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2022-01-04

 

O Homem é único... a matar o seu semelhante

Já repararam?

Não há animal tão perigoso e inimigo do seu semelhante como o bicho homem.
Os coelhos atacam até à morte outros coelhos? E as galinhas e os milhafres e as águias? E os cães atacam e matam outros cães? E os lobos, os leões, os elefantes, as baleias, os crocodilos, os escorpiões, as abelhas, as formigas, as minhocas?
Só uma ou outra espécie destes viventes ataca e mata o seu semelhante mas muito raramente. E o homem? Só no século XX esse bicharoco arranjou maneira de atacar e matar mais de 200 milhões de seus semelhantes em sofisticadas guerras que são sempre – excluindo as guerras de libertação ou defesa - actos organizados para roubar. Já não contando os ataques e mortes individuais por isto ou por aquilo.
Todos sabemos que não há animal mais sofisticado que o bicho homem, para o Bem mas talvez nem todos tenham presente que também para o Mal.

"3 de Maio", criado em 1814, por Francisco José de Goya y Lucientes (1746 Fuendetodos/Saragoça - 1828 Bordéus) um dos mais importantes pintores espanhóis.

2022-01-03

 

Sócrates denuncia magistratura no DN de 2022 - 01- 03

                                                            

                                                            Link: No Diário de Notícias 

Carta aberta ao Conselho Superior da Magistratura
                                                                                                                            

Começo por assinalar a evolução da vossa posição. Há cinco anos o Conselho defendia que a nova distribuição do processo Marquês não era necessária e que ela "foi manual por não poder ser eletrónica dados os problemas de funcionamento que determinaram o encerramento do Citius em setembro de 2014". Hoje reconhece que nada disto era verdade - a distribuição era necessária e o sistema informático naquele tribunal estava a funcionar regularmente. O relatório admite, finalmente, que no dia 9 de setembro de 2014 a distribuição do processo Marquês foi manipulada e falsificada. Não foi feita por sorteio, não foi feita com a presidência de um juiz, não foi feita de modo a garantir igualdade na distribuição de serviço. Pronto, até aqui estamos de acordo. A partir daqui divergimos.

E a primeira divergência é a inacreditável qualificação jurídica que o Conselho atribui a tal ato - "irregularidade procedimental". Por um lado, não deixa de ser extraordinário que durante cinco anos o Conselho andasse a defender o que agora classifica de irregularidade. Mas o que é importante não é isso. O que é importante é que não foi uma irregularidade procedimental, foi uma falsificação. O que aconteceu naquele dia 9 de setembro foi uma trapaça jurídica com o objetivo de escolher, de forma arbitrária, o juiz do caso. Um juiz conveniente. Um juiz parcial. Um juiz capaz de ordenar a detenção no aeroporto por perigo de fuga quando estava a entrar no país e não a sair; um juiz disponível para colaborar com o festim da violação de segredo de justiça que se seguiria; um juiz sem pudor de fazer indecentes insinuações a propósito do principal visado numa entrevista televisiva. Acontece que o processo envolvia um antigo primeiro-ministro, o que coloca imediatamente em cima da mesa a motivação política. Irregularidade procedimental? Não, senhores conselheiros, o que aconteceu não foi uma irregularidade, mas uma manipulação gravíssima da escolha do juiz por forma a tornar o todo o processo judicial num jogo de cartas marcadas. Os motivos são claros e as vítimas muito concretas. Entre essas vítimas está também a credibilidade do sistema judicial.

Esta manipulação remete direitinha para um dos princípios mais importantes do direito democrático - o princípio do juiz natural, o qual, segundo o Tribunal Constitucional, constitui "uma das garantias constitucionalmente consagradas do arguido". Garantias constitucionais, é disto que estamos a falar, não de irregularidades processuais. E quando se põe em causa as garantias constitucionais dos cidadãos é a legitimidade do poder judiciário que é afetada. Eis o que tenho a dizer sobre as vossas "irregularidades processuais".

O tribunal de exceção

No entanto, o aspeto mais chocante no vosso relatório é a desresponsabilização dos juízes que prestavam serviço naquele tribunal. É facto assente que não houve sorteio eletrónico e é facto assente que nenhum juiz esteve presente nos atos de distribuição de processos. Dos dois imperativos legais da distribuição, nenhum deles foi cumprido. Durante um longo período e tendo perfeita consciência da lei, nenhum dos dois juízes fez nada para corrigir a situação. Sabiam e nada fizeram. E o que é absolutamente escandaloso é que os dois juízes descartem qualquer responsabilidade pelo que se passou - não era com eles, não sabiam, nada viram, não se interessaram. A avaliar pelos seus depoimentos, a questão da distribuição não passava de uma questão de intendência, sem dignidade para ocupar lugar nas preocupações dos senhores magistrados. Não havia escalas de distribuição, diz um deles. Sim, os processos caíam-lhes simplesmente nas mãos e era quanto bastava. E, no entanto, os dois juízes conheciam a lei - sabiam que a lei impõe a presidência de um juiz na distribuição e sabiam que a lei ordena que esta seja "realizada por meios eletrónicos, os quais devem garantir aleatoriedade no resultado". O descarte de responsabilidades é absolutamente revoltante. Mas mais revoltante ainda é que o Conselho Superior da Magistratura normalize essas práticas.

E o encobrimento

O que resulta absolutamente evidente do mapa de distribuições daquele tribunal é que os chamados "processos mediáticos" foram fraudulentamente atribuídos ao juiz Carlos Alexandre. Essas "atribuições manuais" foram feitas pela escrivã Teresa Santos, que foi colocada no tribunal por "sugestão" do senhor juiz Carlos Alexandre. Acontece também que a senhora escrivã começou a prestar serviço naquele tribunal exatamente no dia 1 de setembro, dia em que o tribunal passou a ter dois juízes e dia também em que a distribuição de processos passou a ser necessária. Oito dias depois de entrar ao serviço decidiu começar a longa lista de falsificações entregando ao juiz Alexandre o processo Marquês.

