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2004-11-19

 

O referendo sobre o Tratado Constitucional da UE


Como seria de esperar, está criado um grande alarido à volta do anunciado referendo sobre o Tratado Constitucional da UE. E digo como seria de esperar, porque um referendo deste tipo é sempre muito difícil de ser realizar.

Primeiro, porque se trata de matéria de grande complexidade política, jurídica e técnica que muito dificilmente pode ser apreendida, em profundidade e em todas as suas consequências, pela generalidade das pessoas, sendo sempre fácil argumentar-se, qualquer que seja a pergunta, que as pessoas não sabem bem o que estão a votar. Mas isto passa-se com muitas outras matérias: por exemplo, alguém acredita que as pessoas que votam em eleições legislativas conhecem e compreendem bem os programas dos partidos, as consequências das suas opções, ou o perfil e qualidades dos candidatos a deputados?

Depois, porque o nível de envolvimento dos cidadãos na análise e discussão de temas importantes para a sua vida, qualquer que seja o tema é, infelizmente, ainda muito baixo: basta ver o que se passa, por exemplo, com as reuniões de pais nas escolas, com as reuniões de condóminos e tantas outras em que as matérias a tratar estão muito próximas dos cidadãos.

Depois, também, porque o prestígio da política e dos políticos é baixo, em parte por culpa própria, pelo que muitos cidadãos têm uma grande desconfiança sobre o que os políticos dizem e fazem.

Depois, ainda, porque o actual ambiente social é muito depressivo, o descontentamento geral é grande e não existem perspectivas de rápida melhoria da situação, pelo que os cidadãos têm uma grande tendência para o criticismo. Casa onde não há pão...

Depois, finalmente, porque tudo isto é aproveitado pelos que sempre estiveram e continuam a estar contra a democracia e contra a integração europeia.

Não é por acaso que países como a Áustria, Chipre, Grécia, Malta e Eslovénia decidiram não fazer qualquer referendo e votar o Tratado nos respectivos parlamentos, e que países como a Espanha e o Reino Unido vão fazer referendos meramente consultivos e sem qualquer carácter vinculativo, independentemente dos resultados. E não se sabe ainda em quais dos restantes países da UE vão fazer referendos.

Apesar de tudo, acho que deve haver referendo, assim como acho que devem haver eleições legislativas, reuniões de pais e de condóminos e outra formas de participação e auscultação da vontade dos cidadãos, porque a democracia tem de se ir construindo passo a passo, apesar de todas as limitações existentes. E ainda não apareceu um sistema melhor.

É evidente que há coisas que parecem não ajudar muito, e a pergunta aprovada por PS, PSD e CDS não é, provavelmente, a melhor, assim como tenho dúvidas sobre a posição do PS contra fazer uma revisão constitucional cirúrgica que permitisse fazer uma pergunta geral: estamos ou não globalmente de acordo com a Constituição Europeia? Porque, como bem refere Vital Moreira no "Causa Nossa" (vale a pena ler os vários textos de VM naquele Blog), é isto verdadeiramente o que está em causa. Mas não estou convencido de que, com essa alteração constitucional e com a pergunta geral atrás referida, o alarido fosse muito menor.

O que me parece fundamental, é que nos meses que faltam para o referendo, os partidos e, em particular, o PS, bem como outras instituições e as pessoas mais informadas, se empenhem no sentido do maior esclarecimento e da maior mobilização possível dos cidadãos.

Comments:
Tanta conversa para nos chamar de ignorantes?!! É evidente que há uma "elite" que sabe tudo, domina tudo, etc,etc....nos impinge tudo. Mas não é pelo conhecimento dos programas dos partidos que se vota. Ninguém os sabe, ou melhor, cada membro dessa "elite" tem uma leitura, aqui e ali, diferenciada.

Vamos ser claros, porque corre o PS? O PS não quer uma revisão da Constituição para este efeito porquê? Porque tem vergonha de tantas e tão más revisões? ou porque votando com a esquerda contr o orçamento, quer agora tb dar o braço á direita? Porque não aproveitaram a última? O que de facto acontece é que se brinca demias com o zé pagode.
Manuel Fonseca
 
O que falta é posições claras e não meias tintas.É precisa uma revisão para o referendo por incompetência dos nossos políticos, que se faça. Agora a pergunta séria sobre o referendo só poder ser uma ou se aceita ou não o novo tratado da UE, mais nada. Tudo o resto é brincar aos referendos. É palhaçada.
 
Não há que rebuscar argumentos menos próprios para defender o PS de Sócrates, que se espera seja pragmático e esperto para tomar o poder.Com estas não chega lá. Esperemos que o TC chumbe e que se retome o processo de raiz, ou seja, pela revisão da constituição. Não vejo pressa e essa de que os votantes nunca sabem aquilo em que votam leva aquela outra então voto eu, que sou iluminado, por eles.
D. Botelho
 
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