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2009-11-29

 

Ler e Entender (2)




A entrevista de Mário Lino no Weekend Económico - vidé anterior poste "Ler e Entender (1)" - evolui em dois territórios: o da identidade do entrevistado, com uma história de vida sumária que aponta raízes moçambicanas, o jovem estudante dividido entre as matemáticas gerais e a música, além da opção política que o levou a militar no PCP e, muitas atribulações e debates depois, a aderir ao PS onde veio a assumir diversas responsabilidades com destaque para o cargo de Ministro das Obras Públicas do 1º Governo de Maioria Absoluta do partido de Mário Soares agora liderado por José Sócrates.

O 2º território é o da governação com um balanço ligeiro e promocional das benfeitorias e malfeitorias, empolando as primeiras e esquecendo as segundas, como rezam os preceitos da propaganda antiga. As teorias mais recentes aconselham a que não se faça tábua rasa do que correu mal para não dar a ideia de incapacidade de enfrentamento dos insucessos. Mário Lino vai mais pela propaganda antiga. Quem o lê vê a história do Governo anterior descartada daqueles momentos emblemáticos em que os professores apinharam Lisboa com uma manifestação inesquecível ou em que populações, de norte a sul, se bateram contra o encerramento de centros de saúde e hospitais até que o seu brado se tornou insuportável e Correia de Campos ganhou um par de patins; e em que a composição final do governo, esquecida já a originalidade de uma figura como Freitas do Amaral ter tido incumbências de Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, perdera o colorido inicial, com as saídas de António Costa para a Câmara de Lisboa, a substituição em surdina da ministra da Cultura e as tolices de Manuel Pinho que tiveram o seu epitáfio na cena dos corninhos em sessão parlamentar. Durante esse período, o MOPTC também deu que falar e não se tratou apenas do episódio da passagem do aeroporto da Ota para Alcochete.

A entrevistadora foi de uma urbanidade e permissividade a toda a prova. Mário Lino ligou os dois territórios (o da identidade e o do desempenho ministerial) centrando o elogio no 1º Ministro, enfatizando um argumento político derivado do culto da personalidade: "Sócrates é muito bom e suscita raiva nos adversários" a que só se poderia seguir uma avaliação da acção governativa condizente: o governo esteve bem, em geral, porque em particular nem vale a pena falar.

Voltando ao território da Identidade, sublinhe-se a ordem de valores que Mário Lino preserva da militância comunista (disciplina, honestidade e sentido da responsabilidade) inteiramente compatíveis com o desempenho de quaisquer funções. É algo que sempre me impressionou nas reivindicações públicas de alguns ex-comunistas. Neles permanece o que melhor se pode aproveitar no convento, no seminário ou numa academia militar. Entrega, disciplina, acatamento das consignas superiores. Quanto à base programática e ideológica, zero. Fica-se às vezes com a impressão que o mundo entretanto deu uma volta e a natureza do capitalismo se alterou. Socialistas de esquerda, bloquistas e comunistas teriam perdido por completo a razão quando apontam a fundamental imoralidade do desprezo pelos trabalhadores e pelo trabalho que parece ter feito escola nos últimos tempos. Sobre o capitalismo, nem uma palavra. Até parece que estamos cá todos, felizes e contentes, a gerir como nos mandam uma sociedade que não pode mudar.

Neste aspecto (o do esquecimento da injustiça e da imoralidade constituintes do capitalismo) prefiro Michael Moore e o seu "Capitalism: a love story". Sempre faz alguma coisa mais pela memória que os sociais-democratas de direita se esforçam por desvalorizar e apagar.
O mundo continua a ser algo mais do que um lugar em que as governações se sucedem.

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