7 de Março de 1998, a prisão perpétua.

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2021-01-04

 

Baixaram-lhe a pensão de 174 mil euros por mês para 49 mil euros. Que injustiça!!

 Coitado do Sr Jorge Jardim Gonçalves reduziram-lhe a pensão de reforma para menos da terça parte!! Um escândalo. Vejam só...o pobre coitado recebia por mês apenas 174 mil euros de pensão e vai o tribunal redu-la para uns míseros 49 mil euros mensais. E pior, perde outras muito justas regalias: direito a automóvel (mercedes pelo menos, é claro!) motoristas, seguranças e avião, para ir tomar uma bica a Londres ou a Nova Iorque, por exemplo

 Link para o Expresso    Oh sô Zé! Vocemecê pode estar para aí a pensar: 
              "que roubalheira!! Mas... que se lixe, não é nada comigo!". 

Ora aí é que está o engano, isto é dinheirinho pago por si, por mim, por todos os que trabalham. Quero dizer, a ordem capitalista, ou se preferir, esta ordem democrática, organiza a economia de modo a que vocemecê receba como salário apenas uma parte do valor que o seu trabalho produz, 50% ou menos. O resto é canalizado pela ordem política e jurídica, directa ou indirectamente , em parte para pagar os meios de produção, o que é justo e em grande parte para o bolso dos investidores milionários e muito especialmente para os senhores banqueiros, como é Sua Excelência o Sr Jardim Gonçalves. 

Portanto não vire costas à política, é aí que pode defender os seus direitos. Intervenha no que está ao seu alcance, através do voto, da organização sindical, de organizações cívicas, partidos. Mas convém escolher um partido que defenda os seus interesses e não os que defendem a gentinha como o Sr Jardim Gonçalves!

Do Expresso:

BCP e Jardim Gonçalves chegam a acordo: reforma do ex-banqueiro desce de 174 mil para 49 mil euros

Diferendo arrastava-se nos tribunais desde 2011, mas o banco e o seu ex-presidente desistiram das instâncias judiciais e firmaram um acordo para corte na pensão.


 ISABEL VICENTE

O BCP chegou a acordo extrajudicial para cortar a pensão de reforma de Jardim Gonçalves depois de uma batalha jurídica que remonta a 2011, altura em que o banco entrou com um pedido de corte da pensão do seu ex-presidente no tribunal de Sintra.

"O acordo é semelhante ao que foi celebrado com os restantes ex-administradores do banco", diz ao Expresso fonte oficial do BCP, recusando dar mais explicações.

O Expresso contactou o advogado de Jardim Gonçalves, Manuel Magalhães e Silva, que recusou comentar o assunto.

Jardim Gonçalves está reformado desde 2005 e recebia uma pensão mensal de 174 mil euros, que vai agora baixar para cerca de 49 mil euros, em termos brutos, no âmbito do acordo e dentro do limite do salário máximo auferido por um administrador no ativo, segundo apurou o Expresso. Mas também ficará, à semelhança do que aconteceu com os restantes ex-administradores sem direito a regalias como segurança e motorista.

Ao logo destes 10 anos, Jardim Gonçalves disse sempre que tinha direito à pensão que auferia porque era o que estava definido.

O valor agora acordado para a reforma de Jardim Gonçalves vai ao encontro dos argumentos invocados pelo BCP no âmbito do artigo 402º, nº 2 do Código das Sociedades Comerciais. Ou seja que a reforma dos ex-administradores não deve exceder a remuneração mais alta que aufere um administrador executivo no ativo. Uma situação que decorre da alteração feita ao Regulamento de Reformas dos ex-administradores com cortes de regalias, como despesas com motoristas, seguranças e no caso de Jardim Gonçalves, avião particular.

No final de 2010 os ex-administradores reformados, como Filipe Pinhal, Alípio Dias e Paulo Teixeira Pinto contestaram os cortes e a perda de regalias sustentadas no Regulamento de Reformas dos ex-administradores, que limitava o montante das suas pensões, mas acabaram por chegar a acordo com o banco. Estas alterações foram realizadas ainda durante o mandato de Carlos Santos Ferreira e os processos em tribunal prosseguiram no mandato de Nuno Amado e Miguel Maya com muitos precalços durante os últimos 10 anos.