Aqui chegados e guiados pelos factos, devemos colocar seriamente a suspeita de que a fraude tenha tido motivação política e que a dita "atribuição manual" do processo tenha sido feita por forma a agradar ao juiz, beneficiando-o na sua carreira e na sua vaidade. Quando o vosso relatório fala de "critérios que não foi possível apurar", eles estão mesmo à frente dos olhos - a vaidade, a carreira e a motivação política. A motivação política para perseguir o inimigo político; a vaidade de construir a biografia do juiz herói. Os aspetos políticos dessa biografia são hoje absolutamente evidentes - desde as páginas eletrónicas da extrema-direita que aclamam o juiz até ao convite para discursar ao lado do seu antigo colega Sérgio Moro nas conferências do Estoril. Quanto à obtenção de benefícios ilegítimos, julgo que é suficiente. No que toca a prejuízos talvez devam perguntar às dezenas de vítimas que naquele tribunal nunca tiveram direito a juiz natural.

Ao ler este vosso relatório a primeira ideia que me vem ao espírito tem que ver com os primeiros comunicados da Igreja Católica a propósito do abuso de menores. A Igreja demorou a aprender. Espero que o sistema judicial não leve tanto tempo a perceber que o encobrimento só agrava as coisas, não as resolve.

Ericeira, 29 de dezembro de 2021

Antigo primeiro-ministro


2021-12-26

 

O Presidente do CAE da EDP teve em 2020 um salário de cerca de 200 mil euros por mês.

Para onde vai o dinheiro que pagamos pela electricidade? Uma parte vai para os custos materiais de produção e uma outra parte para o Conselho de Administração Executivo (CAE) que é composto por pessoas de muito alimento. Assim, por exemplo, o seu presidente, António Mexia, o ano passado (2020) arrecadou com o seu salário apenas 2 milhões e 370 mil euros o que dá por mês a miséria de um salário de 197.500 euros, cerca de 200 mil euros por mês. 
Alguns escandalizam-se com o salário dos deputados (cerca de 4 mil euros mensais. Veja remuneração dos políticos aqui: https://www.idealista.pt/news/financas/economia/2018/06/06/36442-fica-a-saber-quanto-ganham-os-politicos-portugueses ) pois o presidente da comissão executiva da EDP ganha o equivalente ao ordenado de 50 deputados.
E quanto ganha no ensino público um professor? Varia com o tipo de ensino e a antiguidade/escalão mas podemos dizer que varia entre 1400 euros e 3.400 euros, um bocadinho longe do que pagamos aos rapazes da CAE da EDP.
 A EDP como outras empresas fundamentais à vida e economia do país foram privatizadas pois os multimilionários é que sabem governá-las, governarem-nos, governarem-se! 
É a política de direita em todo o seu esplendor
  
A Comissão Executiva da EDP , com 9 elementos custava-nos por mês 12 milhões e 800 mil euros. Agora reduziram para 5 elementos a comprovar que havia pelo menos 4 importantes senhores dispensáveis.    
 

 Link: Expresso - 12 MARÇO 2021 21:23

Remunerações dos gestores da elétrica revelam que António Mexia auferiu 2,37 milhões de euros brutos no ano passado, entre remuneração fixa, variável e diferida

O encargo da EDP com o seu conselho de administração executivo em 2020 ascendeu a 12,8 milhões de euros em termos brutos, com o gestor mais bem pago a ser, como habitual, o presidente executivo, que no ano passado era ainda António Mexia.

Globalmente o encargo com a administração executiva aumentou 16%, já que em 2019 os gastos da EDP com a remuneração bruta do conselho de administração executivo tinham sido de 11,05 milhões de euros.

António Mexia, que foi suspenso de funções durante o verão por decisão do juiz Carlos Alexandre no âmbito do processo 184/12 do Departamento Central de Investigação e Ação Penal, auferiu em termos brutos, uma soma de 2,37 milhões de euros. Em 2019 Mexia tinha auferido um total de 2,16 milhões de euros.

A remuneração bruta do ex-presidente executivo da EDP incluiu 970 mil euros fixos, 554 mil euros variáveis (relativos ao desempenho da gestão em 2019) e 848 mil euros de remuneração variável plurianual (relativa ao exercício de 2017).

O segundo gestor mais bem pago da EDP foi João Manso Neto (também suspenso de funções pelo juiz Carlos Alexandre), que custou à empresa 1,65 milhões de euros em 2020.

O terceiro mais bem pago foi Miguel Stilwell de Andrade, que até 2020 ocupava o lugar de administrador financeiro, tendo ocupado interinamente o lugar de presidente executivo após a suspensão de Mexia (sendo já em 2020 formalmente nomeado presidente executivo da EDP). Stilwell teve uma remuneração bruta de 1,56 milhões de euros.

Os encargos da EDP com o seu conselho de administração executivo devem baixar de forma significativa em 2021, já que este órgão passou este ano a ter apenas cinco elementos em vez dos nove elementos que tinha até ao final de 2020.
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E quanto ganham os políticos? (um clique mostra tudo)


2021-11-15

 

 



2021-10-10

 

A BATALHA DO SALIENTE DE KURSK - 2ª GM

A BATALHA DO SALIENTE DE KURSK
Foi a batalha, onde se verificou o maior confronte de tanques da história das guerras. Ocorreu durante a 2ª Guerra Mundial, durante 50 dias, de 5de Julho a 23 de Agosto de 1943, na União Soviética invadida por Hitler. 
O relato está publicado aqui no "Esquerda.net"  : 

A batalha de Kursk

A batalha de Kursk (5 de Julho a 23 de Agosto de 1943) foi a batalha que confirmou a viragem estratégica da guerra na Frente Leste entre a Alemanha hitleriana e a União Soviética. Por Raimundo Narciso.
Batalha de Kursk.

Kursk é uma cidade da Rússia a cerca de 450 kms a sudoeste de Moscovo, actualmente com cerca de 500 mil habitantes.

A Batalha de Kursk, também designada batalha do Saliente de Kursk, ocorreu na 2ª Guerra Mundial, durante 50 dias, de 5 de Julho a 23 de Agosto de 1943 em torno desta cidade, entre as forças armadas da Alemanha nazi com o apoio de forças da Itália fascista de Mussolini e de países dominados pela Alemanha como a Roménia, Hungria ou a Croácia e as forças armadas da União Soviética, que tinha sido invadida pela Alemanha em 22 de Junho de 1941.

A batalha de Kursk, uma das maiores batalhas da 2ª Guerra Mundial, ficou célebre a vários títulos, porque foi a batalha que, em 12 Julho de 1943, no confronto de Prokhorovka, envolveu o maior número de carros de combate da história, 600 de cada lado, segundo o relato do marechal Vassilievsky que no relatório de 14 de julho de 1943 para o “Comandante Supremo” (Stalin) diz nomeadamente “… ontem assisti a este combate titânico… após uma hora de confronto o terreno ficou coberto de tanques em fogo”i.

