2010-12-18
Acontece que Carlos Pinto Coelho foi saneado duas vezes
Em Abril de 1975, em plena revolução, Carlos Pinto Coelho (CPC), foi saneado do DN pelo PCP (era director Luís de Barros e director adjunto José Saramago) e em 2003 pelo PSD, após a vitória da direita nas legislativas. Morais Sarmento, ministro de Durão Barroso, num "momento de cultura" extinguiu um dos melhores programas culturais da televisão, o "Acontece", de CPC.
Ambos os casos são paradigmáticos. O 1º do sectarismo do PCP, que tantos prejuízos lhe causou; o 2º da ignorância e do desprezo pela cultura, da direita trauliteira, no caso dirigida por Durão Barroso, um produto do cruzamento do reaccionarismo atávico do Portugal antigo com o extremismo maoista do Portugal moderno.
Carlos Pinto Coelho teve ao menos, a satisfação, de um pedido de desculpas, de José Saramago, numa entrevista que aquele lhe fez, mais de uma década depois.
(Público P2,de 2010-12-17, sem link. Uma entrevista inédita de Avelino Rodrigues, a CPC, em 2006. Extractos na imagem, ampliável com um clic.)
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2010-06-24
[1987] Saramago visto por Graça Moura
Toda a gente sabe que não há pachorra para aturar o político Vasco Graça Moura e isso não decorre das suas opções políticas de direita mas do estilo trauliteiro que lhe obnubila completamente a inteligência mas também muitos sabem que o outro Vasco Graça Moura, o da Cultura, é uma pessoa inteligente e vasto saber e que só podemos ganhar em ouvi-lo quando fala de... cultura.
Por isso foi com gosto que li o seu artigo de opinião sobre José Saramago hoje no DN de que reproduzo o seguinte: ___________
" Para além de inúmeras reacções circunstanciais, a morte de José Saramago trouxe à baila várias questões muito interessantes. Devo dizer que fui amigo dele e prezo grande parte da sua obra, sem subscrever, como é evidente, as suas posições ideológicas e políticas. Isso nunca me impediu de tentar compreendê-lo, nem de admirá-lo naquilo que penso ser a parte mais válida do que escreveu.
............
Um outro aspecto que julgo importante é o de o romance saramaguiano ter regra geral tão pouco a ver com a narrativa proletária (salvo, evidentemente, o caso de Levantado do Chão) quanto com o chamado romance burguês e as suas várias derivas ao longo do século XX. Saramago conhecia muito bem todo o universo romanesco dos séculos XIX e XX. Soube, ele que tanto se inspirou no barroco, ir à picaresca espanhola buscar algumas notas importantes, entre elas a de um humor que levou com frequência a um ponto corrosivo, para caracterizar algumas das suas personagens, figuras e situações. Mas os cenários em que tudo isso se move parecem ter mais a ver com o reencontrar de um fio narrativo muito anterior a qualquer modelo de ficção preexistente, que faz as personagens existirem e agirem como que emergindo e consolidando-se nas próprias pregas do texto que está a ser escrito, entre o absurdo da situação e os possíveis dos seus comportamentos e das suas escolhas quanto a grandes questões da existência, que começam por aparecer de um modo quase anódino até se proporem ao leitor como avassaladoras e intimidantes.
Um escritor assim, para mais racionalista, ateu e empenhado socialmente por via do comunismo, tinha de questionar o Deus da Bíblia e de fazer uma leitura crítica dos seus atributos. Mas as investidas de Saramago contra Deus supõem, quase de certeza, uma contrapartida de aumento do coeficiente de humanidade e de justiça que ele quereria ver instaurado e praticado entre os homens. No seu caso, o problema é que, historicamente, a proposta política que defendia tinha saído furada e a um preço de sacrifício humano absolutamente incomportável. ... "
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2009-10-30
Afinal Saramago é um ingénuo?