O QUE ESTAVA POR DECIDIR NO SUPREMO TRIBUNAL DE JUSTIÇA

O processo estava pendente de decisão no Supremo Tribunal de Justiça para o qual Jardim Gonçalves tinha recorrido. Isto porque depois de o tribunal de Sintra, em 2018, ter mantido a pensão do fundador do BCP e algumas regalias como segurança privada, viatura e motorista que ascendiam a 2,1 milhões de euros (e que o ex-banqueiro estava a pagar do seu bolso na expectativa de mais tarde recuperar o dinheiro), o BCP recorreu desta decisão para o Tribunal da Relação.

Em março o Tribunal da Relação deu razão ao BCP, que tinha recorrido em 2018 da decisão do Tribunal de Sintra de manter a reforma e regalias de Jardim Gonçalves. O que não agradou ao fundador do BCP que recorreu para o Supremo Tribunal de Justiça, o fim da linha em termos de recurso.

Com este acordo nem Jardim Gonçalves terá de devolver o dinheiro da reforma que recebeu a mais, nem o BCP terá de reembolsar o banqueiro das despesas relativas às regalias que o mesmo foi pagando.

Se a decisão do Supremo Tribunal de Justiça fosse contrária à da Relação, Jardim Gonçalves manteria a sua reforma inalterada e teria direito a pedir o reembolso das despesas.

OS VÁRIOS AVANÇOS E RECUOS

O processo para reduzir a pensão de Jardim Gonçalves, presidente do BCP entre 1985 e 2005 (ano em que se reformou), decorre desde 2011 quando o banco então presidido por Carlos Santos Ferreira entrou com uma ação no Tribunal de Sintra. Jardim Gonçalves recebia então cerca de 160 mil euros.

1. Em 2011, entre uma ação do BCP no tribunal de Sintra, ainda Carlos Santos Ferreira era presidente executivo.

2. Em 2013, era já Nuno Amado líder do banco, o tribunal de Sintra declarou-se incompetente para julgar a matéria considerando tratar-se de um assunto de foro comercial. A sociedade de advogados Vieira de Almeida, que representa o BCP contra Jardim Gonçalves, recorreu da decisão para o Tribunal da Relação. A Relação deu razão ao tribunal de Sintra, mas após uma clarificação do BCP, o processo voltou a Sintra. Perderam-se quatro anos com a discussão sobre que tribunal teria competência para julgar a matéria.

3. O julgamento começou no final de 2015.

4. Em maio de 2018 o tribunal de Sintra deu razão a Jardim Gonçalves, mantendo a pensão e as regalias do ex-banqueiro. O BCP, já presidido por Miguel Maya, recorreu para a Relação.

5. Em março de 2020 , o Tribunal da Relação mostra-se favorável ao BCP. Jardim Gonçalves recorreu para o Supremo Tribunal de Justiça do corte de dois terços da sua pensão e do fim das regalias.

6. O acordo extrajudicial agora alcançado coloca um ponto final a uma batalha que durou 10 anos."

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2020-12-21

 

Caetano Veloso - grande apresentação de Natal - contra Bolsonaro

No “site” Brasil 247: aqui:

https://www.brasil247.com/cultura/live-de-caetano-acende-a-esperanca-de-resgate-do-brasil?utm_campaign=os_destaques_da_manha_no_247_em_201220&utm_medium=email&utm_source=RD+Station )  


(No vídeo o início está só aos 26m 08s)  

“Live de Caetano Veloso acende a esperança de resgate do Brasil

“A lembrança de um Brasil poético e iluminado ressurgiu na noite de ontem, com a apresentação de Caetano Veloso no Youtube”

 Governado pelo obscurantismo, pelo negacionismo histórico e científico, pela ignorância e pela violência, o Brasil pode ressurgir. Foi esta a leitura que muitos fizeram ao assistir a live de Natal de Caetano Veloso, exibida na noite de ontem pelo Youtube, e que chegou a ter quase 200 mil espectadores simultâneos.


2020-11-09

 

Panamá Papers - Pedro Santos Guerreiro explica SOCIEDADES OFFSHOR

 


 

A VENEZUELA - Um outro olhar

 


2020-11-08

 

 https://www.rtp.pt/play/p7968/debate-soarescunhal-45-anos 


Entrevista Cunhal - Soares


2020-11-07

 

Trump Derrotado pela COVID



2020-10-21

 

Evo Morales. Entrevista em 2020-10-21 após vitória eleitoral do MAS


2020-09-30

 

Onde é que eu estava no 25 de Abril?