O combate atingiu uma ferocidade inaudita. Para avaliar o desespero, um caso singular mas significativo:

“Um carro de combate T34 do exército soviético fora atingido e incendiado por um carro Tigre, o mais moderno e potente tanque da Whermacht. O condutor do T34 e o comandante, que ficara ferido, saíram do tanque mas o condutor vendo o Tigre vir na sua direcção voltou ao T34 em chamas e conduziu-o a toda a velocidade contra o carro alemão, provocando uma explosão que fez a terra tremer”ii.

Nesse combate de Prokhorovka foram destruídos 300 tanques alemães, incluindo 70 “Tigres”, e um número ainda maior de tanques do Exército Vermelho.

A Batalha de Kursk ficou célebre também porque foi a batalha que confirmou a viragem estratégica da guerra na Frente Leste entre a Alemanha hitleriana e a União Soviética, viragem que se tinha iniciado pouco antes com a maior e mais decisiva batalha da 2ª Guerra Mundial, a batalha de Stalinegrado (actual Volgogrado).

Quer Hitler quer Stalin tinham a consciência de que aquela batalha era decisiva para o futuro da guerra.

Após a derrota da Wermarcht em Stalinegrado, que se estendeu de 17 de julho de 1942 a 2 de fevereiro de 1943, as forças armadas soviéticas empurraram as forças invasoras para ocidente fazendo um saliente de cerca de 400 kms de largura em torno da cidade de Kursk, numa linha de frente geral de perto de 2.000 kms, desde Leninegrado (hoje S. Petersburgo) ao Norte, na margem do mar Báltico, até ao Mar Negro, no Sul da Rússia.

A Alemanha reuniu 900.000 combatentes, o maior número de forças terrestres e aéreas de que podia dispor, na expectativa de cercar e dizimar o conjunto de exércitos soviéticos concentrados no saliente de Kursk, cujos efectivos ascendiam a 1.000.337 combatentes, para retomar a iniciativa estratégica e inverter o rumo da guerra alterado em Stalinegrado.

Ao longo da batalha, um e outro lado juntaram reforços ao ponto de nela terem participado no total, do lado nazi 1.514.000 militares e do lado soviético 2.640.000. As forças envolvidas, de um e outro lado, ao longo desta batalha histórica atingiu assim uns inimagináveis 4.154.000 combatentes.

Esta decisiva batalha foi preparada e conduzida sob a supervisão directa quer de Hitler quer de Stalin. Do lado soviético, a coordenação geral das frentes no terreno era feita pelo Marechal Jukov, adjunto de Staline e pelo marechal Vassilievski, Chefe do Estado Maior General do Exército Vermelho.

Vassilievski considerou que esta batalha se desdobrava em três grandes operações estratégicas: - a operação defensiva perante o ataque alemão e, como resposta, a operação ofensiva do Exército Vermelho na direcção da cidade de Orel, a norte de Kursk e a operação ofensiva que tem como primeiro alvo as cidades de Bielgorod e Carcóvia, a sul do Saliente.

O ataque alemão, a “Operação Cidadela”, foi concebido como um ataque em tenaz, para cercar e aniquilar a concentração de forças soviéticas no interior do Saliente:

- a partir do norte pelo Grupo de Exércitos Centro, numa frente de 50 kms, comandados pelo marechal de campo Kluge, em 5 de Julho, a que se opôs a Frente Central dos exércitos soviéticos comandada pelo general Rokossovski, vitorioso a 10 de Julho;

- e a partir do Sul, em simultâneo, numa frente de 80 kms, pelo grupo de Exércitos Sul comandados pelo marechal alemão Manstein a que se opôs vitoriosamente o marechal Vatutin ao comando da Frente de Voronez.

Os exércitos nazis apenas conseguiram avançar 12 kms ao Norte e 35 kms ao Sul.

Um factor importante na vitória soviética no Saliente de Kursk foi ter o Exército Vermelho obtido informação com bastante antecedência dos planos de ataque nazis, o que lhe permitiu reunir suficientes forças prontas para o combate, como importantes reservas na proximidade, além da preparação do terreno com minas e obstáculos, para dificultar o avanço das forças inimigas.

Na batalha do Saliente de Kursk a luta ganha uma rara ferocidade e o máximo desespero tanto por terra como pelo ar, por quanto se sabia, de um e outro lado, se tratar de um choque estratégico e provavelmente decisivo – como aliás se veio a provar - para o futuro da guerra na frente Leste, que o mesmo é dizer para o futuro da Alemanha nazi.

Com a vitória nesta batalha, o Exército Vermelho ganha, sem mais a perder, a iniciativa estratégica, que confirma os resultados da vitória de Stalinegrado, ao fim de dois anos de recuo, iniciados com a invasão alemã, em 22 de Junho de 1941.

A batalha de Kursk compara os seus decisivos 50 dias de luta com os cerca de sete meses das batalhas de Stalinegrado e de Moscovo ou os dois anos do cerco e batalha de Leninegrado que continuaria até 1944.

Na URSS, de Junho de 1941 a Junho de 1943, a Alemanha perdeu 4.130.000 homens entre mortos, feridos, doentes e desaparecidos. Foram mortos mais de 1.000.000 de alemães, romenos e italianos.

No verão de 1943, a totalidade das FA da Alemanha atingem os 10.300.000 combatentes, dos quais 6.682.000 em campanha e, destes, 4.800.000 (72%) na frente germano-soviética. A estes somam-se 525.000 romenos, italianos e de outros países subjugados pela Alemanha nazi num total de 5.325.000 no território da União Soviética. Já as forças armadas da URSS que aumentaram muitíssimo desde a invasão, em número de combatentes, meios bélicos e experiência de guerra, têm em operação, em 1943, 6.442.000 de combatentesiii.

Para atingir aquele número impressionante de combatentes, Hitler mobilizou em 21 de Janeiro de 1943 todos os alemães dos 16 aos 65 anos de idadeiv e para manter a economia de guerra levou para trabalho forçado na Alemanha 6.300.000 operários estrangeiros e prisioneiros de guerra.

Na informação geral disponível no Ocidente e na obra de alguns dos seus historiadores, a Batalha de Kursk e outras muito relevantes ocorridas na “Frente Leste” da Europa são subestimadas ou até mesmo ignoradas. A projecção comunicacional e a relevância atribuída a batalhas como por exemplo a de El Alamein, no Egipto, sem dúvida importante, onde se confrontaram forças da Alemanha nazi com as da Inglaterra e das suas colónias, é muito maior do que a atribuída à batalha de Kursk. Mas as forças em luta de um e outro lado em Kursk somam 4.000.000 de homens e as da segunda batalha de El Alamein, a maior, de 23 de Outubro a 2 de Novembro de 1942, somam 310.000 homens.


