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2009-12-13

 

O inesperado destino das cartas anónimas (3)




Armando Vara tornou-se uma figura típica deste regime. Tal como assinalei nos dois postes imediatamente anteriores (1 e 2), foi da política activa para o mundo da finança, fazendo da finança uma guerra em que a política é prosseguida por outros meios. Os feitos no mundo financeiro são de mais difícil escrutínio e muitos deles (vidé casos do BCP sob a administração de Jardim Gonçalves, do nacionalizado BPN tutelado por Oliveira e Costa com a conivência do Conselheiro de Estado Dias Loureiro, sem falar dos mistérios do BPP...) acabam por soçobrar às mãos de habilidosos advogados e ilustres juristas, entre recursos por dá cá aquela palha e incidentes de recusa.
Neste como noutros aspectos o PS trouxe-nos um conceito de justiça à medida do seu projecto socialista de faz-de-conta. Ao encarecer as custas judiciais, acentuou o fosso entre os que podem defender-se e os que não podem outorgar-se a veleidade de mover qualquer processo. Tal como a redistribuição socializante é sempre adiada para quando o capitalismo estiver bem de saúde, a justiça segue na mesma procissão de agravados, sempre prometida para amanhã e sempre adiada.

Raimundo Narciso, num dos seus postes alusivos ao caso Vara/Face Oculta, não enfrenta a óbvia estratificação entre vítimas de tramóias kafkianas, pobres além de anónimas, e os poderosos que movem montanhas para destruir provas, fintando magistrados e fazendo chicuelinas à polícia, nem quer admitir que o "interesse jornalístico" de qualquer entrevista em prime time se constrói sempre a partir da influência social e política dos potenciais entrevistados. Vara vai à RTP1; Manuel Godinho, não. O piedoso desiderato que Raimundo Narciso enuncia (em idênticas circunstâncias todos deveriam poder ir à televisão defender-se como Vara fez) está à altura do plano de redistribuição que o socialismo do PS nos promete. Virá mais tarde. Agora não pode ser. Tenhamos paciência.

Se assim não for, que me sejam indicados os nomes dos "deserdados da justiça" que foram entrevistados por qualquer canal de televisão em prime time nos últimos dez anos.

Valerá a pena esperar pela resposta?

Há muito que se percebeu que as entrevistas do tipo da que Judite de Sousa fez a Armando Vara significam que a Justiça, tal como a Política, tem os seus actores privilegiados que não podem dispensar os media. Quem dispensar os media no mundo globomediatizado de hoje, depois de ter sido publicamente citado, perde pontos. Armando Vara "revelou" matérias que não constariam do processo. Um ponto. Diz serem falsos os "factos" que a imprensa noticia como base das supostas acusações que lhe são feitas. Mais um ponto. Ri-se de algumas perguntas que Judite de Sousa lhe faz acerca das conversas com José Sócrates. Vá de pontuar. Mas porque razão quer levantar uma parte do segredo de justiça e não tudo? Porque há conversas privadas que devem permanecer privadas e outras que não faz mal revelar.

Pois...

Para quem, como eu, não conhece pessoalmente Armando Vara, a figura de banqueiro que chega ao mundo da finança suportado pelos bastidores da política não passa de um símbolo. Tem evidentemente direito à presunção de inocência; tem direito a defender-se e a terçar armas para sustentar a sua honorabilidade; tem todos os direitos deste mundo e do outro.

E eu também ainda conservo alguns. Aproveito-os aqui em jeito de apreciação crítica de uma jogada magistral em forma de entrevista em prime time: Armando Vara não precisa de ser condenado para que apreendamos alguns traços gerais do "ambiente social" em que se move, salientando as grandezas (dirigente político, governante, banqueiro) e as minudências que fazem o colorido dos nossos quotidianos (a caixa de robalos, o equipamento desportivo para um familiar, as visitas inesperadas para confirmação de endereços, etc).

Não me interessa culpá-lo nem inocentá-lo.

Interessa-me saber mais acerca deste nosso mundo de desigualdades vergonhosas, de golpes baixos e manobras rasteiras.

E lamento que Armando Vara tenha deixado na gaveta a carta anónima a que disse não ter dado importância nenhuma. Porquê? Porque no caso do PS as gavetas são de mau agoiro. Foi lá que, num tempo não tão distante como isso, Mário Soares meteu o Socialismo. Apesar do meu cepticismo espero do fundo do coração que não estejamos a falar de gavetas do mesmo tipo.

Comments:
Ó Manuel Correia, você interveio com "supina parcialidade" enquanto o Raimundo Narciso usou de um equilíbrio notável (apesar de retintamente pró-PS). Aí perdeu um ponto. Confesse...

Cunha Santos
 
"Equilibrio" Cunha Santos. No caso interessa é saber quem tem razão ou não quem faz um bom equilibrio político. Dou-lhe um exemplo: Imagine que Manuel Correia diz que o Porto fica a Sul de lisboa e que Raimundo Narciso diz que a cidade invicta fica a Norte da capital. Considere ainda como postulado que o PS afirma que a bela cidade do Douro fica ao Norte de Lisboa. Dizer que a argumentação de Raimundo Narciso é retintamente PS não poderia ser tomada como um argumento retintamente anti-PS? Se tal afirmação fosse um argumento.
Santos Cunha
 
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