Estava ali. Em Odivelas. Escondido atrás de uma barbicha que nunca usara antes, com uns óculos de graduação zero, atrás do nome de José Lopes da Silva e disfarçado de desenhador de máquinas.

De rádio em punho acompanhei as notícias a dizerem-me  "e agora a tropa vai avançar para a Casa da Moeda ..." e ao mesmo tempo dava-lhes orientação: assaltem a PIDE já! Fechem as fronteiras para os "donos disto tudo" não fugirem com o nosso dinheiro. E disse mais coisas mas não estou certo de que me estivessem a ouvir quer o Salgueiro Maia quer o Otelo.
Depois, passados uns dias e convencido que a coisa não ia voltar para trás eu e a Maria demos saltos e saltos de alegria e informámos os vizinhos do nosso verdadeiro nome e do que andávamos por ali a fazer. Arregalaram muito os olhos e... até hoje... ficaram nossos amigos. 

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2020-09-26

 

Ana Prestes neta de Luís Carlos Prestes - Entrevista

 A socióloga Ana Prestes, é entrevistada pelo fundador de Opera Mundi, Breno Altman. Ana Prestes é neta de Luís Carlos Prestes ( Link: Luís Carlos Prestes (3 de janeiro de 1898 - 7 de março de 1990) foi um revolucionário e político brasileiro que serviu como Secretário-Geral do Partido Comunista Brasileiro de 1943 a 1980 e senador pelo Distrito Federal de 1946 a 1948. ... Prestes foi considerado por muitos como uma das figuras mais carismáticas, porém trágicas, por sua liderança na revolta tenente de 1924 e seu subsequente trabalho com o movimento comunista brasileiro . A expedição de 1924 deu a Prestes o apelido de O Cavaleiro da Esperança. [1]

Começando em 1924, como um jovem oficial do exército, Prestes foi uma figura importante em uma revolta militar abortada. Após seu fracasso, ele liderou um bando de tropas rebeldes, conhecido como Coluna Prestes , em uma jornada de três anos e 14.000 milhas através do remoto interior brasileiro em uma tentativa inútil de incitar a oposição dos camponeses ao governo. Eventualmente, os rebeldes foram para o exílio na Bolívia . [2] Embora o esforço tenha falhado, ele se tornou um herói romântico."


Origem deste vídeo: https://operamundi.uol.com.br/politica-e-economia/66851/sub40-ana-prestes-ha-pressao-externa-de-golpistas-para-derrotar-a-esquerda-na-bolivia 

2020-08-10

 

2020-07-28

 

Afeganistão o maior produtor de heroína


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Uma reportagem da BBC mostra como uma tecnologia ecológica ajuda a potenciar os lucros de uma droga extremamente mortífera.

Artigo de Luís M Farinha, no Expresso digital (Link)

Os campos de papoilas no Afeganistão estão a usar energia produzida com painéis solares. Uma reportagem da BBC no vale de Helmand - tida como a região mais perigosa do país, mas também aquela que é o centro do cultivo a partir do qual se produz a maior parte da heroína consumida no mundo - fala em 67 mil painéis só nessa região.
Os painéis vieram substituir o diesel anteriormente usado e servem sobretudo para alimentar as bombas elétricas que extraem água do solo. Uma vez irrigadas, porém, as explorações adquirem ganhos de produtividade enormes, permitindo inclusivamente cultivar a papoila em locais onde ela antes não era viável.
Segundo a BBC, a área de cultivo de papoila em Helmand tem crescido exponencialmente, excedendo já os 300 mi hectares. Um ex-soldado britânico, que atualmente dirige uma empresa cuja especialidade é a análise de zonas perigosas do mundo através de imagens de satélite, resume a situação resultante do advento da energia solar para os produtores de papoila: "Toda esta água está a fazer o deserto florescer".
O Afeganistão é o principal produtor mundial de heroína. Essa indústria apenas teve uma interrupção abrupta durante um breve período, nos anos iniciais do presente século, devido a medidas severas tomadas pelos Talibã, então no poder.
Após a invasão americana em 2003, a produção retomou em força, e ocasionais quedas não desmentem uma notória tendência ascensional, tendo a área cultivada mais do que duplicado ao longo da última década.