Obras consultadas:

Histoire da la Seconde Guerre Mondiale do historiador militar inglês Liddel Hart – Éditions Marabout 1985

Segunda Guerra Mundial de G Deborin – edição Fulgor, Brasil.

Notas de final:

i La Bataille de Kursk - Editions du Progrès – Moscovo, 1975 que reúne os testemunhos dos principais comandantes de Frentes e de Exércitos soviéticos que combateram na batalha de Kursk, pág 57.

ii A 2ª Guerra Mundial de Martin Gilbert, historiador inglês, Publicações D. Quixote 1989, 2º Vol pág 84.

iii História da 2ª Guerra Mundial na Frente Leste vol II Editorial Estampa, Instituto do M-L, CC PCUS págs 45, 46.

iv Grande Crónica da Segunda Guerra Mundial- Selecções do Reader’s Digest - 1º volume pág 474).


2021-07-11

 

Shahd Wadi, palestiniana. Estudou em Coimbra. Foi despedida.

Recebi esta mensagem do Comité Palestina. Que me dizem? 

" Shahd Wadi, militante contra a ocupação israelita, membro do Comité de Solidariedade com a Palestina, foi despedida do seu posto de assessora na representação diplomática da Palestina em Lisboa. A carta que aqui divulgamos testemunha a repressão usada pela Autoridade Palestiniana contra os que levantam a voz contra a sua política de opressão e violação dos direitos humanos.

"No dia 5 de julho último, a Missão Diplomática da Palestina informou-me verbalmente de que o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Palestina exigiu a minha demissão imediata e sem aviso prévio do cargo de Assessora dos Assuntos Culturais e Imprensa, por ter condenado nas redes sociais, o hediondo assassinato do activista político e candidato ao Conselho Legislativo da Palestina, Nizar Banat, morto pelas mãos das Forças de Segurança da Autoridade Palestiniana após a sua detenção.

"Banat, era um activista que acusou em várias ocasiões Autoridade Palestiniana de corrupção e que revelou 

ultimamente o escândalo do acordo entre as autoridades palestinianas e Israel sobre vacinas contra a COVID-19 perto de fim da validade. Nizar Banat, foi detido de madrugada do dia 24 de Junho e espancado até a morte.

Até àquele momento, a expressão do meu repúdio por aquele acto consubstanciou-sena partilha nas redes sociais de artigos que o meu pai, o escritor Farouq Wadi, escreveu sobre o assunto, na assinatura de uma carta aberta conjunta de um grupo de jovens palestinianas e palestinianos residentes em Portugal (em anexo), a qual foi entregue na Missão Diplomática da Palestina, no dia 30 de Junho último. A Missão Diplomática da Palestina entregou-me uma carta de cessação de contrato, prometendo pagar uma indeminização em breve e agradecendo o trabalho desempenhado no exercício das minhas funções desde 2010.

O meu despedimento não foi o primeiro. Ihab Bseiso, Director da Biblioteca Nacional da Palestina  ex-ministro da cultura, foi demitido por ter criticado nas redes sociais este assassinato extrajudicial. As manifestações pacíficas que foram organizadas em protesto contra esta morte, foram reprimidas violentamente, usando métodos utilizados normalmente pelas forças da ocupação israelita, como o gás lacrimogêneo, manifestações estas onde muitas pessoas foram feridas e detidas. As manifestantes mulheres jovens sofreram particularmente represálias, tendo os seus telemóveis sido confiscados com a ameaça de divulgar as suas fotografias íntimas.

Especialmente hoje, num momento em que se intensificam os ataques contra Gaza e as tentativas da limpeza étnica e colonização da Palestina seja em Sheikh Jarrah, Silwan, Beita e outras localidades palestinianas, é urgente fortalecer a unidade e resistência do povo palestiniano contra a ocupação israelita. Saliento que as minhas críticas neste momento sobre os vários episódios de violência e de represálias da parte da Autoridade Palestiniana partem da minha crença da importância de reunir e juntar o povo palestiniano e não criar mais divisões.

Apesar de meu despedimento ter sido amplamente divulgado pelos meios de comunicação na Palestina e até fora, não pretendo de maneira nenhuma torná-lo num caso específico ou pessoal, mas demonstrar, através do mesmo, o ponto a que chegou a repressão do exercício de liberdade, designadamente da liberdade de expressão na Palestina.

Também não pretendo desviar a atenção da nossa luta principal contra a ocupação israelita, mas não podemos esquecer que quando lutamos pela liberdade da Palestina, lutamos por toda a liberdade contra qualquer opressão, venha ela de onde vier.

Neste momento, é importante juntar a voz das pessoas solidárias com a causa palestiniana à voz do povo palestiniano, o qual, enquanto resiste a perseguição dos seus jornalistas pela ocupação israelita, não esquece as tentativas de asfixia da liberdade de expressão exercida pela Autoridade Palestiniana. As mesmas pessoas que estão à porta das prisões israelitas para saber de membros da sua família, estão à porta das prisões da Autoridade Palestiniana para saber dos seus entes queridos. As pessoas que saem à rua contra a ocupação israelita são também as mesmas que se manifestam contra a opressão da Autoridade Palestiniana.  O luto que se faz pelos resistentes mortos pela ocupação tem a mesma cor do que se faz por Nizar Banat.  

Qualquer pessoa que se junte ao seu povo na defesa dos seus direitos, onde eu me incluo, é perseguida ou despedida injustamente.  Apelo-vos juntar a vossa voz à do povo palestiniano para pôr fim a qualquer tipo de injustiça, sejam elas as perpetuadas pela ocupação israelita sejam as praticadas pela autoridade palestiniana. 

Continuarei, como sempre, a minha luta pela defesa dos direitos do povo palestiniano, contra a opressão e pela liberdade, toda a liberdade. 

Shahd Wadi

9 de Julho 2021"
_______________________________________

Acarta acima referida:
Liberdade para a Palestina, contra a opressão! Nós, abaixo-assinados, filhas e filhos do povo palestiniano, residentes em Portugal, condenamos o hediondo assassinato do activista político e candidato ao Conselho Legislativo da Palestina, Nizar Banat, morto após a sua detenção pelas Forças de Segurança da Autoridade Palestiniana. Salientamos que a liberdade de expressão é garantida pela Lei Básica Palestiniana. 