Caim anda por aí. E com ele Saramago. Só por si
Caim teria suscitado as reacções habituais em casos destes. Mas Saramago deu entrevistas e ao classificar a Bíblia Sagrada de «manual de maus costumes» e apregoar que «Deus não é de fiar» fez o que muitos especialistas de marketing ainda têm de aprender com ele. O Nobel animou não apenas os que estão no ramo da orientação das almas e não aceitam ver o seu múnus tratado de forma lhana e sem a transcendência da parábola mística, como também quem tem currículo em matéria bíblica ou se interessa pelo assunto, sem excluir gentios como eu.
Sobre o livro de Saramago e o contexto paroquiano em que se levantou a polémica falou no Público de 28 João Freitas Branco
[link]. Concordo com a defesa que fez de Saramago. No mesmo dia, o Público apresentou no seu site a opinião de Richard Zimler sobre o caso
[link]. Zimler, norte-americano de origem, nosso compatriota de adopção é um escritor famoso e um especialista em religiões, especialmente destas que afectam há uns milénios o Ocidente: judaismo e cristianismo nas suas variantes católica e protestante luterana e calvinista e mais uma miríade de igrejas algumas multinacionais outras apenas um negócio de família de âmbito local, principalmente nos EUA.
Zimler, que faz considerações muito interessantes sobre a Bíblia e o seu significado acaba a considerar Saramago um "ignorante" que toma a Bíblia à letra e não entende nada dos livros do antigo testamento do Deuteronómio ao Segundo Livro de Samuel. Conclui que não passa de um pobre ingénuo.
Ora Caim não é um ensaio sobre a Bíblia, uma incursão exegética sobre o Livro Sagrado. É uma história, um romance. Bom ou mau isso já é outro assunto - eu acho-o bastante interessante.
Zimler considerou Saramago um "ingénuo". Tal conclusão só me poderia levar a considerar Zimler um ingénuo. Mas considerar eu Zimler ingénuo por achar ele Saramago ingénuo levaria o leitor arguto a dizer, ali em baixo na caixa de comentários: o autor do post é um ingénuo. Ora assim isto poderia abrir uma série infinita de acusações de ingenuidade sem... fundamento. Antevendo o perigo concluo prosaicamente que Zimler apenas de faz de ingénuo ao considerar ingénuo o Nobel Saramago. E porque se faz Richard Zimler de ingénuo? - marketing, tento eu descortinar - é que de outro modo falaríamos menos de Richard Zimler, escritor famoso mas mais lá fora.
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2009-10-25
CAIM
Vasco Pulido Valente diz tão mal de Caim como do Saramago. Toda a gente tem fundamentadíííííssima opinião sobre o livro. Mesmo sem o ter lido. Arre gaita. É demais. Do Bispo ao pároco da minha aldeia, do Sr. Doutor até à ti Maria. Além do Sr. De Sousa Lara, Deus Pinheiro e Cavaco Silva - certamente - desde o Evangelho Segundo Jesus Cristo... Decidi comprar o livro. Depois... se me apetecer direi qualquer coisa. Muito profuuuuuunda.
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2009-07-11
Saramago declara apoio a António Costa
Com alguma surpresa, Saramago vem apoiar António Costa para a Presidência da Câmara de Lisboa, o que significa não apoiar o candidato do seu partido. Um acto de rebeldia intelectual que Saramago pode fazer sem consequências, dado o seu estatuto. Se isto acrescenta votos a Costa ou não, não faço ideia. Mas tem significado e "é bonito" o gesto.
A única coisa que me confrange é que a esquerda, sociologicamente bastante maioritária em Lisboa, está a fazer tudo para entregar a Autarquia à governação de Pedro Santana Lopes, cujo passado nestas lides toda a gente conhece. São "as tribos" a funcionar a toda a linha. Os habitantes não contam.
Poderiam algumas forças políticas de esquerda enterrarem temporariamente o machado a este nível e entenderem-se para a gestão da autarquia. Mas não. Preferem potenciar condições de sucesso ao inimigo para desgovernar Lisboa.
E sabem que não é ao nível das Câmaras que as grandes divergências de princípios e de objectivos se colocam.
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