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2020-07-04

 

As alterações clmáticas e a revolução energética

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2020-05-28

 

Portugal e a escravidão no Brasil

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2020-05-20

 

Banksters - Marc Roche e o BES ...

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Banksters - Banqueiros-gangsters
Ricardo Salgado já foi um "dono disto tudo" mas o Estado e a Justiça (sob a vigilância da "Alta Finança") não lhe retirou boa parte do dinheiro roubado. Apesar de todos os crimes financeiros continua multimilionário em liberdade,
Marc Roche é que não está com paninhos quentes e trata Ricardo Salgado como banqueiro gangster, um dos maiores gangsters da banca. Vejam o que diz aqui neste video!!
Marc Roche é um jornalista belga especialista em assuntos financeiros, colaborador regular do Le Monde, The Independent, The Guardian, e outros jornais. Desde a crise financeira de 2008, publicou três livros sobre o capital financeiro.

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Moscow Nights - Anna Netrebko e Dmitri Hvorostovsky

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Lusa 2017/11/22   

Dmitri Hvorostovsky nasceu na cidade de Krasnoyarsk, na Sibéria, desenvolveu uma carreira de renome desde a década de 1980, depois de escapar a uma vida nas ruas, enquanto adolescente, e de conseguir ultrapassar um problema com o álcool que podia ter posto fim a um percurso aplaudido pela crítica e pelo público … como recorda o New York Times. Em 1989, venceu a competição internacional de canto lírico, em Cardiff, no Reino Unido, batendo o barítono Bryn Terfel.

Segundo a biografia patente no site oficial, Hvorostovsky foi o primeiro cantor de ópera a realizar um concerto a solo com orquestra e coro na Praça Vermelha, em Moscovo, que foi transmitido em mais de 25 países.

Em Maio de 2017, apresentou-se na Metropolitan Opera Gala, em Nova Iorque, onde surpreendeu o público presente com uma aparição inesperada em palco, para cantar Cortigiani, vil razza dannata, do Rigoletto, de Verdi. … Em Junho, actuaria pela última vez, em Krasnoyarsk, a sua cidade natal. 

O barítono russo Dmitri Hvorostovsky morreu esta quarta-feira, em Londres, onde vivia, depois de ter sido diagnosticado com um tumor cerebral em 2015, que o levou a abandonar os palcos meses antes da morte. Tinha 55 anos. 

Considerado um dos mais relevantes cantores de ópera da sua geração, Hvorostovsky encabeçou peças nas maiores salas do mundo, tendo passado pela Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, onde cantou repertório de câmara de compositores russos, como os ciclos The Nursery e Songs and Dances of Death, de Modest Mussorgsky.

… O porta-voz da presidência russa, Dmitry Peskov, classificou o barítono um “tesouro da cultura russa e mundial”.

O crítico britânico Norman Lebrecht, da BBC3, recordou esta quarta-feira o barítono russo, como “o melhor Eugene Onegin da actualidade, o Don Giovanni mais sensual e o dominante Rigoletto”, numa referência às suas interpretações dos protagonistas de Tchaikovsky, Mozart e Verdi.

Anna Netrebko é uma soprano russa bastante conhecida e admirada pela sua voz. Nasceu em Krasnodar, no sudoeste da União Soviética em 18 de setembro de 1971 numa família de origem cossaca de Kuban. Quando ainda era estudante no Conservatório de São Petersburgo, Anna trabalhava como porteira no Teatro Mariinsky, de São Petersburgo.

Mais tarde, ela fez o teste para o Mariinsky Theatre, onde o maestro Valery Gergiev reconheceu-a de seu trabalho anterior no teatro. Em seguida, ele se tornou seu mentor vocal. Sob a orientação de Gergiev, Netrebko fez sua estreia nos palcos de ópera no Mariinsky, aos 22 anos, como Susanna em Le nozze di Figaro. Ela passou a cantar muitos papéis de destaque com a Opera Kirov, incluindo Amina em La sonnambula, Pamina em Die Zauberflöte, Rosina em Il Barbiere di Siviglia, e Lucia em Lucia di Lammermoor. 