Denunciamos e condenamos os ataques bárbaros e as detenções perpetrados pelas Forças de Segurança da Autoridade Palestiniana contra os manifestantes pacíficos que protestaram contra o assassinato do activista Nizar Banat. 

 Sob o princípio da liberdade total que acreditamos não pode ser posto em causa, apelamos ao direito de reunião e manifestação, à necessidade de preservar as liberdades políticas e à proteção dos manifestantes. Rejeitamos as acusações de traição e o desvio da essência de nossa causa: a libertação da Palestina. 

Condenamos veementemente as intimidações, as detenções e os ataques contra activistas políticos e manifestantes pelas mãos das Forças de Segurança da Autoridade Palestiniana. Acções como estas constituem uma grave violação dos direitos e liberdades garantidos pela Lei Básica Palestiniana. Esses ataques contra o nosso povo acontecem num momento em que temos uma necessidade extrema de fortalecer a nossa unidade e resistência contra a brutalidade da ocupação sionista. Seja em Sheikh Jarrah, Silwan, bairro de Al-Bustan, Beita e outras localidades palestinianas ameaçadas de despejos, seja na Faixa da Gaza, onde nosso povo inabalável ainda está a curar as suas feridas, perante o silêncio da liderança palestiniana, a indiferença árabe e da comunidade internacional. 


              Nós, abaixo-assinados, filhas e filhos do povo palestiniano, residentes em Portugal: 

● Enviamos as nossas mais profundas condolências à família de Nizar Banat, o mártir da palavra, que morreu num assassinato hediondo. 

● Juntamos a nossa voz a quem apela à formação de um comité de investigação independente fora do quadro da Autoridade Palestiniana, constituída por personalidades reconhecidas pela sua independência e integridade, para conduzir uma investigação abrangente sobre o assassinato de Nizar Banat, garantindo que os responsáveis serão exemplarmente punidos. Para conduzir também uma investigação sobre as agressões contra os manifestantes pacíficos, tenham essas agressões sido levadas a cabo por civis ou militares. 

● Afirmamos a importância do trabalho jornalístico e da proteção de todos os profissionais da comunicação social que continuam a trabalhar ininterruptamente para transmitir a verdade e expor os crimes da ocupação e suas políticas racistas. Da mesma forma, condenamos veementemente a repressão por parte das Forças da Segurança da Autoridade Palestiniana. Exigimos que estes profissionais não sejam atacados de qualquer forma ou sob qualquer pretexto. 

● Rejeitamos a política de traição, infidelidade e a anulação do outro. Afirmamos a importância e a necessidade da existência da oposição nacional sob o teto de uma Palestina unida. 

● Afirmamos a ilegalidade de qualquer detenção por causa de uma opinião ou filiação política. Afirmamos a necessidade de proteger o direito da liberdade de expressão e exigimos a libertação de todos os presos políticos. 

Finalmente afirmamos que a unidade nacional é a válvula de segurança e da vitória do nosso povo palestiniano na Cisjordânia, Gaza, Jerusalém, nos territórios de 1948 e na diáspora. Recusamos os confrontos internos, que nos distraem do nosso objectivo principal: resistir e derrotar a ocupação.Força para o nosso povo até a liberdade e o regresso à nossa terra. Paz para os mártires, cura para os feridos e liberdade para todos os prisioneiros. Liberdade para a Palestina. 

Abdel Jawad Rabie 

Dima Mohammad 

Hindi Mesleh 

Obai Radwan 

Rasha Salah 

Serena Sabat 

Serene Issa 

 Shahd Wadi 

Thuraya Alayan 

 Younes Khamash



2021-02-14

 

BANIR OU NÃO BANIR O CHEGA

Texto de Eugénio Lisboa.        (Imagem do Puxapalavra)

A minha ex-colega na embaixada de Portugal, em Londres, Ana Gomes, pessoa cuja inteligência, energia e coragem muito admiro – tendo um invejável percurso em defesa de grandes causas – fez recentemente uma participação à PGR no sentido de se ilegalizar o CHEGA. 

O assunto é complexo e o paradoxo democrático que implica não é de hoje. António Barreto, no Diário de Notícias, classifica expeditamente o acto da diplomata portuguesa, sem a ela explicitamente se referir, como estúpido e irracional. Acho curioso e um bocadinho bizarro um juízo tão expedito e sumário sobre uma perplexidade que tem preocupado os filósofos desde Platão para cá: a de saber-se se os tolerantes devem ou não tolerar os intolerantes. Há quem pense que sim, seja qual for o grau de intolerância, a bem da pureza da democracia. 


O notável filósofo Karl Popper chamou a isto o “paradoxo da democracia” porque, se por um lado, não aceitar tolerantemente a intolerância dos outros pode ferir a imagem da democracia, por outro, aceitá-la pode levar à morte dela. O problema não é de fácil solução, pelo que não deve ser despachado à pressa, com dois qualificativos injuriosos. 

No seu notabilíssimo livro – The Open Society and its Ennemies – Popper pronunciou-se, não só do alto da sua imensa cultura filosófica e científica, mas também ao sabor da sua experiência de cidadão germânico que assistiu ao assalto ao poder congeminado pelas hostes de Hitler, que a República de Weimar não quis ilegalizar (mesmo depois de Hitler ter deixado bem claro ao que vinha). A democracia alemã jogou o jogo da democracia impoluta e os nazis aproveitaram-se dessa fraqueza para se alcandorarem ao poder, alterando então as regras para se perpetuarem nele. Ficou-se à espera do “crime cometido” para só então se poder “democraticamente” agir. Simplesmente, uma vez cometido o crime, já era tarde para o punir e corrigir.

Quando se diz que, só quando o CHEGA cometer um claro atentado violento (“tiros e pistolas”) contra a democracia, se poderá ilegalizá-lo, está-se a escancarar a porta a uma tirania. A verdade, repito, é que o partido nazi já tinha deixado bem claro ao que vinha, e não me parece particularmente sensato que se tenha ficado à espera de ele destruir toda a Europa, para, finalmente, se intervir.

O CHEGA já deu claramente indícios de que não quer jogar o jogo da democracia e quem não quer jogar segundo as regras do jogo não deve sentar-se à mesa de quem joga. Pode ser que assim, como se diz, a democracia fique ligeiramente imperfeita, mas é preferível ficar com ela imperfeita a assistir ao seu suicídio, a bem da pureza. 

A perfeição não é deste mundo e eu prefiro viver com uma democracia um bocadinho imperfeita a cair de novo na ignomínia de um regime regido por um tiranete. Os demagogos intolerantes e famintos de poder fazem-me e sempre me fizeram mau sangue. Como dizia o meu admirado Jean Rostand, grande biólogo, excepcional escritor e admirável pensador aforístico, “há, na intolerância, um grau que confina com a injúria”.

Eugénio Lisboa 


2021-02-06

 

A CHINA luta contra a pobreza

 Mulher rural chinesa supera a pobreza e muda a sua vida


Bamu e sua família na nova aldeia de Taoyuan, que é servida por água, eletricidade, telecomunicações e estradas modernas. | Foto: Xinhua

Em 2010 ela se tornou conhecida graças a uma foto icônica, e 11 anos depois conta como sua vida mudou. 

O fotógrafo Zhou Ke passou 11 anos a procurar uma mulher que fotografou em 30 de janeiro de 2010, durante o período de viagens do Festival da Primavera na China.

Naquele dia ele tirou uma foto que, depois de publicada, tocou o coração de muitas pessoas: uma jovem mãe, chamada Bamu Yubumu, segura um bébé nos braços com a mão direita, enquanto com a esquerda carrega uma mochila e às costas leva um saco enorme.

Ke capturou o momento em que a jovem Yi* da Prefeitura Autónoma de Liangshan Yi (província de Sichuan do sudoeste) estava à espera do seu comboio na cidade de Nanchang para viajar para casa para a reunião de família no feriado.

Depois de muito procurá-la, Ke encontrou Bamu e entendeu que sua descoberta era uma espécie de alegoria às mudanças vividas pelos habitantes rurais da China graças às ações de seu governo no combate à pobreza.

A viagem de Bamu para sua casa pobre em 2010 levou três dias e duas noites. Agora, graças aos comboios de alta velocidade, a viagem entre Nanchang e Chengdu, a capital de Sichuan, leva oito horas, e daqui para a sua casa mais seis.

Com 32 anos de idade, Bamu passou a infância numa montanha alta e nunca pôde ir à escola. Depois de se casar, ela e o marido estabeleceram-se no sopé da montanha numa casa sem eletricidade.

Naquela época, eles tinham apenas 0,4 hectares de terra árida, onde plantavam milho, batata e trigo sarraceno. Graças ao seu primeiro emprego, ele ganhou um salário de 500 yuans (US $ 77) por mês.

Mas sua sorte começou a mudar quando um projeto de redução da pobreza começou a ser implementado em sua aldeia, Taoyuan. Em 2014, a família foi registrada como uma família pobre pelo governo local.

Quatro anos depois, eles receberam um auxílio-moradia de 40.000 yuans (US $ 6.200). Com mais 70.000 yuans (US $ 10.800) em economias, Bamu e sua filha construíram uma casa de concreto e cimento.

Desde 2013, Bamu deu à luz outras três crianças, todas em hospitais locais gratuitos, e recebeu apoio financeiro para cuidar da saúde e da educação de seus filhos.

Durante 2020, sua renda familiar chegou a 100.000 yuans (US $ 15.480) e eles conseguiram sair da pobreza. Seus filhos são educados em uma escola próxima.

Atualmente, os moradores de Taoyuan têm acesso a água canalizada, estradas modernas, eletricidade e telecomunicações.

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Artigo obtido aqui: Link


2021-02-01

 

Isabel do Carmo e o covid-19

Do Jornal Público de 29 de Janeiro de 2021

Notícias do túnel  

A médica Isabel do Carmo esteve internada dez dias com covid-19 no Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Este é o seu testemunho, que é também um alerta e um gesto de reconhecimento.

Isabel do Carmo

Eu, médica, observadora diferenciada, estive internada com o diagnóstico de covid-19 durante dez dias nas enfermarias do Hospital de Santa Maria e penso que o meu testemunho pode servir de alerta e de um enorme reconhecimento. Alerta para o risco real e actual (rastrear e confinar é preciso). E dar graças à vida pela existência do nosso Serviço Nacional de Saúde.

Estive a trabalhar e a ver doentes até ao dia 23 de Dezembro, com todo o cuidado, e não foi por aí que o vírus entrou. No dia 24, juntámo-nos seis adultos e três crianças e, apesar das máscaras e das distâncias, alguma imprudência abriu por momentos a porta ao invisível. Contaminámo-nos todos e, fiados na falsa segurança do teste simples, alguns de nós multiplicaram o contágio. Os mais jovens mantiveram a sua energia transbordante, os de idade intermédia tiveram muitos sintomas, mas trataram-se em casa, os mais velhos reagiram de acordo com os factores de risco. E foi assim que, ao décimo dia de febre e outras queixas, o meu colega do centro de SME ordenou, e bem, que fosse à urgência de covid. Se não tivesse ido, tinha morrido, e esse é o primeiro alerta a manifestar.

Há um momento, determinado empiricamente, em que se conclui, por estatística, que é assim. Não vale a pena correr contra as probabilidades. Claro que foi muito incómodo, muito frio, muito desaconchegado, esperar por ser chamada no pequeno telheiro improvisado no piso das entradas. Fica melhor quem está dentro das ambulâncias, que têm suporte de oxigénio e macas ou cadeiras. Esta condição de espera, este ponto de entrada, seria possível melhorar fisicamente? Talvez. Mas os doentes chegam e não podem ser mandados para trás. Seria possível desviar um meteorito que caísse em cima das nossas cabeças? Só para os encartados e teóricos comentadores, que eles preveriam tudo.

Resolveu-se: agora temos o hospital de campanha. Todavia, foi por ali que me salvei. Quando finalmente dei entrada no “covidário”, ganhei direito a um cadeirão, a uma máscara de oxigénio e à segurança de ter entrado no circuito. Desde esse momento, fui sempre a senhora Isabel, idêntica a todos os outros, e nunca, e bem, a médica da casa. Algumas horas depois entrei numa “box”, com WC e uma porta com janelão de vidro. As dimensões comparei-as com outras de outras “boxes” de há muitos anos. Idênticas, mas o janelão e o calor humano pertencem a outro universo. Fiz então uma TAC num dispositivo colocado no “covidário”. E é aí o extraordinário. Nunca ao longo de tantos anos de clínica tive conhecimento de tal quadro – os meus pulmões estavam infiltrados de alto a baixo e dos dois lados com múltiplos focos de inflamação, que não deixavam o oxigénio atravessar os alvéolos e passar para o sangue, onde ele é necessário à vida. Sintomas? Poucos. Mas lá estava o oxímetro a mostrar níveis baixos.