2020-05-11

 

Padre Anselmo Borges sobre Fátima


Padre Anselmo Borges: “É evidente que Nossa Senhora não apareceu em Fátima”

Anselmo Borges, padre da Sociedade Missionária Portuguesa, falou ao Expresso a propósito do lançamento do seu novo livro, “Francisco: Desafios à Igreja e ao Mundo”

Christiana Martins    CHRISTIANA MARTINS

Decidiu ser padre aos 19 anos porque a morte o inquietava. Ainda pensa na finitude, mas diz que “a única porta de salvação para uma vida eterna” foi 
 Jesus quem lha abriu. Entrou há 50 anos, ao ser ordenado pelo cardeal Cerejeira. Nunca deixou a Igreja mas arrepiou caminho e escolheu a via da crítica ativa. Professor universitário em Coimbra, lança um novo livro — “Francisco: Desafios à Igreja e ao Mundo” —, prefaciado por Artur Santos Silva e, a partir da próxima semana, vai andar pelo país a apresentá-lo, na presença de pessoas tão diferentes como Ramalho Eanes, Frederico Lourenço, Pedro Mexia, Pedro Rangel, Maria de Belém, Carlos Fiolhais ou Isabel Allegro de Magalhães.
No seu livro levanta questões mais comuns ao discurso de não católicos. Ainda se revê na Igreja?
Pertenço por convicção à Igreja Católica e procurei ser leal, mas há duas questões fundamentais. A primeira é que Deus é amor. A outra tentativa de definir Deus surge no Evangelho segundo São João: no princípio era o logos, a razão, e Deus é razão. Para mim, se Deus é razão, devemos estar na Igreja com dimensão crítica. E se a fé não deriva da razão, à maneira das ciências matemáticas, para ser humana, não a pode contradizer.
Foto de António Pedro Ferreira
O livro é um alerta para situações com as quais não concorda?
Exatamente. Há uma crítica para dentro da Igreja, seguindo alertas que vêm do Papa Francisco. Porque este Papa é cristão no sentido mais radical, não é apenas batizado, ele segue Jesus. E quando olhamos para a Igreja, nem sempre vemos um verdadeiro discipulado de Jesus. Assistimos a uma hierarquia que frequentemente vive na ostentação, que não se bate pelos direitos humanos, que têm de ser praticados dentro da Igreja. Depois do Concílio Vaticano II, a primavera da Igreja, veio o inverno, que teve uma expressão dramática na condenação de teólogos.
Francisco trouxe uma nova primavera?
As pessoas gostam dele, ele faz o que Jesus fazia, é amor.
Mas basta? Jesus provocou ruturas. E o Papa Francisco?
Jesus opôs-se à religião estabelecida, foi crucificado por ter sido condenado, em primeiro lugar, pela religião oficial. Foi condenado como blasfemo e subversivo. E o Papa Francisco, se não tivesse operado ruturas, não tinha tanta oposição de alguns cardeais.
A oposição existe em Portugal?
O que mais noto aqui é que o Papa Francisco não está vivo e operante, em primeiro lugar, na hierarquia católica. Diria até que há mais simpatia para com ele fora da Igreja.
No livro diz que a Igreja portuguesa parece paralisada. O que Francisco pode provocar em Fátima?
Fátima é um caso muito especial de religiosidade. A Igreja oficial tenta enquadrar Fátima, mas as pessoas vão lá com uma devoção particular.
A mãe de Jesus surgiu em Fátima?
Posso ser um bom católico e não acreditar em Fátima porque não é um dogma. Não me repugna, contudo, que as crianças, os chamados três pastorinhos, tenham tido uma experiência religiosa, mas à maneira das crianças e dentro dos esquemas religiosos da altura. É preciso também distinguir aparições de visões. É evidente que Nossa Senhora não apareceu em Fátima. Uma aparição é algo objetivo. Uma experiência religiosa interior é outra realidade, é uma visão, o que não significa necessariamente um delírio, mas é subjetivo. É preciso fazer esta distinção. E por isso digo que é necessário evangelizar Fátima, ou seja, trazer uma notícia boa. Porque mesmo para aquelas crianças, aquela não foi uma notícia boa: que mãe mostraria o inferno a uma criança?
Que boa notícia seria essa?
Já não se veem pessoas a arrastarem-se e a sangrarem.
Não foram os portugueses que se modernizaram?
Sim, felizmente.
Porque é que o Papa vem a Fátima?