Os meus colegas não estão desesperados, nem aflitos, estão profundamente preocupados, esgotados também. Quando lançam o alarme cá para fora não é um pedido de socorro para eles. É dizer que só o confinamento melhora o problema. E há uma linha vermelha que percorre este chão e é móvel – a das mortes evitáveis

Aqui reside um grande risco: esta “hipoxemia feliz” mata. Assim morreu o pai de uma colega minha com 50% de saturação e poucos sintomas. Foi a partir do nada ou da experiência inicial da China que os protocolos foram sendo estabelecidos. De madrugada, saí do “covidário” e fui rapidamente internada nas enfermarias de covid, Medicina 2C. Fizeram-me aquilo que está protocolado que se faça: oxigénio, corticóides, broncodilatadores, antibiótico se necessário. Para os meus companheiros de enfermaria, alguns hemodialisados, diabéticos, transplantados, cada protocolo era diferente. No mesmo piso, para além da porta de separação, havia mais enfermaria de covid, havia a zona dos intensivos e havia a zona dos intermédios com máscara permanente de oxigénio, onde ficou o Carlos Antunes e donde partiu para sempre no dia 19 de Janeiro.

Aquilo a que assisti de serenidade, de eficácia, de competência, ficará para sempre marcado como um momento muito alto da minha vida. Sei que as pessoas todas juntas não somam inteligências, multiplicam. É um fenómeno que faz parte da natureza humana, assim a humanidade sobreviveu. Observei a entrada regular e harmoniosa das assistentes operacionais, dos enfermeiros, dos fisioterapeutas, dos jovens médicos internos e das chefes seniores. Cada um sabe o gesto que tem que fazer, o equipamento em que tem que mexer, o registo necessário, a colheita de sangue a horas, a administração do medicamento. E… sabe também informar. Explica o que vai fazer e porquê.

O meu conhecimento dos espaços das urgências cresceu comigo organicamente. Fiz urgências nos bairros pobres de Lisboa, fiz no Hospital do Barreiro actos clínicos que não passavam pela cabeça de uma miúda de 20 e poucos anos, antes da classificação de Manchester andei de papel na mão a fazer triagem na sala de espera, vi crescer o Serviço de Observações das Urgências de Santa Maria com a Teresa Rodrigues a decidir os gestos urgentes. E lá continua ela a salvar gente. Sofri com os “directos” e culpabilizei-me. Vi o Carlos França instalar finalmente os cuidados intensivos. Vi tudo? Não. Não vi nada. Porque bastou o ano de 2020 e o inimigo ultra-invisível para perceber que há uma coisa que de facto é um “milagre”: a capacidade de auto-organização, rápida, eficaz, criativa, serena. Era possível fazer tudo isto com requisição civil? Tenho dúvidas. É a cultura que está para trás que explica o “milagre”.

Com as minhas amigas enfermeiras conversávamos por vezes sobre os “territórios”. Pois o milagre também desenhou territórios. Quer isto dizer que reina a paz nos serviços de urgência do Serviço Nacional de Saúde? Não. Esta onda organizada de espaços e de recursos humanos palpita como um corpo que pede respiração. O director da Medicina, Lacerda, vai buscar enfermarias a todo o lado possível, converte serviços e adapta-os. A Sandra Brás supervisiona como um arcanjo os vários espaços e equipamentos covid-19. Os meus colegas dos cuidados intensivos, com 85% de lotação, estão no limite, ou seja, na zona das necessárias e rápidas escolhas. Estes doentes não são pneumonias habituais. Têm mais demora de cama (quanta?), têm uso de equipamentos que não existiam antes.

Os meus colegas não estão desesperados nem aflitos, estão profundamente preocupados, esgotados também, a situação é dinâmica, é preciso fazer opções técnicas. Quando lançam o alarme cá para fora, não é um pedido de socorro para eles, é dizer que só o confinamento melhora o problema, é explicar que quanto mais infectados, mais sintomáticos. Entre estes aumentam os de risco e quanto mais risco mais cuidados intensivos. E há uma “linha vermelha” que percorre este chão e é móvel – a das mortes evitáveis.

Na minha enfermaria, por sinal toda de afrodescendentes, senti no mais fundo da noite que alguém abandonava a Montanha Mágica. Com serenidade. Sem obstinação. É também uma escolha. No dia seguinte, a animada Inalda, assistente operacional de São Tomé (já sou efectiva!), a enfermeira Ana, a enfermeira Marta, nos doentes o Sr. C., que ficou meu amigo e é de Cabo Verde, a Dona A., de Luanda, o Sr. D., que também é de Luanda e já venceu muitas coisas, corpos que já foram desejados, já se reproduziram, são a humanidade que ali está.

A médica de Medicina Interna dra. Patrícia Howell Monteiro, que ainda foi contratada em exclusividade (2008/2009?), é o pilar sólido e sustentável que orienta o Henrique Barbacena, o Renato e o Francisco, que hão-de fazer o exame da especialidade proximamente. Para onde irão? O Renato está a sofrer nos cuidados intensivos, a dar o máximo. O Henrique é também professor de Farmacologia, tive o privilégio que me explicasse coisas sobre vírus. E ausculta à velha maneira, como eu. Conseguimos ter um momento para conversar e a propósito da vida e do ultra-invisível, contou-me como lera apaixonadamente a Estranha Ordem das Coisas, do Damásio, livro que a chefe Patrícia lhe ofereceu. Há muitos anos, o António Damásio também foi da nossa incubadora, o Hospital de Santa Maria. E, a propósito, eu e o Henrique conversámos sobre a dinâmica da vida, a necessidade de não fazer classificações mecanicistas. E reganhei a grande esperança do aviso da tal frase do Abel Salazar: “Um médico que só sabe Medicina, então, não sabe Medicina.” Estes sabem Medicina e são uma das estruturas do SNS.

Médica, professora da Faculdade de Medicina de Lisboa, membro do grupo Estamos do Lado da Solução

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2021-01-29

 

Com André Ventura e o Chega o fascismo sai do armário.

Reproduzo mensagem recebida de Vasco Lourenço/A25A que oferece as considerações de ALFREDO BARROSO sobre o Chega e André Ventura e que transcreve as "prevenções" contra o fascismo feitas por Humberto Eco.

Vasco Lourenço: "Caros Associados

Temos ouvido algumas piedosas afirmações, que procuram branquear os actuais  neofascistas, com o argumento de que o fascismo ou o nazismo foram diferentes. 
Alfredo Barroso, nosso associado, tem assumido relevante papel na denúncia do avanço da extrema-direita, em Portugal e no Mundo. 
Nem sempre estamos de acordo com ele, nomeadamente na qualificação de forças políticas e dirigentes nacionais. Mas respeitamo-lo, como Homem íntegro e honesto, democrata e patriota, frontal nas suas atitudes e eterno lutador contra o politicamente correcto! 
Ao decidirmos divulgar este seu texto de alerta e denúncia contra o avanço de um novo nazismo/fascismo, ainda admitimos a não inclusão do seu comentário pessoal. Considerámos que não tínhamos esse direito, que, sendo claro que são opiniões pessoais, as deveríamos incluir. 
Aqui ficam, com um forte abraço amigo e de Abril ao Alfredo Barroso. 
A todas e a todos, as nossas mais cordiais saudações de Abril"    

Vasco Lourenço
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Alfredo Barroso:     

O FASCISMO E A INTOLERÂNCIA EVOCADOS POR UMBERTO ECO

Os textos de UMBERTO ECO que a seguir vão ler, traduzidos por mim, Alfredo Barroso, dedico-os a todos aqueles que ainda se atrevem a dizer que o movimento do CHEGA, chefiado por André Ventura, não é fascista ou neofascista, é só um movimento demagógico e populista de extrema-direita. Para que não acordem para a realidade quando já for demasiado tarde, quando Ventura tiver encontrado em Rui Rio um aliado como Hitler encontrou em Franz Von Pappen (que o ajudou a dissolver a República de Weimar e a consolidar o seu poder), e em Marcelo Rebelo de Sousa, um PR tão impotente como o marechal Paul Von Hindenburg, Presidente da República de Weimar desde 1925 até à sua morte em 1934. Ora leiam:

“Ora Temos de velar para que o significado de cada um destes dois termos [Liberdade e Libertação] nunca torne a ser esquecido. O fascismo eterno está sempre em nossa volta, por vezes com disfarces civis. Seria tão confortável que alguém avançasse pelo palco do mundo e dissesse: 'Quero reabrir Auschwitz, quero que os camisas negras voltem a desfilar pelas ruas italianas'. Pois é, mas a vida não é assim tão simples! O fascismo eterno é susceptível de regressar sob as aparências mais inocentes. E temos o dever de o desmascarar, de apontar a dedo cada uma das suas novas formas - todos os dias, em cada parte do mundo. Dou, mais uma vez, a palavra a [Franklin D.] Roosevelt: "Atrevo-me a dizer que, se a democracia americana deixasse de progredir como uma força viva, procurando dia e noite, por meios pacíficos, melhorar a condição dos nossos cidadãos, a força do fascismo cresceria no nosso país" (4 de Novembro de 1938). Liberdade e Libertação são, portanto, um dever que nunca acaba. E tal deve ser a nossa divida: "nunca esqueçamos”

“A intolerância mais perigosa é aquela que nasce na ausência de qualquer doutrina, movida por pulsões elementares, É por isso que os argumentos racionais não servem para criticá-la nem para travá-la. É evidente que os fundamentos teóricos de 'Mein Kampf' são refutáveis com uma bateria de argumentos bastante elementares, mas se as ideias que [o livro de Hitler] propõe sobreviveram a todas as objecções é precisamente porque elas se apoiam numa intolerância selvagem, impermeável a toda e qualquer crítica”

“Toda e qualquer teoria se torna vã perante a intolerância rastejante que ganha terreno dia após dia. A intolerância selvagem baseia-se num curto-circuito categorial que ela empresta ,desde logo, a uma futura doutrina racista. Por exemplo: se Albaneses entrados em Itália nos últimos anos se tornaram ladrões ou deram em prostitutas (o que até é verdade), segue-se então que todos os Albaneses, sem excepção, são ladrões ou prostitutas”.

“Este é um curto-circuito terrível porque constitui uma tentação permanente para cada um de nós: basta que nos tenham roubado uma mala no aeroporto dum país qualquer para que se regresse a casa afirmando que é preciso desconfiar das pessoas desse país.

“Aliás, a intolerância mais terrível é a dos pobres, primeiras vítimas da diferença. Não há racismo entre os ricos: esses, eventualmente, produzem doutrinas do racismo; mas os pobres produzem-no na prática, que é bem mais perigosa. 
«Os intelectuais não conseguem lutar contra a intolerância selvagem porque, face à pura animalidade sem pensamento, o pensamento está desarmado. Mas já é bastante tarde quando eles enfrentam a intolerância doutrinal, porque, quando a intolerância se faz doutrina, é demasiado tarde para a combater, e aqueles que deveriam fazê-lo tornam-se as suas primeiras vítimas.

E no entanto, é aí que está o desafio. Educar na tolerância os adultos que se disputam uns com os outros por motivos étnicos e religiosos é tempo perdido. Demasiado tarde. É que a intolerância selvagem tem de ser combatida na raiz, por via de uma educação constante que tem de começar desde a mais tenra infância, antes que ela se inscreva num livro, e antes que ela se torne uma casca comportamental demasiado espessa e excessivamente dura.”

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NOTA (de Alfredo Barroso): Este texto foi escrito na altura do julgamento do capitão SS Erich Priebke, que participou activamente, sob as ordens do major Kappler, no terrível massacre das Fossas Ardeatinas (em Roma, a 24 de Março de 1944, e que consistiu na execução de 335 reféns italianos, como represália a um atentado cometido por "partigiani" da Resistência Italiana que causou 33 mortos membros das SS; o cálculo feito pelos nazis era o de fuzilar 10 italianos por cada SS morto, mas ainda foram acrescentados nomes à lista inicial). Encontrado na Argentina, onde se tinha refugiado, Erich Priebke foi extraditado em 1995 e julgado em Roma por um tribunal militar que, em 1 de Agosto de 1996, o deu como culpado de homicídio mas ordenou a sua libertação imediata por o crime ter prescrito. Ora, o texto de Eco, do qual apenas traduzi alguns excertos, foi escrito no momento dessa escandalosa sentença, que suscitou uma enorme emoção em Itália. Entretanto, o Supremo Tribunal de Justiça italiano anulou a sentença e, em consequência de novo julgamento, Priebke foi condenado, em 7 de Março de 1998, a prisão perpétua.

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