Em primeiro lugar, porque é profundamente devoto de Maria. Sabe porque há tanta devoção a Maria na Igreja? Porque a presença feminina é muito reduzida. As mulheres têm de gostar de Jesus — mesmo que se deem mal com a Igreja oficial e têm razões para isso — porque ele teve mulheres como discípulas e foi uma figura central da emancipação feminina, embora a Igreja seja completamente masculina — Pai, Filho e Espírito Santo — e uma menina faça a socialização religiosa sempre no masculino.
O que dirá o Papa em Fátima?
Estou convicto de que fará um discurso de dimensão mundial, um grande apelo à paz. Deverá apelar ao diálogo inter-religioso e a que católicos pratiquem o Evangelho.
Ficará triste com o comércio?
Qualquer pessoa fica. São, outra vez, os vendilhões do templo, o pior da religião.
Voltando às mulheres e às ruturas: até onde o Papa poderá ir?
O Papa criou um grupo para estudar a possibilidade de as mulheres serem diaconisas, o que causou um grande abalo. Ele herdou uma Igreja profundamente hierarquizada e tem de pisar o terreno com cuidado, o que tem feito com coragem. É jesuíta e sabe o que significa o poder e a eficácia. Não pode causar um cisma.
O que será mais fácil: ordenar mulheres ou homens casados?
Homens casados porque a Igreja é misógina! É a última instituição, verdadeiramente global, que é machista. É também a última monarquia absoluta. Acredito que ainda veremos o Papa Francisco ordenar homens casados, mas também terá de resolver o problema da participação dos leigos e o problema das mulheres. O celibato é uma questão de bom senso, temos de ser pragmáticos. Não há padres suficientes e há leigos, casados, que, ordenados, exerceriam um excelente papel como coordenadores das comunidades cristãs. No primeiro milénio da Igreja não havia celibato. Aquilo que hoje constitui escândalo não o é, se olharmos a origem.
Qual é a sexualidade dos padres? Podem ser homossexuais?
A Igreja não pode impor como lei aquilo que Jesus entregou à liberdade e, por isso, sou partidário do fim ao celibato obrigatório. À frente das comunidades é possível ter leigos, que podem ficar durante um período limitado. Não se percebe porque um bispo, mesmo que incompetente, fique para sempre. Alguns vão sempre optar pelo celibato, serão os coordenadores dos coordenadores. Mas serão muito poucos. É preciso acabar com as vidas duplas.
E a sexualidade dos padres?
Está estudado, se há na população cerca de 8% de homossexuais, na Igreja deverá ser um pouco mais porque muitos entraram no contexto de repressão da sexualidade, para tentarem resolver um problema, mas não vejo razão para serem excluídos. E se assumiram o compromisso da castidade, devem segui-lo como os outros.
O Papa Francisco trouxe mais transparência?
Já não é possível esconder a realidade e o Papa chama as coisas pelos nomes. O Evangelho diz que a verdade libertar-nos-á.
Já foi chamado à atenção pela hierarquia por defender estas posições?
Já tive problemas, hoje não.
Desistiram de si?
Não gostavam do que eu dizia, mas eu também não gosto do que dizem.
Poderia ter tido uma carreira diferente? Não foi bispo.
Nunca quis, aliás, se quisesse, não podia ser livre, e esse é o problema a que o Papa tanto se opõe, o carreirismo. O único pecado que tenho é o de não ser suficientemente cristão, talvez não dê suficiente atenção às pessoas. O resto, pensar de maneira diferente? Ainda bem. Na Igreja tem de haver liberdade de pensar e interpretar.
O que sentiria se uma mulher lhe desse a eucaristia?
Comunguei das mãos de uma pastora anglicana em Londres. Não me causou inquietação.
Já deu a eucaristia a divorciados?
Mais do que isso. Um homem, uma figura pública que eu não conhecia, convidou-me para jantar e disse que iria casar-se no dia seguinte e queria que eu lhe abençoasse as alianças, porque não podia casar pela Igreja. Fui ao casamento, estive lá com eles.
Qual foi a primeira vez em que foi ao Vaticano?
Em 1967, havia ainda a ebulição do Vaticano II. Sou filho desta primavera.

O que sentiu?
Era muito jovem e senti um grande esplendor, mas também achei excessivo. Mas o que na Igreja sempre me preocupou mais foi a falta de liberdade para pensar.

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